Acredite! Apostar nos seus sonhos é dar um voto de confiança em si mesmo

É trazer a felicidade para perto e contagiar os outros. Entenda como construir cada um deles

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Os sonhos nascem no coração e podem até ditar uma nova forma de viver, como morar em uma casinha no campo | <i>Crédito: Wagner Cavalli/LUG Brasil
Os sonhos nascem no coração e podem até ditar uma nova forma de viver, como morar em uma casinha no campo | Crédito: Wagner Cavalli/LUG Brasil

Experimente interromper um homem apaixonado por seus sonhos quando seus olhos brilham ao contar sua trajetória. Tente obter mais detalhes quando a voz está prestes a alçar voo ao falar dos obstáculos que ultrapassou. Nada é capaz de justificar a interrupção desse discurso inflamado e apaixonado, nem mesmo a tempestade de verão que deságua sob nossas cabeças, no jardim de um hotel, em São Paulo. Encolhida debaixo de um guarda-sol de mesa, enquanto algumas gotas grossas de chuva encharcam minhas costas, não perco uma palavra do que me diz o empresário grego George Koukis, fundador da organização internacional A Dream for the World (Um Sonho para o Mundo, em tradução livre). Ele fala sobre o que faz um projeto de vida acontecer – e é tudo o que quero saber. Além de coragem, dedicação e gostar daquilo que faz, George me conta outras qualidades que ajudam nessa empreitada. E, durante esta conversa, suas palavras me fizeram acreditar que os rabiscos guardados em uma pasta podem virar um livro. E que o tão desejado projeto da escolinha, que estimula crianças a desenvolverem novas soluções no dia a dia pode, sim, dar certo. Palavras ditas com tanta paixão e fúria nos incentivam a perseguir nossos próprios objetivos.

Trago para você, então, alguns dos ensinamentos que ouvi dele. E não só isso. Outras pessoas interessantes, que refletiram bastante sobre o tema, também vão nos ajudar a tirar a poeira de nosssos sonhos, a lustrá-los de novo, ou a modificá-los, se for o caso. E esta é justamente a época certa para fazer isso. Podemos reservar um tempinho, entre os dias de descanso do fim de ano só para... sonhar. E estabelecer os primeiros passos para a realização de nossos projetos pessoais.

O desejo de melhorar o mundo ou a relação entre as pessoas, muitas vezes, está na base de boa parte dos projetos que vingam. Isso porque esse olhar mais generoso, mais participativo, e que leva em conta o futuro, desperta uma força descomunal dentro de nós e uma capacidade de realização extraordinária. Alguns homens bem ricos, por exemplo, fizeram suas fortunas baseados na concretização de utopias pessoais. Os americanos Bill Gates e Steve Jobs, por exemplo, apostaram alto na democratização digital e na tecnológica. Hoje, as fundações ligadas às suas empresas investem em arte, educação e cultura.

Existem também muitas pessoas, gente como a gente, que começaram com um ideal pequeno e estão conseguindo mudar o meio ao redor. São os sonhos que começam tímidos e vão ganhando força. “O desejo de melhorar a realidade faz parte da natureza humana, assim como ter visões que envolvem um grande progresso ou mudanças drásticas de uma situação. Isso é historicamente comum”, diz Gregory Claeys, professor da Universidade de Londres e autor do livro Utopia – A História de uma Ideia (SESC-SP). “Democracia, comércio livre, prosperidade e períodos longos de paz já faziam parte de antigas utopias”, exemplifica. Segundo Claeys, na segunda metade do século 18, idealistas visionários já imaginavam que seria possível viver em uma sociedade socialmente mais justa e equilibrada do que a existente naquela época. Isto é, esses ideais não só são desejáveis e passíveis de se realizar, como podem servir de farol para o progresso futuro. E são esses visionários que impulsionam a mudança no mundo. Mas daí você vai me perguntar: será que isso se aplica a mim? Sim, a todos nós. Você também pode ter como objetivo beneficiar outras pess oas em iniciativas individuais e projetos pequenos. Agora você vai ver como.

Por uma meta maior
O gaúcho Vinícius Possebon formou-se em Educação Física em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul. Seu sonho poderia estar resumido em se tornar um ótimo personal trainer ou montar uma academia. Mas a vontade de Vinícius era a de ajudar, através de seus conhecimentos, um monte de gente. Primeiro ele refletiu sobre aquilo que gostaria, de fato, de fazer: oferecer uma nova visão sobre exercícios e alimentação. E, assim, modificar o jeito que homens e mulheres pensam quando o assunto é emagrecer. Com esse desejo no coração, leu centenas de relatórios médicos e revistas científicas, até entender o processo no organismo. Depois, elaborou um programa não-convencional de atividade física e dietas. Isto é, trouxe algo novo sem precisar se desviar de sua profissão, e que ainda lhe rendeu lucros – seu programa é considerado um sucesso. Enfim, ele realizou seu grande sonho.

O exemplo de Vinícius pode ser ampliado para a sua vida. E um caminho para o seu projeto pessoal ganhar a estrada é não visar diretamente o lucro, nem o prazer individual (isso não significa que você não possa ou deva tê-lo).

Trabalhar de forma ampla, pensar grande e não perder o olhar atento em relação ao outro também podem dar uma força. Assim, o lucro e o prazer pessoal chegam juntos. “As empresas mais bem-sucedidas nem sempre visam ao lucro, os mais ricos não são os mais materialistas. As pessoas mais felizes não buscam, necessariamente, o seu prazer pessoal, ou apenas a felicidade particular”, afirma o economista inglês John Kay em seu livro A Beleza da Ação Indireta (BestSeller). Assim, se o seu sonho for montar um café, inclua no projeto um espaço para oficinas de troca de conhecimento, por exemplo. Ou, se for viajar o mundo de mochilão, pense em um blog onde poderá contar sobre as lições ou reflexões aprendidas na jornada.

Outro conselho importante é não desistir do seu sonho porque ele parece grandioso demais. George Koukis, o empresário grego do início desse texto, levou sua empresa de softwares para bancos à liderança mundial. Depois disso, decidiu abraçar um projeto antigo: distribuir bolsas para jovens líderes estudarem em escolas de excelência, que privilegiam a integridade como valor máximo de suas vidas. E seguiu em frente com a ideia. Foi assim que nasceu A Dream for the World, que já distribuiu bolsas no Brasil (DFW Brazil), junto com o Programa Intento. Por aqui, o DFW já promoveu cursos, deu bolsas e formou as primeiras turmas de jovens executivos. É assim, colocando no mercado uma liderança honesta e íntegra, que o empresário acredita ser possível transformar o mundo. “É preciso ser o seu sonho. Você não pode vendê-lo, doá-lo ou passá-lo adiante para outra pessoa enquanto não o concluir. Ele tem de ser você e isso significa dedicação”, continua George. Os detalhes sobre como ele criou a DFW estão no livro Um Sonho para o Mundo (Cultrix), escrito pelo economista e sociólogo italiano Stefano D’Anna. Na obra, George diz que o sonho torna-se quase como uma tarefa espiritual, uma missão, uma lenda pessoal. E isso é muito mais do que um plano B ou um desejo, mas um sentido para a sua vida. 

Daí a importância de você saber muito bem o que realmente quer. É útil perceber, por exemplo, se essa sua vontade está ancorada no coração, pois é ali onde nascem os sonhos com grande chance de sucesso, mesmo os considerados “quase impossíveis”. Se não estiver, pense duas vezes. Talvez uma adaptação ou uma modificação possa torná-lo mais consistente. Outro ponto: é importante descobrir se esse sonho traduz sua verdade mais íntima. Se você não tem certeza disso, algumas reflexões, feitas a seguir, vão ajudá-lo.

Ooops, foi engano
Um sonho não é apenas a satisfação de um desejo. E é vital entender essa diferença. Ele costuma beneficiar outras pessoas, demanda dedicação, é mais complexo e, no geral, resiste ao tempo. Já o desejo tende a ser efêmero. “O desejo é mais autocentrado. O sonho, mais abrangente, rico, e cheio de possibilidades”, afirma a terapeuta paulista Sandra Taiar. E confundi-los pode não ser muito agradável.

Nem sempre o que a gente quer e deseja é o melhor para nós. A jornalista paulista Evelyn Schulke Silveira e o marido tinham um projeto em que apostaram bastante tempo e dinheiro: construir uma casa nos arredores de São Paulo. “Mas, quando mudei para lá, os problemas começaram a aparecer. Com o trânsito, levava duas horas e meia para ir ao cinema. Minha mãe, já velhinha, morava longe. Meus filhos sentiam-se isolados. Foi um horror”.  Evelyn finalmente reconheceu a essencial importância da vida cultural da cidade para ela. E que manter os vínculos afetivos com a família era fundamental. A vontade de ter a casa foi só um desejo que tinha abafado o que ela realmente sonhava: o calor de quem amava ao seu redor e cultura para alimentar seu espírito. A solução? Voltar para a antiga casa, perto da mãe, dos irmãos, do trabalho e dessa saudável atividade que é bater perna pela cidade.

Medo, esse incompreendido
Decidido o sonho, pulamos para outra fase: o enfrentamento daquilo que você mais teme e o pavor de arriscar. O empresário George Koukis gosta muito de repetir uma frase, que sintetiza isso: “O medo tocou a campainha. A coragem foi abrir a porta. E não encontrou ninguém.” Então, para ele, o medo é apenas um fantasma, um tigre de papel, uma sombra que não tem realidade concreta. “A maior parte das pessoas passa toda a existência imersa no medo e em uma espera ansiosa por eventos negativos, prováveis e improváveis. Na verdade, são poucos os momentos em que ele se torna realidade, ou que esteja associado a situações de perigo real”, continua. Por isso, ele insiste tanto que é preciso ser o seu sonho: quem está tão coladinho a ele, não deixa espaço para a apreensão entrar.

Mas será que o medo não tem uma função? Claro que sim. Só que também pode se tornar paralisante. Nesse momento vale, então, uma análise desse sentimento: pode ser apenas um eco das apreensões que experimentamos lá atrás, das vozes aflitas de nossos pais, de experiências traumáticas do passado, ou seja, de coisas que podem não ter nada a ver com a situação de agora, mas que interferem diretamente nela. Quando esse sentimento é forte, talvez seja necessária a ajuda de outra pessoa (um coaching, um psicólogo, um amigo experiente). George Koukis, por exemplo, tem a convicção de que o medo não vem de uma circunstância ameaçadora externa. Mas que nasce de uma emoção interna pré-existente, que pode se valer de qualquer situação para se manifestar, mesmo que imaginária. Que esse sentimento aflito, então, surja apenas como um lembrete para ajudá-lo a encontrar soluções criativas na hora de ultrapassar dificuldades.

Vale, ainda, saber que é mais fácil lidar com o medo quando você luta por algo em que acredita – seja uma realização pessoal, como abrir uma pequena livraria, ou algo que vá fazer bem para muita gente, como desenvolver uma horta coletiva. Esses objetivos sempre ajudam a encontrar mais força dentro de si.

Um último conselho: “Saiba que seus sonhos podem variar e se modificar de acordo com as circunstâncias. O importante é você não esquecer suas metas”, diz George Koukis. Um sonho é sempre uma dança com vários ritmos que você tem de aprender a seguir. Principalmente, acrescento eu, se você sentir que está conectado a um plano maior. George não falou isso, mas mesmo assim deixo a sugestão: sempre peça aos seres de sua devoção para que se manifestem com sinais, intuições para que você possa perceber se está na trilha do bom caminho. A parceria com o plano divino, para mim, ainda é a melhor maneira de fazer a coisa certa.

Para reconhecer seu sonho
Nem todo mundo sonha da mesma maneira. Depois de trabalhar muitos anos na área empresarial, o consultor paulista Valter Pieracciani decidiu apostar em um projeto antigo. Assim nasceu o livro para crianças A Verdadeira Mágica (Canal Certo), que as ensina a ser sonhadoras – ou inovadoras, termo que prefere usar. Além disso, o consultor também vai de escola em escola e promove oficinas nas quais incentiva os pequenos a bolar soluções para concretizar seus sonhos – lição que deveríamos levar por toda a vida. Nesses encontros, ele conta uma história com quatro personagens que representam os diferentes tipos de inovadores. Enxergar-se em um deles ajuda a identificar qual tipo de projeto temos mais facilidade em realizar.

O primeiro modelo é o experimentador. É aquele que procura combinar elementos e fatores distintos para criar algo novo. Mistura coisas de forma criativa e põe suas teorias à prova em cada fase do seu sonho. São pessoas como o chef de cozinha Alex Atala, o músico Hermeto Pascoal, o cientista Albert Sabin. 

Os do segundo tipo são chamados de exploradores: pessoas que vivem em busca do que é desconhecido e totalmente novo, como Albert Einstein e Louis Pasteur, e questionam muito o que já existe. 

O terceiro é o tipo visionário. São pessoas como o empresário grego George Koukis e Steve Jobs: enxergam possibilidades onde as pessoas normalmente não veem nada, e tem uma perspectiva em longo prazo. 

O quarto é o modificador, alguém que domina todas as variáveis de um determinado campo e sabe manejá-las como ninguém, como o piloto Ayrton Senna. É capaz de propor grandes melhorias mais do que novas descobertas.  

Varter Pieracciani também elaborou as quatro fases  de um sonho. Inicialmente, vem a percepção de que algo não está bom e de que é necessário mudar uma situação. Depois, imagina-se as várias maneiras de tornar aquilo possível (com pesquisas de mercado, planos de negócios e marketing, por exemplo, no caso de uma empresa). Na terceira fase, é preciso dominar o medo e estimular a vontade de se arriscar. Por último, começa a fase de experimentar, por meio de ações, a capacidade de transformar a realidade ou o ambiente. E de envolver outras pessoas com seus sonhos, algo fundamental para que, finalmente, isso se realize.

 

05/03/2015 - 10:32

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