Acredite mais em você

A autoconfiança ou fé em si mesmo é algo que precisamos cultivar a todo instante. O sentimento é um combustível importante para seguir em frente com sabedoria e força

Leandro Quintanilha

Acredite mais em você | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Acredite mais em você | Crédito: Vida Simples Digital
Este texto tem mais de 2 mil palavras. Para escrever tudo isso, eu tive que conversar com algumas pessoas, assistir a uma aula e ler um bocado. Acima de tudo, precisei acreditar na minha capacidade de organizar as ideias para priorizar as mais interessantes, descartar argumentos ingênuos ou levianos e apresentar o resultado dessa longa pesquisa de um jeito que faça sentido para você. Para aceitar essa empreitada e entregar o texto dentro do tema (e do prazo), eu precisei de um mínimo de segurança em relação ao meu trabalho. Sobre mim, enfim. A autoconfiança, esse sentimento íntimo de fé em si mesmo, é o que coloca todos nós em movimento. Se você acredita que pode fazer, pronto, você vai lá e faz. Se não sabe como fazer, sente que pode aprender. Se não tem tempo ou recursos suficientes, então fará o melhor possível. E, se falhar, compreende que ao menos terá crescido com o processo. Ou seja: é essa força interior, chamada de autoconfiança, que permite que se viva verdadeiramente, sem hesitações, sem perda de tempo. É ela que permeia suas ações para seguir com mais sabedoria.  No entanto, a falta dessa convicção, pode deixá-lo imobilizado. “Pessoas com baixa autoconfiança sentem mais medo de si mesmas, dos outros e da vida”, afirma a cientista social e terapeuta Patrícia Luzio. “Vivem em um estado de contenção, de castração – e, por isso, tendem a ser mais infantis, menos desenvolvidas. São vidas interrompidas”, comenta. Em momentos de crise econômica (como o atual), muita gente pode perder essa segurança primordial. O medo de perder o emprego, de se endividar, e mesmo a simples falta de perspectiva em curto prazo pode deixar qualquer um acuado. Precisamente no momento em que mais precisamos acreditar em nós mesmos. A boa notícia é que a autoconfiança pode ser recuperada – ou mesmo construída, caso nunca tenha existido para valer. Isso porque não nascemos com essa força vital, como ressalta Patrícia. “Tampouco somos treinados para sentir autoconfiança”, diz. “Pelo contrário, a nossa educação coloca os outros, desde cedo, como referência.” Primeiro, aprendemos a agradar nossos pais e professores. Depois, os amigos, o namorado, o chefe. Muitas vezes, nos moldamos de acordo com a companhia. E essa mania de querer agradar o outro abala demais a coragem interna. Pois é, autoconfiança tem a ver com autenticidade (ser você mesmo), o que, por sua vez, tem tudo a ver com humildade (ser um entre tantos). Calma, eu vou explicar tudo isso – ainda com a ajuda de Patrícia Luzio: “Uma pessoa humilde é aquela que reconhece e aceita a própria natureza, feita de luzes e sombras”. Mesmo os melhores de nós guardam em si aspectos contraditórios – competências e incompetências, nobrezas e mesquinharias, aspectos únicos e clichês. Para aceitar quem realmente é, uma pessoa precisa ter consciência dessas contradições – e de que todo mundo é assim. A compreensão da própria natureza (e, portanto, da natureza humana) possibilita a confiança na sua verdade, que inclui defeitos e contrapartidas: qualidades, habilidades, valores. Uma pessoa equilibrada é o resultado dessa média, digamos, ponderada. Assim, pode se colocar em movimento, ousar. Acertar, errar, receber críticas e se aprimorar, em um círculo virtuoso, que retroalimenta a autoconfiança. Por essa perspectiva, a fé em si é fruto de um reencontro de alguém consigo mesmo. Um reencontro e uma reconciliação. Muitas pessoas se tornam inseguras por serem rígidas demais consigo mesmas, o que beira a falta de compaixão – ou autocompaixão, para ser específico. Se você pensar bem, vai perceber que alguns defeitos e certas fragilidades podem ser o que há de mais cativante nas pessoas que você ama. O melhor então é não ser perfeccionista – aceitar seus defeitos (ainda que para superá-los), acolher suas falhas (ainda que para corrigi-las) e encontrar nessa vulnerabilidade tão humana o caminho para o amor-próprio. 

Auto o quê?
Para o psiquiatra e filósofo Neel Burton, autor do livro Heaven and Hell: The Psychology of the Emotions (Céu e Inferno: a Psicologia das Emoções, sem edição por aqui), a crença em si é um conceito complicado, que precisa ser diferenciado de sentimentos afins. “Autoconfiança significa ‘eu posso’; autoestima quer dizer ‘eu sou’ e orgulho é ‘eu fiz’”, provoca. É que uma pessoa pode ser bem resolvida em habilidades específicas, como cozinhar ou dançar, ao mesmo tempo em que se revela insegura em outras áreas, como dirigir ou falar para um grande público. Esse tipo de autoconfiança setorizada ocorre quando não há uma correlação entre a fé em si mesmo e a autoestima. Para ele, um exemplo emblemático era a ambiguidade vivida pela cantora americana Whitney Houston, segura no palco pelo surpreendente talento vocal ao mesmo tempo em que levava uma vida pessoal autodestrutiva (que culminou com a sua morte em 2012, por afogamento em uma banheira, supostamente após o consumo de cocaína). Uma convicção segmentada é construída mais pela repetição de elogios do outro que por uma percepção positiva de si mesmo. Quem ouve o tempo todo que canta bem passa a acreditar nisso, sem que a consciência dessa habilidade esteja associada a uma compreensão mais abrangente de seu valor pessoal. Mesmo porque, por outro lado, alguém saudável se mantém confiante mesmo quando precisa desempenhar funções nas quais não é expert. Apenas sabe que fará seu melhor e que pode desfrutar dessa experiência, a despeito dos resultados práticos ou do que os outros vão pensar. “Na ausência de autoconfiança é preciso coragem”, afirma Neel. “Pessoas corajosas são, de certo modo, ilimitadas – ninguém se torna confiante em nadar se antes não tiver tido a ousadia de entrar em uma piscina para aprender.” De todo modo, para se ter essa disponibilidade, é necessário partir de uma segurança pessoal de base. Ainda que ela se sinta frágil em determinado aspecto e precise de coragem para entrar em ação, só o fará se for convicta de si. O filósofo lembra ainda que a noção de sucesso varia muito com a cultura. No Ocidente, a autoestima é baseada em conquistas – resultados palpáveis (dinheiro, medalhas, diplomas, títulos, bens), obtidos ao longo da vida. Ao passo que, no Oriente, uma pessoa é considerada bem-sucedida quando detém conquistas imateriais, como o respeito de que dispõe na família, no trabalho e na sociedade. O fato é que qualquer modelo rígido de sucesso nos faz reféns – seja de resultados no Ocidente ou de admiração no Oriente. Assim, ocidentais sem autoconfiança podem buscar a realização a qualquer custo e se desesperar com fracassos eventuais. Orientais inseguros, por sua vez, podem sofrer de um anseio desmedido por aceitação e conviver com um temor paralisante de rejeição em diferentes esferas da vida. Por isso, o melhor é não procurar a própria imagem em espelhos externos. 

 Aula de fé
 Parte da minha preparação para esta reportagem foi assistir à aula Como Ser Mais Confiante, ministrada em São Paulo pelo consultor britânico Stephen Little, da escola de inteligência emocional The School of Life (A Escola da Vida, em tradução livre; criada na Inglaterra pelo filósofo suíço Alain de Botton). Confesso que vivi um conflito interno diante desse conteúdo – temia me deparar com fórmulas simplistas, comuns na literatura do desenvolvimento pessoal. Mas tinha lido boas coisas sobre a instituição e, bem, confiei na minha capacidade de tirar algo interessante da experiência. Um ponto importante da aula foi a compreensão de que acreditar em si mesmo não tem a ver com frases vazias sobre otimismo. Muitas vezes, o pensamento positivo culmina em uma desconexão com a realidade, o que só atrapalha. Porque, você sabe, nem tudo dá certo na vida. Autoconhecimento também não significa abraçar o pessimismo, em oposição. O que Stephen propôs foi um caminho intermediário, conhecido como “melhorismo”. Parte-se da constatação de que a realidade tem, sim, problemas, mas um cenário não é, por definição, o melhor ou o pior possível. A verdade seria algo em resumo, confiar em você parte de uma decisão pessoal. Essa fé íntima em sua própria capacidade de se cuidar e de fazer o seu melhor cresce a partir de si mesmo, mas precisa de um ponto de partida: a perspectiva pela qual você escolhe se enxergar. É uma opção sua manter uma mentalidade fixa e repetir sempre os mesmos padrões ou se abrir para um processo contínuo de amadurecimento. Ok, eu sei que, às vezes, não é fácil. Mesmo o filósofo Jean-Paul Sartre, o maior garoto-propaganda do existencialismo no século passado, dizia que o inferno são os outros. Em momentos de crise, dúvida, medo, insegurança, podemos ficar mais suscetíveis a hostilidades vindas de fora. Mas, mesmo nessas situações extremas, pessoas diferentes reagem de modos distintos. Algumas sucumbem, ao passo que outras não se deixam afetar (tanto). Do mesmo modo, uma mesma pessoa pode ter reações   variantes a circunstâncias semelhantes, quando ocorrem em diferentes momentos da vida. Felizmente, temos a capacidade de aprender e de nos transformar com o tempo.

 Clareza interior 
Para entender melhor como alguém consegue manter o equilíbrio em situações um tanto difíceis, conversei com um atendente de call center ativo, ou seja um profissional cujo trabalho é ligar para pessoas em suas casas, a fim de solicitar informações e oferecer serviços variados. Matheus Rodrigues Alves, de 20 anos, trabalha na Contax, como terceirizado de um banco. Eu o escolhi não por acaso – o trabalho dele é algo que considero particularmente penoso de fazer. Foi uma conversa interessante. Por telefone, como não poderia deixar de ser. Apesar de tão jovem, Matheus fala de um jeito tranquilo e seguro, transparecendo uma credibilidade atípica para a idade. Mantém uma jornada dupla, porque concilia a faculdade de engenharia com o trabalho no call center. Como ele protege sua autoestima ao lidar com situações repetidas de rejeição e agressividade? “Respiro fundo, mantenho a calma e trato o cliente com gentileza, até reverter seu estado ‘atritado’”, responde o atendente, usando um jargão autoexplicativo. No entanto, é raro Matheus chegar a esse ponto, porque a abordagem dele é respeitosa e alegre desde o “alô”, o que desarma o mau humor. “O melhor jeito é começar com um sorriso na voz.” Transferir a atenção para o outro é uma estratégia eficaz contra a ansiedade, emoção tão contemporânea que pode minar a autoconfiança. Ao tirar o foco de seus problemas e de suas dificuldades, você compreende que todas as pessoas passam por perrengues e se sente melhor por ajudar alguém. E repare: a autoconfiança é uma competência de atualização constante. Não se estabelece, precisa de reforço positivo o tempo todo. Isso significa que os seus atos podem melhorar sua autoimagem vigente. Lembra que tudo começa com uma decisão? Também ajuda valorizar pequenas glórias cotidianas. Para muita gente, é um avanço extraordinário ir ao cinema sozinho. Para outros, entregar um relatório no prazo. Cada um sabe de suas dificuldades, e o que é trivial para um pode ser uma conquista para outro. Sair da cama ao primeiro toque do despertador, tomar a iniciativa de falar com alguém, ouvir um colega sem interrompê-lo, juntar dinheiro para as férias, ler mais, persistir na atividade física, gastar menos, comparecer à reunião do condomínio, responder todos os e-mails, fazer uma lista antes de ir ao mercado... A vida é cheia de oportunidades para se fazer uma média consigo mesmo. Um recente estudo americano mostrou que a simples correção da postura corporal fez com que os voluntários da pesquisa se sentissem mais poderosos e seguros. Por outro lado, é preciso exercitar a autocompaixão quando eventualmente você se curva, erra, retrocede. A culpa é um sentimento inútil e deve ser substituída por uma breve reflexão, que, isso sim, pode ser de grande ajuda. Pense em si mesmo conversando com um bom amigo. Ele acolheria a sua frustração e o ajudaria a compreender o que fez de errado, ao mesmo tempo em que enxergaria os atenuantes do contexto. Foi um dia difícil? Como as pessoas ao seu redor poderiam ter ajudado? Faltou ouvir aquele conhecimento acumulado sobre a vida chamado intuição? Como você poderia lidar melhor com uma situação semelhante no futuro? É preciso se compreender (e se perdoar) agora para fazer a coisa certa na próxima vez. Por isso, tome o seu tempo. Reflita, aprenda, trate-se com carinho e siga em frente. De cabeça erguida.

 Leandro Quintanilha escreve nas páginas de vida simples há quatro anos. Para ele, 2015 foi um ano difícil, mas sente que aprendeu um bocado.

12/11/2015 - 16:00

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