Agarre seus sonhos

Acreditar que eles podem se realizar traz força para conquistá-los. São nossos desejos mais profundos que nos ajudam a viver com mais sentido e felicidade

Débora Zanelato

Para um sonho começar a se realizar, é preciso olhar para si e observar quais as nossas vontades mais profundas | <i>Crédito: Shutterstock
Para um sonho começar a se realizar, é preciso olhar para si e observar quais as nossas vontades mais profundas | Crédito: Shutterstock

A estratégia estava muito bem desenhada. Eu carregaria um pote junto com a minha bagagem de mão e, assim que o avião ultrapassasse as nuvens e alcançasse a altura das estrelas, eu abriria a janela, estenderia o braço para fora e colocaria uma delas (só uma, eu não era tão ambiciosa) dentro do vidro. Esse é o sonho mais primitivo de que consigo me lembrar, da garotinha de muito pouca idade que eu já fui. Talvez eu não precise te contar que esse desejo nunca se realizou por motivos óbvios, mas é que uma vida tão recente na Terra ainda não saberia reconhecê-los. Às vezes me pergunto por que meus pais não me falaram sobre o tamanho das estrelas ou sobre a pressurização das aeronaves, mas agora me ocorre que talvez eles possam ter contado e eu não os escutei. Quer saber de uma verdade? Eu nunca trouxe as estrelas pra casa, mas ainda hoje me lembro desse sonho improvável quando o avião decola e eu posso ver o mundo aqui debaixo lá do alto. É um lugar em que eu gosto de estar. E que a menina de 5 anos também. 
Pode ser que você tenha sonhos que ficaram escondidos entre algumas nuvens, ou que a estratégia inicial não tenha dado certo e o seu balão não chegou lá. Mas nosso convite com as próximas palavras que você vai ler é para levá-lo a sonhar de novo, a agarrar o seu sonho e a fazê-lo brilhar, mais que uma estrela. Às vezes ele pode estar mais distante e a viagem se tornar mais longa, ou às vezes ele está mais perto do que você pode imaginar — só é preciso iniciar ou recalcular a rota. 

Coragem para sonhar
Os sonhos com mais chances de se realizarem são aqueles que vêm de dentro da gente. Aquele sonho que é seu, e não dos seus pais ou da sociedade. O primeiro passo nessa caminhada — porque o sonho não é só sobre a chegada, mas também sobre a jornada — é se lembrar do que você gosta, dos seus desejos mais sinceros, do que tem a ver com você. É passar um pouco de tempo consigo se permitindo sentir qual é a sua vontade mais profunda, sem interrompê-la por achá-la pequena ou grande demais. Depois, é preciso dizer sim. Um sim que você dá quando acredita que é merecedor daquele sonho — e nem sempre isso é fácil para todo mundo. A verdade é que por algum motivo muitos de nós não nos sentimos dignos de viver aquilo que sonhamos. Não nos sentimos merecedores da felicidade. “O ato de falar em voz alta o que você realmente sonha, o que você deseja, vai ser um bom exercício para sentir o quão incômodo é sonhar. E como a gente tem medo de assumir um sonho”, me conta a atriz, escritora, empreendedora e palestrante Rafaela Cappai enquanto viaja pela Califórnia e sente pulsar seu desejo de conhecer o mundo. O trabalho dela aqui no Brasil é ajudar pessoas a realizar seus sonhos, a trabalhar e viver através daquilo que mais gostam de fazer, a acreditar que é uma realidade possível. “Outro dia li uma frase da [apresentadora americana] Oprah Winfrey: “Você recebe na vida o que você tem coragem de pedir”, e é isso! É coragem de sonhar e de ser capaz de correr atrás”. Quando olha para o mundo, Rafaela vê que quase tudo nasceu do sonho de alguém. Dirigir um carro, andar de avião, assistir a vídeos pela TV ou muitas outras coisas que hoje são possíveis só aconteceram porque houve um sonho. “Sinto o sonho como uma âncora forte para a realização das coisas e para a transformação do mundo”, ela diz.  
A empresária e coach Lilian Bertin costuma ser questionada pelos amigos sobre como ela é capaz de realizar tantos sonhos. Depois de um tempo de tantas indagações alheias, ela parou para refletir e colocar no papel o que a ajudava a materializar tantos desejos. Um deles que vale saber agora é o que ela chama de mentalização do sonho, que ajuda nesse processo de se sentir digno e merecedor do que deseja. “Ela começa em você se sentir realizando aquilo. Reserve um momento para sentir seu sonho acontecendo da forma mais real possível. De olhos fechados, imagine o ambiente, as cores, os cheiros, a energia. Recrie os elementos que fazem com que você veja aquilo acontecendo. Conecte-se com esse sentimento de felicidade e realização”, ela diz. Pode ser se imaginando em uma viagem que você sempre quis fazer, no som que sai do instrumento que você tanto desejou tocar, ou mesmo nos detalhes do negócio que sonha em abrir. Sentir o sonho, ela diz, nos dá essa sensação de que aquilo é nosso, trazendo energia para seguir o próximo passo: a estratégia. 

Comece hoje
Quando a Rafaela sonhou em criar a Espaçonave, projeto que dá suporte para quem quer trabalhar com o que ama, ela tinha a ideia de que aquilo levaria muito tempo, muito dinheiro, e que poderia estar bem longe de se tornar real. E percebeu que seu sonho poderia nunca acontecer se o colocasse como algo enorme, que pedia recursos e condições supostamente ideais. “Quando a gente tem um sonho grande, tem a tendência a enxergá-lo como algo distante, e quando fazemos isso ele fica mais difícil e inalcançável. O que faz a diferença é dividir esse sonho em pequenos pedaços. Pequenas tarefas. Então você percebe que já tem coisas que podem ser feitas agora. E isso traz uma sensação de realização.” A estratégia de Rafaela foi botar em prática o que ela poderia fazer já, compartilhando conhecimento sobre o que estava estudando para futuramente ajudar mais gente a se realizar. “Você precisa começar de alguma forma. E não dizer ‘em algum momento eu vou fazer isso’, porque assim a realização nunca vem. Se o sonho é construir uma casa, você já pode começar a pensar em como ela seria salvando imagens no Pinterest”, ela diz. Você pode usar essa ideia em qualquer sonho, porque todos têm por onde começar, todos precisam de um primeiro passo. Um casal de amigos muito querido passou por uma situação assim. O sonho de oficializar a união parecia distante demais porque eles julgavam que tudo seria muito caro, inacessível. E que não teriam dinheiro agora. Quando perceberam que eram dignos de realizar esse desejo e decidiram começar por orçar a festa, viram que era possível pagar o evento a longo prazo. Agora estão com casamento marcado e muito felizes.  
Aproveitando a história que contei, preciso lembrar que tempo e dinheiro são duas questões que devemos olhar com sinceridade quando queremos voar em busca dos nossos desejos. É irresistível jogar a culpa na rotina agitada para postergar a vontade de aprender um novo idioma ou para pensar na transição da carreira. Lembro de uma das primeiras conversas que tive com a coach e colunista de vida simples Paula Abreu. Ela contou que muitas pessoas diziam não ter tempo para se dedicar aos seus sonhos, mas em compensação passavam horas no celular quando chegavam em casa ou não perdiam um episódio da novela ou série na TV. Assim, algum tempo a gente sempre tem. A questão é quanto de nós vai sendo deixado em tarefas que não nos levam para o que trará uma realização maior lá na frente. Existe uma pessoa que gosta muito de dizer que as grandes conquistas estão nas pequeninas decisões que tomamos ao longo do nosso dia, e tenho acreditado que é muito verdade. Trata-se de Stephen Duneier, um consultor de estratégia, escritor e palestrante que durante toda a vida escolar foi visto como um aluno cujo potencial era brilhante, mas que tinha sempre um desempenho fraco porque não conseguia se sentar na cadeira e focar em qualquer coisa por mais de dez minutos. “Até que no segundo ano da faculdade decidi não ser mais expectador das decisões, mas tomar uma postura mais ativa e participativa”, ele diz. Então, naquele ano, em vez de fingir que de repente ele seria capaz de se concentrar em algo por um longo período, ele assumiu que não conseguiria. E que teria que mudar sua abordagem. “Se eu precisava ler dez capítulos, eu dividia a leitura em microtarefas de poucos minutos. Então, depois de focar em um capítulo por dez minutos, fechava o livro e ia fazer outra coisa. E então voltava à tarefa e ficava nela por mais dez minutos. Daquele dia em diante, até o final da graduação, me tornei um notável aluno, e fui aprovado em um dos melhores programas para cursar economia e finanças”, ele conta. E foi com essa estratégia de quebrar as grandes tarefas em pequenas ações que ele se tornou um profissional bem-sucedido, assumindo cargos importantes em companhias multinacionais. Mas a técnica de Stephen fica mais interessante para nós quando, em 2001, ele decidiu aplicá-la em sua vida pessoal, em todos os grandes sonhos que tinha para si. Ora, se tinha funcionado bem na escola e em toda a vida profissional, será que não serviria para que ele realizasse as vontades que guardava para quando se aposentasse e tivesse mais tempo? Em um dia, enquanto caminhava para o trabalho, ele percebeu que o trajeto de ida e volta levava 1,5 hora. Stephen escutava músicas durante esse período e, numa conta simples, viu que passava 360 horas todos os anos fazendo isso. Decidiu comprar um CD de um curso de alemão, removeu as músicas do iPod e dez meses depois ele já tinha escutado 99 CDs, três vezes cada. “Eu fiz uma adaptação marginal à minha rotina diária e agora eu falo alemão razoavelmente”, conta. “Você tem que quebrar os grandes objetivos em decisões mais acessíveis, gerenciáveis. A realização de um sonho é sobre pequenas decisões que você toma ao longo do seu dia. Quero que cada um tire seus sonhos de baixo de suas conchas e comece a colocá-los em prática através de pequenas tarefas e ajustes na rotina.” 

Financiando seu sonho
Se às vezes um sonho parece muito distante e por isso não nos movemos nenhum centímetro, precisamos ver que pequenos passos, ainda que menores do que gostaríamos, vão nos colocar muito mais à frente do que seguir esperando pelo momento certo. “Acho que o que mais diferencia quem conquista seus sonhos daqueles que os deixam ir embora é a resiliência. A paciência. Às vezes um sonho perde um pouco a força, mas você vai tentando construí-lo gradativamente. E os sonhos mais profundos, mais conectados com o que a gente espera da vida, requerem paciência. Uma adaptação da jornada para chegar à realização”, observa Rafaela. A coach Lilian Bertin acredita muito que reavaliar nossas estratégias é uma atitude importante para não perder o foco no meio da caminhada. “Sonhos muitas vezes demandam tempo. E esse tempo é a pergunta do Universo querendo saber de nós se é isso mesmo o que a gente quer. Às vezes você se planeja e não percebe que a estratégia não está funcionando. Então reavaliar as tarefas e as metas é um passo muito importante para seguir em busca da sua realização.” 
Quando falamos de falta de tempo, também vem junto a questão financeira. Com a justificativa de que não temos dinheiro, nem percebemos como somos responsáveis pelos nossos gastos e como refletir sobre eles pode nos colocar mais perto de financiar nossos desejos mais sinceros. Gosto da visão que a educadora financeira Andyara de Santis traz quando se fala de economizar: é que não dá para cortar gastos sem antes entender o que eles estão dizendo sobre nós. “Para mudar a relação com o dinheiro, precisamos refletir se o que gastamos está alinhado aos nossos valores de vida”, ela diz. A sugestão de Andyara para quem tem dificuldade em economizar é listar seus valores de vida e, então, comparar se eles estão alinhados aos gastos que tem mensalmente. Se um valor importante é viajar e levar uma vida mais simples, gastar com compras todo mês pode estar colocando você bem longe dessa proposta. “É preciso lembrar que os gastos errados nos distanciam dos nossos sonhos, do que nos traz sentido”, ela diz. Se você já reavaliou tudo isso e percebeu que precisa de mais recursos, ela sugere criar novas formas de gerar mais renda. É provável que você tenha objetos de algum valor que possam ser vendidos, ou possivelmente é dono de algum talento convertível em dinheiro. Quem ama fazer bolos pode encontrar na atividade uma fonte de renda extra para realizar um sonho, por exemplo. A questão principal quando pensamos em sonhos e dinheiro é ter consciência de que nossos gastos precisam refletir o que, de fato, é profundamente importante para nós.  E isso pode, inclusive, significar abrir mão de hábitos antigos que já não servem mais nesse novo momento de realização.  

Um sonho como caminho
Talvez você esteja percebendo, junto comigo, que realizar um sonho é mais do que uma conquista. É mesmo uma jornada de autoconhecimento, que implica olhar para quem somos e o que ansiamos da vida, que requer um pouco de coragem para ser feliz e enfrentar o medo de fracassar. Até nossa rotina e nossos gastos precisam ser olhados para que um sonho se torne real. Se dissemos que sonho não tem tamanho, também gostaríamos de contar que ele não tem idade. Lilian Bertin se tornou coach mesmo depois de casada e com filhos — seu primeiro neto nasceu no ano passado. Stephen Duneier tem mais de 50 anos e segue realizando novos sonhos através das pequenas decisões que o conduzem nessa caminhada. Eu nunca me esqueço da explosão de alegria de uma colega de balé que, aos 64 anos, realizou o sonho de toda jovem bailarina: subir nas sapatilhas de ponta. Uma conquista que parece pequena aos olhos alheios, mas que para Nilva significa dedicação, persistência e muita energia. No seu “batismo” nas pontas, iluminada em seu novo par de sapatilhas, ela disse, com uma potência de vida linda: “Obrigada, meu Deus, por ser essa mulher que realiza o que quer porque acredita”. Acho que é isso. Acreditar em si, acreditar nas possibilidades múltiplas do Universo. Talvez o segredo mais profundo de todas essas histórias seja a vontade de estar vivo. É fazer o mundo mais colorido por meio das tintas que são os nossos sonhos. É ver a beleza dos voos para contemplar as estrelas em vez de apenas trazê-las para casa.

 

05/04/2018 - 13:47

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Revista Vida Simples