Ajuste seus objetivos

Esse é o momento certo para sair da estagnação, repensar as escolhas, abrir a janela e clarear as metas para o ano que está chegando

Liane Alves

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Assim, com pinceladas precisas, Genshô Chalegre traça um quadro de como cada ser humano ajusta seus objetivos de acordo com sua maneira de ser e estar no mundo. Professor da tradição zen-budista (genshô é o nome japonês para mestre) e autor do blog e livro O Pico da Montanha, ele resume a situação com poucas palavras: mais dinâmico, o homem pode se sentir mais atraído pelo desejo, que o estimula a agir rapidamente; por outro lado, é mais provável que a mulher prefira aguardar um pouco antes da ação, para poder enxergar com nitidez o que realmente quer. E os poetas estarão sempre disponíveis para se deixar tocar pelo mundo, no ritmo e na expressão que quiserem. Portanto, cada pessoa vai focar e ajustar o que quer de maneira diferente, segundo seu gênero, personalidade, situação social, cultural, maturidade. E muitas outras influências. Mas para chegar nesse ponto é preciso saber o que nos segura e o que nos faz agir. Então vamos começar por aí. De vez em quando é necessário ficar sozinho, enrolado em cobertas macias e sem fazer nada. Todo mundo precisa da sombra, da quietude, do descanso. Essas condições de calma interior e sossego exterior são vitais para o nosso equilíbrio. Os chineses diriam que é a contraparte yin da vida, a do recolhimento, a da suavidade, a da imobilidade voluntária. É o polo oposto da parte yang, a da ação, agitação e movimento. O arquiteto paulista Rodrigo Mindlin Loeb, professor de arquitetura sustentável de São Paulo, fala da importância da penumbra justamente ao lembrar do quanto ela é fundamental nas regiões onde há muita intensidade de luz solar. “Ninguém consegue viver o tempo todo na luz. Só quem vive numa região de muito sol e calor sabe como é importante se recolher dentro de casa ou à sombra de uma árvore”, diz. Ele lembra ainda que a penumbra contém luz, mas em menor intensidade. É um abrandamento da claridade, uma pausa. Como somos seres duais, precisamos dos dois 
aspectos para viver. “Mas estamos numa cultura que estimula muito mais o lado yang, que enfatiza a ação, o consumo, a exploração de recursos a qualquer preço”, compara Rodrigo. Implicitamente, esse modo de olhar condena o momento de descanso como algo produtivo. Só que, sem o intervalo necessário de imobilidade, é impossível produzir com qualidade. “Ações contínuas exaurem e nos deixam lentos, sem forças”, adverte a coaching paulista Norma Felipe Abreu. Por isso, antes de gritar “vade retro” a todo momento de recolhimento, silêncio e sombra, pense melhor em como você está dentro dele. Está gostoso? Você sente necessidade disso? Está relaxado, bem consigo mesmo? Então, normal. Pode ser que esse acolhimento seja exatamente tudo o que você está precisando nesse período. Essa época de dis tensão que nos enche de boas ideias e fornece as condições necessárias para insights inspirados. Além disso, é um excelente período para ajustar seus objetivos, planejar. E também para acumular energia e recomeçar com força.     Agora, também tem o outro lado. O momento penumbra pode se arrastar demais. Em vez de ser apenas uma pausa, se torna definitivo, crônico. Nasce uma resistência teimosa em agir, um desejo de se enrodilhar para sempre na calma uterina do quarto, tudo para não enfrentar os riscos e desconfortos da vida (que pode ser cheia de alegria e prazer). Quando acontece isso, é melhor prestar atenção para não se enfiar em uma espécie de areia movediça.

Saindo do atoleiro

 Uma pergunta essencial: como é que você sabe que seu carro atolou? Simples: você quer sair do lugar e não consegue. Pode querer muito, mas o carro derrapa. A roda até gira, mas o automóvel simplesmente não se move. Talvez isso esteja acontecendo com você. Em primeiro lugar, tenha consciência disso: você não poderá fazer muita coisa ou sequer ajustar melhor suas metas se não admitir que atolou. Sem grandes dramas, por favor, basta um “gente, eu atolei e não consigo sair do lugar”. Pronto, esse é o ponto de partida. Assumido o fato, pois, respire. Acalme-se. Não adianta espernear, chorar e, o pior, se deprimir. Nada disso vai ajudá-lo a se mover. Um pouco de comparação relativa com o restante da humanidade vai muito bem nessa hora. “Sem o risco de errar, você pode dizer para si mesmo: ‘Ninguém é infalível, todo mundo tem medo de atolar na vida e não sou o único no mundo a estar nessa condição. Somos todos iguais, não há ser humano que não tenha passado por isso e agora é minha vez’. Pronto. Você já fez metade do caminho ao não negar a situação”, afirma a psicoterapeuta paulista Thelma Aloysio de Freitas, especialista em terapia familiar. “Ter consciência de que essa é uma condição comum a muita gente e que ocorre com frequência alivia. E dá força para pensar na melhor estratégia para poder alertar aquela condição imobilizante”, diz Thelma. Se alguém já atolou na vida e saiu do lugar, a boa notícia é que é perfeitamente possível você pular fora também.   Pode ser que você consiga fazer isso sozinho e sem grandes complicações. Na maior parte das vezes, isso é perfeitamente possível. Mas pode ser que precise de ajuda. Vamos ver o que dá para fazer nos dois casos.

 Arregaçando as mangas

 De cara, posso dizer algo de grande valia: um ser atolado não pode ser muito emocional. Não ajuda. O que pode auxiliá-lo nesse momento é a razão e uma boa dose de tranquilidade ao lidar com a crise (um pouco ansioso com a situação você sempre vai estar). Então use a razão e faça a pergunta definitiva: por que eu atolei? Geralmente a resposta, de alguma forma, se relaciona ao medo. Então é importante saber quais são os receios que o imobilizam. Uma das técnicas é imaginar o pior cenário possível no qual todos os seus medos se realizam. De tão dramático, de tão exagerado, você começa a desconfiar desse panorama: ele não parece ser real. E não é mesmo. Uma voz racional diz que aquilo não é possível de acontecer ao mesmo tempo. Nessa hora, a mesma voz analítica pode ajudá-lo a identificar as causas essenciais do seu atoleiro. Vou selecionar algumas delas. Maura de Albanesi, coaching paulista com vários vídeos na internet, por exemplo, destaca alguns motivos frequentes para a estagnação, quando não conseguimos seguir em frente: medo de errar, dificuldade para se organizar, baixa autoconfiança, dificuldade de se automotivar e falta de iniciativa. Confesso que em alguns dos meus momentos “areia movediça” eu poderia ticar todas essas alternativas e ainda acrescentar mais algumas: falta de energia (física e emo cional), sensação de desamparo (impressão de que estava sozinha e de que ninguém poderia me ajudar) e preguiça (vontade de fazer nada para ver se alguma coisa mudava por si mesma). Agora pergunto: quem nunca? Mas se eu saí dessa história e estou aqui escrevendo numa boa, você também ainda tem esperança. Nesse período de derrapagem crônica, Maura sugere algo que fazemos quando atolamos o carro na lama: avaliar a situação. Isso é, ver onde estou e o porquê. Se tenho pontos fracos (todos acima, por exemplo), devo ter alguns pontos fortes, onde eu possa me apoiar. Se o dono do carro vai buscar pedras, troncos ou folhas para colocar debaixo da roda e dar uma base firme para se movimentar, qualquer um também pode fazer isso. É só buscar os pontos de apoio necessários que vão impulsioná-lo a ir para a frente. Mas, se na sua cabeça, por ora muito negativa, você achar que não tem nenhum, você  pode começar a construir seus pontos de apoio a partir de agora, ao considerar seu corpo físico, energético, emocional, mental e espiritual. Vamos começar com o corpo, que é nossa base.  

 Mexendo o corpo

“Uma pessoa com o corpo frágil não sustenta um espírito forte e, por consequência, suas emoções correm soltas e desordenadas causando estragos gerais”, sentencia Nuno Cobra no livro A Semente da Vitória (Senac). “Corpo fraco e debilitado é igual a cabeça fraca e sem poder”. Não adianta ter altos planos elaborados pela mente para sair da situação se não temos força, energia e vitalidade para isso. Preste bastante atenção nesta parte: o corpo pode ser um excelente ponto de apoio. Mais forte, você vai conseguir ajustar seus objetivos com calma, colocar seus projetos no papel e avaliar suas possibilidades. Comece pelos sucos energéticos, boa alimentação, caminhadas ou exercícios. Com 30 minutos por dia, a situação já muda. Em pouco tempo, os horizontes não parecerão tão negros, hormônios nos darão mais disposição e alegria, e a mente vai começar a trabalhar melhor. “Pela conquista do corpo, a pessoa atinge um tal poder emocional que se lança depois a outro patamar, o do espírito”, continua Nuno. O treinador ficou conhecido como preparador do piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna, e ele acredita que o corpo nos fornece vitalidade, energia e disposição que afetará beneficamente a mente e o espírito. Nessa condição mais positiva, torna-se mais fácil passar para o planejamento do que deve ser feito. Claro que você pode se cercar de livros e fazer planos do seu futuro projeto a cada passo (você terá de fazer isso uma hora ou outra). Mas sugiro algo bem melhor antes: arrumar a casa, organizar a bagunça, os papéis, as roupas. “A organização transforma radicalmente sua vida – e isso é 100% válido para qualquer pessoa. O impacto desse efeito, que apelidamos de “a mágica da arrumação” é fenomenal”, diz a japonesa Marie Kondo, mestra na arte de descartar o inútil e colocar cada coisa em seu lugar e autora do livro A Mágica da Arrumação (Sextante). Ela aconselha a arrumar a casa toda de uma vez. Para o descarte radical, ela indica perguntar a cada peça: “Isso me traz alegria?”. Se não trouxer, fora. Sugiro você fazer a mesma coisa também com suas crenças negativas. Jogue fora a ideia de que não é  inteligente, ou que é incapaz, ou que está fora do mercado. Se esses conceitos limitantes não trazem alegria, ninguém no mundo vai se importar muito se você atirá-los no lixo. Pergunte: “Essa crença me traz alegria?”. Mais leve e com menos autojulgamentos, é incrível perceber como a vida vai tratá-lo melhor do que você mesmo.

Sem dramas

 Os italianos, seres teatrais por natureza, têm um belo verbo que usam repetidamente: desdramatizzare. Como exageram nas tintas em tudo, chega um momento em que eles mesmos reco nhecem que é preciso desdramatizar um pouco as coisas. Não levar tudo tão a sério. E, para isso, o melhor é usar o humor. Recebi um link, com um vídeo da carioca Jout Jout Prazer, sucesso no YouTube, sobre nossa imensa capacidade de aumentar a perspectiva dos problemas ou, simplesmente, inventá-los. “As pessoas dão muita importância para coisas que não deviam dar importância nenhuma”, ela diz com convicção. Em resumo, acham que seus pequenos problemas são enormes. Ok, existem acontecimentos graves, mas, na maioria das vezes, nos atolamos por questões que podem ser relativizadas e ultrapassadas. Para que isso não aconteça, Jout Jout aconselha a fazer uma big picturização da questão, ou seja, vê-la de uma maneira mais ampla. E aprenda a rir um pouco mais de si mesmo e de sua eterna vocação para o sofrimento. Mas, se a história for realmente grave, e se você não consegue sair dela sozinho, não hesite: peça ajuda a um amigo, a um psicólogo, a um coaching. Ou a alguém com muita vivência e sabedoria.

 Com a mão na massa

 Bruno Hohl e Larissa Mungai são um casal de sorriso aberto que largou o mundo corporativo para viver num motorhome e compartilhar aprendizados e experiências Brasil afora. Eles pertencem a uma nova categoria de profissionais, os nômades digitais. Mas, além de cursos e palestras que ministram no projeto Moporã, criado por eles, colocam em seu site (mopora. com.br) exercícios importantes para quem quer sair do atoleiro. Gostei de um deles, que dá três passos para você se colocar em ação na carreira. Para sair do impasse profissional e ajustar melhor seus objetivos, eles aconselham um exercício de imaginação ativa. É só você pensar quais seriam as cinco profissões que mais gostaria de exercer. Depois de identificá-las, você fará o possível para criar experiências reais com elas ao longo de alguns meses. “Por exemplo, se quiser ser um sushiman, pegue uma semana de férias e se voluntarie para trabalhar em um restaurante japonês. Se o seu sonho é abrir uma pousada, tire uma licença não remunerada e arranje um trabalho temporário em um hotelzinho de praia”. Porém, alertam: “Seja criativo, mas não se atire de uma vez, mantenha a corda de segurança. Você pode pegar aquele seu hobby e passar a fazer frilas nos fins de semana até sentir que é o momento de pedir demissão”. Achei a ideia ótima: provar o gostinho sem cortar de vez. Sair da letargia. E Bruno ainda dá uma boa indicação de lambuja: tudo o que é novo gera resistência. “Se você sente, é porque algo novo quer entrar, algo importante que tem a mesma proporção dessa resistência. Nesse caso, é melhor não negá-la. Não é preciso aderir totalmente a ela, mas escutá-la, ver o que ela tem de verdade, ou não. Mas não deixar que ela inviabilize o seu sonho”, finaliza.

17/12/2015 - 15:00

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Revista Vida Simples