Ando meio desmotivado

Às vezes nos sentimos sem energia, sem brilho, desanimados. É hora de descobrirmos o que nos desperta para ter, novamente, mais entusiasmo pela vida

Jeanne Callegari

É hora de descobrirmos o que nos desperta | <i>Crédito: iStock
É hora de descobrirmos o que nos desperta | Crédito: iStock

Uma criança brinca com blocos de montar. Ela está perfeitamente concentrada na tarefa: seus olhos estão fixos nas peças, e quase podemos ouvir seus pensamentos tentando desvendar o melhor jeito de encaixá-las. Se falarmos com ela, é possível que não nos ouça. E assim ela fica entretida por horas, brincando muito seriamente. Ela não espera recompensa, não tem medo de nenhuma punição. O que a leva a estar tão compenetrada?

Assim como a criança, todos somos capazes de nos empolgar tanto com alguma coisa a ponto de esquecer as horas. São momentos em que estamos totalmente presentes, e as coisas fluem perfeitamente. Esse tipo de sentimento, porém, não é tão fácil de encontrar. É comum estarmos desmotivados, sem brilho. Nesses dias, lutamos com força para levantar e sair de casa. Os segundos demoram a passar. Podemos até ter alguns momentos prazerosos, mas, no geral, não sentimos vontade de nada. É que nos falta o combustível mais importante para seguir em frente: a motivação. Em outras palavras: energia, entusiasmo.

Mas o que é, afinal de contas, a motivação? E onde é que ela se esconde?

O termo, em si, é recente, e vem do latim moveres, que significa mover. É o impulso que nos move, que nos leva para frente, para a ação. Antes de qualquer outra coisa, os seres humanos, assim como os animais, têm uma motivação muito básica: sobreviver. Para isso, fazem coisas como comer, beber, descansar, proteger-se de perigos. Por muito tempo na nossa história, esses foram nossos maiores motores. Essa é a etapa que Daniel Pink, autor do livro Motivação 3.0 - Os Novos Fatores Motivacionais Que Buscam Tanto a Realização Pessoal Quanto Profissional (Ed. Elsevier) chama de motivação 1.0: satisfazer as necessidades básicas do ser humano. Até hoje, essa é a principal preocupação de quem vive em condições de miséria, privação e conflito. Uma pessoa que não sabe se terá o que comer nos próximos dias ou se vai sobreviver a uma guerra civil não tem muito tempo para pensar em outras coisas.

Num segundo momento, porém, precisamos de mais do que isso. O que nos move, se já temos comida, abrigo, companhia? Para viver em sociedade, temos que reprimir alguns comportamentos e incentivar outros. Entra aí o sistema que nos serviu por muitos anos: a política das punições e recompensas. É a tal política da cenoura e do porrete - ou motivação 2.0, na visão de Pink -, que norteia, até hoje, a maior parte das atividades que realizamos. Fez algo produtivo? Ganha recompensa - seja ela uma estrelinha no caderno caprichado, no colégio, ou um bônus no final de ano, na empresa. Não atingiu os resultados esperados? Opa, vem a punição: ficar de castigo, repetir de ano, trabalhar no feriado, ser demitido.

Essas motivações são extrínsecas, ou seja, externas a nós mesmos, e ainda são as mais usadas pela maioria das empresas para estimular seus funcionários. O problema é que elas têm um efeito colateral: podem acabar diminuindo a criatividade e o entusiasmo, em vez de aumentá-los. "Ao oferecer um bônus ou um prêmio, mostramos que determinada tarefa é indesejável", escreve Pink. Esse tipo de estratégia funciona em curto prazo, mas no longo prazo tende a ser como uma droga: você acaba viciado, e precisa de cada vez mais para realizar alguma coisa. "Pague seu filho para levar o lixo para fora e ele nunca mais fará isso de graça", diz Pink. Não que dê para descartar totalmente a motivação 2.0: ela ainda é muito útil em algumas situações, como tarefas repetitivas e monótonas, que não geram prazer em si mesmas. Mas nas atividades mais complexas o efeito é o oposto.

Nas tarefas mais criativas - que constituem boa parte do que fazemos hoje - é preciso algo mais. É preciso que a motivação venha de dentro de você.

Motivação intrínseca

A motivação interna, ou intrínseca, é aquela que parte de dentro. Aquela atividade que você faria, mesmo que não ganhasse dinheiro para isso. Que acende seu fogo interno, que o alimenta, que lhe dá vontade de viver. O pesquisador Mihaly Csikszentmihalyi chama essas experiências de "autotélicas", dos radicais gregos auto (em si mesmo) e telos (finalidade), ou seja, atividades que são um fim em si mesmas. Nesse tipo de tarefa, o objetivo é a própria caminhada, não a chegada. É o que leva alguém a escalar uma montanha, fazendo esforço e enfrentando frio e ventanias, quando poderia facilmente chegar ao topo a bordo de um helicóptero. Pink a chama de motivação 3.0, a mais recente a se desenvolver na nossa história. Claro que, para ela acontecer, precisamos estar com as motivações básicas em dia: ter salário justo, descanso, estabilidade. Senão, estaremos tão preocupados com os problemas que não teremos motivação nenhuma.

De acordo com Pink, a motivação interna é composta de três características: independência, domínio e propósito. A independência é a autonomia, ou seja, poder escolher de que forma você vai executar uma tarefa. Muitas empresas já perceberam que os funcionários ficam mais motivados ao poderem decidir de que forma irão realizar suas atividades, e os deixam livres para escolher quando e como irão trabalhar, desde que os resultados sejam alcançados.

Além da autonomia, a motivação interna tem outro combustível: o domínio. Isso significa realizar tarefas que exijam alguma habilidade, seja ela escrever, seja programar um computador ou gerenciar pessoas. E, no decorrer da atividade, poder aperfeiçoar e melhorar seu domínio sobre ela. Claro, não pode ser qualquer habilidade: tem que ser alguma de que gostamos, senão o desafio vira sofrimento. "As pessoas gostam de perceber que crescem com seu trabalho e que são capazes de superar desafios", diz Rita Hetem, psicoterapeuta e life coach.

Finalmente, para nos motivar, precisamos ter um propósito. Precisamos sentir que o trabalho que fazemos serve para algo mais do que simplesmente pagar as contas. O professor, por exemplo, pode sentir que seu trabalho faz diferença na vida das crianças que ensina; o administrador de loja, que sua função permitirá que mais pessoas sejam empregadas. A motivação interna é a razão de pessoas se dedicarem a atualizar páginas como a Wikipédia ou a produzir softwares e distribuí-los de graça na internet: além de estarem praticando suas habilidades, elas são motivadas por algo maior, o interesse público.

Quando tudo flui

Esse tipo de experiência tem mais a ver com gratificação que com prazer puro e simples. Ver televisão comendo um balde de pipocas pode ser bem gostoso, mas dificilmente nos trará satisfação tão grande quanto a que temos ao fazer um esforço maior, como correr nossa primeira meia maratona ou tocar pela primeira vez, sem erros, nossa canção preferida.

Para descrever esses momentos, o pesquisador Csikszentmihalyi cunhou o termo "flow", ou seja, fluxo. São momentos marcantes e extremamente satisfatórios, em que nós e as tarefas que estamos realizando nos tornamos uma coisa só. É o sentimento do compositor absorto em escrever suas músicas, do ciclista que pedala numa prova importante, de uma bailarina em seus melhores momentos no palco. Depois de entrevistar centenas de pessoas, de gente comum a especialistas em seus campos de atuação, Csikszentmihalyi viu que, embora as atividades gratificantes diferissem bastante, a forma de descrevê-las era bem parecida, como se as pessoas se sentissem "em fluxo".

Nesse tipo de experiência, uma das características é o foco total no momento, na tarefa que está sendo executada. Os objetivos são claros e bem definidos, como acertar a bola no gol ou alcançar o topo da montanha. Além disso, o desafio é perfeito: não difícil demais que frustre a pessoa, não fácil demais que entedie. É como no futebol: as melhores partidas para assistir são aquelas em que os times são equivalentes em habilidade. Se um deles é muito melhor que o outro, fica fácil demais, para o melhor time, e difícil demais, para o pior.

O problema para atingir o "flow" é que começamos a nos afastar de nossas inclinações já na infância. "Na educação atual, a criança é despojada de seus talentos. Desde cedo, os adultos começam a martelar que ela precisa ganhar dinheiro. E a criança faz qualquer negócio para ser amada pelos pais", diz Viktor D. Salis, psicanalista e especialista em mitos antigos. A questão é que, sem experiências de "flow", a vida não é tão gratificante. Corremos até o risco de ficar deprimidos ou adoecer. Na Grécia antiga, acreditava-se que aqueles que viviam em desacordo com suas habilidades e paixões adoeciam. "Para Hipócrates, quem se desvia de seu destino adoe­ce", explica Salis. Vem daí a importância do "conhece-te a ti mesmo": afinal, sem esse conhecimento, não seria possível saber quais são nossas inclinações e talentos.

O que te motiva?

Por isso, o primeiro passo para descobrir quais são as nossas paixões é a própria investigação. "Só se perguntar `o que me motiva?¿ já é transformador", diz o fotógrafo Danilo Bueno, que, junto com a jornalista Luah Galvão, está viajando o mundo há 12 meses, perguntando às pessoas dos cinco continentes o que as motiva, no projeto Walk and Talk. Perguntei a eles o que descobriram. "A verdade é que não existem regras", diz Luah. Embora o sentimento seja parecido, cada pessoa irá atingi-lo por vias diferentes. Assim, um escritor pode sentir-se exultante ao redigir um poema, enquanto um matemático treme à simples menção de escrever uma linha. Para descobrir nossa motivação, é preciso parar e se perguntar: o que quero para a minha vida?

Pode ser o caso, até, de uma pausa mais longa, como um ano sabático. "Uma pausa não para ficar à toa, mas para curtir um ócio criativo, que clareie as ideias", diz Luah. Uma pausa como a que eles mesmos estão fazendo, para pesquisar mais sobre o tema. "É necessário voltar-se para dentro e acessar o mundo dos desejos, das vontades, da brincadeira e do sonho de criança - que ainda está lá, mas talvez um pouco sufocado, soterrado por obrigações e medos de não dar conta", diz Rita. E então, aos poucos, trazer para mais perto as atividades de que gostamos, sejam elas escrever, desenhar, trabalhar com madeira. Não necessariamente como ganha-pão, mas, pelo menos, como lazer.

Aqui, é preciso um cuidado: as coisas de que gostamos não são, simplesmente, as que nos dão prazer, como beber um vinho ou ver um filme. São ações que nos deixem verdadeiramente gratificados. Isso porque, no momento do "flow", a experiência não é necessariamente prazerosa: um alpinista que escala a montanha vai sentir dores, passar frio, ficar cansado. Ele estará tão concentrado em sua tarefa que não haverá espaço, em seu cérebro, para sentir felicidade; o foco está totalmente nos objetivos à frente, na próxima pedra que precisa alcançar. A felicidade virá ao fim, quando ele chegar ao topo e perceber que realizou sua meta. Ele então será invadido pela paz de espírito, pelo sentimento de realização. Sabe aqueles dias em que nos sentimos produtivos, que o trabalho flui, que conseguimos realizar o que nos propomos e, no fim, sentimos um bem-estar imenso? É mais ou menos assim. Fazer o que gostamos não significa nos divertir o tempo todo. Há desafios, há dificuldades.

Se estamos perdidos e não sabemos por onde começar, podemos repetir um dos experimentos de Csikszentmihalyi: programar um bip para tocar algumas vezes aleatoriamente ao longo do dia, por algum tempo. Na hora, anotamos como estamos nos sentindo, que tarefa estamos realizando, se o nível de desafio da atividade é adequado para nossas habilidades. Com sorte, ao fim do teste, poderemos perceber as ações que nos deixam em um estado de espírito mais próximo do "flow".

Consciência e realidade

Nem sempre, é claro, podemos escolher apenas as atividades que mais nos agradam. Às vezes, o emprego que temos não é o dos nossos sonhos. E qualquer profissão, pois mais que a gente goste, terá alguma parte que nos desagrada. O dono de uma loja pode adorar administrar as finanças, mas odiar lidar com os funcionários. O músico pode amar compor, mas ficar ansioso antes de uma apresentação ao vivo. E por aí vai.

Para lidar com algo de que não gostamos, não tem jeito: ou mudamos o fato ou mudamos a forma de encará-lo. Em muitos casos, é possível alterar as circunstâncias externas, ou seja, mudar o fato: contratamos uma secretária para ajudar a organizar os papéis, ou, se odiamos cozinhar, comemos fora ou pedimos para o companheiro fazer isso por nós.

Muitas circunstâncias, porém, são mais difíceis de alterar. E é aí que entra a grande jogada, compartilhada por Csikszentmihalyi em seus livros: nós todos temos o poder de mudar a realidade por meio da maneira como encaramos os fatos. Isso porque a única forma que temos de apreender a realidade é por meio dos nossos sentidos e da nossa consciência. Qualquer conhecimento dos fatos será, sempre, mediado pela mente. Então, se conseguirmos controlar nossa consciência, podemos de fato mudar a nossa experiência, pois passaremos a encará-la de maneira diferente.

Pude comprovar a eficácia desse truquezinho em duas ocasiões. Uma delas foi recente, em casa, com a minha crônica dificuldade em lavar louça. Odiava essa tarefa mais que todas as outras. Acabava sobrando para meu marido, que se queixou, com razão. Por fim, decidi deixar de encarar o momento de lavar louça como um fardo e passei a tentar me divertir na hora: ouço música, converso, tento descobrir formas mais eficientes de lavar e enxaguar. É quase como meditar. A outra ocasião foi ao pedalar. Gosto muito de viajar de bicicleta, mas tinha pavor de subidas. Sofria muito nelas. O jeito que encontrei de melhorar minha experiência foi, por um lado, melhorar meu condicionamento físico, mas, principalmente, parar de "brigar" internamente com os morros, parar de temê-los e odiá-los. Passei a acolhê-los como bons amigos, que me ajudariam a melhorar meu desempenho.

É por causa da forma de encarar os fatos que algumas pessoas conseguem tirar satisfação mesmo de tarefas que poderiam parecer maçantes ou banais. É o cobrador de ônibus que sorri e dá bom dia aos passageiros, e se empenha em dar informações e ajudá-los a chegar a seus destinos. É o trabalhador que tenta melhorar sua técnica todos os dias, mesmo que sua função seja simples como apertar parafusos. É o pai que se esquece das horas ao ler histórias para o filho. São os presos de uma penitenciária nas Filipinas que passam o tempo encenando videoclipes musicais. Trazer para mais perto algo de que gostamos, mesmo que apenas como hobby, pode nos encher de alegria e funcionar como um reservatório de energia e motivação para enfrentar os momentos mais duros da vida. A busca é pela atenção focada, pelo brilho nos olhos. Como os de uma criança empilhando blocos.

11/01/2017 - 19:51

Conecte-se

Revista Vida Simples