Aprenda a ouvir a intuição

Dar valor à nossa voz interna nos traz sabedoria para tomar decisões e escolher caminhos que tragam mais sentido e felicidade

Débora Zanelato

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital

Amanda Mol era uma garota sonhadora que havia chegado ao Rio de Janeiro para estudar design de moda. Tinha saído de Varginha, cidade pequena no interior de Minas Gerais, para morar com seus padrinhos e construir sua carreira na capital carioca. Boa aluna, terminou o curso antes mesmo do tempo regular e era uma promessa entre os alunos da sua turma. Mas Amanda não estava feliz. “Foi quando eu tive a conversa mais profunda com a minha intuição. Ela me dizia que eu tinha que retornar à minha essência, voltar para a minha casa. Que eu seria capaz de construir um trabalho com significado por lá.” Mas voltar para uma cidade tão pequena e nada promissora e dar as costas para oportunidades da cidade grande ou mesmo de estudos fora do país parecia algo inconcebível. “Muita gente dizia que Varginha não era para mim, que eu não deveria voltar. Só que eu sentia que precisava seguir aquela voz dentro de mim. Que minhas raízes estavam lá.” Amanda tomou um impulso de coragem e decidiu contrariar o script proposto, retornando para sua cidade. Com um dinheiro que a avó lhe deu de presente, construiu um ateliê em cima da casa em que mora, no subúrbio da cidade, e começou a ilustrar. Queria viver do seu trabalho como ilustradora e criadora de produtos, algo pelo qual ela era apaixonada desde menina, quando fazia ímãs de geladeira com chapas de radiografia e pintava em telas com tinta a óleo para expor nas feirinhas de artesanato. Essa sabedoria interna a que Amanda resolveu dar valor, ela diz,  ajudou-a a seguir seu verdadeiro caminho, mesmo sem ter garantias de que tudo daria tão certo. Hoje ela vende objetos de decoração, papelaria e acessórios em sua loja online, tem cerca de 37 mil seguidores no Instagram (@molamanda) e, em breve, vai abrir a sua primeira loja física, no mesmo bairro em que nasceu. Em cada cartão, camiseta ou objeto, vê-se o quanto de paixão vai ali embrulhado. Para Amanda, sua intuição é como uma bússola, uma ferramenta interna que a ajuda a criar tudo o que faz no mundo e a coloca mais perto da sua essência. “É a ela que eu recorro. Ela me diz quando estou indo por um caminho que não é o meu. Ela me leva para o meu foco, me ajuda a tomar decisões coerentes com aquela menina de 20 anos sonhadora que resolveu voltar para Varginha em busca de um sonho”, me conta, por telefone, uma mulher de 27 anos com um sotaque mineiro sincero. Quem se sente bem conectado com a sua intuição sabe que ela é a sua voz mais sábia e segura, ainda que muitas vezes possa trazer ideias desconcertantes, ou apontar para caminhos nem sempre tão confortáveis, como aconteceu com Amanda. Talvez você acredite que intuir seja algum dom especial de pessoas místicas, mas é uma capacidade humana com a qual todos nós nascemos, capaz de levar informação e conhecimento à nossa mente sem passar pelo filtro dos modelos racionais. Ela pode nos ajudar a tomar pequenas decisões diárias, as quais nem percebemos, bem como nos assopra aos ouvidos um comando que por vezes teima em permanecer ali, nos guiando para outra direção que tem mais a ver com a nossa natureza. É o que o psiquiatra italiano Mauro Maldonato me descreveu como uma “antiquíssima sabedoria biológica”. Mauro tem se dedicado a estudar o processo de tomadas de decisão e seu trabalho se tornou o recém-publicado livro Na Hora da Decisão (Sesc). “Nada nos ajudou mais a enfrentar e a resolver dificuldades e problemas do que a intuição. Essa forma inconsciente de conhecimento entra em jogo em todas aquelas situações nas quais temos dificuldade para refletir. Ela sabe desde sempre que mesmo as evidências mais claras podem ser enganosas. Ela é, na verdade, uma aliada formidável da nossa sobrevivência”, diz.

Intuição versus razão
Mas ouvi-la pode ser um desafio especialmente maior nos dias de hoje. Isso porque estamos mergulhados em uma cultura ocidental que hipervaloriza a razão e a lógica, os argumentos supostamente baseados em dados concretos, e subestima o valor desse processo interno tão sutil e subjetivo, prejudicando a nossa conexão com o que é mais profundo e interno. O erro é tido como sinal de fracasso e então somos sempre chamados a decidir da forma mais acertada, clara, produtiva e certeira. Aí, os dados e as informações lógicas se tornam elementos mais sedutores para nos ajudar a fazer a suposta melhor escolha. “Somos seres complexos, mente, corpo e espírito. E, quando há pressão, tendemos a nos focar na parte racional, e aí nos fechamos. Se não podemos olhar dentro de nós mesmos, não podemos usar nossas maiores capacidades e jamais deixaremos nossa intuição fluir. Acho que, num nível mais alto, todas as decisões são intuitivas. Se não fossem, poderíamos procurar qualquer resposta no computador, e estaria tudo lá”, observa o professor da Universidade de Harvard, Bill George, no documentário Innsaei, que aborda o poder da intuição e da empatia. “Temos visto o predomínio do pensamento racional, que domina muito de nossas instituições acadêmicas e a mídia, mas que afasta a capacidade de avançar com habilidade intuitiva. Mas acho que é dela que grandes decisões e grandes ideias vêm”, ele diz. 
É curioso pensar que Albert Einstein, um dos cientistas mais importantes de todos os tempos, tenha se apoiado tanto na própria intuição para avançar em seus experimentos e descobertas. Ele disse: “A mente intuitiva é um dom sagrado, e a mente racional é um criado fiel. Nós criamos uma sociedade que honra o criado e esqueceu o sagrado”. Em uma conversa com o professor  alemão William Hermanns registrada no livro Einstein and the Poet (Einstein e o Poeta, em tradução livre), o cientista diz o quanto escuta sua voz interior. “Se eu não tivesse fé absoluta na harmonia da criação, não teria tentado durante 30 anos expressá-la em uma fórmula matemática”, disse, sobre a equivalência que fez entre energia e matéria. Mauro, o psiquiatra italiano, defende que mesmo no campo das ciências a intuição é valiosa. E que as nossas escolhas não teriam o mesmo efeito se fossem tomadas apenas de forma lógica. “O que nos leva a conclusões eficazes não são raciocínios cansativos, mas sensações viscerais, emotivas, instintivas. São elas que resolvem nossas  indecisões e nos fazem dizer: “Muito bem, agora eu sei o que fazer!”. Por acaso a lógica poderia nos dizer com quem devemos nos casar, em quem confiar, qual trabalho escolher?

É preciso ouvir e confiar
A terapeuta paulista Larissa Souza passou a considerar mais a sua voz interna quando terminou um relacionamento abusivo, anos atrás. Na época, Larissa estava acostumada a tomar decisões muito mais sob o chamado aspecto racional. “Eu era engenheira, e fui adquirindo muito essa mente pensante, de classificar e colocar tudo em caixinhas. Eu estava mal no meu relacionamento e não sabia como terminar. Aí, senti que precisava deixar meu coração falar. Percebi que ainda não tinha terminado porque a minha mente estava racionalizando demais, com muitos medos”, ela lembra. “Viajei sozinha para os Estados Unidos e, durante aquele mês, aprendi a me ouvir e a me amar mais. Como eu estava em um lugar onde não sabia como me locomover, eu fechava os olhos e deixava a resposta vir sobre qual direção tomar, e seguia, confiando na minha intuição. Não ficava me perguntando se aquilo era verdade ou não”, lembra. Mais tarde, quando deixou a engenharia e se tornou terapeuta, Larissa escutou de uma professora o quanto ela era intuitiva. “Aí eu entendi que naqueles momentos que vivi era a minha intuição funcionando”, ela diz. Larissa acredita que sua voz interna a ajuda em todas as decisões. Desde a roupa que escolhe até na hora de atender a um paciente novo. Ela vê que o racional, aprendido com a engenharia, não precisa ficar longe do seu trabalho intuitivo, e sim que um pode se tornar aliado do outro na hora de decidir. “Entendo que pessoas muito racionais precisam refletir sobre a intuição antes de sair agindo. No caso de uma decisão muito importante, você escuta a sua intuição, mas, se quiser, pode colocar em um papel os prós e os contras”, ela sugere. “Aí, respire profundamente algumas vezes, buscando esvaziar a mente. Ao olhar para os lados negativos da decisão, veja se aquilo que é

negativo pode trazer experiências valiosas. Em vez de olhar para o lado negativo com olhos de negativo, procure ver com olhos de aprendizado”, diz. Isso ajuda a refletir sobre aquela questão que prejudica ouvir nossa voz interna, que é o medo de errar e fracassar. De onde isso vem? “Você pode sentir se é um temor verdadeiro, se foi algo que a sociedade impôs ou mesmo uma crença que veio dos seus pais. Consciente desses padrões, você se torna capaz de tomar a decisão que vem do coração”, observa Larissa.

Desenvolvendo a intuição
Talvez uma das grandes questões de quem decide ouvir a sua intuição é ter a certeza de que, de fato, está ouvindo essa voz, ou se tudo não passa de emoções confusas, medos e ansiedades girando em nossa cabeça. Como saber se estamos mesmo   escutando a coisa certa? Fiz essa pergunta ao escritor e palestrante Bruno J. Gimenes, com livros publicados sobre autoconhecimento. “Intuição é o que somos em essência. E o ego ou a mente confusa é o que nos tornamos de acordo com o mundo que a gente tem que enfrentar”, observa. “Não que o ego seja uma coisa ruim, mas se ele trabalhar sozinho virá carregado de sentimento de exclusão, de comparação. Dentro da intuição, você faz parte de algo maior, de um todo. No ego, você pensa de forma escassa, que aquilo não vai dar. Para identificarmos esses conflitos, é importante reconhecer o que é “pressão interna” e “pressão externa”. “A pressão interna é o que você pensa, sente e acredita. É a sua espiritualidade. A pressão externa é o que o mundo fala, o que as pessoas esperam, o que a sociedade impõe. Se você é capaz de ouvir mais a sua intuição, você vence a pressão externa e dá voz ao que está dentro de você”, diz. Assim, pode ser que algo lá no fundo diga que você precisa tomar determinada decisão ou se mover em uma direção, mas a pressão externa ainda o esteja impedindo de seguir essa voz. Aí, vale observar se faz mesmo sentido e se vale a pena deixar de manifestar o que você acredita pelo medo de aquilo não ser condizente com o que acha que a sociedade quer. “Quando a pessoa se conecta com o novo, acredita que pode ser loucura, e entra no medo, no escuro. Achando que não vai dar certo. Confie em si, saia dessa caixinha que diz que não pode fazer isso porque não vai dar certo”, observa Larissa. “Quanto mais você exerce a intuição, mais se aproxima dessa sabedoria universal e consegue seguir o fluxo.” Mauro Maldonato também reforça essa ideia. “Precisamos perceber que a essência verdadeira se encontra no fluxo. Por isso, a consciência deve prestar atenção àquilo que é mais profundo e primordial. A intuição, como voz interna, muitas vezes é inexplicável”, diz. “Mesmo quando sofremos de incerteza e hesitação, é preciso prosseguir aprendendo a ouvi-la.” Bruno também sugere uma prática simples (mas poderosa): respirar profundamente por dez vezes. E, de olhos fechados, fazer uma pergunta para si: “Qual inspiração eu tenho agora?”, ou “Que forças eu posso ativar para resolver isso?”. “Espere. Não exija que a resposta venha imediatamente. É o treino que fará com que a sua intuição comece a aflorar”, diz. Distanciar-se de muitos ruídos e estímulos externos que nos fazem permanecer em constante distração também nos aproxima da intuição. Quando a ilustradora Amanda Mol sente que precisa se alinhar melhor com essa voz dentro de si, busca se recolher e desacelerar. “Fico menos tempo em eletrônicos, evito o computador e o celular. Não levo isso para o quarto. Antes de dormir faço leituras, escuto músicas e peço nas minhas orações que eu receba respostas para o que preciso. Fico nessa frequência mais calma e nos dias seguintes eu me sinto mais reconectada.” A prática fez com que Amanda ganhasse mais segurança sobre quando a voz da intuição aparece. “Eu reconheço os momentos em que os insights chegam. São sempre pela manhã, como se fossem um soprinho de vento. É a partir disso que guio o meu trabalho e a minha vida”, conta a ilustradora.

Aprender a desaprender
Innsaei, nome do documentário que contei no início desta reportagem, é uma palavra que traduz a filosofia islandesa cuja proposta é conectar as pessoas através da empatia e da intuição. É ver de dentro para fora. É enxergar um mar de respostas dentro de nós mesmos. A americana Marti Spiegelman, xamã e coach espiritual, sugere a seus pacientes que busquem experimentar um momento na natureza através dos cinco sentidos, sem racionalizar. “As pessoas modernas em geral não estão em contato com a intuição. Temos que deixar nossa consciência à deriva do mundo que nos rodeia. Do mundo das formas, dos mapas, do A ao B, ao C. O mundo da estratégia, das marcas. Dos prazos e dos pontos-finais.” É preciso estar desperto para dados sensoriais e outras tantas dimensões da vida, Marti afirma. Durante nossa jornada para nos aproximarmos da intuição, encontraremos dúvidas, descrenças ou mesmo uma necessidade de encontrar lógica em  tudo o que essa voz disser. Nesse sentido, abrir o nosso portão intuitivo terá muito mais a ver com desaprender e desconstruir. Nem sempre tudo precisa fazer sentido, e podemos aprender a ver a beleza disso. “Há um salto da consciência, chamemos isso de intuição ou do que quer que seja, e a solução surge à sua frente, sem que você saiba como e porquê”, disse Einstein, o que me sugere acreditar na própria mágica por trás da vida. Se a nossa essência sempre vai nos levar pelos caminhos que forem certos para a gente, a intuição definitivamente nunca poderá estar errada. 
 

14/11/2017 - 11:08

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Revista Vida Simples