Como cultivar boas relações

Paciência e gratidão são algumas das virtudes que precisamos desenvolver para mergulhar profundamente nas relações e apertar os laços que nos unem

Liane Alves

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
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agora já pode subir na prancha. Isso mesmo o que você acabou de ler: sobe rápido, porque lá vem uma onda de 5 metros capaz de partir você em dois. E não dá tempo para nadar para a praia. Sobe, fica de pé, se equilibra, e desliza no tubo de ar que se forma entre a crista branca que quebra e o oceano azul sob seus pés. Vai lá, ela já está quase em cima de você, vai, vai, vaiiiiii... Antes de ficar em pânico com esse exercício de imaginação, pense comigo: quantas vezes você já não enfrentou uma onda desse tamanho? Não literalmente, é claro. Me refiro àquelas chacoalhadas que o deixam acachapado no chão. Essa instabilidade, essa liquidez, que faz parte da existência, mas que parece cada vez mais presente, pode ser enfrentada com mais sabedoria. Não é a impermanência que nos faz cair, mas o que fazemos com ela. Muita gente tem pavor do que é inseguro ou arriscado, mas é impossível querer segurança eterna.  Então, o que podemos fazer? Como se manter num mundo de relacionamentos líquidos, voláteis, sejam amorosos ou profissionais, que estão ótimos e seguros num dia e no outro se desmancham como açúcar na água? Como adquirir essa força interna que permite que os relacionamentos durem muito mais tempo sem se esborrachar de uma hora para outra? Manter a estabilidade na instabilidade é um dos nossos grandes anseios. E muita gente legal vai nos ajudar a conseguir isso. 

Vagalhões do Havaí
Vamos começar pelos grandes turbilhões, os que envolvem morte, doenças graves, rompimentos de amor dolorosos, demissões inesperadas, brigas violentas. Murilo Gun enfrentou um desses recentemente. Muitos de vocês o conhecem da televisão, de cursos de criatividade pela web, comédias de stand-up ou por ter sido escolhido para fazer parte de um curso de dez semanas na Singularity University, mantida pela Google, que seleciona líderes em vários países com possibilidade de impactar o mundo. Com um presente de sucesso como empreendedor e um futuro mais espetacular ainda, ele descobriu, no ano passado, um tumor de 9 centímetros no abdômen capaz de destruir todos seus sonhos. A partir do diagnóstico, porém, ele adotou uma estratégia: levantava de manhã, ia para o espelho e dizia para o tumor: “Pegou a pessoa errada, cara. Você vai se ferrar, eu não vou me ferrar, mas você vai se ferrar. Eu não vou deixar você levar a melhor. Se fu..., cara, se fu..., se fu...”. Até saber se o nódulo era benigno ou maligno, ele continuou com sua prática. E veio o resultado: era benigno. Foi feita a cirurgia e ele está ótimo. Mas alguma coisa mudou na sua vida. Além das comédias, dos cursos ou eventos pelo Brasil, hoje um dos seus projetos mais queridos, o Armas, envolve uma nova maneira de se alimentar, respirar, meditar, se aprofundar no autoconhecimento e ter um sono reparador. E essa transformação para uma vida com mais qualidade não foi intencional e consciente, mas natural. Hoje, seus objetivos não estão tão mais voltados para fora, mas para dentro. Murilo também me conta que, além de xingar e brigar com o tumor, se apoiou numa base sólida que o manteve equilibrado nesse período difícil, e que o sustenta até hoje: o apoio da família, uma relação sólida de dez anos com sua mulher, ajuda externa de terapeutas, uma noção de gratidão pela vida e pelas pessoas à sua volta, momentos de qualidade com as pessoas queridas, e fazer parte de comunidades que compartilham de seus interesses, o que, para ele, dá uma confortante sensação de pertencimento e atuação real no mundo. Ele descobriu também a importância da meditação e do silêncio (“achava que o silêncio era uma coisa chatésima”) e, quem sabe, aos 33 anos, Murilo comece a trilhar um caminho em direção à espiritualidade. “Tudo isso é muito novo para mim. Estou bem no comecinho, não sei no que vai dar”, diz. Sua vida continua, não houve nenhuma ruptura profunda, mas ele a vive de maneira diferente. Foi Murilo quem mudou e, num primeiro momento, não exatamente o que estava em volta. Nessa curta história, pode-se aprender muita coisa. Em primeiro lugar, que a vida pode dar uma guinada drástica de uma hora para outra. Não há garantias. Mas fica claro também que se pode aprender muito com as crises. Saber como vivê-las pode evitar cortes precipitados e conflitos desnecessários, e garantir a construção de um alicerce interno que propiciará uma maior durabilidade dos relacionamentos.  Enfim, uma crise, doença ou separação, chega para que aprendamos algo com ela. “É preciso perguntar exatamente para que vem uma onda gigantesca. Nada no universo acontece sem sentido. As reviravoltas pedem por transformação e, se são grandes, por transformações profundas”, diz a psicoterapeuta Irene Cardotti, especialista em constelações familiares. Em segundo lugar, ele cultivou a confiança de que tudo ia dar certo. Ao personalizar o tumor, mostrou sua fé nele mesmo, e não na doença. A autoconfiança é muito importante nas relações mais duráveis e estáveis. Já imaginou um surfista inseguro? Um piloto de avião sem acreditar no seu taco? A confiança em si mesmo (o poder próprio), mais ainda, numa força divina (o Outro Poder) é uma qualidade que ajuda muito a superar obstáculos e estimular a coragem para enfrentar riscos. Mas o mais importante é depositar uma confiança extrema no relacionamento, fazer de tudo para dar certo, desde que valha a pena. “Sempre apostei nos meus relacionamentos amorosos. É sempre um risco, mas não vejo outra maneira de garantir aquele tempo precioso em que a relação se solidifica”, diz Felipe Cordeiro, auditor em São Paulo, há dez anos casado e feliz. Mesmo quando você ainda não tem muita certeza do que vai acontecer, ele dá uma sugestão: “É bom colocar a relação numa redoma por um tempo, como uma plantinha ainda frágil. E cuidar bem dela, até que crie raízes, floresça e frutifique. Em última instância, são os frutos dela que vão dizer se é boa ou ruim para você”. Se você não tem essa fé, em si ou no relacionamento, é bom saber, então, como adquiri-la. Pergunte  para si mesmo o porquê de sua insegurança, e trate de investir tempo e energia para alcançar uma condição mais benéfica para uma relação estável. Ou conte com o apoio de terapeutas para entender melhor o que acontece com você, a razão de seus medos, se eles se justificam ou o que pode fazer para minorá-los. “Muitas vezes o parceiro projeta no companheiro o que ele mesmo sente. Por exemplo, se está insatisfeito com o corpo ou aparência, pode projetar no outro, achar que é ele quem não gosta de sua aparência. Só que o outro pode nem ligar para isso e julgar que está tudo ótimo. A projeção é um mecanismo bem comum e pode destruir relacionamentos com facilidade”, adverte Irene Cardotti. A fé em si e na relação é mesmo muito importante. É ela que vai dar as bases essenciais para a entrega final: o compromisso. “As pessoas atualmente não querem saber de compromissos. Vieram de uma geração mimada, que acredita que precisa se esforçar muito ao se comprometer, e que não gosta de assumir responsabilidades”, diz Irene. Quando isso acontece, a vida vai ensinar: ninguém dura num emprego, ou em um relacionamento, se não se comprometer e assumir obrigações. Enfim, se não se entregar e apostar verdadeiramente no que se propõe. A sucessão de fracassos e a sensação de vazio e incapacidade que resulta disso podem levar a pessoa a ver que o problema talvez esteja nela, ou nas suas escolhas de parceria. E assim enfrentar a questão. Com a ajuda da terapia e do autoconhecimento, as causas dessa sequência de erros podem levar menos tempo para serem identificadas. Outro problema que costuma estar na raiz dos rompimentos é a autossabotagem. Esse mecanismo encerra uma questão séria: na maioria das vezes, sabotar-se é inconsciente. “A pessoa não percebe que é ela quem não deseja que a relação dê certo. Ou pode até estar consciente do processo, mas não sabe o que fazer com isso”, avalia Irene. Com mais autoconhecimento, cultiva-se naturalmente outra qualidade essencial nos relacionamentos duradouros: a paciência. “Quando admito que erro, que posso projetar conteúdos meus no outro, que também ajo por inconsciência, começo a ter mais paciência com o deslize, com o erro”, diz Irene. “Dessa forma, entramos no relacionamento mais adultos e maduros. Reconhecemos as qualidades da relação, e não apenas os defeitos.” A paciência tem outro mérito: estimula a flexibilidade e fortalece a perseverança, duas virtudes fundamentais numa ligação amorosa ou profissional.

Menos carência e exigência
Outra qualidade vital que ajuda na duração de um relacionamento: a gratidão. Por sugestão de sua terapeuta, Murilo Gun e Dani, sua mulher, por exemplo, têm ao lado da cama um pote de vidro da gratidão. Todas as noites depositam ali um papelzinho onde escrevem os motivos pelos quais são gratos: à vida, um ao outro, aos amigos e auxiliares ou à natureza. Mimadinhos nunca são gratos, pois são um saco sem fundo de carências e exigências. Já a gratidão nos ajuda a amadurecer e nos desvia do próprio umbigo. No começo, pode até ter um pote para quantificar os inúmeros benefícios que recebemos todos os dias. Depois, é o nosso coração que vai nos ajudar a reconhecer isso ao fazer todas as noites as três perguntinhas do naikan, a arte japonesa da autorreflexão: O que recebi? O que dei? Que prejuízos causei? Com a gratidão, o egoísmo, outro grande responsável por relações rompidas, vai cedendo de forma natural. Vemos o quanto nosso relacionamento é rico, e o quanto podemos oferecer, e até nos sacrificar por ele. Enfim, com a gratidão e o egoísmo arrefecidos, aprendemos a amar, a cuidar do outro, a sair de nós. “Quando as pessoas falam que desejam que o amor penetre em sua vida, na verdade querem dizer que desejam ser amadas. Ninguém fala de amar, todo mundo só quer ser amado”, diz com sabedoria o filósofo alemão Erich Fromm no clássico A Arte de Amar (Martins Fontes). Mas, nas relações duradouras, ama-se primeiro, antes de ser amado. Quando há essa entrega de ambas as partes, surge o “entre-dois”, uma terceira força que vai alimentar e sustentar o relacionamento por muitos anos. E, se o amor acontece só de um lado, com um dos parceiros, pode ser até que, com o tempo e, principalmente, com a convivência, o outro finalmente se sensibilize.  Existe mesmo gente que tem essa capacidade de amar sem retribuição ou garantia de sucesso. Porém, não se engane: que esse amor não seja apenas desejo, cobiça e manipulação para atingir seus objetivos – porque simplesmente não seria amor, mas apenas fixação patológica, desequilibrada. Bom, até agora pisamos num terreno de relações delicadas. Agora vamos conhecer mais condições que podem ajudar a manter seus relacionamentos por mais tempo.

 Na corda bamba
 Cássio Carvalheiro é um poeta especializado em poesia japonesa (os minúsculos haikais) e dedica boa parte do tempo a traduzir textos antigos escritos em chinês clássico para o português. Financeiramente, nada mais instável e impermanente do que isso, especialmente quando não se é rico. Mas ele consegue pagar suas contas há um longo tempo, pois aprendeu a viver com equilíbrio na instabilidade. Enfim, ele é um ser criativo. Vende seus livrinhos de haikai desenhados à mão por ele num bairro chique de Campos do Jordão, em São Paulo, nos fins de semana, e dá aulas desse tipo de poesia na Biblioteca Municipal do lugar. Mora numa cidade próxima mais barata (Santo Antônio do Pinhal), reduziu suas despesas ao mínimo, e sua mulher, Roberta, ainda o ajuda com risoles e sushis vendidos na padaria da mãe, uma chef de cozinha que se especializou em pães artesanais, vendidos no Boulevard Pão do Céu, no bairro de Jaguaribe. Mas o surpreendente mesmo é saber que aquilo que o mantém equilibrado é a própria sabedoria chinesa encontrada nos textos clássicos que traduz. Cássio aplica o que aprende na teoria: “A filosofia chinesa diz que na vida há uma alternância básica de duas energias, o yin e o yang, o ativo e o passivo, o claro e o escuro, a abundância e a escassez. O mais sábio é aprender a observar essa alternância de forças e viver de acordo com elas”, diz. “No I Ching, o milenar Livro das Mutações chinês, vemos que essas alternâncias podem acontecer durante a vida em 64 momentos. Viver de acordo com o Tao (que pode ser traduzido como o Princípio Único, O Caminho ou Deus) é saber reconhecer em que momentos estamos, e agir de acordo com eles, sem resistência”. Na China, essa atitude é chamada de ação da não ação, wu wei. Em termos práticos, Cássio quer dizer que em momentos de abundância, por exemplo, ele vai fruí-la intensamente, sem esquecer-se de que esse período pode ser breve e que deve se prevenir para isso. Quando chega a escassez, é mais útil reconhecer que também aquele momento será provisório e, com isso, ganhar mais força e coragem para ultrapassá-lo com inteligência. “O Ching nos orienta a viver de acordo com o Tao, ou Deus, conforme ele se manifesta na sua vida.” Agimos não agindo, seguindo um princípio, ou um poder, maior, e não apenas de acordo com o que nosso pequeno eu, o ego, deseja. A leitura de livros sagrados, muita oração, meditação e observação atenta dos sinais que aparecem em nosso caminho ajudam a sentir o que é necessário fazer para seguir essa vontade maior. E o poeta dá ainda outra chave de grande importância. “Tudo muda todo o tempo, mas você também muda. Aquele que enfrentou um maremoto de um jeito no passado e quase se afogou não é o mesmo que vai estar de frente para a turbulência agora.” Podemos trazer para o exemplo do começo do texto: com mais sabedoria e experiência, você vai olhar para o mar e ver os sinais da aproximação de uma tempestade bem antes de ela se instalar. Terá tempo para se preparar e procurar seu equilíbrio interno. Também irá buscar apoios externos que poderão ajudá-lo a manter-se numa base firme. E finalmente surfará pelo tubo da onda sem quase deixar a água respingar. Mas, se afundar e tomar um caldo, terá a certeza de que o treino em cair e levantar poderá livrá-lo do susto na próxima vez. Terá ainda mais fé e confiança em si mesmo, e coragem para perseverar.

 O amor perfeito
Já resvalei nesse tema há pouco. Mas deixei o melhor para o final. Como seria, então, o amor eterno e perfeito? Uma mística cristã do século 15, Santa Teresa d’Ávila, pode nos dar a resposta. Mas você, provavelmente, já intuiu a resposta dela: um amor eterno e perfeito não é desse mundo. Segundo Teresa, isso é possível apenas quando Deus amar o  outro dentro do seu coração. E essa condição só se realizará quando você amar e se entregar a Deus tão completamente, tão totalmente, que não existirá mais lugar dentro de si para o amor humano. Você pode dizer que isso é impossível. Mas muitos santos, místicos e homens comuns como eu e você viveram, e vivem, a realidade possível do amor incondicional, que ultrapassa espaço e tempo, e que se contenta apenas em amar, amar, e amar. Não é paixão, não é desejo e cobiça, não é doença. É entrega total a um plano divino, e uma luz que brilha indestrutível como um diamante dentro do coração. Eternidade, mesmo, de verdade, só com essa variedade de amor compassivo. Mas, para ter uma maior durabilidade e estabilidade nos seus relacionamentos, você pode seguir alguns pontos e sugestões deste texto. Com certeza, eles vão ajudá-lo a encontrar o bom caminho

LIANE ALVES aprende a cada dia com o amor. Conheça mais sobre ela no siteredlotus-spiritualtravels.com

18/08/2016 - 11:48

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Revista Vida Simples