Como ter mais tempo

A vida tem passado depressa e parece impossível completar toda a nossa lista de tarefas. Mas, se o dia vai continuar tendo 24 horas, a gente pode encontrar caminhos para viver num compasso que nos traga mais satisfação e felicidade Parece

Débora Zanelato

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Ele estava logo à minha frente, e então apertei o passo para alcançá-lo. Queria dizer-lhe que ele andava muito, mas muito apressado e que, por isso, a gente mal tinha se visto nesse ano que se findou. Que esse passo desajustado dele não tinha me permitido realizar nem metade das atividades e compromissos que eu anotava, dia após dia, na minha agenda. Não me deixou assistir a todas as séries, ler todos os livros, responder todos os e-mails, curtir todas as fotos, estar com meus amigos, visitar minha família. Mas tão logo eu acelerava, ele acelerava também, como se não quisesse dar satisfação. Ele, o Tempo, parecia não ter tempo para mim. E eu acho que se você, assim como eu, vive nessas terras onde a rapidez é a premissa de tudo e os relógios estão nos vigiando por todos os cantos, também pode ter vivido a mesma cena e se sentido  traído pelas horas, afundado nas listas de tarefas e desejos. A gente tentou segurar os ponteiros, mas não deu muito certo, não é? O que eu estou aprendendo – e isso leva um bocado de tempo – é que a gente nunca vai passar a perna no tempo, porque isso seria como passar a perna em nós mesmos. “O tempo é a substância de que sou feito. O tempo é um rio que me arrasta, mas eu sou o rio; é um tigre que me destroça, mas eu sou o tigre; é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo”, escreveu o argentino Jorge Luis Borges, um escritor que gostava de pensar sobre passado, presente, futuro. Mas, se o tempo é a gente mesmo, o que eu quero contar para você é que é possível ajustar o descompasso do nosso caminhar e aproveitar cada dia de verdade, deixando no passado a sensação de não estar vivendo o bastante e de não ter tempo para nada.  “Que horas são?” talvez seja uma das perguntas que a gente mais se faça ao longo do dia, sem perceber que condicionamos a duração de cada experiência que vivemos à tirania de um relógio. “A invenção do relógio mecânico na Europa, no século XIII, foi a grande revolução na história do tempo, um evento que mudou a consciência humana para sempre”, escreve o historiador da cultura e professor australiano Roman Krznaric, em seu livro Sobre a Arte de Viver (Zahar). É desconcertante descobrir que nem sempre foi assim. Esse tempo como conhecemos, dividido em pequenas fatias iguais, é uma invenção social, algo que transformou a nossa vida mais do que a pólvora, a bússola, a imprensa. Mas, antes disso, a humanidade passou séculos sem se pautar pelas horas e minutos. “Sócrates inventou a filosofia sem saber se eram 3h10 ou 14h50. Leonardo da Vinci não ficou consultando seu relógio quando pintou A Última Ceia”, prossegue Krznaric. É, o relógio mudou o tempo. E é claro que essa tecnologia nos ajuda um bocado – como marcar um encontro com alguém? A que horas entrar e sair do trabalho? Mas aconteceu algo muito perverso durante a Revolução Industrial: o tempo virou coisa, mercadoria. Aí, entraram para o nosso vocabulário palavras como “gastar”, “poupar”, “desperdiçar” tempo. A substância daquilo que somos também passou a ter preço, afinal “tempo é dinheiro”. “Perder tempo” se tornou nosso maior medo e “ter mais tempo” virou a nossa busca eterna. O filósofo francês André Comte-S ponville, autor do livro O Ser-Tempo (Martins Fontes), aponta uma reflexão que não estamos acostumados a ouvir, mas que contém uma verdade importante. O tempo, em si, não é coisa. “Ele é passado, presente e futuro. Mas, se o passado já foi, e o futuro ainda não chegou, arrisco dizer que o tempo é o presente. É essa continuidade.” O que ele quer dizer é que, ainda que o tempo seja movimento, só temos o presente. Se me lembro do passado, lembro no presente. Se penso no futuro, o faço também no agora. Eu escrevo esta reportagem no presente, e você também a lê no presente. “Trata-se desse agora que nunca desaparece.” O problema é que a gente ainda vive como se o tempo fosse algo externo, que caminha num descompasso que não alcançamos. “Vivemos uma desconexão com ele”, me disse Gustavo Gitti, colunista de vida simples. “Alternamos entre ‘correr atrás do tempo’ (ansiedade, correria, distração, o ‘quase lá’) e ‘esperar o tempo chegar’ (tédio,  depressão, ‘quando tal coisa acontecer, aí, sim...’). Não nos sentimos no tempo certo. É como assistir a um filme com áudio fora de sincronia, ou sentarmos meio tortos em uma cadeira. Não é gostoso.” Gustavo diz que a gente nunca vai ser capaz de relaxar de verdade dentro de uma sensação de “ter tempo”. Não importa se temos um minuto, uma hora, uma tarde, um mês. Ainda estamos muito fixados nessa ilusão de que o tempo é uma coisa, quase como uma caixa feita de horas e que vamos enchendo com mil tarefas. E, quando a caixa fica apertada demais para tudo o que a gente quer colocar dentro, vamos atrás de dicas e cursos de administração do tempo. Para Roman Krznaric, algumas dicas podem até ser úteis, como olhar o e-mail uma única vez por dia ou aprender a delegar tarefas, mas ainda não mudam profundamente a nossa relação com as horas. “A administração do tempo, na verdade, é uma ideologia que nos ensina a fazer coisas mais depressa e com mais eficiência, de modo a podermos enfiar cada vez mais coisas em nossos dias”, alerta Krznaric, cuja agenda do dia, ele diz, tem sempre um bom espaço em branco, onde ele está fazendo nada. “É meu tempo preferido, onde posso sonhar acordado”, me disse ele, por e-mail. Na caixa das tarefas que queremos fazer depressa, vão junto os momentos prazerosos que são o deleite da vida. É o almoço de dez minutos, onde o sabor da comida nem se aprecia. A visita cronometrada que fazemos aos nossos pais, incapaz de nos aprofundar em uma conversa. Costumo olhar com atenção aos pais que andam de mãos dadas com os filhos pequenos pela rua. Quase sempre eles estão em descompasso:  o adulto tem o caminhar apressado, a criança segue atrás, puxada pela mão, enquanto tenta colocar os olhos nas belezas do dia que a gente já não enxerga mais. O jornalista britânico Carl Honoré passou por um momento assim, de descompasso com o filho, há alguns anos. “Na hora de contar história para dormir, eu lia tudo bem rápido. Pulava algumas frases, parágrafos, até mesmo uma página inteira. E meu filho conhecia a história, e então brigávamos”, conta Carl. “O que era para ser o momento mais relaxante, íntimo e carinhoso se tornava uma batalha entre o ritmo dele e o meu.” A história de Carl começou a mudar enquanto ele lia um artigo com dicas sobre como “poupar” tempo. Entre elas havia a sugestão de livros que faziam as crianças dormirem em um minuto. Carl ficou entusiasmado, mas em seguida teve um espanto: “Estou mesmo com tanta pressa que vou enganar meu filho com uma historinha de nada no fim do dia?”. Foi aí que ele, um viciado em velocidade, resolveu desacelerar. E criou, há pouco mais de dez anos, o movimento slow, um convite a desfrutar momentos com mais lentidão – ou melhor, com o devido tempo que aquela vivência merece. Carl reflete como o tempo é encarado como um recurso que acaba e que, se não usado, a gente perde. “Isso cria uma equação. Se ele acaba, então aceleramos, tornando cada momento de cada dia uma corrida em direção à linha de chegada. Uma linha que, no entanto, nunca alcançamos”, diz. É claro, nem sempre a lentidão é a resposta, ele diz, mas existe uma lentidão boa. As refeições que fazemos com a televisão desligada, um encontro que existe sem a duração das horas, e até quando podemos  olhar com calma para os problemas do trabalho a partir de diferentes ângulos. Recentemente, Carl lançou o livro Solução Gradual (Record), em que discute como ansiamos por soluções rápidas para tudo: na política, na medicina, nos aplicativos de relacionamentos. “Eu ainda amo a velocidade. Gosto de esportes rápidos e nunca deixaria de praticá-los. Só que já não me sobrecarrego mais. Sinto que estou vivendo minha vida em vez de apostar uma corrida contra ela.”  Voltar a nossa atenção para o momento presente como forma de nos reconectarmos também é o que sugere o escritor alemão Eckhart Tolle, autor de O Poder do Agora (Sextante). Em sua recente vinda ao Brasil, ele propôs que tentássemos nos colocar presentes inclusive nas tarefas mais triviais do cotidiano, as que parecem lentas ou aborrecedoras. “Mesmo quando você está esperando algo, use essa oportunidade para dar toda atenção ao momento presente, a apenas observar. No semáforo, no elevador, esperando na linha para falar com o banco, aguardando um voo... Use essa oportunidade para estar apenas no agora”, ele propõe. “Talvez você perceba que a sua mente não vai ficar muito feliz com isso, com esperar. Ela vai querer te contar uma história de que onde você está nesse momento não é um bom lugar. Ela pode reclamar dentro da sua cabeça ou, se tiver outra pessoa perto de você, ela pode reclamar em voz alta.” O resultado de se manter atento, ele diz, é que vamos encontrar uma percepção de que são esses pensamentos que estão nos dizendo que não deveríamos estar ali, por vezes nos jogando para outro tempo. “Quanto mais consciente você se torna do momento  presente, mais vivo você se sente. E você se conecta com a essência do agora, que é onde tudo acontece.”

Uma corrida contra a vida
Parece que estamos mesmo obcecados pela velocidade. Talvez porque ela nos traga a ideia de que, se tudo é rápido e instantâneo, o tempo de espera é encurtado e, portanto, mais bem aproveitado. “A velocidade é divertida, sexy, é uma adrenalina. É como uma droga na qual somos viciados”, me disse Carl Honoré. Ao longo dos últimos séculos, as viagens ficaram mais rápidas, o telégrafo agilizou a forma como nos comunicávamos no século XX e hoje a internet é a prova de que a relação tempo-espaço já praticamente não existe: tudo é imediato. O dia começa e a quantidade de e-mails que temos para responder já parece nos deixar em desvantagem na vida. Para piorar, tão logo chegamos à última mensagem da caixa de entrada, já recebemos a resposta do primeiro e-mail. É algo sem fim. Se essa conectividade toda está cheia de pontos positivos (o que me permitiu falar com pessoas que estão em outros cantos do planeta para poder escrever esta reportagem, por exemplo), por outro lado, a gente ainda não sabe lidar com tanta informação, e aí vem um sentimento de estarmos um pouco desorientados. Tempos atrás tive uma conversa com o professor e ex-editor da revista de tecnologia Wired, o britânico David Baker. Eu disse a ele que sentia uma pressão para estar sempre conectada. Ele me respondeu: “Essa expectativa existe, mas questiono: quão rápido eu tenho que responder uma mensagem e quantas de nossas decisões são influenciadas pelo meio externo? Penso que ter um celular comigo o tempo todo me parece mais uma decisão cultural, e não guiada pela minha necessidade verdadeira”. Ele tem razão. Tudo bem respeitar o meu próprio tempo e não me sentir em débito com o mundo. David também sugeriu experimentarmos momentos de desconexão – que se transformam em uma outra conexão, consigo mesmo. “Essas horas fora das redes nos fazem pensar. Você fica longe do celular e pode descobrir parques incríveis, e até decidir ficar neles um pouco mais”, ele diz. Desfrutar de algum tempo com a natureza nos aproxima do nosso verdadeiro tempo. Muitos estudos têm demonstrado que ela desencadeia em nós reações fisiológicas que nos fazem relaxar e diminuir a velocidade. “Mesmo quando vivemos num mundo moderno, ainda somos criaturas da natureza”, observa Carl. “Ela nos lembra dos limites e da loucura da velocidade. Ela nunca está com pressa; ela faz tudo no ritmo certo.” Para vivenciar isso não é necessário se mudar para o campo: ela também está no espaço urbano. E a gente pode contemplar os ciclos de cada transformação, que não podem ser acelerados, como os belos ipês que desabrocham no inverno cinzento, ou o pôr do sol, que nunca pode ser adiantado. Mas desacelerar também requer um sopro de coragem: é desconstruir a ideia de que devagar é ruim, de que o lento é alguém que desiste, que é preguiçoso ou burro. Pode reparar: existe um certo glamour em dizer que estamos muito ocupados, que temos trabalhado demais e estamos sem tempo. “É como se passasse a ideia de que, por isso, somos mais importantes. Mas a gente pode resgatar o valor de que estar disponível é valioso”, sugere  Eleonora Nacif, professora das aulas Como Tomar Decisões Melhores e Como Aproveitar Seu Tempo Sozinho, na The School Of Life. Podemos, por exemplo, passar a chamar nosso tempo de “folga” apenas de tempo. Aos poucos vamos nos sentindo mais à vontade em desfrutar dos momentos de lazer, do cultivo às nossas paixões. Nesses momentos de pausa, também abrimos espaço para refletir sobre as nossas grandes questões e como temos vivido, algo que às vezes evitamos. Depois de um período, é bem possível que você prefira reduzir a jornada de trabalho a receber um aumento. 

 A casca inútil das horas
Mesmo nos nossos momentos de lazer podemos resistir à tentação de encher o dia de atividades. Há alguns anos, eu me deixei seduzir pela ideia de “produtividade” e quis dar cabo do Museu do Louvre, em Paris. Levei três tardes para percorrer boa parte de suas infinitas galerias e, no final, eu me sentia mais exausta do que encantada pela arte. Hoje, quando visito uma exposição, tento contemplar apenas algumas obras, sem as algemas do relógio e pelo tempo que meu olhar julgar necessário. Termino a visita muito mais enlevada. Por isso, é importante a gente saber que tudo bem não dar conta de tudo. “Aproveitar o tempo pode ter muito mais a ver com ficar satisfeito com suas escolhas, uma vez que não é possível fazer tudo sempre”, observa a psicóloga Luiza Maria Carneiro de Carvalho Leitão. Assim, é ser capaz de se contentar em assistir a uma série em detrimento das outras, já que ver todas vai ser impossível, ou evitar a maratona de ir a três compromissos num mesmo sábado. “Porque,  do contrário, não somos capazes de curtir nem o que escolhemos nem o que deixamos de lado. Ficamos sem nada”, complementa Luiza, que ao longo dos anos se deu conta de que ler com mais vagar, apreciando um bom livro, era muito mais prazeroso. Aos poucos, vamos nos acomodando na ideia de que, para viver bem, é preciso respeitar o nosso próprio tempo, que não é o mesmo do relógio, ou o das outras pessoas. Mario Quintana tem um poema lindo que diz: “Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...”. Porque, mesmo acelerando, a gente não vai viver o dobro. Botar reparo nos nossos dias e viver o presente, que é o nosso tempo, pode evitar que, no final, a nossa pressa tenha feito a vida passar como um borrão

18/01/2017 - 14:03

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Revista Vida Simples