Coragem para recomeçar

Entenda como construir, apesar do medo, uma nova história, a partir dos tropeços, da desesperança ou simplesmente pela vontade de mudar tudo de novo e de novo

Ana Holanda

É essencial entender que os fracassos e os recomeços fazem parte da vida de todos nós e que a gente sempre segue inteiro | <i>Crédito: Shutterstock
É essencial entender que os fracassos e os recomeços fazem parte da vida de todos nós e que a gente sempre segue inteiro | Crédito: Shutterstock

Era julho de 1999. Eu estava casada havia pouco mais de dois anos, de um relacionamento que já se estendia por quase uma década. Um dia ele chegou em casa, pediu para conversar e anunciou que tinha acabado. Ele já dava sinais de que algo não estava bem, mas eu não achava que era assim tão sério — tampouco que a insatisfação era com a nossa relação. E então ele se foi, sem muita conversa, sem me dar a chance de tentar entender por que tudo aquilo estava acontecendo. E eu, que acreditava tanto naquele amor, morri pela primeira vez, aos 27 anos. Os meses seguintes foram de escuridão. Havia momentos em que não sabia se conseguiria levantar da cama. Existia um buraco dentro de mim que eu não tinha ideia de como preencher ou como fazer para parar de doer. Poucas foram as pessoas com quem consegui chorar, expor a minha dor. Eu me sentia um fracasso — e era difícil falar sobre isso. Eu me fechava em casa. E isso, definitivamente, não me ajudava. Então comecei a me obrigar a sair. Eu respirava fundo e ia — e isso demandava uma boa dose de coragem. A dor ia comigo sempre, mas eu já havia me acostumado a ela. Percebi que, apesar dela, eu precisava seguir em frente. Seguir respirando fundo e seguindo em frente. Foi assim que eu também renasci pela primeira vez.
Ao longo desses quase 20 anos, eu morri mais algumas vezes e voltei a renascer outras tantas. Histórias (ou ciclos) que começam e se findam. Para esta reportagem, o objetivo é falar sobre o momento em que a gente está no fundo do poço existencial e não faz a menor ideia de como sair dali sem que alguém nos atire uma corda. Então... ninguém vai atirar essa corda. O primeiro movimento de saída é primordialmente nosso, porque, basicamente, a gente tem que querer sair dali — caso contrário talvez nem enxerguemos a tal da corda, da escada ou alguém que desceu lá embaixo para nos ajudar.
Muitos são os motivos que nos levam a recomeçar uma nova história, um novo ciclo. Eles podem ser mais profundos, como a morte de alguém querido, o fim de um relacionamento, uma demissão, uma falência. E podem ser mais rasos — mas não por isso menos importantes —, como a mudança de cidade, de país, de endereço, o pontapé inicial para um novo negócio, uma nova carreira ou profissão, ou até mesmo estilo de vida. Em todos eles existe o fim e o começo de algo. Então respire fundo, porque vamos percorrer esse caminho juntos.

Que sentimento é esse?
O mais difícil, no início, é lidar com o desconforto, esse sentimento estranho que surge dentro da gente, gerado pela mudança. Lutar contra isso é o primeiro passo para se encrencar. Algo aconteceu na sua vida e mudou tudo, não é mais como antes. Você sai da posição de “vida que segue” para “ei, onde estou, que lugar é esse?”. Aceitar, perceber o que você está sentindo é essencial — e talvez isso não seja lá muito fácil. É como deixar a poeira baixar para, dessa maneira, entender ou enxergar melhor o novo horizonte que surge logo ali, na sua frente. “Quando existe um recomeço é porque algo acabou, e tudo que termina exige de nós um trabalho de luto. Até as coisas ruins, quando acabam, deixam um rastro de perda, pois eram nosso modo de vida, nosso jeito de estar nela, e ainda desconhecemos o que virá”, explica delicadamente a psicanalista gaúcha Diana Corso, que assina também a coluna Em Análise, de vida simples.
A empresária americana Sheryl Sandberg fala muito bem sobre a dureza que é esse recomeçar e como a aceitação da perda é essencial. Sheryl é chefe de operações do Facebook e já foi considerada uma das mulheres mais influentes do mundo. Em 2015, ela e o marido, David, viajaram para comemorar os 50 anos de um amigo do casal. E, no meio da viagem, Sheryl o encontrou morto, no chão da academia do hotel. A morte repentina de David foi devastadora para a executiva. As certezas de antes já não cabiam mais. Os meses seguintes foram de escuridão para ela. E foi a partir da construção de uma nova história — agora sem o marido — que Sheryl escreveu um livro que trata sobre como se levantar e recomeçar, ou quando é preciso seguir um plano B, porque o A, literalmente, não existe mais: Plano B — Como Encarar Adversidades, Desenvolver Resiliência e Encontrar Felicidade (Fontanar), escrito em parceria com Adam Grant, psicólogo e amigo. “Todos temos que lidar com perdas: perda de um emprego, perda do amor, perda da vida. A questão não é se essas coisas vão acontecer. Elas vão, e precisamos encará-las. A resiliência vem do âmago, de dentro, e do apoio que recebemos, de fora. Vem da gratidão por aquilo que há de bom em nossa vida e vem da aceitação. Vem da análise de como processamos o luto e da simples vivência desse luto. Às vezes, estamos menos no controle do que imaginamos. Outras vezes, mais. Aprendi que, quando a vida te põe para baixo, você pode quicar no fundo do poço, voltar à superfície e respirar de novo”, escreve.
A boa notícia é que esse recomeço nunca é exatamente a partir do zero. Quando algo inesperado acontece, não nos esvaziamos completamente. Seguimos sendo quem somos, com nossos aprendizados, erros e acertos. Já temos uma história, que é nossa, que tem a ver com a pessoa que somos, e ela segue com a gente, independentemente das dificuldades que possam surgir. E é para isso que precisamos olhar com carinho. Você perde o emprego, o companheiro(a), o crédito do banco, mas segue com tudo o que acumulou dentro de si. A questão é que, quando estamos passando por momentos difíceis, a primeira armadilha em que caímos é a de deixar de acreditar em nós. Foi isso o que me explicou Diana Corso. “Mudar (ou recomeçar) não é zerar, renascer, é seguir em frente questionando os pactos nos quais havíamos nos acomodado anteriormente. Isto é o que há em comum em todas as mudanças: mesmo que a decisão seja seguir adiante mais leves, precisamos olhar para os pesos que vínhamos carregando para decidir o que e como descartar.”
Isso pode ser especialmente útil para quem passa por uma mudança profissional, foi demitido ou viu o negócio dos sonhos desmoronar (algo relativamente comum de acontecer). Como seguir em frente depois de errar?

Sobre erros e acertos
A skatista profissional Karen Jonz tem um TEDx do qual gosto muito: Que Bom Que Você Caiu, disponível no YouTube. Karen é tetracampeã mundial de skate vertical. No dia a dia da profissão, aprendeu que vai cair muito e vai errar na mesma proporção. Foi se machucando, muitas vezes bem feio, que entendeu o quanto cair é mais importante do que ficar em pé. Isso vale também para a vida. Coisas desagradáveis, reveses, vão acontecer. É inevitável. Você pode perder a promoção que tanto almejava, não passar no vestibular ou na seleção para o mestrado ou doutorado, levar um fora do namorado(a), não conseguir realizar aquela viagem que tanto planejou ou ter o carro roubado (que não tinha nem seguro). Ou seja, as quedas são inerentes à vida. Como seguir depois disso? Esse foi outro aprendizado, que Karen divide: cada um precisa saber o que o motiva a levantar. “Fiz um gráfico informal e percebi que, quando vou tentar uma manobra desafiadora, passo 89% do tempo caindo, 10% descansando e 1% acertando. Entendi que as coisas costumam acontecer quando a gente sai da nossa zona de conforto. É isso que gera a evolução e esse é o motivo para continuar. Assim, a minha motivação é buscar a evolução e ser melhor do que fui ontem. Isso faz com que eu aprenda com meus erros e me ajuda a me abrir para as pessoas (ou situações) que têm algo para me ensinar”, diz Jonz. E continua: “Ser melhor num esporte predominantemente masculino poderia ser uma limitação, mas essa é a minha força. As pessoas vivem me perguntando se eu não tenho medo. É óbvio que eu tenho, eu não sou louca. Só que não fico pensando no medo, e então toda vez que coloco meu pé no skate não fico pensando se vou cair. Penso que vou ficar em cima, que vou acertar. Aprendi com cada erro e percebi que, cada vez que errava, estava mais perto do acerto”, ressalta. 
A skatista Karen Jonz aprendeu com o esporte algo essencial para a vida de todos nós, ou melhor, para os tombos e nossas tentativas de começar de novo e de novo: nada dura para sempre. Esse desconforto, essa dor, sensação de perda ou inadequação um dia vai passar. Centenas de estudos já demonstraram que as pessoas se recuperam mais rapidamente quando se dão conta de que as dificuldades não são totalmente culpa delas, não afetam todo e qualquer aspecto da vida, nem vão acompanhá-las por toda parte para sempre. Reconhecer que os acontecimentos negativos não são pessoais ou permanentes as torna menos propensas a ter depressão e mais capazes de suportar as adversidades.
Monja Coen, do zen-budismo, costuma dizer isso com a suavidade que sua fala sempre gera na gente: “Sair da nossa área de conforto nos modifica, a meditação faz isso. Ela nos provoca, não é para ser confortável e gostosa. Mas o final é bom. Ou seja, a travessia pode ser desagradável porque ela toca em aspectos nossos que não conhecemos nem queremos olhar. Tiram da estabilidade. Mas, depois, você se recupera e volta à essência do seu ser”.

Sobre se expor
Os recomeços são também marcados pela vergonha, pela fragilidade e pelo receio de se mostrar nesse momento delicado. Pior, o silêncio pode trazer isolamento, criar um abismo entre você, o mundo e as pessoas que o amam e lhe querem bem (ou vê-lo bem). É importante saber que se sentir dessa maneira é comum, como me explicou a coach e especialista em comunicação não violenta Carolina Nalon: todo recomeço tem a ver com vergonha. “Tentamos esconder algo porque não sabemos lidar com aquilo. Então a gente não fala, e o outro também não”, comenta. São aquelas fases em que você está se sentindo destruído por dentro, como se houvesse um rombo no peito ou uma pedra presa no pé. Você encontra um colega de trabalho, um vizinho próximo, um amigo ou parente e ele lhe pergunta: “Como você está?”. E, então, você simplesmente responde: “Está tudo bem”. Não, não está tudo bem. Mas a gente prefere não tocar no assunto para não voltar a doer, para não se expor... 
O antídoto para isso, acredite, é a compaixão. É ela que nos lembra que a dor, a derrota, os fracassos, os desesperos existem na vida de todos. “O sofrimento é o que nos iguala”, sentencia Carolina Nalon. Para quem está próximo de alguém que está passando por uma fase mais dura, Carolina recomenda substituir a pergunta “Você está bem?” por “Como você está lidando com isso?” ou “Eu sei o que está acontecendo. Você quer conversar sobre isso ou quer falar sobre outro assunto para dar um tempo?”. Mais uma sugestão é escolher algumas pessoas ou procurar um terapeuta para ter essas conversas nas quais você se sente mais exposto. Mas nunca deixar de falar, trocar, ouvir e ser ouvido.

Coragem!
Por fim, é importante saber que, para sair desse lugar em que você se encontra e seguir em frente para recomeçar, é preciso ter coragem. A palavra coragem vem do latim coraticum e significa agir com o coração. Então ter coragem é agir de acordo com o que se sente verdadeiramente. Recomeços demandam isso porque você precisa acreditar em si mesmo, na sua capacidade de seguir em frente, na sua força e em tudo de bom que traz dentro de si. Coragem não é ausência de medo, mas conseguir agir apesar do medo.
A psicanalista Diana Corso me contou algo lindo sobre a coragem. Eu estava na dúvida se essa era uma boa palavra para estar ao lado de “recomeço”. E ela me disse o seguinte: “Somos covardes mesmo para reconhecer o que já estávamos desejando, aquilo que já entrevíamos, que já vínhamos até nos ensaiando, mas não tínhamos percebido que tomaria um volume tão grande, a ponto de ser o novo rumo. Quando mudamos não só não partimos do zero como tampouco nos encaminhamos para um desconhecido total: sempre é algo que sem saber já queríamos, muito mais do que estávamos em condições de admitir”. E segue: “Mudar é perceber que o tempo de um desejo já chegou, que ele agora pode ser realizado. E é preciso ter coragem, sim, para assumir nossos desejos, é do que nos acovardamos mais. É uma boa palavra, pois as verdades inconscientes, do que queremos sem admitir, são o mais próximo que temos de um coração, no sentido de um cerne de cada um de nós”, finaliza ela.
Não satisfeita, ainda fui buscar com um poeta um sentido mais sutil para a coragem de recomeçar. Foi assim que terminei minha última conversa antes de escrever este texto. Falei com o poeta, escritor e amigo Zack Magiezi, autor dos livros Nota Sobre Ela e Estranherismo, ambos da editora Bertrand Brasil, e um sucesso nas redes sociais com suas poesias que falam muito em poucas linhas. Ele me respondeu em forma de poesia, claro. E compartilho com você: “O que é ter coragem? / É possível adquirir coragem? / Será que uma pessoa medrosa pode acordar corajosa? / Acho que todos nós somos corajosos / Se olharmos para trás / Se enxergarmos a nossa história / Existe dor, derrota, choro e grito / Mas coragem é isso / É saber que tudo isso pode ficar para trás / Coragem é o passo seguinte / Coragem é apenas movimento / Caminhe / Recomece / Descubra um novo caminho dentro do caminho / Recomece / Entenda que o passado quer se tornar passado / Recomece / Coloque o corpo e a alma dentro do infinito chamado ‘Hoje’ / Recomece / Jamais esqueça o passado, mas não dê o seu desejo para ele / Recomece / Avance pelos capítulos da sua história, mas saiba que ela está dentro do mesmo livro / Seu livro / Sua existência / Talvez recomeçar seja apenas ter a coragem de acompanhar os passos do tempo”.
Então recomece, com coragem. Construa a nova história que está pedindo para nascer. Olhe para cima, há luz. Respire fundo, renasça... 

25/04/2018 - 12:28

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Revista Vida Simples