De bem com o trabalho

Encontrar a felicidade e a satisfação no que você faz é essencial para uma vida mais plena – mesmo fora do escritório

Priscilla Santos

De bem com o trabalho | <i>Crédito: Vida Simples Digital
De bem com o trabalho | Crédito: Vida Simples Digital
“Você é feliz?” Para responder a essa pergunta, em geral, as pessoas fazem uma breve revisão de como anda sua vida amorosa e no trabalho. Isso porque, querendo ou não, tanto as relações afetivas quanto as escolhas profissionais são importantes para a nossa satisfação, bem-estar e, consequentemente, felicidade. Mas como fazer isso em tempos em que tudo exige intensidade – você precisa ser o melhor profissional, mas também o melhor pai e companheiro do mundo? Talvez a resposta não se resuma a conciliar amor e trabalho, mas, quem sabe, encontrar um ponto onde esses universos se encontrem e tudo possa conviver em harmonia. E é esse o caminho que vamos percorrer aqui para que você faça as pazes com seu trabalho ou, simplesmente, descubra que talvez esteja na hora de mudar de rota. “Amar é construir uma história com alguém. Trabalhar, no melhor sentido, também é uma forma de realização”, resume o psicanalista Pedro de Santi, coordenador do departamento de humanidades e direito na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e professor do curso Amar e Trabalhar: Ontem e Hoje, na Casa do Saber, em São Paulo. A certa altura de um discurso para alunos na Universidade de Stanford, nos EUA, em 2005, Steve Jobs afirmou: “A única maneira de produzir um excelente trabalho é amar o que faz. Se você ainda não encontrou o que ama, continue procurando, não se acomode”. No YouTube, o vídeo com a fala já foi visto mais de 20 milhões de vezes. O sucesso mostra como a ideia de fazer o que se gosta virou um mantra de nossos tempos. Não por menos. “O trabalho permite que eu expresse minha subjetividade, e, ao mesmo tempo, a constrói. É um jogo”, afirma o psicólogo Mario de Souza Costa, professor do módulo Subjetividade e Trabalho: A Centralidade do Trabalho na Vida Humana, no Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo. Tome como exemplo um escultor. Ele é constituído pela escultura que faz, uma vez que passa a conhecer a pedra ou o metal que usa, sabe o cheiro, a maleabilidade, as cores, a textura. Esse conhecimento passa a fazer parte de quem ele é. Ao mesmo tempo, a escultura expressa seu eu interior. “É um movimento de dentro para fora e de fora para dentro”, diz Mario. Esse fluxo é constante. Estamos o tempo inteiro nos moldando, trocando informações e sentimentos com o mundo. Perceber e respeitar essa dança é um dos caminhos para nos sentirmos plenos. Pois o que faz sentido para mim hoje pode mudar amanhã, mesmo que não seja de maneira consciente. A cabeleireira e maquiadora mineira Cássia Perocco era estudante de design gráfico quando foi passar uma temporada em Londres. Ela precisava de dinheiro para se bancar por lá e arranjou um emprego de assistente em um salão de beleza. Vivendo naquele universo, acabou sendo relacionada a ele. Amigos e amigos de amigos começaram a lhe pedir que cortasse seus cabelos. Ela fazia por diversão, sem cobrar. De volta ao Brasil, continuou com o hobby. Depois de um tempo, pessoas que ela não conhecia começaram a solicitar o serviço, e ela decidiu, então, fazer um curso profissionalizante, mas sem pretensão de que aquilo virasse seu trabalho. Ela terminou a faculdade de design e arrumou um bom emprego na área. E, quando alguém a procurava pedindo para cortar o cabelo, ela dizia: “Não, agora me formei, acabou a brincadeira”. Mas, um ano depois, Cássia pediu demissão e voltou às tesouras. Hoje, ela faz editoriais de moda e publicidade, além de atender em uma charmosa salinha em uma casa antiga no bairro da Serra, em Belo Horizonte. Em paralelo, já está concluindo a terceira faculdade, artes plásticas. “A busca é eterna. A coisa está em movimento, não pode parar”, diz ela, que todas as segundas-feiras frequenta um curso de cerâmica. “Não pretendo me aposentar nunca", diz.

 O que você deseja?
Trabalhar com algo que nos expresse e nos traga realização, para Pedro de Santi, seria o crime perfeito. É quando se tem para oferecer ao mundo exatamente aquilo que ele quer. “É uma negociação. Eu tenho meus valores, fantasias e necessidades financeiras e encontro no mundo um lugar onde isso é reconhecido e contribui para a sociedade”, observa. O que nada tem a ver com prestar atenção nas demandas do mercado, mas sim com perceber o que há em você que pode ser útil lá fora – e se realizar dessa forma O psicanalista francês Jacques Lacan tinha um chiste especial para isso: “Tens insônia, vá ser guarda noturno”. Em geral, quando se fala que se tem insônia, a reação das pessoas é: “Precisa curar, dormir é imprescindível”. Para o senso comum esse, aliás, seria o objetivo de uma terapia: corrigir um comportamento inadequado. Mas a ideia não é se adaptar – no caso, dormir como todos dormem –, e sim achar um lugar em que essa sua característica seja útil. De Santi usa seu próprio exemplo, de uma pessoa que gosta de ler e falar muito e se tornou professor. Se o desejo for ser mãe e ficar em casa cuidando da cria, também vale. Acredite, daí pode sair algo válido não só para sua família.Estéfi Machado trabalhava em uma ONG quando descobriu a gravidez. Isso foi há oito anos. O filho Teo nasceu e ela decidiu cuidar dele em tempo integral. Até tentou voltar ao mercado formal de trabalho quando o menino completou 1 ano, mas não deu certo. Estéfi passou a fazer freelances de design gráfico, ilustração, cenografia, com a criança aos pés enquanto ela estava no computador. “Comecei a colocar as coisas do meu universo na mão dele para ele brincar.” Ela dava papel, lápis, cola e tesoura para Teo e, assim, juntos, começaram a fazer brinquedos artesanais, como castelos e robôs. Depois de um tempo, Estéfi passou a compartilhar as brincadeiras em redes sociais e num blog que criou para isso. Foi um sucesso e logo passou a ser chamada para criar suas traquitanas para comerciais de marcas. E a brincadeira com o filho virou ofício. “Nunca ganhei tão bem e nunca fui tão feliz”, comenta. É a integração entre família e ofício levada ao limite de proximidade, e também de sucesso. Mas nem sempre isso é possível. E ainda é privilégio de poucos.

 Labuta em alta

O discurso de formatura de Steve Jobs pode ter ganhado um concorrente: em maio deste ano, Ben Horowitz, cofundador de uma investidora do Vale do Silício, também falou aos graduandos, desta vez da Universidade de Columbia. Logo avisou que seria um discurso pouco convencional, e então disse: “Não siga suas paixões. Primeiro, porque é difícil priorizá-las, depois, porque elas mudam ao longo do tempo e, por fim, porque você pode amar uma coisa, mas simplesmente não ser bom naquilo”. A dica de Horowitz é que você encontre o que faz bem e invista nisso. E ele argumenta que tendemos a gostar daquilo que nos torna bem-sucedidos. Na prática, a maior parte das pessoas arranja emprego onde dá, no que consegue, e não necessariamente é um desafortunado por isso. Em sua pesquisa para o livro Os Prazeres e Desprazeres do Trabalho (Rocco), o filósofo suíço Alain de Botton diz que a coisa mais estranha que encontrou foi a tão disseminada expectativa de que o trabalho deveria nos fazer felizes. “Por milhares de anos, ele foi visto como algo a ser feito o mais rápido possível, e o escape da imaginação viria pelo álcool ou pela religião”, escreveu. Aristóteles foi o primeiro de muitos filósofos a afirmar que ninguém poderia ser livre e ao mesmo tempo obrigado a ganhar o próprio pão. No século 18, Rousseau e Benjamin Franklin esboçaram a ideia de felicidade através do trabalho, mas foi só em nossa era que o pensamento tomou corpo – junto com uma nova noção de amor e casamento. Antes, o casamento era visto como um compromisso comercial ou um acordo entre famílias, e amor era assunto dos homens (especialmente) com as amantes. É relativamente recente a ideia de se casar por amor – assim como a de amar o que se faz profissionalmente. “Somos herdeiros dessas duas crenças ambiciosas: a de que você pode estar apaixonado e casado e a de que pode ter prazer no emprego”, escreveu De Botton, criador também de The School of Life, escola de cursos livres para ajudar as pessoas a viverem melhor. A filial brasileira da escola, em São Paulo, oferece uma aula sobre como alcançar seus potenciais. Muitas das pessoas que chegam lá querem mudar de profissão. Mas também há aquelas que se perguntam se seria tão ruim não amar o trabalho, mas ser feliz em outra área da vida. “A expectativa que se coloca na escolha profissional ficou muito elevada. Hoje não é suficiente só amar o que faz, você tem que nutrir boas relações e gerar impacto na sociedade. Não vale mais o cientista trancado no laboratório, adorando o que está fazendo, se ele não está conectado com o todo. Isso acabou virando um mito e gera muita angústia”, diz Mônica Barroso, professora do curso. “Até que ponto isso é uma verdade absoluta?”, questiona. Ok, tanto o amor quanto o trabalho são partes fundamentais de nossa felicidade. Porém, estamos em uma era de supervalorização de nosso lado profissional e, assim, da busca de nossa satisfação por meio dele. “Estamos nos tornando cada vez mais faber (trabalho)”, afirma a psicóloga Dulcinea da Mata Ribeiro Monteiro, analista junguiana e autora de livros na área. “Porém, para nos realizarmos, precisamos integrar a dimensão amorosa – família, casal, amigos – que, na modernidade, está sendo cada vez mais relegada ao segundo plano”, diz. O mercado é moldado pela lógica do lucro e da produtividade, o que tornou mais difícil conciliar casa e trabalho. “São dois desafios: construir relações afetivas importantes, de família, companheiro, filho, e se realizar profissionalmente”, diz De Santi. Mas, na verdade, uma coisa pode aliviar a outra. A existência dos dois aspectos na vida ajuda você a se sentir menos preso a ser só pai ou a só trabalhar, por exemplo. “O importante é achar o balanço”, afirma. E isso nem sempre quer dizer meio a meio. Há pessoas que serão felizes só cuidando dos filhos em casa ou trabalhando em algo burocrático das 9h às 18h, pois gostam dessa rotina. Outras, transformando um hobby em profissão. E há aquelas que irão por um modelo híbrido: um trabalho digno, mas que não as realize e, em contrapartida, dê tempo para investir em viagens ou ficar com a família. O que vale é ir atrás de suas verdadeiras vontades.

 A semente que germina


 As fotos feitas pela irlandesa Katie Quinn Davies exalam cheiro de delícias, de muffins saindo do forno, quitutes de lamber os dedos. Ela parece ter nascido na cozinha, certo? Nada disso. Katie só começou a se arriscar com as panelas aos 33 anos. Antes, passou uma década trabalhando como diretora de arte. Em seu livro Quando Katie Cozinha (Panelinha), ela conta que, no final da carreira no design, já se arrastava para ir trabalhar. Queria mudar, mas não sabia o que fazer. Foi com a morte da mãe que ela resolveu parar tudo. Começou a fazer cupcakes e macarrons, mas nem sempre seus experimentos davam certo. Até que um dia teve um lampejo: tinha cursado um pouco de fotografia na faculdade e adorado, já havia acompanhado diversas sessões de fotos como diretora de arte e amava o universo da cozinha – apesar de não dominá-lo tão bem. Pronto: tornaria-se produtora e fotógrafa de comida. Katie passou por uma metamorfose: em sua mudança de ofício, não abandonou tudo o que era, mas juntou sua experiência anterior com sua adoração pela comida para se recriar em uma fotógrafa das delícias. “São talentos que se expandem”, diz Rita Monte, coaching e criadora do Programa de Expressão de Potenciais (PEP). “O talento é uma das manifestações de potenciais, é aquilo que você faz com brilho e as pessoas reconhecem, já está expresso. O potencial, como diz o nome, está na potência, mas já dentro de você”, diz Rita. Para ela, esse ambiente que permite que os potenciais se desenvolvam tem a ver com observar os sinais, como um incômodo com o trabalho atual. Também é preciso respeitar o tempo de maturação. “Você tem que confiar que alguma coisa está acontecendo dentro de você e dar um tempo. Pausa também é movimento”, diz.

Isso não quer dizer necessariamente largar tudo. Algumas vezes significa aquele sentimento de limbo, aquela angústia de que você já não está satisfeito, mas ainda não sabe o que fazer. Isso é parte do caminho. “Não é um processo fluido, existe até uma dor, e várias resistências. Não é fácil bancar o que se está vindo a ser”, diz Rita. Um exercício que Mônica Barroso propõe é você listar as pessoas que considera bem-sucedidas e, depois, questionar se elas realmente representam seus valores. Steve Jobs foi um gênio inovador, mas você gostaria de dedicar tanto sua vida ao trabalho, ou seu ídolo foi mesmo sua avó, que conseguiu cuidar da casa e criar dez filhos, uma verdadeira guerreira? Outra ideia é fazer um anúncio de emprego ao contrário. Em vez de olhar nos classificados a vaga em que você se encaixa, quais são suas habilidades e exigênciaspara um trabalho? Sou muito bom de falar em público, mas me nego a cumprir expediente nos finais de semana? É você encontrar no mundo o lugar para quem é você, em vez de simplesmente submeter-se a ele. Nessa busca é preciso lembrar, acima de tudo, que não nos resumimos ao trabalho, e que ele não é nossa única fonte de realização. O amor é tão fundamental quanto. E, para além do dueto amar e trabalhar, existem tantas outras facetas que nos definem e podem nos dar prazer. Também somos leitores, viajantes, cozinheiros, confidentes. Agora, como disse De Santi: “Em algum lugar você tem que ser feliz”. O bom é que o mundo está cheio deles.

Priscilla Santos teve a ideia de escrever esse texto enquanto pensava em como retomar o trabalho depois de conhecer o amor de sua vida, sua filha.  

06/10/2015 - 18:00

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