Encontre seu silêncio

Cada um precisa descobrir onde mora a sua quietude. E, acredite, muitas vezes isso não tem necessariamente a ver com a ausência de som, mas com o que reside dentro da gente

Bruna Próspero

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Era uma semana turbulEnta e de muito barulho quando me inscrevi para participar de um “retiro de silêncio”. A algazarra vinha das buzinas que teimavam em gritar durante meu trajeto até o trabalho, dos carros com som alto e de alguns vendedores ambulantes. Tudo isso me atormentava, mas o ruído principal era o interno sobre o que eu deveria fazer para passar o tempo no feriado que se aproximava. Pois é, dependendo do alvoroço em que nos colocamos, até um feriado pode ser motivo para desespero, indecisão e gritaria mental. Praia? Serra? Aproveitar para finalizar o trabalho pendente? Ficar em casa? Acompanhada? Sozinha? Conhecer um lugar novo? Ou voltar para um lugar que já havia gostado? Até que me deparei com um texto do Rabino Nilton Bonder e uma frase me chamou atenção: “Os domingos precisam de um feriado”. No caso, minha mente era que necessitava de uma pausa. Suspeito que o burburinho mental seja o mais difícil de calar e, cá entre nós, muitas vezes nem nos damos conta de quanta energia desperdiçamos ao tagarelar mentalmente. A psicóloga e criadora do Portal Despertar, Flavia Melissa, 
sugere que façamos um exercício para entender toda essa energia que subutilizamos quando insistimos em dar atenção à orquestra de perguntas e pensamentos dentro da nossa cabeça: “Pegue um gravador e durante dois minutos grave tudo que esteja passando pelos seus pensamentos naquele momento”. Talvez você, assim como eu, perceba que o maior incômodo não vem das buzinas alheias, mas da barulheira interna. Flavia explica que para o taoísmo, filosofia milenar chinesa, tudo que passa pela mente faz parte do chi, como chamam a energia vital. Ou seja, quando deixamos que os pensamentos nos dominem de forma desenfreada, estamos gastando essa carga desnecessariamente. Além do desperdício de vivacidade, o texto do rabino Nilton Bonder me alertou para a minha tentativa de preencher meu ócio com algo e como, atualmente, vivemos em busca de entretenimento para os nossos “domingos livres” – o que, paradoxalmente, nos sobrecarrega com mais barulhos. Percebi que estava na hora de parar de tentar só conhecer lugares novos – bairros, cidades, países – e olhar para dentro. O convite para ficar em silêncio absoluto me fisgou. 

Auto-observação
Ficar em silêncio absoluto pode assustar. Confesso que me senti assim. Não me enxergava rodeada de gente sem poder trocar uma palavra ou olhar. Mas, no retiro, aprendi que o silêncio (aquele que eu tanto procurava) morava dentro de mim. O tema é tão relevante que o escritor alemão Eckhart Tolle escreveu um livro só para falar sobre isso, O Poder do Silêncio (Sextante). O título já nos faz pensar que a quietude pode realmente nos revelar muitas coisas poderosas. Em uma das passagens, o autor menciona o tédio e a ansiedade que podem surgir durante momentos de remanso. Esses, inclusive, são um dos maiores medos de quem se propõe a experimentar o silêncio por um longo período. Para Tolle, a alternativa é aceitar as sensações e os desejos que surgem e observar como você está 
se sentindo em relação a isso. Ainda segundo ele, a primeira reação que temos quando sentimos tédio é procurar algo para nos preencher, seja ler, fazer um telefonema, navegar pela internet, seja ir ao shopping. No entanto, quando escolhemos observar esses incômodos, percebemos que “não somos pessoas entediadas, e sim que o tédio é simplesmente um movimento de energia condicionada dentro de nós”. A questão é que hoje estamos permitindo que o barulho do mundo exterior emudeça o som do mundo interior. Além disso, quanto menos silenciamos, maior é a tendência de agirmos no piloto automático. Para a psicóloga Flavia Melissa, o silêncio muitas vezes tem mais a ver com o ato de não reagirmos com imediatismo do que simplesmente nos calarmos. “Durante a aquietação interna, conseguimos olhar para uma determinada situação como um observador atento da gente mesmo e, assim, percebemos como estamos verdadeiramente nos sentindo e temos a capacidade e a lucidez de escolher como agir.” Percebi que, através da minha experiência no retiro, pude experimentar exatamente essas sensações. Em muitos momentos em que pensava estar com fome ou com vontade de ler alguma coisa, na verdade isso tudo eram formas de preencher o tédio. Mas, em vez de responder de forma imediata, ao me aquietar e me ouvir de verdade, sem imediatismo, tive a oportunidade de perceber o que era real ou não. 

Na prática
 É comum encontrarmos o tal do silêncio quando entramos em um estúdio de ioga, visitamos um templo budista, indiano, uma igreja ou, claro, durante um retiro. Porém, como encontrar o silêncio em meio ao caos de uma cidade grande? O mestre espiritual Sri Prem Baba sugere que façamos apenas um minuto de silêncio, durante cinco momentos em nosso dia. Podemos considerar ao acordar, antes de iniciar uma refeição, antes de responder um e-mail, após um exercício físico e antes de deitar, por exemplo. Cinco minutos, dentro dos 1.440 minutos que temos em um dia inteiro, podem parecer nada, mas quem adotou a prática sente a diferença – e tem gente que já estendeu o “um minuto” para “muitas horas de silêncio”. É o caso da fisioterapeuta Milena Guimarães, que, após uma viagem à Índia, percebeu como encontrar momentos de interiorização mesmo em meio ao caos de um grande hospital. “Percebi que no Ocidente desperdiçamos muita energia ao nos expressarmos a todo momento”, reconhece. Para ela, o mais evidente, por exemplo, está no silêncio que não fazemos durante as refeições. Desde então, o seu tempo de almoço não é mais para conversar com os colegas de trabalho e desabafar, mas sim para apreciar o alimento. Além disso, antes de entrar no hospital, ela também tira 15 minutos para meditar e instituiu que um domingo por mês é o dia do silêncio dela. Mas não é só aos domingos que conseguimos silenciar o batuque mental (ufa!). Momentos de interiorização estão cada vez mais 
comuns em ambientes corporativos. Muitas empresas estão implementando medidas que ajudam as pessoas a manter o foco no presente, incentivam momentos de silêncio e práticas para olhar para dentro. Natasha Bontempi é uma das responsáveis por essa mudança na multinacional IBM, onde trabalha. Movida por sua busca pessoal, fez, de forma voluntária, um programa de mindfulness dentro da companhia. Em uma das sessões, os participantes são convidados, por exemplo, a permanecer em silêncio durante seis horas e, segundo Natasha, “muitos deles se surpreendem ao perceber como essa simples mudança traz um alívio na rotina e que nem é tão difícil assim”.

 Silêncio não é tudo igual
É importante entendermos que, assim como o meu processo durante o retiro foi diferente daquele experimentado pelos participantes que estavam ali, os nossos silêncios também não são iguais. Cada um vai perceber o silêncio da sua maneira; afinal, se os barulhos que nos atormentam são variados, por que nossa quietude seria a mesma? Na busca pelo meu próprio silêncio, me lembrei das vezes em que mergulhei com cilindro de ar. A experiência de estar dentro do mar durante horas talvez tenha sido o momento mais silencioso que já presenciei. Ali, o foco na respiração fica mais evidente. Você, os peixes, os corais e a corrente marítima, é isso que te leva para um lado e para o outro. O mar também serve como refúgio para Felipe Roselli, professor de ioga e terapeuta que utiliza o surfe como caminho para o autoconhecimento. “Existem técnicas que nos ajudam a acessar esse silêncio na ioga, mas também existe o caminho da espontaneidade. Sinto que, quando começamos a aceitar ser o que somos e a fazer coisas que realmente amamos, também acessamos esse estado que o silêncio nos permite.” Para ele, surfar passou a ser o instante em que consegue estar presente e aberto para fluir com o que cada onda pode lhe apresentar, sem tentativas de previsões. “Cada uma, inevitavelmente, vai quebrar de um jeito único”, diz. Mas alerta que a mágica só acontece quando está presente e sem expectativas: “Já surfei muito querendo mostrar algo para alguém, me provar alguma coisa, tentar prever o que iria acontecer, mas aí o silêncio não aparece”. Mas não é só perto do mar ou mesmo da natureza que o silêncio existe. O escritor Eckhart Tolle aborda isso muito bem. “Qualquer barulho perturbador pode ser tão útil quanto o silêncio. De que forma? Abolindo a sua resistência interior ao barulho, deixando-o ser como é”, escreve. Se ficarmos presos à ilusão de que o silêncio só pode ser atingido em uma imagem clichê de um monge sentado no Himalaia, pensaremos que essa realidade está muito distante. A verdade é que o silêncio também pode ser sentido ao ouvir a gargalhada causada pelas cócegas que faz nos seus filhos ou depois de uma escalada em uma montanha. Podemos encontrá-lo também no som do suspiro ao terminarmos uma carta para uma pessoa querida. É como coloca Dan Pedersen, autor do livro What Does Silence Sound Like? (Como É Que Soa o Silêncio?, em tradução livre): “Não é fácil colocar essa ideia em palavras, temos que descobrir essas coisas para nós mesmos. Temos de dar espaço para o nosso próprio silêncio”. Retiros e dinâmicas em grupo em que a prática é exaltada nos ajudam a tomar consciência desse espaço, mas mais importante ainda é encontrarmos o silêncio que existe dentro de nós mesmos, seja qual for a rotina que tivermos. Desconfio que, quando encontramos o que nos faz sentir essa sensação de quietude e colocamos isso em nosso dia a dia, até o barulho das buzinas e da feira perto de casa passa a nos incomodar menos, bem menos.

BRUNA PRÓSPERO encontrou seu silêncio no mergulho, na ioga e também enquanto escreve.

11/10/2017 - 14:25

Conecte-se

Revista Vida Simples