Faça boas escolhas

Um passo a passo para você enfrentar seus medos e finalmente tomar uma decisão que está há tempos martelando sua cabeça com sabedoria, segurança e coragem

Liane Alves

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Aconteceu quando eu tinha 13 anos. Era a primeira vez que pisava em Nova York (EUA) e estava doida para conhecer a cidade. Após o café da manhã no hotel, meu pai, um experiente viajante, me deu um mapa de lá, explicou como eu poderia me achar nas ruas identificadas por números, assinalou os pontos turísticos que poderiam interessar uma menina ajuizada como eu (a Biblioteca Pública, o Museu de Arte Moderna, o Central Park) e combinou de nos encontrarmos ali mesmo no saguão de entrada quatro horas mais tarde. Olhou bem dentro dos meus olhos e pediu que eu não me esquecesse dos seus dois mantras preferidos: “O mundo é meu quintal” e “Sempre há uma solução para tudo, menos para a morte”. Dessa maneira, assim como nas iniciações indígenas, meu pai me colocou pela primeira vez sozinha diante da multiplicidade de escolhas da vida adulta. Gelei. Não imaginava ter de circular sozinha por aquela metrópole desconhecida que me oferecia tantas alternativas e riscos. Sem me dar tempo para reagir, ele se despediu. Ainda trêmula e hesitante, procurei a atração mais próxima e entrei no momA, o Museu de Arte Moderna de  Nova York. Parei estatelada diante da força e beleza de Guernica, a tela de (Pablo)Picasso em tons de cinza, preto e branco que imortalizou os horrores de um ataque aéreo durante a guerra civil espanhola. Olhei os personagens um a um e me identifiquei com um cavalo em estado de choque diante do barulho das bombas. Naquele momento, ele era eu: totalmente em pânico. Mas, aos poucos, entre os móbiles flutuantes do escultor Alexander Calder e as cores vibrantes dos quadros de (Piet) Mondrian, comecei a relaxar. Mais calma, me lembro de ter decidido conscientemente que daquele momento em diante eu não iria ter mais medo. Tudo continuava igual, mas eu tinha conseguido virar o dial. Respirei fundo e tentei encontrar coragem e força no coração e seguir adiante para explorar outros caminhos da cidade. Me espreguicei sob o sol num banco do Central Park. Entrei na Igreja de St. Patrick e rezei. Comi a mais saborosa torta de cerejas da minha vida e não tive receio de pedir informações para desconhecidos. Como me senti viva, confiante e feliz! O que eu não sabia, até aquele momento, era que, de longe, meu pai me acompanhava a cada passo.
Não sei se você, um dia, também morreu de medo ao se deparar com decisões difíceis que, muitas vezes, têm de ser tomadas na mais completa solidão e no meio de muito temor. Mas, se isso já aconteceu, bem-vindo ao mundo. Porque não há ser humano que não tenha passado por uma escolha decisiva sem tremer nas bases. Então começamos este texto na mesma condição, pois, como você, eu também desejava ter mais consciência do que fazer e como agir diante de uma encruzilhada. Confesso que aprendi demais com as revelações, muitas delas surpreendentes, que autores, pesquisadores e entrevistados fizeram nesta reportagem com relação a isso. Se eu tivesse essas informações antes, tenho certeza de que elas me ajudariam a escolher melhor e com mais segurança durante a vida. Espero sinceramente que aconteça o mesmo com você. 

O caso das seis geleias 
Sheena Iyengar, uma jovem americana que ainda cursava o colegial na década de 1980, era absolutamente fascinada por uma loja de produtos gourmet que existia perto de sua casa. Só de tipos de geleia havia mais de 350. Mostardas, 100. Azeites, 70. “Eles tinham mais de duas dúzias de diferentes rótulos de água mineral num tempo em que a gente ainda costumava tomar água de torneira”, conta ela com bom humor numa palestra do TED, evento que reúne pessoas com boas ideias e soluções para transformar o mundo. Observadora, ela começou a se perguntar por que jamais conseguia comprar nada por ali, mesmo que estivesse com fome? Não era só falta de dinheiro, pois, apesar de ser estudante e não ter muitos recursos, sempre poderia comprar um chiclete, um chocolate, uma fruta. Sheena intuiu a resposta do enigma, mas queria a confirmação. Então propôs uma experiência para o gerente do lugar, que resolveu aceitar o desafio. Ela montou duas banquinhas nos corredores do estabelecimento: uma com seis tipos de geleia, e outra com 24 diferentes sabores, para que as pessoas pudessem experimentar os produtos. Claro, a banca com o maior número de opções foi de longe a mais concorrida, com 60% do total de visitas. Esperta, ela comparou  em seguida os índices de venda. Na banca maior, houve apenas 3% de vendas, enquanto no estande com apenas seis geleias, a marca atingiu os 30%. Ou seja, quanto mais simples a escolha, mais fácil ficava comparar e comprar. Por isso ela saía com fome da loja e não conseguia levar nada: havia escolhas demais. Nesse célebre experimento de marketing (Sheena se especializou depois em psicologia e economia e ficou famosa nessas duas áreas) ficou provado algo fundamental com relação a escolhas: o excesso de alternativas nos deixa paralisado. Não conseguimos identificar o que é melhor, pois as diferenças são tão pequenas e equivalentes que nos perdemos com relação aos critérios de seleção. E esse bloqueio acontece seja com relação a geleias, seja com qualquer coisa na vida. O excesso de alternativas nos confunde e nos deixa indecisos. Então preferimos não escolher, não agir ou tomar qualquer decisão. E, mesmo quando optamos por comprar ou fazer algo, teremos um baixo comprometimento com nossa opção, porque iremos desconfiar dela, já que não temos certeza de nossa capacidade real de selecionar bem. Ficamos com um medo eterno de termos sido enganados ou, pior, iludidos. Acontece que vivemos num mundo saturado de milhares de alternativas. É só navegar na internet para nos darmos conta disso ou, então, ligar a televisão. Num instante, nos são oferecidas variadas escolhas: para onde ir, o que fazer, usar ou consumir. Com esse exagero, nos tornamos volúveis, inseguros com relação às nossas opções, exigentes e intolerantes com aquilo que escolhemos e sujeitos a reclamar de tudo o que nos foi oferecido. Além disso, em nenhum momento nos foi ensinado como selecionar com mais sabedoria e segurança, porque até recentemente esse não era um grande problema: tínhamos poucas alternativas com relação a tudo e nos satisfazíamos com muito menos. Hoje vivemos um paradoxo: sempre acreditamos que a liberdade de escolher entre muitas alternativas deveria nos levar a fazer melhores escolhas e nos deixar mais satisfeitos e felizes. Mas acontece exatamente o oposto e ficamos mais insatisfeitos e inseguros com isso. “Quando escolhemos algo, sentimos que perdemos todo o resto. Somos tentados a achar que a escolha foi ruim, pois temos dezenas, centenas ou milhares de outras opções que, em tese, poderiam nos satisfazer mais. Isto é, sempre resta uma dúvida no ar: a de que talvez fôssemos mais felizes com a escolha de outra alternativa”, diz o psicólogo americano Barry Schwartz, autor de O Paradoxo da Escolha – Por Que Mais É Menos (Girafa). Em outras palavras, além de ser paralisante, o excesso de opções nos deixa mais propensos a ficar insatisfeitos com o que escolhemos quando saímos da nossa indecisão. E isso é grave: esse sentimento pode sabotar um brilhante e feliz caminho. Portanto, não ceda a ele. O mais sábio depois de ter sido feita uma escolha consciente é confiar nela e deixar rolar. 

Corte, corte, corte 
A pesquisadora e psicóloga Sheena Iyengar também sugere algumas maneiras de se defender da multiplicidade de alternativas. A primeira sugestão dela pode nos ajudar demais. “Corte, corte, corte”, aconselha a moça. Assim, se puder, reduza ao mínimo suas opções, sem dó nem piedade. Simplifique. Não se perca, procure manter o foco do que realmente importa para você. A segunda também nos dá um bom parâmetro. “Procure mais qualidade e menos quantidade”, ela diz. Acredite: não se pode ter tudo na vida e toda escolha inclui perdas. Por isso, é sempre melhor ficar com o que tem mais qualidade. Outra boa indicação é o treino de estar cada vez mais consciente ao tomar suas decisões, a começar pelas inúmeras pequenas escolhas do cotidiano (que, segundo as pesquisas de Sheena, são cerca de 70 por dia). Em outras palavras, não seja muito impulsivo, ouça com mais atenção sua voz interior e esteja mais atento ao que é mais profundo e relevante para sua vida. Tenha um norte do que realmente importa para você e escolha de acordo com ele. Integridade, verdade, ética, consciência e generosidade são bons orientadores de rota e escolhas. Quem leva em consideração essas qualidades costuma acertar. Sheena também sugere deixar bem vívido em sua mente o que aconteceria depois da sua decisão. Coloque em imagens as consequências reais de suas escolhas, tanto as negativas quanto  as positivas. Quais seriam os diferentes cenários que poderiam surgir após sua decisão? As imagens podem ajudá-lo a visualizar melhor as situações resultantes dessa ação. Esse exercício simples pode auxiliar na decisão final. Mas é Ruth Chang, uma filósofa americana de origem chinesa, quem nos dá outra grande chave na hora de escolher. Ela diz que, quando analisamos uma questão, temos a tendência de colocar razões objetivas para decidir por isso ou aquilo, sem perceber que elas podem nos conduzir a erros e impasses. E você sabe por que acontece isso? Não nos colocamos como somos diante delas e temos vergonha de considerar nossas características pessoais nas decisões. Por exemplo: por mais que ninguém entenda, você pode querer continuar a trabalhar no banco, porque gosta do que faz, da segurança que um emprego proporciona e da sua rotina. Aventurar-se numa cidade estranha com mais oportunidades seria uma alternativa que o mergulharia, no futuro, numa sensação de insegurança e até mesmo pânico. Mas você prefere se esquecer disso na hora de tomar as decisões. Isso porque não quer assumir como realmente é e tem vergonha desse seu lado mais enraizado. Enfim, escolhas podem não ser bem-sucedidas quando idealizamos quem somos e também quando consideramos demais o que os outros acham. Levar em conta só o externo, ou o que fica bem na fita, pode nos afastar do que realmente deseja nosso coração. “Decisões subjetivas e pessoais podem ser mais acertadas do que as puramente objetivas, porque elas incluem como somos verdadeiramente”, diz Chang. Para isso, é preciso nos conhecermos mais, saber ouvir e reconhecer nossa voz interior, sem julgar. Mesmo que depois todos riam da nossa cara. 
Na hora da bomba 
Escolher de uma forma menos intempestiva e emocional, principalmente quando estamos diante de uma situação bombástica inesperada, também ajuda. Elizabeth George, autora do livro Como Fazer Escolhas Certas (Hagnos), dá alguns conselhos interessantes na hora da decidir quando estamos envoltos por fortes e repentinas emoções. “Tudo parece estar bem, mas algo acontece e parece que alguém lança um torpedo sobre seu maravilhoso navio. Você fica chocada, ferida, cega, totalmente surpresa ou arrasada. É como se puxassem seu tapete ou você perdesse o chão”, escreve ela, que fala para um público essencialmente feminino. E adverte: escolhas feitas com a cabeça quente ou num momento muito confuso são capazes de gerar más consequências. “Elas costumam ser apenas reativas”, analisa. Podem ser motivadas por raiva, ciúmes, insegurança, inveja, uma grande paixão… e por aí vai. Por isso, a primeira sugestão dela é simplesmente: “Pare!” Ou seja, interrompa a lava que brota no seu peito e aprenda a reconhecer que esse é um mau momento para decidir alguma coisa. O segundo conselho dela é: “Espere”. Talvez seja melhor não decidir nada por enquanto. A autora acredita que, ao contrário, essa seja uma hora propícia para recolher-se. Nesses momentos, vale buscar apoio em suas crenças espirituais, se tiver alguma. É possível que a noite escura que você atravessa seja apenas uma fase temporária. “Não se muda o rumo no meio do nevoeiro. Seja na vida religiosa, no casamento, na vida profissional, seja em outras situações que envolvem muito compromisso, quando se está na situação de provação, de dúvida, de deserto, de escuridão… é melhor ater-se à decisão tomada anteriormente”, escreve o palestrante suíço Bertrand Georges no livro Fazer Boas Escolhas no Momento Certo (Paulinas). E ele invoca as palavras de um santo muito sábio para poder afirmar isso. Dizia Santo Inácio de Loyola: “Em tempo de desolação, nunca fazer mudança, mas estar firme e constante nos propósitos e determinação em que se estava no dia anterior dessa desolação”. Mas a perguntinha maliciosa e insistente que pode surgir nesses tempos áridos é: “E se você se enganou?” Com essa questão, surgem outras inquietações: a dúvida de que nada será como antes, de que a dificuldade durará para sempre e de que existe uma só saída possível, a fuga. Isso não é verdade. Muita água ainda pode rolar debaixo dessa ponte se, como bons comandantes, tivermos a coragem de manter o leme na mesma direção durante a borrasca. “Devemos então aceitar não viver segundo o que

vemos e sentimos, mas segundo o que cremos e com o que nos comprometemos anteriormente”, prossegue Bertrand Georges. Para que essa decisão se mantenha firme, ele também aconselha um mergulho profundo na vida espiritual. Ela será a fonte de nutrição e força que nos auxiliará a fazer essa travessia. Acredito que uma terapia ou um trabalho de coaching também podem ajudar a aclarar a situação.

 O bom momento 
Mas também há a época certa para ouvir as inquietações da alma e fazer novas escolhas. É quando elas são muito insistentes e duram há muito, muito tempo. Um longo processo, portanto. Aí pode ser a hora de pedir sinais ao seu anjo da guarda, se você acreditar nele (eu acredito piamente, e a figura universal do anjo está presente em todas as tradições religiosas, inclusive as orientais). A partir desse pedido, sincronicidades, sonhos, encontros casuais, frases que chamam atenção num livro podem sinalizar outros rumos. Porém, é preciso não se iludir e querer forçar uma leitura dessas imagens e sinais que chegam de acordo com seus desejos. Mais uma vez, é melhor saber o que o coração diz e decodificar essa voz interior. Pode ser que esteja realmente na hora de você mudar de vida, de abandonar projetos antigos e de se renovar internamente. Mas lembre-se: nunca é alguma coisa fora de você, ou principalmente uma pessoa fora de você, que deve ocasionar esse novo caminho. A opção pela mudança vai requerer uma transformação íntima, pessoal e profunda, mas ela deve surgir de uma escolha interna sua, só sua, sem influência de ninguém ou de uma circunstância externa. Como aconteceu comigo em Nova York, não é o fora que importa, mas o dentro. E esse pode ser o seu momento de escolher, sem medo. Então respire fundo para encontrar força e coragem. Levante a cabeça e vá em frente. Desconfio que alguém, sorrindo, vai estar perto de você a cada passo.


LIANE ALVES, depois de Nova York, viajou e morou em muitos países. Saiba mais sobre suas experiências e aprendizados em redlotus-spiritualtravels.com

12/04/2016 - 12:07

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