Mais perto da natureza

O sonho de ter uma casa no campo (ou na praia) arrasta o desejo de ficar próximo da natureza lá para a frente, sem que a gente se dê conta de que é possível manter essa conexão aqui e agora

Rafael Tonon

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Depois de percorrer sete parques nacionais de quatro estados americanos (entre Oregon e Montana) em 20 dias, uma das coisas que mais chamaram a atenção da fotógrafa Cinthia Paranhos não foram as 965 cachoeiras que fotografou, os três ursos pretos que encontrou pelo caminho, os muitos bisões, a centena de focas, a única coruja e o fato de ter feito muitas das partes de seu percurso dirigindo em estradas onde não havia absolutamente nenhum outro automóvel; foi ver a reação das pessoas diante daquela natureza tão selvagem. Quando chegou ao Crater Lake, um enorme lago de 9 km de comprimento e 600 metros de profundidade situado na caldeira de um vulcão já extinto no oeste do estado do Oregon, parou o carro, pegou os equipamentos e foi surpreendida com um homem eufórico. “Você está pronta para o que está prestes a ver?”, gesticulava ele, agitado. “Ele tinha voltado ao carro para pegar uma cadeira. No tempo todo que fiquei ali, fotografando aquele tom de azul que nunca tinha visto em lugar nenhum do planeta, aquele senhor ficou sentado estático, admirando o lago ao lado da filha, em silêncio”, conta ela, que nos  últimos anos se dedica a conhecer lugares inóspitos (“quanto menos gente, melhor”) e selvagens do mundo todo, das Ilhas Fiji à Finlândia, do Parque dos vulcões da Big Island, no Havaí, à Namíbia (seu próximo destino). “A quantidade de gente, de toda nacionalidade que encontrei por esses parques é impressionante. A euforia das pessoas (me incluo) ao ver um urso, um bisão, uma cabra da montanha, um cervo, em seu estado natural é realmente surreal”, diz ela. “O mundo está muito carente de natureza!” Ela tem razão. Nos últimos séculos, a humanidade, acostumada a viver em ambientes predominantemente naturais (pense nos seus ancestrais lá dos galhos mais altos da árvore genealógica), tem se apinhado cada vez mais em cidades (só por aqui, mais de 80% da população brasileira já vive em áreas urbanas, segundo o IBGE, e a expectativa é que esse número passe de 93% em 2050). E, principalmente, em ambientes cada vez mais virtuais. A tecnologia vem tomando, gradativamente, mais espaço vida de todos nós. E isso deve se intensificar, por exemplo, com o advento de novas tecnologias, como a Realidade Virtual, na qual colocamos óculos para mergulhar em uma dimensão criada artificialmente e que está desconectada da “real”. O que, consequentemente, pode nos distanciar de maneira ainda mais abrupta e profunda da natureza ao redor.

Por uma vida mais offline
 Mas, afinal, qual a importância da natureza na nossa rotina e como estar próximo dela pode nos ajudar a ser mais completamente (e essencialmente) humanos? Essa é uma pergunta que ronda a mente do jornalista e escritor inglês David Baker. Ex-editor da versão inglesa da revista Wired, publicação voltada à tecnologia, ele começou a se questionar sobre o tanto dela que existe em nossa vida e, hoje, longe do cotidiano agitado da redação, trabalha como consultor e palestrante para ajudar as pessoas a refletir sobre como podem viver melhor. Baker não tem dúvida de que desconectar-se é uma boa maneira de criar um vínculo a uma percepção maior do papel da natureza na nossa vida. Isso não significa, como ele diz, “abrir mão de toda a civilidade que conquistamos e toda a tecnologia que temos à mão para buscar viver como um Thoreau moderno”. Henry Thoreau foi um escritor e pensador americano que trocou a sua Conrad natal, cidadezinha do estado de Massachusetts, para viver à beira do Lago Walden. O relato da experiência de uma rotina mais simples e contemplativa à natureza, longe de qualquer tipo de comunidade, se tornou um livro, Walden, clássico do pensamento disruptivo, em que ele narra seus dois anos, dois meses e dois dias ali. “Não estou aconselhando todo mundo a abandonar a tecnologia, mas é necessário experimentar momentos de desconexão”, diz Baker. “A tecnologia é algo mesmo incrível, sensacional, que nos permitiu muitas conquistas como sociedade. Mas ela nos impede de descobrir coisas que temos que começar a buscar novamente, como o nosso papel no mundo – que é mais que passar o dia inteiro com uma tela em frente aos olhos”, explica. Uma conversa ao vivo, ele diz, é muito diferente de uma conversa pela tela, mesmo que ela permita ver a pessoa. “Temos que entender que há coisas que as pessoas fazem melhor do que a tecnologia.” Conectar-se, por exemplo. Claro que há ganhos muito significativos nessa história de conversa por telas – pergunte a uma mãe que tem o filho estudando do outro lado do mundo, por exemplo. Mas a raça humana nunca precisou de um aparelho para ter uma conexão profunda com o outro. “Aliás, nos dias de hoje, esse aparelho tem sido uma forma de distanciar cada vez mais nossas relações. Eu ainda sou um cara que vê uma beleza natural na atenção que as pessoas dão umas às outras”, ele diz.

 Déficit de natureza
O jornalista e autor Richard Louv dedicou seu tempo a entender como as novas gerações estão cada vez mais desconectadas da natureza. Faça um teste: pergunte qual a porcentagem das crianças que você conhece que já viram animais de verdade em seus habitats naturais, e não apenas atrás das grades dos zoológicos? A questão, para Louv, é tão simples e tão profunda quanto o nascer do sol: quanto mais tempo plugados ao mundo eletrônico, menos tempo vamos dedicar ao mundo natural. “Se perdermos a conexão com a natureza, o que isso pode significar para a nossa relação com o planeta como sociedade?”, questiona Baker. Crianças entre 8 e 18 anos passam cerca de 7,5 horas por dia, todos os dias da semana, na frente de um computador, com um videogame ou um tocador de música nas mãos e, principalmente, com um celular, segundo um estudo da Kaiser Family Foundation, nos EUA. Louv acredita que elas (e também muitos adultos) sofram do que ele chama de “distúrbio de déficit de natureza”, que é fonte de uma menor consciência e de uma reduzida capacidade de encontrar um sentido para a vida. Isso porque diversas pesquisas levantadas por ele no livro Last Child in the Woods: Saving Our Children from Nature-Deficit Disorder (A Última Criança no Bosque: Salvando Nossas Crianças do Distúrbio de Déficit de Natureza, sem edição no Brasil e prestes a ganhar uma nova edição nos EUA) mostram que há uma correlação fundamental entre saúde, inteligência e natureza. Essas pesquisas revelam que as crianças tendem a ser mais saudáveis, felizes e criativas quando passam algum tempo próximas à natureza. Esse contato também tem efeitos positivos em meninos e meninas com déficit de atenção, asma ou problemas psíquicos, já que esse contato ativa áreas do cérebro responsáveis por neurotransmissores ligados às sensações de alegria e conexão. Os efeitos, como era de esperar, também estão relacionados a adultos. Um estudo realizado pelo pesquisador Marc Berman, no Instituto de Pesquisa de Rotman, em Toronto (Canadá), conseguiu levantar dados que mostram que a interação com a natureza pode ser terapêutica para pessoas com distúrbios, incluindo depressão e ansiedade. Em uma pesquisa com voluntários, os estudiosos perceberam uma melhora na memória e na atenção de mais de 20% depois que os pesquisados foram submetidos a uma caminhada em um parque cheio de árvores. Quando os mesmos voluntários faziam um intervalo pelo mesmo tempo, só que andando por ruas da cidade, não houve qualquer melhora apresentada em seu cérebro. “Temos comprovado cada vez mais os benefícios cognitivos de passar mais tempo em contato com o verde”, diz o professor no estudo. “Mas ,ao mesmo tempo, as pessoas passam 25% menos tempo hoje aproveitando a natureza do que passavam há 20 anos.” Ainda não temos comprovações de como isso pode atingir nossa saúde física e mental daqui a mais 20, ele diz. “Porém, já temos indícios de que essa ‘quebra’ de conexão pode nos afetar de maneira bem negativa.” Isso não significa que é preciso vender tudo e comprar uma casa no campo, como ainda permeia o sonho ideal de tanta gente. Até porque esse desejo intrínseco de largar tudo para trás em troca de uma paz de espírito com passarinhos na janela, árvores frondosas no quintal,  horta e tudo mais que o sonho nos dá direito é senão um indicativo de que essa paz tão almejada está longe de ser vivenciada, certo?

O verde mais próximo
O músico e apresentador Daniel Daibem aposentou o carro (um Chevette 1978) ainda na década de 1990 e, de lá para cá, prefere se locomover na cidade com as próprias pernas, como faziam nossos antepassados. Tornou-se um “pedestrianista”, como diz o termo para indicar pessoas que são pedestres por convicção, a caminhar por São Paulo com uma outra visão da cidade. “Isso te coloca naquela condição do antigo caçador-coletor e dá outra sensação de passagem de tempo”, ele acredita. Segundo Daniel, as pessoas confundem o ato de caminhar como uma coisa estritamente relacionada à atividade física, ao esporte. “A gente se esquece que andar também é um meio de locomoção, de conexão”, afirma. Que, aliás, permite se relacionar com a cidade de outra forma: enxergando não apenas a natureza que está contida nela (parques, praças, árvores, céu) mas sobretudo a própria natureza da cidade, sua estrutura, sua grandiosidade. “Assim, a retomada da natureza não fica restrita apenas a entrar em contato com mato, cachoeira, pôr do sol etc. É também readquirir hábitos que tínhamos antes de vivermos nesse modelo de cidade voltado para o sistema ‘carro-apartamento-carro-trabalho-carro-apartamento-carro’. É adotar outra postura perante o ambiente em que se vive, com mais significado, se apropriando da cidade, do lugar em que você está”, diz ele, que, pensando nisso, criou o curso Como Viver Melhor na Cidade, ministrado na The School of Life, a “Escola da Vida”, em São Paulo. A alegria de descobrir uma conexão profunda com a natureza é o que nos permite enxergar cada ser vivo, objeto ou até mesmo cada ideia em sua intrincada relação conosco. “É o que nos faz enxergar as coisas da forma mais prática e também mais filosófica possível”, afirma Tristan Gooley, navegador que já liderou expedições pelos cinco continentes e que compilou seus pensamentos no livro-pensata How to Connect with Nature (Como se Conectar à Natureza, sem edição em português), editado na Inglaterra pelo selo da mesma The School of Life. Gooley explica que não existe outro campo que nos permita essa visão prática e filosófica ao mesmo tempo. “Podemos olhar uma planta como uma fonte de comida, para nos alimentar, e ao mesmo tempo como uma forma de apreciação de um momento no tempo, de admirar a expressão da natureza ali. Nenhuma outra ‘ciência’ nos permite isso”, defende. É preciso lembrar que esse desejo de estar próximo do verde não é um senso comum – muitas pessoas nem percebem que tem um passarinho cantando na sua na janela ou que a Lua está tão clara que é capaz de iluminar o caminho. “Essa é uma visão comum a muitas pessoas que ficariam felizes de ter uma vida mais interessante se pudessem”, ele diz. Não se trata de um julgamento de Gooley. Ele cita um estudo feito pelo psicólogo americano Abraham Maslow que sugere uma teoria baseada numa hierarquia humana para suas necessidades. “Ele sugeriu que o desenvolvimento de bem-estar segue uma sequência que se desenvolve das necessidades mais básicas, como comida e teto, para as emocionais mais complexas, como o respeito e a autoestima”, conta. Nossos ancestrais, por exemplo, deveriam pensar que a discussão sobre autoestima era uma prioridade menor, já que estavam famintos e sofrendo para encontrar abrigo. “Os seres humanos modernos, mais sofisticados, passaram a acreditar que os estágios anteriores e mais na base dessa hierarquia ficaram no passado, que eles têm pouca relevância para a vida presente”, diz. Realmente, com uma casa equipada e uma geladeira lotada, a preocupação em buscar nossas necessidades mudou, certo? “Nem tanto”,  diz Gooley. “Se estamos buscando uma conexão mais profunda com o ambiente, não podemos começar do topo, apenas com as questões complexas.” Porque, no montante das necessidades que temos, elas ganham mais peso e mais importância na nossa vida, quando deveriam ser, na escala de Maslow, as menores delas. “Essa sensação de ‘preenchimento de necessidades’, que alguns chamam de ‘sentido’, pode ser muito mais facilmente alcançada em pequenas ações do cotidiano. Coisas realmente simples e com consequências óbvias podem oferecer surpreendentes recompensas filosóficas”, complementa. Como beber um pouco de água numa fonte quando se tem sede em vez de usar uma garrafinha, de perceber o vento mudando toda a tranquilidade da casa e ter que fechar a janela. A questão é que, na ausência de ter que atender essas necessidades “antigas”, passamos a criar novas necessidades: novas formas de organizar nossos instintos básicos, de interação social, de tecnologias. “Mas, assim que percebemos que elas já foram sanadas, nossa mente desenvolve um apetite voraz por mais, gerando uma ansiedade maior”, diz Gooley. “A melhor maneira de satisfazer esse desejo é explorar seus sentidos e instintos primários, tentar saciar nossas vontades mais básicas. É se conectar com as coisas mais naturais do cotidiano, e perceber que elas estão mais ligadas ao nosso bem-estar do que as coisas que por vezes acreditamos ou criamos para nós mesmos”, conclui. E você, está pronto para o que está prestes a ver?

 RAFAEL TONON é jornalista e sempre que consegue se desconectar do celular se pega deslumbrado admirando um ipê-rosa ou o pôr do sol na estrada. 

01/09/2016 - 12:14

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