Menos gritos, mais silêncio

Reflexo da falta de autocontrole ou da nossa dificuldade de comunicação, o grito costuma gerar mais distúrbios em nossas relações do que imaginamos

Gustavo Ranieri

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
No princípio não havia diálogos, tampouco frases completas ou, sequer, uma primeira sílaba balbuciada. Tudo eram risadas, choros de fome ou de sono e gritos, muitos gritos. Decerto não lembramos, mas, com 3 ou 4 meses de vida, deixamos de lado o silêncio para treinar aquilo que estávamos maravilhados em descobrir: as cordas vocais. Tudo era diversão, às vezes uma maneira de chamar a atenção e até um pouco de manha. Depois, o grito entrou estranhamente em nosso dia a dia. Lá estava ele nas brincadeiras com outras crianças, nas cócegas que recebíamos ou, como não, em uma ou outra reprimenda de desespero de nossos pais ao nos verem com o dedo na tomada ou próximos demais de um parapeito de janela, por exemplo. Mais tarde, já crescidos, percebemos que os gritos estariam sempre em toda a parte. Há o grito de gol; há o de saudade, quando reencontramos alguém que nos é muito querido; tem aquele que soltamos frente a uma desejada conquista; o que nos acompanha em uma volta na montanha-russa; o que precisamos dar para avisar o motorista do ônibus que esqueceu de parar no ponto que pedimos; e há até um grito  curioso, descobri eu, que é o kiai, usado em lutas de algumas artes marciais, como o judô, para o atleta se concentrar melhor em força e técnica. Mas há também o grito de dor; o de agonia diante uma chance perdida; o que vaza das janelas dos carros no trânsito caótico das grandes cidades – e a buzina, é o que senão um grito?; e o pior deles: o grito que soltamos contra alguém, o de incompreensão e intolerância. Este último, infelizmente, nos habituamos a presenciar no polarizado cotidiano do nosso país e do mundo. Diante das crises sociais e políticas, populações abandonaram a boa e velha conversa e passaram a manifestar o ódio uns contra os outros, seja na rua, seja no insulto que é escrito, gritado em páginas na web. O Facebook, por exemplo, se tornou um campo de batalha, rompendo com posts inflamados a relação daqueles que se gostam (gostavam?) e até dos que fazem parte de uma mesma família. Mas, afinal, por que gritamos tanto? E para quê? Antes de responder a essas questões, é preciso entender como o grito é assimilado em nossa mente. Em 2015, um estudo liderado por David Poeppel, professor de psicologia e neurociência da Universidade de Nova York, concluiu que a fala comum sofre pequenas variações de volume, algo em torno de 4 a 5 hertz por segundo, enquanto com o grito a taxa fica entre 30 e 150 hertz por segundo. Como é rápida demais a modalização, os gritos não são interpretados no cérebro como os demais barulhos, mesmo os mais bruscos, sendo recepcionados diretamente pelas amídalas, estrutura cerebral responsável por processar emoções e “ativar” o alarme do medo e do perigo. Diante disso, o psicólogo clínico Artur Scarpato ressalta que, quando falamos de grito de raiva, no caso da intolerância, ele “pode ser ao mesmo tempo a descarga de uma tensão emocional interna e uma forma de afetar o outro, de assustá-lo, paralisá-lo ou intimidá-lo”. A mesma descarga emocional acontece com o grito de medo, quando a pessoa acaba por comunicar como se sente, podendo chamar alguma ajuda, por exemplo. Mas quem grita frequentemente, de modo descontrolado, ressalta o especialista, demonstra incapacidade de comunicação eficiente. “Os gritadores tendem a ser pessoas dominadas internamente pelo medo e por uma raiva impotente, geralmente decorrentes de traumas não resolvidos. Essas pessoas tendem a interpretar cada discordância, cada frustração como ameaça pessoal, reagindo com um grau de raiva desproporcional à situação. O gritador descontrolado crônico revela uma fragilidade psicológica, com dificuldade de tolerar frustração, tomando tudo como se fosse um ataque pessoal, não sabendo lidar bem com o diferente, com a alteridade. Em vez de entrar em contato com seus sentimentos de rejeição, inadequação e insegurança, a pessoa ataca, mascarando os sentimentos insuportáveis e muitas vezes não conscientes que despertaram a sua raiva”, explica o especialista. Psicóloga e especialista em acupuntura pela Shandong University of Traditional Chinese Medicine e pelo Centro de Enseñanza de la Medicina Tradicional China, Analyce Claudino destaca que cada um de nós organiza uma ideia de si mesmo e do mundo com base em nosso fundo de experiências. Porém, uma vez que algo ameaça essa ideia, as reações são inevitáveis,  alternando apenas a forma e a intensidade com que elas se apresentam. “Quando chegamos a extravasar um grito, estamos no limite de uma defesa e, ao mesmo tempo, atacando para não sermos ameaçados. As consequências físicas e mentais disso começam a partir do momento que a pessoa se sente ameaçada; ela precisa se defender e todo organismo se mobiliza para um ataque ou uma possível fuga, e o grito muitas vezes é o ataque”, diz Analyce. Tal ataque inflama em alguns casos até o ambiente de trabalho. Muitos de nós, provavelmente, já tiveram de lidar com chefes cuja manobra de conduta era falar aos berros ou mesmo usá-los como uma perigosa e delicada estratégia de motivação. Se alguns colaboradores de uma empresa se sentem mais motivados e competitivos em meio a um ambiente desse tipo, a grande maioria, lembra Scarpato, fica inibida, resultando em queda de performance e paralisação das ações. “No ambiente de trabalho, geralmente os gritos constantes levam a uma diminuição da produtividade e, no longo prazo, a absenteísmo e pedidos de demissão por problemas relacionados ao estresse emocional”, afirma.

E o corpo, como reage?
 Como as Leis de Newton continuam valendo, toda ação gera sempre uma reação. O nosso corpo que o diga. Evidentemente, algumas reações são mais visíveis, enquanto outras demoram a ser percebidas. Ou então, quando se mostram, o resultado é preocupante por demais. E, como estamos falamos do grito, especialmente do tipo que vem da raiva, do descontentamento com alguma coisa ou situação, da falta de paciência, o reflexo dele no corpo será perceptível em algum momento, de alguma forma. Dentro da medicina tradicional chinesa, a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água são os cinco elementos básicos que formam o mundo material, do qual os seres humanos são integrantes. A cada um dos elementos, baseados na filosofia de Wu Xing, é designado um fator yin (negativo) ou yang (positivo). No caso da raiva, ela é uma emoção yang, ligada ao movimento madeira, cujas características comportamentais são a capacidade de planejamento, criatividade e imaginação. “Quando estamos sob uma intensa raiva, isso implica uma alteração no movimento madeira e a desorganização da energia desse sistema. Assim, as repercussões podem aparecer no comportamento, como por exemplo nas alterações do sono, falta de criatividade e rigidez psíquica, mas também na expressão física, como as contrações musculares, já que a madeira governa os músculos e tendões”, diz Analyce Claudino, que, no entanto, enfatiza que nada é tão simples e linear, uma vez que todos os movimentos estão inter-relacionados, se comunicando, transferindo excessos e faltas entre si, sempre em uma tentativa de autorregulação. “Dessa forma, essa desorganização do movimento madeira e essa raiva podem aparecer em qualquer outro lado, em outros movimentos e nos sistemas relacionados a eles. Esse sistema estando desequilibrado vai repercutir no organismo como um todo e, dependendo das predisposições individuais, dos órgãos de choque, das constituições, pode gerar inúmeras variações de sintomas e impactos significativos na qualidade de vida e de autorregulação das pessoas. Então é possível, por exemplo, que, muitos anos depois de uma situação de explosão de raiva, a pessoa apareça no consultório com determinadas queixas e, na investigação, indo para trás, buscando quando os sintomas realmente começaram, cheguemos a acontecimentos assim que geraram um impacto e uma marca tal que repercute ainda hoje”, conta a especialista.

Entre pais e filhos
Ok, nem sempre fomos os mais comportados. Quantas vezes fizemos travessuras, mesmo infringindo o que nossos pais nos disseram? Ou então, ousamos mostrar a língua para eles, em um misto de rebeldia e demonstração de que podíamos (doce ilusão!) tomar conta de nosso nariz, ainda que só tivéssemos 7 ou 8 anos? Alguns de nós, inclusive, continuam fazendo uma bagunça enorme, mesmo na fase adulta da vida. Já as pessoas que se tornaram pais, como é o meu caso, encararam ou encaram um dos papéis mais fundamentais e desafiadores: o de educadores. Além do amor, cabe às mães e aos pais criar ambientes domésticos propícios para o crescimento saudável dos pequenos, oferecendo harmonia e liberdade. Porém, uma busca em grupos específicos na internet revela um grande número de pais e mães que relatam perder o controle com os filhos e que usam o grito como forma de conter um comportamento que consideram indesejável. Acontece que a comunicação é um sistema muito complexo. Nem sempre o que um fala é o que o outro escuta. E gritar não amplia a percepção do outro, causando geralmente o efeito contrário, como alerta Teresa Amorim, psicóloga clínica, diretora do Instituto Carioca de Gestalt-Terapia e apresentadora do Programa Vida, no YouTube. “O grito revela que existe algum tipo de conflito, que há talvez alguma coisa mal resolvida naquela relação. Mas gritar só vai gerar terror nas crianças. Porque elas não vão parar o que estão fazendo porque estão compreendendo a comunicação, mas porque estão temendo aquilo”, explica Teresa. O resultado, aponta a psicóloga, é uma relação tensa e distante. Todavia, lembra ela, é sempre necessário analisar em que nível de estresse os pais estão, como está o ambiente em casa, que tipos de situação eles estão atravessando. Em alguns casos, os pais foram criados também em ambientes turbulentos, na base da gritaria e, consequentemente, acabam por projetar o mesmo tipo de cenário em seus lares, acreditando que é dessa maneira que se educa. “Mas não será possível uma relação saudável assim. Não é difícil encontrar mãe, pai e filhos que acham que o outro lado só entende quando se berra. Mas será que esse grito é realmente para o outro, ou é um barulho interno que você tem? As pessoas estão cheias de barulhos internos. Talvez esse grito seja para a própria pessoa, dando um basta para ela mesma, mas quem está ali acaba recebendo essa projeção, que não deixa de ser violenta, pois o grito é uma violência verbal, um abuso emocional.” Já Artur Scarpato acredita que o grito intencional, quando usado como estratégia pelos pais para lidar com crianças pequenas, pode ser um recurso útil se o adulto precisa interromper um comportamento que poderia ser perigoso para a própria criança. Pelo fato de ela ter uma capacidade menor de autoinibição, esse recurso tem sua serventia. Ele lembra que à medida que o ser cresce o grito nesse tipo de situação tem de ser abandonado, sendo substituído apenas com o dizer de palavras com seriedade. “No entanto, o abuso do recurso do grito pode levar a criança a crescer inibida, assustada e carregada de raiva impotente por não ter conseguido se defender das agressões do adulto.”

Tudo é diálogo
 Infelizmente, a mesma crise sociopolítica mencionada no início deste texto e que aflige parte do globo não será solucionada como em um passe de mágica. Tudo leva o seu tempo de reorganização, mas não precisamos perpetuar a intolerância para nos posicionarmos com palpites e opiniões. O pior grito é o gratuito, provocado apenas para atingir o outro. A monja zen-budista Coen Roshi, ou simplesmente Monja Coen, conta que, em sua visão, por estarmos desenvolvendo atitudes muito individualistas, precisamos gritar e falar alto para alcançar o outro. “Na verdade, somos um só corpo e uma só vida, com tudo que existe. Entretanto, as pessoas desiludidas (acreditando na ilusão de estarem separadas) consideram-se incompreendidas, tendo de defender seus pontos de vista, lutar ou morrer por uma causa. Precisam defender a imagem que criaram de si mesmas. Uma imagem distorcida, um jogo de poder. Quem grita mais alto ganha? Nem sempre. Gritar é fácil. Nos momentos de desestabilização emocional, ser capaz de retornar ao eixo, de se reorganizar e ouvir para entender de onde vem a agressão é um treinamento necessário e incessante”, pondera a monja. E, se o contrário do grito é o silêncio, peça rara em nosso dia a dia e indispensável para o recarregar de energias, o caminho do meio é o diálogo. Só com ele podemos fomentar a paz e a compreensão, ainda que as ideias dos outros sejam contrárias às nossas. Afinal, qualquer democracia só se constrói com a conversa, por mais difícil que seja. “Dialogar depende de saber ouvir. Poder estar absolutamente presente para a pessoa ao seu lado, à sua frente. Presença absoluta. Sem objetivo de ganhar a discussão, sem querer defender seu ponto de vista, sem querer lutar – matar ou morrer por seus ideais ou pareceres. Afinal, nossos ideais e pareceres variam no transcorrer da vida. Além dos ideais e dos conceitos está a realidade. Estar presente no presente. Ouvir para compreender. Fazer-se ouvir para ser compreendido. Com menos gritos e palavras rudes, com mais ternura e palavras suaves podemos transformar uma sociedade violenta e agressiva em uma sociedade mais justa, menos violenta e mais amorosa”, pede a monja. E eu, do meu humilde lado, só posso engrossar o coro: “Menos grito, por favor!”. 

GUSTAVO RANIERI é jornalista, pai de primeira viagem, e se arrepende de todas as vezes em que, infelizmente, só soube gritar.

26/04/2017 - 10:41

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Revista Vida Simples