O que você traz na bagagem

Olhar para nossas origens, o lugar onde nascemos e crescemos, nos ajuda a entender quem somos e a se relacionar melhor com quem está ao redor.

Rosane Queiroz

Se você nasceu na praia e cresceu perto do mar e da rotina ao ar livre, com certeza vai carregar esse estilo de vida com você. | <i>Crédito: Estúdio Ornitorrinco
Se você nasceu na praia e cresceu perto do mar e da rotina ao ar livre, com certeza vai carregar esse estilo de vida com você. | Crédito: Estúdio Ornitorrinco

— De onde você é? Todo mundo ouve essa pergunta vez ou outra, e a resposta correta é… o lugar onde nasceu. Será mesmo? Eu nasci em Campo Mourão, interior do Paraná, mas sequer conheço a cidade. Foi uma passagem rápida dos meus pais por ali. Só sei que o lugar tem “terra vermelha” e uma festa gastronômica que parece ótima, na qual um carneiro é assado à moda dos vaqueiros: numa vala funda, por horas, sobre brasas. É o famoso “carneiro no buraco”. Saber disso, contudo, não me faz sentir “mourãoense” ou mesmo paranaense. Embora tenha passado a infância em Curitiba, soa estranho responder que “sou do Paraná”. O meu local de nascimento me ajudou, contudo, numa vez em que fui entrevistar a atriz Sonia Braga. Ela é paranaense de Maringá e morou parte da infância em Campo Mourão. Quando comentei que éramos conterrâneas, foi como formar um par no jogo da memória, na primeira tentativa. Isso gerou uma empatia imediata entre nós e, de quebra, facilitou a entrevista. Até porque ela também não se sente paranaense.

“O lugar de onde somos é aquele que nos deu identidade”, disse Sonia. Gostei dessa solução. No caso dela, “cidadã do mundo”, falou que não tinha eleito um único lugar, mas um pouquinho de todos por onde morou ou andou ao longo da vida. Em outra ocasião, levei uma bronca, por e-mail, do escritor Ruy Castro, porque o identifiquei como mineiro “da gema” em uma reportagem. Ele de fato é mineiro, de Caratinga, mas depois de décadas no Rio de Janeiro, se sente carioca. Um pouco como eu, paulistana “da gema” desde os 17 anos.

Como diz a escritora belga Marguerite Yourcenar: “Nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar de inteligência sobre nós mesmos”. Percebo que esse local, para mim, de fato, é a cidade que marcou meu tempo de faculdade, de morar sozinha e virar gente grande. Isso depois de rodar por diversos lugares como cigana. Imagine que, da gelada infância em Curitiba, parti para uma encalorada Cuiabá, com temperaturas que beiravam os 40 graus, no Mato Grosso. Ali, aprendi a nadar em cachoeiras, pelos lados da Chapada dos Guimarães. Depois morei em mais duas cidades, oque me fez sentir, durante muito tempo, como uma árvore sem raízes.

De certa forma, gente cigana é como uma planta que muda de lugar o tempo todo e precisa se adaptar – em alguns terrenos ela murcha; em outros, floresce e dá frutos. Mas, sem dúvida alguma, ganha resistência.

Raiz forte

Para quem nasceu e viveu sempre na mesma cidade – muitas vezes no mesmo bairro, na mesma casa, na mesma rua – fica fácil identificar sua terra, o chamado terroir. Outros, mesmo distantes das origens, sentem que pertencem ao lugar onde nasceram e foram criados. Minha mãe é potiguar, de Natal (RN), e sempre que voltamos para sua cidade de origem, ela se emociona. Me recordo do avião aterrissando e ela dizendo: “Minha terra!”. Sinto até uma ponta de inveja disso. É bonito a pessoa ter raízes assim, profundas.

A estilista mineira Jaqueline Mendonça, há seis anos morando na capital paulista, conta que jamais deixou de se sentir parte do lugarejo de onde veio ao mundo: a pequena Dores do Indaiá, “ou Dores, para os íntimos”, cidadezinha de 14 mil habitantes no centro-oeste de Minas Gerais. “Me sinto mineira de alma, do interior, mas com ‘vontade de mundo’ e espírito cosmopolita, o que faz com que me considere paulistana em diversos aspectos”, analisa Jaqueline. Em São Paulo, a moça de cabelos ruivos e figurino moderno, frequentemente confundida com uma europeia, faz questão de não ter carro e ser andarilha pelas atrações culturais da cidade.

Quando viaja 700 quilômetros, saudosa, para visitar a família, desfruta das delícias do interior mineiro, na cidade movida a agricultura e pecuária, que parece parada no tempo. “Quem me vê na correria de São Paulo, em alguns minutos de conversa, percebe o que gosto de manter e levo como prêmio: minha raiz, meu interesse pelas coisas simples e o prazer de ouvir e contar histórias, como boa mineira. Poucos instantes são tão valiosos como estar em família, ao redor de uma mesa, falando bobagem, bebendo algo gostoso e preparando um típico almoço mineiro de domingo”, diz ela, com o sotaque que não nega, e volta bem mais carregado na bagagem. “O sotaque é meu patrimônio!”, orgulha-se ela.

Sotaque inconfundível

A sociolinguística (ramo da linguística que aborda o recorte e as variações da mesma língua dentro da sociedade) explica: “O nosso jeito de falar é sempre peculiar de onde fomos criados, assim como as construções sintáticas, as gírias e as metáforas. Mesmo que nos mudemos para outro estado ou país, carregamos essa maneira de falar ao longo da vida”, ensina Luiz Antônio da Silva, professor de sociolinguística da faculdade de Letras da USP e autor de A Língua que Falamos (Globo). Por exemplo, uma pessoa que tenha sido criada no interior de São Paulo, em uma região em que usa o “r” retroflexo ou “r” caipira, pode até deixar de falar “porrrta” ao se radicar em Porto Alegre, capital gaúcha. “Mas, ao retornar ao ambiente social antigo, é normal que se recupere o sotaque daquele lugar, como se estivesse falando outro idioma”, diz o professor.

Tá explicado porque, sempre que volto à terra de “mãinha”, desato a falar alto e cantado (como é característica da família) e solto expressões comuns na região como “Eita!” e “Vixe!”. E também porque, depois de 13 anos sem ir a Natal, bastou, no início deste ano, eu pisar na areia de Ponta Negra, a praia das férias de infância, para sentir uma ligação telúrica com aquele lugar e a maneira de ser daquelas pessoas. “Metade de todas as células do seu corpo carregam a memória da família de sua mãe. E a outra metade guarda a memória da família do seu pai”, diz a terapeuta Vera Bassoi, especialista da chamada Constelação Familiar e criadora da Comunidade Brasileira dos Consteladores Sistêmicos. Essa técnica de terapia propõe acessar traumas emocionais de forma “transgeracional” – ou seja, analisando o histórico familiar e as experiências dos antepassados. Sabe quando alguém não consegue explicar porque algo a emociona ou bloqueia? “A constelação familiar mostra que, quando ocorre uma dor emocional grande na família, por morte prematura, aborto, acidente ou violência, todas as pessoas do núcleo captam esse sofrimento e são afetados energeticamente”, diz Vera.

O local de nascimento conta bastante nesses casos. Por exemplo, pessoas que tiveram parentes que sofreram em alguma guerra ou em um campo de concentração, segundo a terapeuta, podem apresentar tristeza profunda ou mesmo depressão, muitas vezes sem fazer a ligação direta dos acontecimentos. “Na constelação familiar, de repente, aparece um bisavô alemão e o trauma vem à tona”, conta a terapeuta . O livro O que os Cegos estão Sonhando (editora 34), organizado pela escritora Noemi Jaffe, é uma amostra poética do quanto uma história de família pode interferir na formação emocional das gerações futuras de um mesmo clã. A obra é dividida em três partes: o diário de Lili Jaffe, mãe da autora, escrito entre 1944 e 1945, logo após sua libertação de Bergen-Belsen, onde esteve presa pelos nazistas em um campo de concentração, seguido de um conjunto de reflexões de Noemi sobre temas saídos daquele diário e um breve texto de sua filha Leda sobre a avó.

Em fevereiro de 2009, Noemi e Leda fizeram uma viagem de busca às origens, até a Alemanha e a Polônia (Varsóvia, Cracóvia e Auschwitz), tentando reconstituir parte do trajeto de Lili durante a guerra. As reflexões das duas mostram de maneira clara que, ao refazer essa trajetória, elas passaram a compreender melhor quem eram e, também, a maneira como foram criadas. “Ser neta de sobreviventes é ter uma relação indireta com esse sofrimento que possibilitou minha existência. Porque há entre mim e o sofrimento um intermédio, alguém que desbravou o matagal sórdido do trauma: nasci numa clareira, o terreno limpo e pronto, bem cuidado, porque meus pais se encarregaram de tirar as ervas daninhas, arar a terra, semear ”, diz Leda Cartum, em um trecho tocante do livro. E segue alinhavando a história da avó, que às vezes chama de “fios soltos”, com a sua: “Quando eu era pequena e perguntava o que eram os números tatuados no braço de minha avó, ela me dizia que era o seu número de telefone. Mas alguma coisa se escondia por trás de tudo, e acho que foi isso que me conferiu um olhar sempre interrogativo: o que é que vocês escondem? O milagre da simultaneidade acontece também dentro de mim: sempre tive espaços internos que não consigo alcançar; como se fossem poços verticais e muito fundos, que sei que existem e que guardam muita coisa, mas aos quais nem sempre tenho acesso. Histórias que fazem parte necessária daquilo que sou e de como me comporto, mas que não vivi nem conheço.”

Perceber e acolher a influência de determinada raiz em nossa vida, como aconteceu com Noemi e Leda, é sempre positivo porque, além de promover o autoconhecimento, influencia nas relações como um todo – ajuda a entender melhor o outro, suas atitudes e limitações. “Sem dúvida, saber sobre o sofrimento de minha mãe influenciou minha visão de mundo”, diz Noemi. O mesmo vale para o lado bom, como a atração inexplicável por determinada pessoa, país, comida, bebida, esporte, dança, costume. “As raízes não se cortam nunca. Você pode mudar de cidade, estado ou país. Para onde for, leva consigo todos os seus antepassados. Não adianta dizer ‘eu me libertei da minha família’. É pura ilusão”, avisa a terapeuta Vera Bassoi.

Nacionalidade tcheca

Fazer as pazes com a própria origem, portanto, é sinônimo de tranquilidade emocional. “Tudo na minha vida gira em torno da paz”, emenda a escritora Paloma Jorge Amado, de certidão de nascimento tcheca, nacionalidade dupla, “naturalizada” cidadã soteropolitana. A filha do casal-ícone da literatura brasileira, Jorge Amado e Zélia Gattai, nasceu em Praga, durante o exílio dos pais. Veio para o Brasil ainda bebê, com 10 meses, e só conheceu sua cidade natal 50 anos depois. Dá gosto ouvir a história, que ela narra ao mostrar um de seus tesouros: um lenço estampado de pombas, feito pelo famoso pintor Pablo Picasso para o Festival Mundial da Juventude pela Paz, que aconteceu em Berlim, em 1951, pendurado na parede acima do sofá da sala. “Esse Festival terminou em 19 de agosto, o dia em que nasci. Papai estava em Berlim, lutando pela paz, e mamãe parindo em Praga, durante o exílio”, conta ela.

A trajetória de Paloma é permeada por momentos compartilhados pelo escritor baiano e o pintor espanhol. “Eu me chamo Paloma por causa da Paloma Picasso (filha de Pablo). Papai e Picasso estavam juntos em Paris, no dia em que nasci. Eles estavam ali tentando um visto para (o escritor chileno Pablo) Neruda, que vivia clandestino”, ela vai narrando. Tempos depois, o poeta chileno se tornaria padrinho da filha de Jorge e Zélia e figura constante na casa da família, como tantos artistas e intelectuais que frequentavam o lugar e com quem Paloma teve o privilégio de conviver. Foi por causa dos amigos, aliás, que a filha de Jorge demorou tanto a conhecer sua cidade natal. “Papai combinava de ir a Praga comigo, mas adiava porque ia viajar com (os pintores) Calazans Neto ou Caribé”, diz. Criada no Rio de Janeiro, Paloma, depois de adulta, viveu em vários lugares – de Paris a São Luís. E foi justamente no Maranhão que se sentiu, pela primeira vez, uma estrangeira. Convidada para assumir a secretaria de cultura local, enfrentou uma campanha do contra. Disseram, inclusive, que uma pessoa que sequer nasceu no Brasil não poderia assumir uma secretaria ou qualquer cargo político. “Pensei: ‘Se não posso trabalhar no Maranhão, também não posso fazer nada na Checoslováquia’. Me senti uma apátrida!”, lembra ela. O encontro com a cidade de nascimento, Praga, juntou, finalmente, as peças. “A vida inteira me diziam que eu era gringa e sempre mantive esse vínculo, mas não era algo importante. Praga é linda e se liga a um pedaço da minha história, mas me sinto mesmo brasileira”, resume Paloma, autora do recente A Cozinha Baiana de Jorge Amado (Panelinha). “A cidade em que você nasceu, mesmo que não tenha vivido lá, diz muito sobre quem você é. O clima, o momento do nascimento, isso tudo traz uma carga energética”, comentou recentemente um amigo, por puro palpite.

Na astrologia, o mapa é traçado a partir da cidade natal, a data e o horário de nascimento. “O mapa astrológico é como uma foto do céu, tirada no momento em que você veio ao mundo. Assim como o local determina as áreas de vida onde estarão os planetas, naquela data e horário, vai determinar sua estrutura psíquica, os recursos que possui, a maneira de se movimentar no mundo e as direções que vai tomar na vida”, diz a astróloga Rosa Di Maulo, reabrindo meu caso antigo com Campo Mourão. Sinto que, em breve, devo experimentar o famoso “carneiro no buraco”. Certamente tenho uma porção paranaense, tanto quanto levo na bagagem a identidade paulistana, isso sem falar na ascendência do sul da Espanha, que me faz encarnar a aprendiz de flamenco, e ainda as viagens de férias, os verões, os lugares em que amei e fui feliz. O sentimento de pertencimento deriva da identificação. Somos a soma de todos os lugares onde vivemos, assim como a soma de todas as pessoas com quem convivemos e que amamos durante a vida. A questão é identificar a resposta, porque a pergunta sempre vem: “De onde você é?”.

ROSANE QUEIROZ é paranaense e paulistana e autora da obra Musas e Músicas – A Mulher por trás da Canção (Tinta Negra).

22/06/2015 - 12:00

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