Por uma vida mais doce

Saiba como espalhar pequenas doses de açúcar no seu dia a dia e, assim, transformá-lo em algo mais leve, tranquilo e feliz.

Liane Alves

Deixar pequenos rastros de afeto, gentileza e doçura por aí faz bem não só para o outro, mas também para você mesmo | <i>Crédito: Dulla
Deixar pequenos rastros de afeto, gentileza e doçura por aí faz bem não só para o outro, mas também para você mesmo | Crédito: Dulla

O vento frio é cortante, e o som da banda de rock, altíssimo e metálico. O limo no chão de tijolos aparentes faz escorregar na entrada do pequeno teatro e, dentro dele, a máquina de gelo seco mistura cores, luzes e formas. Tudo parece desconfortável e úmido nessa manhã gélida de sábado, quando o espaço do antigo bairro do Ipiranga, em São Paulo, se assemelha mais ao East Village de Nova York. Porém, raras vezes na vida me senti rodeada de demonstrações de afeto tão doces. É o lançamento do Projeto jam, que procura unir e apoiar os músicos roqueiros de vários conjuntos dispersos pela cidade, das garage bands aos grupos iniciantes que não têm onde tocar. Como nas jam sessions americanas, os integrantes das bandas se revezam nas apresentações desse teatro, que fica nos fundos do casarão da tradutora e poeta concretista paulista Maria José de Carvalho, que o cedeu à prefeitura para que beneficiasse outros artistas após a sua morte. Gesto doce o dela, que se somou a outros exemplos amorosos daquele dia: quem recebe o dinheiro dos ingressos é o pai de um dos integrantes de uma banda; quem fez o molho dos sanduíches de carne-louca, vendidos no local, foi a avó.  O pai de outro solista tira as fotos e um primo querido faz os vídeos. Todos cooperam e enfrentam o desconforto sem maiores problemas para que o projeto vingue, se torne economicamente viável e realmente possa apoiar os jovens músicos. Hoje, mais estruturada, a iniciativa dos integrantes da banda EZDP incentiva esses encontros em outros locais da capital paulista. Mas agradecem à doçura do empurrão inicial. E aqui vai a primeira lição que aprendi ao realizar esta matéria: nem sempre o que é quentinho, confortável e aconchegante para o corpo é o que é doce para a alma. E vice-versa. E que é sábio perceber o que é mais importante para nós em um determinado momento.

Outros aprendizados me aguardariam nesse caminho de como tornar a vida mais doce.  E que esse processo pode começar já, no instante em que terminar a leitura deste artigo. Basta querer saborear com mais gosto a vida, não estar impermeável a ela e, paradoxalmente, sair da sua zona de conforto. Assim é a existência: um desafio, que pode exigir certo esforço, mudança de olhar e compromisso. Qual a recompensa? Ser mais vivo, alegre e participante.

Um oceano de doçuras

Nesses 12 anos de vida simples – e eu faço parte da equipe desde o comecinho –, muitos dos textos que assinei e que outros jornalistas escreveram com tanta competência propõem uma vida mais doce. A revista poderia se chamar vida doce, sem maiores alterações de conteúdo. E o que foi falado por aqui todo esse tempo? Que complicamos demais o que poderia ser simplificado, que carregamos muitos pesos desnecessários, que a existência sempre pode ser mais leve, mais livre, mais pacífica. E bela. Nas fotos e ilustrações, procuramos sempre mostrar a beleza do que é simples, sem perder a cor, o brilho, a graça. Ao mesmo tempo, a revista nos torna mais conscientes nas escolhas de consumo e nos propõe ter mais tempo para pequenos detalhes: plantar as próprias ervas, dedicar mais horas do dia a dia para ler ou meditar, preparar um prato diferente, apurar o paladar, ou desenvolver habilidades manuais, como o bordado. E mais: aprender a ouvir mais do que falar, a ser justo e ético, a respeitar e a agradecer, a ser mais criativo. O incrível é que cada vez mais pessoas tendem a escolher esse caminho. A cada matéria que escrevo por aqui me dou conta de que há cada vez mais o que falar. Porque os assuntos se refinam a cada abordagem, se tornam mais profundos e instigantes a cada mergulho. Sempre a nos desafiar a incorporar na nossa rotina uma nova maneira de viver.

Foi o que fez, por exemplo, o escritor e escultor ítalo-espanhol Lanza del Vasto ao voltar de uma temporada na Índia, onde conviveu com o grande Mahatma Gandhi. O líder indiano chamava Lanza de Shantidas, “o servidor da paz”. E acreditava que ele poderia trazer a mensagem dele para os países ocidentais. Mas Lanza se perguntava como trazer a experiência vivida lá na Índia para o próprio cotidiano e o de outras pessoas. Depois de muito refletir, ele criou a Comunidade da Arca (Communauté de L’Arche), um movimento baseado na não-violência e na espiritualidade, os dois pilares da visão gandhiana. O nome foi escolhido porque se relaciona com a Arca de Noé, onde a vida foi recolhida em uma pequena comunidade sobre as águas, uma arca, durante um período de grande turbulência, como os de hoje. E também porque o nome nos faz lembrar do arco-íris, a ponte de luz que une o céu à Terra. As cinco comunidades da Arca também são lugares protegidos da agitação do mundo, onde se ensina a unidade inerente à existência, a não-violência nas relações humanas e o respeito às diversas formas de espiritualidade, embora sua orientação de base seja cristã. “A cada dia, as preces matinais são sempre inspiradas na forma de orar de uma grande religião, para que se aprenda a respeitar todas elas e a reconhecer a unidade inerente a todas. O sino toca a cada hora para que possamos nos recolher alguns minutos durante o trabalho feito na cozinha ou na fazenda, as refeições são comunitárias e, à noite, temos cerimônias de reconciliação para possíveis conflitos e uma grande fogueira onde celebramos a vida como uma festa”, conta José Maurílio Teixeira, pedagogo antroposófico e representante da Arca por aqui. O que mais se ensina nessa comunidade é um novo estilo de viver, em que os conflitos são resolvidos com diálogos e respeito ao outro, onde a espiritualidade permeia o trabalho, e a alegria e o clima festivo estão presentes nas celebrações. “É claro que a vida comunitária inclui conflitos. Mas as vivências na Arca nos ensinam a encará-los de frente”, diz Maurílio. “O que as pessoas trazem de suas experiências nas comunidades da Europa (só existem por lá) ou dos encontros feitos no Brasil é mais consciência da unidade de tudo. Procuramos trazê-la para o nosso cotidiano por meio das escolhas, no que compramos e consumimos, em um comportamento mais amoroso com o outro ou mesmo em uma divisão de tarefas mais sábia no nosso cotidiano”, diz.

Ou seja, para tornar a vida mais doce, talvez seja bom aprender com alguém que já fez esse processo. Como? Pode ser vivendo por algum tempo em uma comunidade diferente da sua ou mesmo em uma escola (principalmente as que pregam um estilo de ensino diferente),  ou em cursos que nos ensinem essa outra visão. Ou, ainda, pode ser lendo livros que falem do tema (ou reler com mais atenção sua coleção de vida simples). Vale também se inspirar em um exemplo de vida de alguém a quem admiramos.

Não precisamos fazer esse processo sem ajuda, baseados apenas em nosso acertos e erros. Muitas pessoas podem nos auxiliar nesse caminho.

A Lei do Jardim

Uma das primeiras lições de como trazer esse mundo mais doce para nossa vida é esta: talvez este mundo não esteja pronto e você vai ter de construí-lo. Este é o princípio da Lei do Jardim: comece exatamente onde está. A terra debaixo de seus pés talvez lhe traga as flores mais belas. “Faça seu jardim ficar bonito, qualquer que seja ele. As borboletas virão”, escrevem os autores William Douglas e Rubens Teixeira no livro Sociedade com Deus (Sextante). Para que isso aconteça, eles enumeram 25 leis baseadas nos ensinamentos da Bíblia, mas que podem ser aplicadas por pessoas de qualquer religião.

Segundo William, toda terra prometida tem um deserto antes. “Saber arar essa terra debaixo dos nossos pés e cultivar as sementes onde estamos pode ser o primeiro passo para a mudança que tanto desejamos”, diz ele. “Quando os judeus são expulsos de Israel para se tornarem escravos na Babilônia, Deus diz algo surpreendente: ‘Trabalhem para o bem da cidade aonde eu os mandei. Orem a mim pedindo em favor dela’”. Ou seja, é no meio das condições difíceis que se formam os bons lutadores. “Mar calmo não faz bom marinheiro”, afirma William Douglas, um dos autores. “Se queremos mudar, o primeiro passo é compreender que qualquer planta para ser transplantada precisa estar forte”, continua. Portanto, para trazer mais doçura para a rotina, talvez seja preciso que haja esforço, trabalho e disciplina anteriormente. Mas tudo isso sem perder o amor de vista. “Viver não é deixar a tempestade passar. Viver é aprender a dançar na chuva”, escrevem os autores, citando a escritora Vivian Greene.

Do acolhimento aos mimos

No universo feminino é estimulado o cultivo da doçura amorosa, da delicadeza, da atenção aos detalhes e da sensibilidade, elementos que fazem muita falta no mundo patriarcal masculino. O fundador da Organização Brahma Kumaris, o mestre indiano Dada Lekhraj, sabia disso. Ainda no começo do século 20, apostou na liderança feminina como forma de compensar a realidade de um mundo rígido, bélico e violento. Por isso, a linhagem de mestres da instituição está a cargo, basicamente, de mulheres. E esse olhar feminino transparece em tudo: suas escolas de meditação e centros de retiro são muito limpos e luminosos, o jardim, bem cuidado e a comida, vegetariana, extremamente bem feita. Além disso, sobre o travesseiro dos hóspedes, sempre haverá uma lembrancinha à espera: um doce, um marcador de livros... É todo um cuidado ao outro, pois, para os seguidores desses ensinamentos, ele é sempre uma das expressões do divino. “Uma estudiosa dos movimentos espirituais liderados por mulheres, que esteve incógnita entre nós a trabalho, destacou três pontos na sua observação dos nossos encontros: o acolhimento, a atenção aos detalhes e ser capaz de rir dos seus próprios erros”, afirma a socióloga Luciana Ferraz, presidente da Brahma Kumaris no Brasil.

A instituição procura, de fato, integrar os diversos aspectos desse universo. Ou seja, se a figura feminina tradicional nos ensinou a importância da qualidade no que faz, do amor ao que se dedica, a mulher moderna também nos dá grandes lições: a independência e a integridade de seus valores, por exemplo. Assistimos, neste momento, um outro estágio de desenvolvimento da mulher, segundo Luciana: a integração desses dois níveis anteriores, no que eles têm de melhor, e o nascimento de Shakti, palavra indiana que significa deusa, mas também poder. É o surgimento da mulher plena, realizada e espiritualmente poderosa. “Ela é doce, mas não de uma doçura falsa e subserviente, que nega seus próprios valores para manipular o outro”, explica Luciana. Em outras palavras, uma doçura justa, que também sabe ser firme e que não trai seu pensamento. “Não é algo melado, que faz uso da fala mansa como forma de manipulação”, diz. É o doce do acolhimento, do aconchego, da generosidade, do perdão e da compaixão. Em outras palavras, esse mundo feminino – em que a criatividade, a sensibilidade, o cuidado consigo mesmo e com o outro e a doação são tão importantes – pode servir de um norte na nossa procura por uma vida com mais doçura. Mais tempo para o jardim, a casa e o aconchego, a beleza, a meditação e o espírito. Uma maneira de ser feliz, de dançar na chuva, sejamos nós homens ou mulheres.

Vivências de paz

Uma vida mais doce também significa uma existência mais pacífica, sem dúvida. Wolfgang Dietrich é um professor austríaco detentor da cátedra de Paz e Resolução de Conflitos da Unesco, na Universidade de Innsbruck, na Áustria. E um cotidiano mais açucarado inclui o aprendizado de como administrar os conflitos, internos e externos, e a comunicação não-violenta. Algo que a maioria de nós tem de aprender já adultos, pois normalmente as escolas não se interessam por isso. Pergunto a Wolfgang como colocar mais paz nas nossas vidas.  “Não aspirando por isso! ‘Mais’ é uma palavra que aponta para o futuro, desvaloriza o presente e nos desconecta do aqui e agora. E a paz só pode ser experienciada no presente, diante do que está acontecendo naquele instante. A paz no passado ou no futuro mina o poder do agora. Nos torna sonhadores imersos em devaneios.” Segundo ele, há um contador de histórias dentro de nós, que é um dos aspectos da mente.  E ele sempre dirá que a paz pode ser alcançada lá na frente, ou que podemos tê-la com o nosso desejo de paz. Isso não é verdade, de acordo com o professor. “O contador de história pode dizer que sim, mas a paz só se revela no aqui e agora”, afirma. Esse contador interno também cria desejos, fantasias, filminhos mentais que, na realidade, nos afastam cada vez mais desse estado de tranquilidade. “A paz começa com a consciência da existência desse contador de histórias e sua conversa fiada. Então, temos de estar conscientes desse personagem interno que sempre vai jogar a história mais para frente, para uma fantasia.” Reformulo, então, a pergunta: como aprender a viver em paz e qual a importância de se aprender isso bem cedo? Dietrich diz que se tivéssemos aprendido de forma vivencial, quando crianças, a nos sentir em paz e a resolver conflitos, não haveria necessidade de cursos, palestras e livros que nos ensinem a fazer isso. “O que deveria acontecer nas escolas não é que alguém ensine algum tipo de paz, mas que as próprias instituições apliquem nelas mesmas os processos cooperativos de aprendizagem, como o princípio natural que norteia a espécie humana”, finaliza.

Alguns livros também podem ser úteis nessa busca, como o clássico do psicólogo americano Marshall Rosenberg, sobre comunicação não-violenta, disponível na web. Tem ainda a obra recém-lançada Deixe de Ser Bonzinho e Seja Verdadeiro (Sextante), assinada pelo advogado belga Thomas d’Ansembourg. Todos esses autores nos convidam a entrar em contato com nossos sentimentos e necessidades. Expressá-los com clareza sem ser excessivamente doce é uma forma de não ceder e nem se violentar.

“Quando escutamos o outro e expomos claramente nossos motivos, não há ofensa, e há mais aceitação externa”, diz Thomas em seu livro. Chegamos ao final. Aprendemos que a doçura pode habitar lugares inóspitos, que podemos aprender sobre ela em vivências comunitárias, cursos, livros e revistas. E que uma vida mais doce pode se iniciar no lugar onde estamos, que o universo feminino pode ser usado como referência nessa procura e que a paz e o aprendizado de resolução de conflitos nos ajudam a ter um dia a dia melhor. É um bom começo. Que pode se iniciar exatamente agora.

Liane Alves  é uma pessoa doce e amorosa, mas sem perder a pimentinha e uma boa dose de firmeza na hora em que isso se faz necessário.

23/07/2015 - 13:00

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