Recupere sua força

Levar alguns tombos faz parte da vida. Mas é quando dividimos as dificuldades desse período que é possível nos reerguer com mais avidez e coragem

Ana Holanda/ Sibele Oliveira

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Tarde de sábado. Você está esparramado no sofá, ainda de pijama, com um balde de pipoca e assistindo ao mesmo filme pela enésima vez, apesar do dia ensolarado e do convite para encontrar os amigos. É que a vida lá fora parece seguir um ritmo dissonante do seu. Além disso, você está machucado, frustrado, se sentindo um fracasso. Os motivos que o levaram para esse lugar podem ser variados: o fim de um relacionamento (longo, intenso ou que deveria ser “para sempre”); uma demissão ou aquela promoção que não aconteceu; a aposta no próprio negócio que ruiu e onde você havia apostado todas as fichas; ou a sua decisão errada que afetou uma porção de gente. Levar um tremendo tombo, cair com a cara no chão e não saber como se reerguer acontece com todo mundo, mesmo! Mas como encontrar forças para se levantar? Pois é, esse é o problema. Não sabemos  ou tentamos nos levantar de maneira tão brusca que a próxima queda pode vir logo em seguida. Entender como é possível seguir em frente depois de um tombo da vida foi o mote do último livro da pesquisadora americana Brené Brown – e que chegou há pouco mais de um mês por aqui. Em  Mais Forte do que Nunca (Sextante), Brené vai até o chão e conversa de igual para igual. “Estou aprendendo que o processo de lidar com a dor e superá-la tem tanto a nos oferecer quanto o de agir com coragem. É na hora de recuperar a estabilidade emocional em meio às dificuldades que nossa coragem é testada e nossos valores são forjados. Dar a volta por cima depois de uma queda é a maneira de cultivar uma vida plena, além de ser o processo que mais ensina sobre nós mesmos”, escreve nas primeiras páginas e já adiantando muito do que o livro traz. Ela mesma, inclusive, conta algumas de suas quedas, o que sentiu em cada uma delas e como conseguiu sair da situação colecionando bons aprendizados – e essa abertura para expor seus fracassos, por si só, já é linda.

 Vamos falar sobre isso?
Brené Brown dedicou mais de dez anos de sua carreira para pesquisar, pela Universidade de Houston (EUA), a vulnerabilidade ou por que fugimos de emoções como medo, mágoa, decepção. Ela se tornou mundialmente conhecida depois que falou sobre isso no TEDxHouston conferência que tem como objetivo disseminar boas ideias, em 2010. A palestra já foi assistida por mais de 25 milhões de pessoas e está entre os maiores sucessos do TED. Seu último livro, Mais Forte do que Nunca, é um desdobramento dessa ampla pesquisa sobre a vulnerabilidade. Nele, ela esmiúça nossos tombos e, já nas primeiras linhas, revela algo que faz muito sentido: não sabemos como lidar com nossos fracassos porque não falamos sobre isso. Por exemplo, quando lemos ou tomamos conhecimento de histórias de superação, em geral, ficamos com a impressão de que todo mundo cai, mas sempre se levanta num passe de mágica. É a história de alguém que emagreceu muitos  quilos, com imagens do “antes” (uma foto no seu pior ângulo) e “depois” (feliz e bem-vestido). Mas ninguém sabe como foram os dias em que aquela pessoa quis colocar tudo a perder; como se sentiu solitária em meio ao desânimo ou onde buscou energia para seguir em frente com as mudanças na alimentação, seu esteio emocional, e no estilo de vida. Trazendo isso para mais perto, sabe aquele seu amigo que era diretor de uma multinacional e foi demitido? Pior, depois de meses de incerteza, ele conseguiu um novo emprego, só que em um cargo e com um salário menor (mas a gente não deveria sempre andar para a frente?). Certamente nem você – nem ninguém – conversou com ele. Como sobreviveu à incerteza? E o que está sentindo agora: frustração, mágoa? Ninguém sugere algo como: “Quer conversar sobre isso? Estou aqui para ouvi-lo...” Provavelmente, nem o amigo nem você vão se sentir à vontade com esse diálogo. Ninguém está imune ao fracasso, a cair com a cara no chão da vida e machucar dolorosamente a alma. Todo mundo pode passar por isso – incluindo eu e você – muitas e muitas vezes ao longo da jornada. A questão é que existe uma diferença enorme entre aprender com esse momento e sair dele mais forte ou fingir que o tombo não doeu e passar o resto dos dias usando curativos para estancar o sangramento (somos craques em camuflar a dor). “Nada é perfeito, mas é possível usar nossas inevitáveis falhas para inspirar a inovação.” É isso o que acredita a canadense Ashley Good,  que criou uma organização chamada, veja só, Fail Forward (Fracasse para a Frente, em tradução livre). O trabalho de Ashley é ajudar pessoas e empresas a expor seus fracassos. Segundo ela, é através dessa aceitação – sim, nós falhamos, erramos, nos demos mal em relação às nossas escolhas – que vamos conseguir sair de tudo isso mais fortes. No caso das empresas, é uma forma de chegar à almejada inovação. Ashley percebeu, na prática, que, quando um líder assume seus erros, em vez da temida chacota, recebe em troca uma equipe mais próxima que percebe ali não um chefe infalível, mas uma pessoa como eu e você. E isso muda tudo. Ashley ajudou a fundar um site bem interessante, o AdmittingFailure.com (admita seu fracasso), no qual é possível compartilhar casos de insucesso e as lições tiradas de cada um deles. Os tombos que levamos por aí são também o mote do livro da americana Sarah Lewis O Poder do Fracasso (Sextante). “Com certo distanciamento crítico, somos capazes de ver que muitas de nossas conquistas mais grandiosas – desde descobertas recentes do Prêmio Nobel, passando por clássicos da literatura, das artes plásticas e da dança, até empreendimentos inovadores, revolucionários – foram, na verdade, não proezas revolucionárias, mas correções graduais, ajustes incrementais, com base na experiência adquirida depois do disparo da flecha anterior”, escreve Sarah. Ao longo dos capítulos, ela conta casos reais de fracasso, que ela prefere chamar de aprendizado ou aprimoramento (e talvez esteja certa em fazer isso). O mais bacana é que ela lança um olhar humano em relação aos nossos tombos, dizendo, por exemplo, que falhar pode ser o fim de algo ou o início de possibilidades infinitas. E é essa forma de encarar as coisas com compaixão, aceitação das fraquezas e erros – e da gente ser quem realmente é – que nos torna aptos a superar fases assim como pessoas, e não como heróis. 

Medo do quê?
A americana Brené Brown costuma dizer que quando caímos somos tomados pelo medo: do lugar onde fomos parar (perde-se o chão), de expor nossas falhas e imperfeições. O psiquiatra e professor de psicologia da PUC-SP Alexandre Saadeh explica o que acontece nesses momentos de crise. “Saímos da zona de conforto para um lugar onde tudo se perde. É difícil não sentir seu impacto, porque é uma situação de perda. Lamentamos pelo que estava garantido, que era uma certeza e foi perdido.” E completa: “É natural lamentar por aquilo que se perdeu, mas é necessário buscar um novo lugar, ter a disponibilidade de arriscar outras possibilidades. É nessas horas que medimos a capacidade que temos de nos adaptar a situações novas, de fazer uma reavaliação e mudar”. Quando caímos é como se alguém apagasse todas as luzes e tivéssemos que tatear um caminho desconhecido na escuridão. O psicólogo americano Timothy Butler, da Universidade de Harvard, escreveu sobre isso em Como Sair do Impasse: Como Transformar Crises em Oportunidades (Campus). “Temos a sensação de que a vida está fluindo ao nosso redor, mas que somos como uma rocha em um rio, ansiando para sermos levados e transformados pela energia do rio. Quando estamos presos em um impasse, esquecemos que a próxima coisa que nos despertará e nos energizará profundamente já está em movimento, se deslocando na direção de nossa consciência. Quando atingimos um beco sem saída, algumas vezes deixamos de perceber que se trata de uma crise necessária. Sem ela não podemos crescer, mudar e, mais cedo ou mais tarde, viver plenamente em um mundo mais amplo”, explica ele. Essa sensação foi experimentada pela empresária e designer digital Gabriela Rodrigues, há dois anos. Como qualquer estudante, ela começou a faculdade cheia de empolgação, certa de que assim que colocasse as mãos no diploma pelo menos uma grande empresa reconheceria seu talento e lhe daria um bom cargo. Antes do que pensava conseguiu um estágio na área de criação em uma das maiores editoras do país. Mas sua alegria acabou junto com a graduação. Gabi foi demitida porque a empresa estava passando por cortes. E ela engrossou, de uma hora para outra, a rotina de milhares de brasileiros que procuram emprego todos os dias. Durante um ano, usou todas as suas manhãs para enviar currículos até perder a conta de quantos. Depois de muito esperar por uma resposta positiva, participar de infindáveis entrevistas e ouvir sempre o mesmo “não”, sentiu-se profundamente abalada, mesmo contando com o apoio do marido. “Passei a acreditar que eu não sabia fazer nada. Me esforcei para pagar por todo aquele conhecimento e ele agora não servia para nada. Acreditei que tudo havia sido em vão”, conta. Sentimentos como os descritos por Gabi são bem normais. Quando fracassamos – ou quando algo não sai exatamente da maneira como imaginávamos – a sensação é de que “somos” aquilo: um grande fracasso. E é nesse momento em que tudo parece péssimo que precisamos compartilhar nossos sentimentos com outras pessoas. Pode ser com alguém da família (cônjuge, irmão, primo querido) ou um amigo próximo. Um terapeuta também pode ajudar nessa fase. Recorrer à espiritualidade é outra alternativa de grande valia. E isso não se restringe a uma crença religiosa. A espiritualidade de que estamos falando é aquela que alimenta a alma. Tem gente que encontra esse refúgio para o espírito em uma atividade esportiva, como a corrida, o ciclismo, uma arte marcial, ou em outras variações, como a jardinagem, a pesca, a pintura, a culinária. Cada um sabe o que traz calma para a mente e aconchego para o coração. A americana Julie Powell, protagonista de Julie & Julia (Record), que depois ganhou versão para o cinema, encontrou na cozinha seu refúgio para entender o que havia dado de errado em sua vida. Num momento de profunda insatisfação com a carreira – ela se sentia um completo fracasso, principalmente em comparação às amigas –, decidiu refazer, receita por receita, o livro da incrível culinarista Julia Child, que teve papel importante na gastronomia americana. A comida, nesse caso, a salvou. Mas não pense que foi algo fácil no estilo “do fracasso ao sucesso”. No meio do percurso, ela teve várias outras quedas, com direito a lágrimas e crises: o casamento ficou por um fio, teve algumas decepções consigo mesma e com os outros, e precisou enfrentar seu medo de começar o projeto de cozinhar e escrever um blog, onde postava suas experiências ao preparar as receitas,
Trajetória não muito diferente foi a da também americana Cheryl Strayed, registrada no best seller Livre (Objetiva). Aos 22 anos, a mãe, a pessoa mais importante de sua vida, morreu após um câncer devastador. Cheryl se viu sem chão. Mas ao invés de procurar apoio, se fechou e optou por não expor a dor. Acabou se afastando da família e do marido, de quem se separou depois. Aos 26, estava sozinha e em um poço bastante fundo. Foi quando decidiu, como última cartada, percorrer a Pacific Crest Trail (PCT), uma trilha de 1.770 km, sozinha. Ela acreditava que na solidão iria conseguir encontrar as repostas que buscava. Sim, ela ficou só em muitos trechos, enfrentou momentos de dor física e emocional. Também pagou o preço por suas decisões equivocadas, da mochila pesada ao tênis apertado, mas foi com as pessoas que conheceu pela trilha que aprendeu mais sobre a PCT e sobre si mesma. Ou seja, para se reerguer é preciso silenciar para ouvir onde dói ou perceber em qual direção o caminho aponta. Para Cheryl foi a diferença entre passar a vida olhando para o chão, se sentindo a pior pessoa do mundo, ou para a frente e perceber que o universo é bem mais amplo, cheio de estrelas e de possibilidades de estradas para trilhar.

Silenciar para ouvir

 A psicóloga e escritora americana Barry Stevens é autora de um livro conhecido mundo afora, Não Apresse o Rio – Ele Corre Sozinho (Summus). Nele, ela se utiliza da citação zen que dá título a obra para falar sobre algo que precisamos aprender e que cabe muito bem aqui: “Deixar-se ir junto com a vida, sem tentar fazê-la ir para algum lugar, sem tentar fazer com que algo aconteça, mas simplesmente ir, como o rio. E, sabe, o rio, quando chega nas pedras, simplesmente se desvia, dá a volta. Quando chega a um lugar plano, ele se espalha e fica tranquilo. Simplesmente vai se movendo junto com a situação em torno, qualquer que seja ela”. Uma das inspirações de Barry foi observar como os índios americanos extraíam das dificuldades recursos internos para se desenvolver como pessoas e para aprimorar o trabalho. É preciso calma e também confiança nos movimentos da vida. As crises nos  levam diretamente ao desespero. Por sua vez, o desespero dá um nó nos pensamentos e tira a nossa capacidade de refletir em relação às atitudes, sentimentos e escolhas. “As pessoas são criadas com a ideia de que tudo vai continuar garantido, que a segurança nunca vai faltar. Isso é ruim, porque sempre vai acontecer alguma coisa para nos desestabilizar. Quando levantamos da cama e saímos, já estamos expostos a riscos. Ou nos arriscamos ou nos contentamos com a vida do jeito que está. Ou acreditamos na nossa capacidade de escolher ou seremos sempre aquela figura frágil, que a vida escolhe o que quer”, afirma Alexandre Saadeh. Lembram da Gabriela Rodrigues, a designer cuja história foi compartilhada na página anterior? Ela se sentiu fracassada por algum tempo e também envergonhada. Mas soube buscar ajuda – o marido foi incrível nisso e os amigos também –, expor suas fraquezas e traçar, aos poucos, uma nova rota. Voltou ao passado e ao passatempo antigo de fazer trabalhos manuais para presentear pessoas queridas e enxergou ali uma oportunidade. Procurou a ajuda do Sebrae, fez cursos diversos e optou por algo bem familiar em tempos de instabilidade econômica: montou um negócio próprio, uma loja virtual onde vende objetos decorativos produzidos com materiais reutilizados, como garrafas, CDs  e discos de vinil. Em poucos meses de atividade, já participou de feiras de rua, foi convidada para oficinas e exposições e recebe encomendas pelo site e redes sociais. “Me senti capaz de novo, embora a parte financeira ainda não esteja equilibrada. Mas estou pessoalmente realizada. Às vezes fico frustrada quando não vendo como gostaria, mas transformo o desapontamento em aprendizado”, diz. Não existem garantias de que o negócio de Gabi vai dar certo. Se, por acaso, as coisas desandarem, ela com certeza já saberá lidar com a situação com mais sabedoria. Ela, afinal, aprendeu algo que boa parte de nós derrapa para compreender: perdemos tempo demais evitando nossas histórias difíceis, dores e fracassos. E não percebemos que são exatamente os ensinamentos dos caminhos mais complicados que nos trazem força para chegar aonde desejamos, de verdade.

03/08/2016 - 13:20

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