Saiba lidar com as incertezas

Os momentos em que nada é certo e que passam ao largo da nossa zona de conforto são incrivelmente ricos em aprendizados e em novas oportunidades de reinventar a própria realidade

Laís Barros Martins

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Já faz algum tempo que atuo como jornalista autônoma, sem carteira assinada. Por isso, estou em constante atualização da caixa de entrada para saber se há novos e-mails com encomendas de texto. Estar à mercê das propostas de trabalho e fora de um ambiente controlado faz com que, entre uma reportagem e outra, exista incerteza em abundância acompanhada de seu derivado mais comum, a ansiedade. O exercício diário é entender, com paciência e confiança, que esse é um processo nem um pouco definitivo e cheinho de múltiplas possibilidades. Como ainda estou aprendendo com esse cenário onde prevalece a ausência das certezas, quero aproveitar esse ponto em que nada é certo para começar a trilhar o texto que segue. Em um ano de tantas mudanças nos diversos cenários, ao nosso redor e no universo particular, o ensinamento mais presente é de que é preciso saber lidar com algo intangível: o fato de que nada é totalmente certo. Afinal, apesar do falso controle sobre o plano das coisas previstas, a certeza é algo que escapa a todos, como um amontoado de dentes-de-leão já assoprados. E tudo bem. Mesmo.

Imprevisibilidade em alto grau
O movimento das incertezas tem um fluxo contínuo – na maior parte do tempo se comporta de forma sutil e delicada, mas às vezes se faz abrupto, impondo-se a nós. Não é assim? A verdade é que temos de lidar, percebendo ou não, com um alto grau de imprevisibilidade o tempo todo, desde as incertezas mais duras de encarar aquelas miudezas do dia a dia, que também nos fazem sofrer. Grávida do primeiro filho, a escritora e cantora Olivia Byington preparava um quarto com lençóis de linho branco para o berço e bordados feitos à mão. Mas as coisas não aconteceram de acordo com o roteiro preestabelecido e ela precisou superar algo inesperado. O primogênito nasceu com síndrome de Apert, uma desordem genética que causa um desenvolvimento anormal da caixa craniana, entre outros problemas. A aparência de João não era de um bebê perfeito, como almejava Olivia. “Foi triste entrar no quarto que havia sido preparado para ele viver o dia a dia de uma nova realidade que contrariava todos os sonhos e as expectativas cultivadas nos meses anteriores. Eu dava um passo de cada vez na direção de aceitar, compreender e amar o novo filho imperfeito, o novo destino”, escreve ela. A história de Olivia e João é contada em O Que É Que Ele Tem (Objetiva), onde ela descreve medos, aprendizados e a caminhada de incertezas. Outro exemplo é o da escritora Joan Didion e seu bonito relato em O Ano do Pensamento Mágico (Nova Fronteira), no qual ela divide com o leitor a morte do marido. Joan fala sobre o “instante comum” em que tudo se transforma: “A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”, escreve ela. A morte talvez seja a incerteza em sua forma mais radical. Nela cabe a contradição de que o nosso fim está previsto, mas, ao mesmo tempo, não se pode prever. Dar um passo de cada vez na direção de aceitar e compreender, como descreve Olivia  em um trecho cheio de delicadeza já nas primeiras páginas de seu livro, talvez seja a melhor solução para os casos em que a incerteza surge de maneira tão dilacerante: “Eu passava horas numa cadeira de balanço, com a luz apagada, pensando no porquê daquilo tudo, me sentindo escolhida, com um estranho presente do destino no colo que eu não sabia que fim teria. Começava a me dedicar a ele como qualquer mãe se dedica a seu filho. Num cotidiano bem diferente do planejado. Eu estava em construção. Estava diante do mistério da vida. Sem saber, eu já fazia parte da grande comunidade de pessoas fora do padrão, com a chance de arregaçar as mangas e buscar a alegria de novo”.

 No dia a dia
As incertezas, claro, não são sempre extremas, feitas por rompimentos que nos colocam em terreno desconhecido. Existem outras pequenas  expressões de sua presença com as quais precisamos também aprender a conviver. Repare bem. Enfrentamos uma sequência de “ses” em considerações que nos põe em dúvida e deixa a sensação de estagnação ou impotência – pode ser o país e suas indefinições o que nos preocupa, o emprego instável, o dinheiro que talvez não dê para o mês, um relacionamento de inseguranças ou o corriqueiro “o que fazer agora?” das mais diversas situações. A soma dessas incertezas externas, mesmo quando passam despercebidas ou não são processadas em sua inteireza de forma consciente, exerce grande influência em nós, estabelecendo uma intensa troca de sensações que acaba afetando não apenas a gente mesmo mas as pessoas ao redor. “Há uma vertigem na incerteza que assusta e por isso podemos querer fugir dela”, comenta Mauro Amatuzzi, filósofo, psicólogo e doutor em educação. “Mas, se suportamos o incômodo, ela pode abrir caminhos e oferecer criatividade, porque passa pela sensibilidade aos sentidos”, completa ele sobre a oposição entre uma realidade que julgamos conhecer e outra em que predomina o desconhecido, mas que pode significar liberdade em potência e fazer brotar daí inspirações bacanas para seguir em frente. Ou seja, encarar tempos ou situações de incerteza é também saber aproveitar as oportunidades que a vida nos dá para fazer diferente. No entanto, é preciso coragem para enfrentar esse vazio, “o espaço da liberdade” onde o voo acontece, em vez de preferir as gaiolas, “o lugar onde as certezas moram”, conforme recomenda o escritor Fiódor Dostoiévski em seu romance Os Irmãos Karamázov (Editora 34). Não há o que temer se estivermos abertos para reconhecer a energia construtiva nessa aparente fragilidade do desconhecido, e seguir “apesar de”.

 Os dias se sucedem uns aos outros
Mas por que tememos aquilo que não é certo? Porque aprendemos a olhar a vida desse jeito. O enredo que nos contam é de que é preferível perseverar em busca de uma certeza absoluta em vez de aceitar a natureza da vida, incerta em essência. O detalhe que excluem dessa narrativa é que ocupar um lugar bem distante da zona de conforto pode ser positivo à medida que nos impulsiona a encontrar recursos dentro da gente para lidar com as novas situações. Afinal, a realidade é feita da convivência com as impermanências que surgem numa alternância desassossegada: assim que nos satisfazemos com a resolução de alguma questão que nos atormenta, logo vem outra pedindo a nossa atenção. Para complicar só mais um pouco, os questionamentos geralmente não vêm em fila, cada um por vez, mas vão se apresentando de forma aleatória e nos submetendo a seu ritmo caótico. Então, mais uma vez, precisamos ser flexíveis e nos dedicar à adaptação a uma nova ordem recém-estabelecida que vai durar só até a próxima novidade que já vem chegando. Esse tipo de sensação de que nunca estamos pisando em chão firme, pois haverá sempre uma nova instabilidade, é objeto de interesse do sociólogo Zygmunt Bauman. Aposentado, ele se debruçou na teoria do que chamou de modernidade líquida, esta condição de mudança constante à qual estamos sujeitos e que nos afeta diretamente porque traz consigo o sentimento de não sabermos o que surgirá em seguida. Tudo é fluido, frágil e instável. E isso tem a ver com o consumismo, com o menor envolvimento nas relações, num excesso de individualismo, conforme escreve: “Nós somos responsáveis pelo outro, estando atentos a isso ou não, desejando ou não, torcendo positivamente ou indo contra, pela simples razão de que, em nosso mundo globalizado, tudo o que fazemos (ou deixamos de fazer) tem impacto na vida de todo mundo, e tudo o que as pessoas fazem (ou se privam de fazer) acaba afetando nossa vida”. Numa interpretação livre, tendo a acreditar que uma das chaves para lidar com as incertezas seja, provavelmente, ir na contramão disso e nos aproximarmos uns dos outros, o que trará novamente a sensação de que não estamos sozinhos e que podemos atravessar tudo isso juntos. Fábio Mariano Borges, sociólogo especializado em cultura e comportamento, fala sobre um ciclo natural que intercala fases de aquecimento e euforia com etapas de estabilização, de frequências diferentes. Para ele, “o período atual é de intensas transformações num cenário que pode ser alterado a qualquer instante”, em aspectos econômicos, culturais, sociais, políticos, ambientais e até mesmo emocionais, o que gera “a única certeza de que tudo é incerto”. Para atravessar esse período, ele sugere que a gente reconheça a instabilidade a partir de uma atitude de empatia e de compreensão diante do novo, com reflexões mais cuidadosas sobre os nossos valores e comportamentos e o cultivo de uma relação mais generosa com o outro. Como insiste Borges, “as fórmulas antigas não funcionam mais”. Foi nesse momento que surgiu, por exemplo, o projeto Imagina.vc, um espaço que instiga as pessoas a experimentar novos modelos de mundo. Na prática, a plataforma virtual sugere temas considerados incômodos, como aborto, maioridade penal, cyberbulling ou representatividade negra na infância.
O objetivo é trazer esses temas à tona e pensar em caminhos práticos para modificar a situação. Isso é feito através de textos produzidos por especialistas na área, conversas ao vivo e outras propostas que surgirem. O que o Imagina.vc faz é provocar “o potencial de transformação das pessoas” redirecionando a energia para as ações concretas e assim mudar o que não está legal.

 Futuro incerto
 Mas será que vamos ter de andar sempre nessa corda bamba? Calma, não é bem assim. Existe um momento em que tudo ganha nova forma e você volta a se sentir seguro ou confortável. Nassim Nicholas Taleb, pesquisador e financista, autor de A Lógica do Cisne Negro (Record), elaborou uma teoria para explicar as características em comum desses momentos extraordinários que acontecem de supetão, como reviravoltas, crises ou até mesmo tragédias: são “inesperados” (nada do que aconteceu antes apontava para essa probabilidade); têm “grande impacto” (nos encontram desprevenidos e capturam a nossa atenção); e geram “explicações” (pelo temor da incerteza, eventos assim exigem argumentos que os justifiquem). Cisnes negros são mais comuns do que podemos supor. Se prestarmos atenção, podemos em breve testemunhar um deles. Afinal, o momento de poucas certezas, sobretudo no cenário político e econômico, quando tudo parece tão inacabado, pode significar a construção de uma nova realidade. Ainda não conseguimos antecipar, mas seguramente está em andamento – é que as mudanças estão em curso antes de serem percebidas como resultado. Além disso, a rotina embaça a nossa capacidade de enxergar. E, então, só a partir de certa perspectiva sobre os fatos,  responsável por dar-lhes sentido, é que vamos conseguir reconhecer a nova ordem das coisas. A beleza está, enfim, na disposição em seguir mesmo não conhecendo o fim da história, tendo de lidar com as incertezas do caminho e tentando encontrar propósito no cotidiano.

Amanhã há de ser outro dia
A arte contemporânea também está preocupada em refletir sobre as atuais condições de vida. O tema da última Bienal de São Paulo foi exatamente sobre isso, Incerteza Viva. A apresentação assinada pela curadoria diz que as artes “sempre jogaram com o desconhecido”, considerando a intervenção da incerteza nesse processo ao explorar a imaginação, a criação, a ambiguidade e a contradição como narrativa: “A arte se alimenta do acaso, da improvisação e da especulação. Ela dá espaço ao erro, à dúvida e cria brechas mesmo para as apreensões mais  profundas, sem evitá-las ou manipulá-las”. O cientista social Rafael Araújo, que pesquisa arte e tecnologia, ressalta a naturalidade desse evento, já que “a arte está sempre atrelada à sua época e busca refletir a dinâmica das incertezas na atualidade” e, em síntese, fala sobre “a concepção da condição humana”. A convite da Bienal, o escritor Mia Couto preparou um texto para o material educativo com o título Escrever e Saber, no qual explora a ideia de que escreve justamente porque não sabe e confessa gostar dessa “certa ignorância”. “A construção de uma narrativa implica estar disponível. E para estar completamente disponível há que deixar de saber, há que deixar de estar ocupado por certezas. [...] Esse tempo primordial de indefinição, essa travessia pelo desconhecido é um dos mais saborosos momentos do labor da escrita. Esse é o momento divino em que tudo pode ainda ser”, declara. “Talvez seja hoje necessário fazer um elogio faccioso a favor do que é incerto. Ao fim e ao cabo, a incerteza é um abraço que damos ao futuro. A incerteza é uma ponte entre o que somos e os outros que seremos”, completa ele. Ao expandir a nossa percepção, talvez a gente aprenda que os resultados nada mais são do que a intensa elaboração de suas partes, uma a uma. Coisas acontecem apesar de a gente querer ou não. Não há como controlar isso. Mas, para reconhecer a inteligência por trás dos acontecimentos e aprender a apreciar a beleza do mistério, é preciso não se apegar tanto na ordem pretensamente estabelecida pelo controle. E, assim, aceitar a liberdade que a incerteza, obstinada, está disposta a nos oferecer a cada dia. “Vamos?”, ela nos convida, sem antecipar o destino. Sem o inconveniente das certezas desajeitadas, conseguimos finalmente perceber que a sucessão dos dias está em plena atividade e o quanto tudo isso pode nos surpreender e trazer as repostas que tanto buscávamos. As surpresas que nos cabem estão sempre à espreita.

LAÍS BARROS MARTINS gosta de observar aquele momento limite em que as incertezas se resolvem e ganham finalmente um sentido.  

05/12/2016 - 11:57

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Revista Vida Simples