Saiba viver com menos

O exercício de se desfazer das coisas ou de não acumular demais conversa com a alma. Mas como definimos o que é realmente essencial na nossa trajetória?

Rosane Queiroz

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Por onde andará aquele vestido amarelo de flores brancas? Aquele que, embora eu não usasse há séculos, vivia ali, pendurado no armário, feito testemunha de tantos verões? Ele era apenas mais um, sufocado entre dezenas de cabides, dizendo: “Um dia você vai precisar de mim”. Hoje, não sei do seu paradeiro. Meu vestido floral se foi, em uma das caixas de roupas que doei para o Exército da Salvação ou em uma mala que despachei para a casa dos meus pais. A lembrança desse vestido me pegou porque é o único do qual não me dei conta do destino, depois que decidi me desfazer de metade de minhas coisas. Coisas e mais coisas acumuladas. Há pouco menos de um ano, eu morava em uma casinha de vila, em São Paulo, e comecei a sentir o espaço cada dia mais apertado. Entrava na cozinha e tinha a sensação de que o teto estava mais baixo, que as paredes haviam encolhido e eu era gigante. As prateleiras lotadas de pratos, tigelas, panelas, me sufocavam. Não tinha armário suficiente para as roupas, que acabavam apertadas em malas e caixas, em cima do guarda-roupa ou debaixo da cama. O quarto  da minha filha era o mais complicado, com brinquedos, bonecas, bichos de pelúcia, lápis-de-cor, cadernos, canetas, canetinhas, blocos, bloquinhos, jogos, joguinhos, em um cenário digno dos livros da série Onde está Wally?. Um dia, na nossa ausência, alguém invadiu a casa e roubou alguns aparelhos eletrônicos. Resolvi rapidamente pela mudança. E que dali sairia somente com o essencial. Anunciei móveis e objetos em sites. Organizei um bazar. Cada cadeira vendida era um alívio. Cada brinco que ganhava uma nova orelha me fazia feliz. No segundo round, fui além. Em vez de alugar logo outro espaço, decidi por uma casa de temporada do Airbnb, plataforma que permite alugar toda ou parte do imóvel. Os futuros inquilinos da casinha da vila toparam guardar por um tempo os objetos que sobraram. Dessa maneira, protagonizei a mudança mais leve da minha vida: saí com uma mala e minha filha com uma malinha. Chegamos na nova casa em clima de férias. Tudo isso para contar que, um mês depois, nem eu nem ela sentíamos falta do que havia ficado para trás, guardado nas caixas. Viver com dez peças de roupa dá uma sensação incrível de liberdade”, diz a editora de moda Biti Averbach. Ela passou por um processo parecido com o meu quando se mudou de São Paulo para a pequena Tiradentes (MG). Não sentiu saudade dos vestidos. Depois de criar o Bazar Bem Bom, em três edições, Biti reduziu pela metade seu acervo pessoal. Uma casa de herança foi o ponto de partida para cortar custos e excessos. O mais difícil, lembra, foi se desfazer da coleção de revistas de moda que lotavam três módulos de estante, do teto ao chão. Roupas, sapatos e bolsas ocupavam os guarda-roupas de dois quartos. “Comecei com um questionamento geral sobre moda, estereótipos e padrões de beleza, e o quanto isso tudo nos faz consumir”, lembra. Resumir, no seu caso, significou refinar. “Fiquei com as roupas que mais  têm a ver comigo”, conta ela, dona de um estilo atemporal, marcado, hoje, por algumas peças de grife, batas de algodão, jeans, apenas duas bolsas e poucos pares de tênis, sapatilhas e um par de chinelos. “Não tenho mais impulso fast-fashion, do tipo comprar uma blusa de estampa de zebra porque estão usando zebra”, diz. Passar roupa? Nem pensar. “Ter tempo livre é o luxo de viver com menos”, diz. Na cozinha “da roça”, a porcelana deu lugar à ágata. Detalhes que traduzem os ganhos da mudança em uma palavra: leveza! E, assim, Biti chegou à sua morada, em Minas, com uma bagagem mais leve e uma alma mais disponível para ocupar a nova rotina com a vida que, agora, ela deseja ter. 

Keep calm and compre pouco
 “As melhores coisas da vida não são coisas.” O recado carimbado em murais reais e virtuais reflete a forte tendência de minimizar a bagagem, valorizar as experiências e desenvolver uma relação mais saudável com o consumo. Na Box 1824, agência especializada em tendências de comportamento, esse movimento foi batizado de Lowsumerism (do inglês “low”, baixo, e “consumerism”, consumismo). Você pode não ter ouvido essa definição ainda, mas deve ter sentido a demanda crescente para refletir sobre a forma como nos relacionamos com marcas e produtos. O objetivo é repensar a lógica do consumo e agir com calma nas compras. “O espírito do nosso tempo tem se voltado para a ideia de que menos é mais. É ingênuo acreditar que o que utilizamos e descartamos não interfere na vida de mais ninguém. O consumismo é um comportamento ultrapassado do qual em breve sentiremos vergonha”, comenta o pesquisador de tendências Eduardo Biz, da Box 1824. Esse comportamento se reflete em microtendências: do movimento biker a rituais como preparar jantares caseiros, frequentar a manicure do bairro, comprar alimentos em feiras ou direto de pequenos produtores tornaram-se uma forma de aquecer o contato humano congelado pela frieza dos meios digitais. “O ato da compra passa a ser revisto como um ato social, e com isso retornam hábitos de consumo ligados a valores locais e tradicionais”, diz Biz. De maneira geral, dá para sentir um cansaço coletivo das pessoas em relação aos seus empregos com o horário fixo que engessa a vida. Não à toa, cresce paralelamente o êxodo urbano, puxado por jovens famílias em busca de um dia a dia mais simples, assim como a economia compartilhada em movimento ascendente. “Vemos cada vez mais pessoas trocando, doando, comprando usado, dividindo, gerando novos tipos de economia – sustentável, colaborativa, coletiva. Iniciativas empreendedoras que permitem que ideias deixem de girar em torno do dinheiro”, analisa Biz.

 Dois elefantes em um fusca 
Ou seja, em vez de tentar colocar dez elefantes em um fusca, por que não deixar que apenas dois caibam sem aperto? Enquanto o hiperconsumo ainda domina a vida de milhões de pessoas, esse novo movimento cresce silenciosamente e ganha adeptos, que acham insano carregar uma bagagem enorme e bancar um estilo de vida que requer muita grana. Diz a sabedoria popular que, quanto mais chaves uma pessoa tem, mais complicada é a vida dela. Né?! Ter menos bens significa precisar de menos dinheiro para manter o patrimônio, o que também demanda menos trabalho e menos preocupação. A simpatia internacional despertada pelo ex-presidente uruguaio Pepe Mujica é um exemplo contemporâneo desse estilo de vida despojado de ser. Enquanto presidente, Mujica abdicou do direito de ocupar a residência oficial para continuar na mesma casa de campo em que vivia há décadas, cultivando flores, ao lado da mulher, Lucia, e de sua ilustre cadela de três patas, Manuela. Com propostas do tipo ocupar a casa oficial para acolher desabrigados do inverno rigoroso, foi chamado de “presidente mais  pobre do mundo”. Título que recusou. Segundo Mujica, pobre é quem precisa de muito para viver. “Não sou pobre, sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade”, declarou. E deixou o governo com lindos 65% de aprovação. 

Sobras, acúmulo e obesidade 
Tirar o entulho da frente gera clareza. Aquilo que fica parado deixa a energia estagnada, lembra a cartilha do feng shui. No best-seller A Mágica da Arrumação (Sextante), a japonesa Marie Kondo se transformou em guru da organização ao relacionar a técnica do descarte com as emoções. Para Kondo, cacarecos acumulados são uma metáfora das decisões que não conseguimos tomar. O excesso de bens materiais, assim como a overdose de informação, paralisa diversos aspectos da existência e desvia o foco do que realmente interessa. “A cobrança por status e consumo gera desgaste e desequilíbrio. Um exemplo atual é o das pessoas que se preocupam mais em postar fotos do que em apreciar a viagem”, comenta a psicóloga capixaba Angelita Scardua. Ao mesmo tempo, ela percebe o impulso do desapego se manifestar em pessoas que já experimentaram muito de diversas coisas e que começam a se dar conta de que valores materiais não equivalem a riqueza de experiências. “É um processo de autoconhecimento, de partir para uma perspectiva mais refinada, e se perguntar: ‘O que, afinal, tem valor para mim?’” Esse questionamento não deixa de ser uma contratendência em resposta ao hiperconsumo que tomou conta da nossa vida desde o final do século 19. Com a Revolução Industrial, a relação das pessoas com o ato de consumir foi subindo, fortalecida pelo ideal do sonho americano, até chegar a filosofia yuppie e individualista da década de 80. A partir dos anos 90, então, o consumo virou consumismo. “Vivemos a era dos excessos. Subiram os índices de obesidade, depressão, ansiedade e pânico. O planeta pediu socorro, veio a reflexão”, resume a psicóloga. O despertar para um consumo mais consciente, na última década, deu origem a alternativas econômicas e de comportamento menos gananciosas e mais humanas. Tanto que não se pode mais avaliar a classe social de alguém pelo número de televisões que possui. Até porque há quem a dispense. Lembrando que a máxima de viver com menos não significa existir pobremente. “A melhor tradução para o lowsumerism seria o consumo equilibrado. Cabe a cada um identificar o seu descontrole”, diz o pesquisador Eduardo Biz. No outro extremo, há o risco de a onda de simplicidade ser tragada pelo consumo. “Alguém diz que algodão peruano é o máximo da simplicidade. Mas você precisa de algodão peruano?”, questiona a psicóloga Angelita. Na prática, o movimento implica pensar antes de comprar e, se for o caso, buscar alternativas como trocar, consertar e fazer você mesmo.

 Necessário, somente o necessário 
Como na canção do urso Balu, no filme Mogli, um dos preceitos do chamado baixo consumo é ter apenas o necessário. Com isso, limparíamos nossa vida de tanta bagunça, informação inútil e afazeres sem importância para focar no que realmente faz sentido: família, amigos, saúde, evolução pessoal. “É impressionante como nos entupimos de coisas, compromissos e tralhas que não precisamos”, reforça a escritora Rafaela Manzo Barreto Queiroz, autora de Queimei os Barcos – Motivação, Inspiração e Outras Danças (Scortecci). “Reduzir o volume do entorno inclusive emagrece”, ela garante. Desde que resolveu, há dois anos, iniciar um processo de enxugar os bens e investigar os males causados por uma vida pautada por excessos, Rafaela perdeu 50 quilos (era superobesa), superou a síndrome do pânico (que se manifestou quando estava no topo da carreira corporativa) e disse adeus a um salário de cinco dígitos para realizar o sonho de ser escritora. “Antes, eu ia a uma joalheria e  pensava: ‘Eu mereço esse brinco, trabalho muito para isso. Essa era a desculpa para comprar’”, lembra. No auge da última crise, tinha enxaquecas insanas e não conseguia levantar da cama sem cair no choro. Depois de dobrar as doses dos antidepressivos, o psicanalista deu o diagnóstico: “Você sabe que só vai melhorar quando sair do seu emprego, né?” A partir do pedido de demissão, Rafaela elaborou uma checklist radical. “Mudei para um apartamento menor; levei um quinto do que tinha; adotei um plano barato de celular; aposentei o cartão de crédito; parei de comer só em restaurantes; voltei a fazer as unhas eu mesma; e comecei até mesmo a aceitar amostra grátis de remédios. Com isso, a despesa reduziu para um terço”, conta. O livro, escrito em três meses, foi a cereja do cupcake. “O Universo joga a seu favor quando você decide com o coração, colocando as pessoas e as situações certas no caminho. Paz, liberdade, saúde, amor sincero de quem eu quero por perto, realizar minha missão, são os presentes mais preciosos que possuo hoje. Se precisar, vendo todas as roupas que restaram. Acúmulo de gordura é acúmulo de medo de mudar”, acredita Rafaela. 

Só o que cabe na bolsa e no coração
 O primeiro passo para esse exercício do desapego talvez seja o modo caseiro de “destralhar”, como recomenda a advogada e escritora gaúcha Eliana Rigol, com base em algumas questões: “Isso serve para quê? Tu gostas mesmo disso? Ainda usas?” “Depois dessa limpeza, a casa pesaria muitos quilos a menos caso fosse colocada em uma balança”, diz Eliana, autora da coletânea de crônicas Moscas no Labirinto (Pergamus). No texto Acumuladores de Tralhas, ela narra como aprendeu com uma amiga a se desvencilhar das inutilidades e reflete: “Comecei a entender meu espaço como uma galeria pessoal, lugar em que deveria manifestar meus desejos mais profundos. Tudo o que quero para o meu mundo está em volta. E, como os quereres se alternam, dançam como folhas ao vento, tudo muda ao sabor das estações e dos humores. Não precisamos de móveis caríssimos para viver melhor, precisamos lembrar de renovar o olhar e tornar tudo novo”, diz Eliana. Nesse momento, passo os olhos pela minha galeria pessoal e vejo que ainda há muito o que depurar e lapidar. Até porque juntar coisas é rápido e fácil. Difícil e demorado é se desfazer delas. Acabei ficando na tal casa de temporada por mais uma temporada. Trouxe um carreto com o que havia deixado para trás, somei com o que já havia e abri novos espaços por aqui. Menos, cada vez mais, é a meta. Sem vestidos de flores amarelas amarelando no armário, pratos empoeirados ou livros nunca lidos. Na próxima etapa, prometo me inspirar na frase da doce poeta Cora Coralina, de Goiás: “Fechei os olhos e pedi um favor ao vento. Daqui para frente levo apenas o que couber no bolso e no coração”. 

ROSANE QUEIROZ é jornalista e acumuladora de experiências. É autora de Musas e Músicas – a Mulher por Trás da Canção (Tinta Negra).

01/03/2016 - 17:18

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