Seja você mesmo

Quando reconhecemos o valor e o poder de quem somos e deixamos os julgamentos para trás, abrimos espaço para nossa essência viver de forma autêntica, livre e feliz

Débora Zanelato

A pergunta | <i>Crédito: Shutterstock
A pergunta | Crédito: Shutterstock

É um almoço entre amigos e familiares em uma tarde de novembro. Todos estão sentados em volta de uma mesa oval. Da cozinha, a anfitriã aparece sempre com mais pratos deliciosos. Em um momento da comemoração, Elliot, um dos presentes, levanta-se e vai até um espelho de corpo inteiro numa parede oposta. Ele se inclina sobre seu reflexo e beija a própria imagem. Volta para a mesa e, pouco tempo depois, repete a mesma ação: se aproxima do espelho e tasca-lhe um beijo sobre seu eu refletido. Elliot repete o gesto outras muitas vezes sem nem perceber que está sendo observado pelas outras pessoas. Mas, para aquele garotinho de 1 ano e meio, a plateia não lhe faria muita diferença: ele parece estar envolvido na alegria de ser ele mesmo. 
Talvez você tenha, assim como eu, achado esquisita a atitude de Elliot antes de saber que se tratava de uma criança. Parecia uma pessoa estranhamente narcisista ou, quem sabe, alguém que bebeu mais taças de vinho do que deveria. Mas a mensagem por trás dessa singela cena infantil me diz algo suave sobre a liberdade de ser quem somos — não importa quem esteja olhando. E me faz refletir sobre como os tantos julgamentos (nossos e dos outros) que vamos carregando ao longo da vida vão tornando a imagem da nossa essência refletida nos espelhos tão distorcida. Por isso, o convite para percorrer as próximas letras deste texto é com o desejo de que, juntos, possamos investigar o que nos distancia de quem a gente é. E, mais do que isso, como é possível ver o valor em ser quem somos, reconhecendo nossas vontades e expressando isso de um jeito livre, alegre e pleno. 

A farsa da inadequação
A história de Elliot está no livro A Vida Ama Você (Sextante), de Robert Holden e Louise Hay, que estavam no dia do almoço onde tudo aconteceu. Segundo contam Robert e Louise, bebês são como pássaros da alma que voam sobre o corpo sem terem pousado sobre ele. “Quando se olham no espelho, não apontam para o próprio corpo e pensam ‘aquele sou eu’, ou ‘aquilo é meu’. Eles são pura consciência, não há noção do Eu. Não têm autoimagem nem construíram uma persona ou uma máscara. Ainda não têm neuroses e estão plenos da bênção original do espírito. Eles se identificam apenas com a sua face original, como os budistas chamam — a face da alma”, escreve Robert. A questão é que, ao longo da nossa jornada, muitos julgamentos e críticas começam a nos impedir de ver essa face original. Aos poucos, o amor vai sendo substituído por um sentimento de separação, de inadequação, de medo de não agradar. Mas essa beleza de ser quem somos ainda está em nós, mesmo que escondida. “Podemos vê-la novamente no momento em que paramos de nos julgar, mas essas críticas agora são um hábito com o qual nos identificamos. Nós nos convencemos de que julgar equivale a enxergar, mas na verdade é o oposto. Você só passa a enxergar de verdade quando para de julgar.” 
Aos poucos, nosso valor vai sendo colocado em xeque. Surge o sentimento de nunca ser bom o bastante. Bonito o bastante, inteligente o bastante, criativo o bastante... Nunca somos bons o suficiente. E expor quem a gente é parece não ser algo muito seguro ou promissor, seja pelo nosso cabelo, corpo, ideias, jeito de estar no mundo. Vamos criando máscaras para agradar, forjamos um jeito de ser e não acreditamos que a nossa essência é segura de ser verdadeiramente amada. O curioso é que agimos assim muitas vezes sem nem ter consciência disso. “Esse medo essencial — ‘eu não mereço ser amado’ — não passa de uma história que só parece real porque nos identificamos com ela. Isso nos impede de gostar da nossa própria companhia e nos afasta de nós mesmos”, escrevem Robert e Louise. 
O que os autores me dizem através dessas palavras é que o mundo é muito mais o que nós enxergamos dele. As coisas não são como são, mas como nós somos, como nos identificamos. O problema disso é que nossas percepções podem fazer da vida e dos relacionamentos algo difícil de desfrutar com plenitude. E aí a vida fica limitada. Mas o bom disso é que, se depende de nós, então também podemos criar outra realidade para estarmos. Para saber mais sobre isso, procurei a terapeuta e instrutora de thetahealing — terapia de cura energética — Sandra Chander. O que ela diz faz sentido. “Todos temos crenças, que é tudo aquilo que tomamos como verdade em algum momento. Algo que não questionamos, não temos plena consciência. E esse nosso sistema de crenças são os óculos com os quais vemos o mundo”, diz. Assim, se acreditamos que sermos nós mesmos é algo perigoso, que não vale a pena, ou que pode não ser bem aceito, passamos a viver de um modo limitado. Por isso, trazer para a consciência essas ideias que tomamos como verdade e permitir que elas vão embora é um caminho para nos aproximarmos de nós mesmos. Sandra explica que há diversos níveis de crenças: históricas, genéticas, primárias e até de alma. “É muito comum, na nossa cultura, que a criança seja vista como uma tábula rasa, alguém que não sabe nada. Assim, ainda pequenos deixamos de lado a sabedoria nata e passamos a buscar um padrão, um jeito de nos encaixarmos”, diz. 
Cada um carrega seu sistema de crenças, desde doenças até questões financeiras, passando por relacionamentos ou trabalho. Quando pergunto sobre as crenças ligadas a ser quem somos, Sandra diz que há diversas delas. “Sem perceber, uma pessoa pode acreditar que, se for diferente, vai ser excluída, que ser diferente é ruim. Outras podem acreditar que se forem elas mesmas não terão o amor de ninguém. Também há quem busque um padrão externo e impossível de perfeição, querendo ser quem não é, acreditando que, só assim, será querido. Só que, quando deixamos de ser quem somos, nunca estamos inteiros nas relações. Caímos numa necessidade de aceitação que aprisiona”, observa. 

Libertando-se de expectativas
Parece que desde o comecinho da vida já vamos sendo colocados em expectativas e exigências que nos levam a nos sentir, por vezes, inadequados ou não bons o suficiente, nessa constante busca por aprovação. “Na verdade, nunca ninguém nos ensinou que ser nós mesmos é o melhor e pode ser muito divertido. Os modelos que temos nesta realidade estão sempre baseados em julgar-nos e comparar-nos com outras pessoas para sempre cabermos e sermos aceitos na família, na escola, no trabalho. Aí, não é muito difícil perder a rota de quem somos”, observa a coach Marizete da Silva, cujo trabalho é ajudar o cliente a escolher as possibilidades que mais têm a ver com ele.   
O livro A Coragem de Não Agradar (Sextante), escrito pelos japoneses Ichiro Kishimi e Fumitake Koga, me trouxe reflexões valiosas sobre esse desejo de corresponder às expectativas e viver muitas vezes em função da crítica e do reconhecimento. Baseados na filosofia e inspirados nas ideias do psicólogo Alfred Adler, os autores dizem que é possível se libertar das opiniões e iluminar o poder interior para ser quem somos, independentemente do que vão pensar. Fui conversar com Ichiro, um dos autores, e ele me diz que essa busca por reconhecimento, em parte, vem da influência de uma educação baseada em recompensas e punições. Ou seja, se uma ação só tem valor quando é bem-vista por alguém, logo estaremos sempre reféns do julgamento alheio em busca de aprovação. “Nos falta coragem para sermos normais. Nós tendemos a pensar que não seremos reconhecidos pelos outros a menos que sejamos especiais. Mas, se vivermos em constante necessidade de reconhecimento, cairemos numa dependência do outro, vivendo a vida deles e jogando fora a nossa própria vida”, me disse Ichiro. Ele também diz que  talvez pareça mais fácil agradar aos outros, porque, assim, transferimos nossa responsabilidade sobre como guiar nossa vida, como no caso de alguém que sempre segue o caminho traçado pelos pais. “Se decidirmos viver sem seguir as expectativas de outros que querem ou nos forçam a ser um determinado tipo de pessoa, colidir com eles é inevitável. A falta de coragem para não temer ser detestado é o nosso maior obstáculo. Mas podemos ser como somos, independentemente de como nos julgam. Também não podemos ter medo de errar”, observa Ichiro. É valioso aceitar que agradar a todos é uma rota impossível, que nos tira do caminho. Porque, no final, o que importa é como decidimos levar nossa própria vida. O que Ichiro Kishimi e Fumitake Koga sugerem é que saibamos “separar as tarefas nossas e as dos outros”. Isso implica entender que o que o outro pensa ou espera de nós e como vai lidar com isso é uma tarefa dele, e não nossa. E que isso não nos define. Não há como resolver as tarefas de todo mundo ao mesmo tempo. Ufa.

Celebrando as diferenças
A questão é que, mergulhados nesse caldo de autocríticas, de julgamentos, de não nos sentirmos bons o bastante e de uma cultura que parece aceitar só o que está dentro dos padrões dualistas de certo e errado, pode ficar até difícil saber o que é nosso mesmo. Quais são nossos gostos, opiniões e verdades? Um caminho que a coach Marizete sugere é que façamos perguntas a nós mesmos. Uma escolha pragmática baseada em perguntas constantes. “Quando você se sente fragilizado, ou deprimido, ou desencaixado, como seria perguntar: ‘Quem eu estou sendo aqui? Se eu estivesse sendo eu, o que eu escolheria ? Onde estaria e com quem ?’. As perguntas empoderam, abrem espaço para a consciência e criam possibilidades”, diz. Também podemos abrir um caderno e nele listar o que gostamos ou não e quais valores estão ligados a nós. Parecem perguntas simples, mas trazem um contato com a gente que muitas vezes estava esquecido.
Seguir rumo a quem você é de verdade é fazer essa escolha de não agradar o tempo todo. E estar bem com isso. É aceitar que os outros lidem com suas tarefas sobre o que esperavam de você. É entender que, apesar das críticas, a sensação de fazer e de ser o que lhe parece certo é muito mais saborosa. Nem todo mundo precisa entender, e tudo bem. “Quanto mais presentes e conscientes de que nossas escolhas e pontos de vista criam a nossa realidade, mais podemos escolher ser nós mesmos, independentemente dos julgamentos. Tudo é na verdade energia — até o julgamento —, se movendo e criando o ponto de vista da separação, de que estamos errados quando não somos parecidos ou seguimos os padrões da dita normalidade”, me diz, por e-mail, Marizete. “O julgamento é só uma mentira que você comprou como verdade absoluta para deixar de ser quem você é.” 
Através dessa autoinvestigação do que gostamos, do rumo que queremos seguir, do que é nosso versus o que é do mundo, podemos nos surpreender ao largar uma bagagem pesada e começar a viver com a leveza do nosso espírito em pequenas ou grandes atitudes. É muitas vezes trocar o carro pela bicicleta, é questionar ideias de sucesso e trabalho (imagine largar uma posição importante que nada tem a ver com você, mas que para os outros parece o máximo?), é simplesmente ir à praia de biquíni apesar das celulites ou decidir não pintar mais o cabelo. E entender que as críticas que chegarão terão mais a ver com a história que cada um leva consigo. Quando fazemos uma escolha diferente, jogamos um holofote sobre o outro, e isso pode ser incômodo, porque o faz ver que é possível viver de outra forma. Lembro quando a mãe de uma amiga parou de tingir os cabelos. Ela é jovem e bonita, doce e forte, e, quando a vi com aqueles fios brancos, pensei como estavam expressando sua potência. Não porque o cabelo branco tenha mais valor que o tingido, mas porque ela estava mostrando sua vontade apesar do que iriam pensar. Ela me disse: “Você gostou? Muitas pessoas disseram que fiquei mais velha”. Pensei que não são os fios que nos envelhecem, mas a maneira pequena de enxergar as possibilidades no mundo. Pode ser que, no começo, as críticas tenham levado Regina a questionar sua escolha. Mas ela a manteve mesmo assim. “Quando a pessoa para de se criticar e assume quem ela é, a opinião de fora deixa de impactar. Se não tem mais vítima, não tem mais algoz. E a gente deixa até de atrair pessoas que nos julgam tanto”, explica Sandra.
A partir do momento em que nos libertamos do desejo de agradar, também não encontramos mais o peso de querer ser agradados. Grávida do Ben, meu primeiro filho, já percebo como há julgamentos em torno das escolhas de uma mãe. E como a gente não pode se conectar com isso se quiser seguir nossa vontade mais profunda. Lembro com gratidão o que falou a obstetriz quando nos conhecemos: “Não tenha medo de ser esquisita, porque, sempre que quiser fazer algo que fuja do senso comum, você vai ser a esquisita. No parto, na amamentação, na escolha da educação...”. Foi um momento libertador para seguir as escolhas que meu coração me sopravam como certas, mesmo sabendo que seriam estranhas para mais gente. “Quando você está sendo você, inspira mais pessoas a serem elas mesmas. Olha que lindo seria o universo se todos estivessem sendo genuinamente eles mesmos?”, observa Marizete. 
Começo a refletir sobre como a vida seria sem graça se pessoas incríveis que admiramos pela forma como se colocam no mundo tivessem deixado de expressar quem elas são pelo medo do julgamento. Quantos jeitos novos de ver a vida seriam desperdiçados? Um dos meus pintores preferidos, o catalão Salvador Dalí, conhecido pela sua arte surrealista  — e também pelo seu bigode peculiar e suas expressões engraçadas — tem uma frase que diz: “Todas as manhãs, quando acordo, experimento um prazer supremo: o de ser Salvador Dalí. Então pergunto a mim mesmo, maravilhado, que coisa prodigiosa esse tal de Salvador Dalí vai fazer hoje”. Eu não sou Salvador Dalí, nem você. Mas, todos os dias, podemos experimentar esse prazer supremo de ser quem somos. Qual coisa prodigiosa você vai fazer hoje?

30/05/2018 - 12:25

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