Só o essencial

Como focar suas energias apenas no que é primordial pode ajudá-lo a viver de forma mais plena e significativa em um mundo cada vez mais conturbado

TEXTO Rafael Tonon DESIGN Paola Viveiros

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Na última coluna que escreveu para o jornal Folha de S.Paulo antes de sua morte, em dezembro do ano passado, o poeta e teórico Ferreira Gullar abordava o acúmulo – a ambição desvairada pelo lucro, o ímpeto por juntar riquezas, a ideia de reunir bens, de sempre ter mais. “Para que alguém precisa ter à sua disposição milhões e milhões de dólares? Para jantar à tripa fora?”, questionava. “Ninguém necessita ter dez automóveis de luxo, 20 casas de campo nem dezenas de amantes”, afirmava. Segundo Gullar, o acúmulo nos traz uma falsa sensação de felicidade. “Sabem por que Bill Gates deixou a presidência de sua empresa capitalista para dirigir a entidade beneficente que criou? Porque isso o faz mais feliz, dá sentido à sua vida”, concluía na sua coluna. Não bastasse a coincidência intrigante que seu último texto redigido tenha sido finalizado com a palavra “vida”, Gullar ainda buscava trazer uma reflexão importante: os excessos, quaisquer que sejam eles, acabam por nos distanciar do sentido da nossa vida. Aos 86 anos, Gullar já tinha clara essa constatação, uma percepção que costuma se tornar mais acertada com a idade. Desde 2007, a 
antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro Mirian Goldenberg iniciou uma pesquisa com homens e mulheres acima de 60 anos e percebeu que eles buscam, cada vez mais, viver com simplicidade – justamente negando os excessos.  Mais de 1700 entrevistados depois, e ainda contando, ela percebeu que eles buscam tomar conta de sua vida – amorosa, profissional, cotidiana – se livrando de coisas que atrapalhem a felicidade essencial. “Muitos deles não têm carro, não têm empregada. Eles preferem abdicar disso tudo em busca de uma vida mais simples, mais prática. Quando você se enche de coisas, você também se enche de problemas”, afirma a pesquisadora. Mirian acredita que essa percepção envolve um entendimento cada vez maior do quanto escolhemos o que tem valor e faz parte da nossa verdade – a ideia central da essência. “Quanto mais coisas você tira da sua vida, mais percebe que não precisa colocá-las de volta: elas não te fazem falta. A sensação do ‘eu posso ter, mas não quero’ é libertadora a partir do momento que você se dá conta de que pode – e deve – escolher só o que tem sentido pra você”, afirma.
Vivemos hoje, ela acredita, uma sensação de impotência na sociedade moderna justamente por não termos percebido isso. Somos imbuídos a ter mais, a querer mais. “No entanto, quanto mais consomem, mais infelizes as pessoas ficam. Quanto mais se exibem, mais inúteis elas se sentem. Dá trabalho viver no excesso: ter dezenas de namorados, ler 300 jornais, ter uma opinião sobre tudo – não é fácil. Até porque nada disso parece ter um significado real na vida delas”, explica. O significado vem do que você faz, das suas relações amorosas, da sua introspecção: ter, por fim, o que ela chama de projeto de vida. “Esse projeto está conectado à nossa vontade, é interior. Não veio de ninguém”, diz a antropóloga. “Eu não quero fazer tudo: entender todas as áreas do meu trabalho, ver todas as séries do momento, encontrar um milhão de amigos. Eu quero entender o que tem significado pra minha vida, me conectar o tempo todo com isso e nisso me concentrar”, afirma.

Por uma vida essencialista
 Algo que todos, afinal, queremos. Mas nem sempre é fácil identificar o que tem significado na nossa existência – muitos dos entrevistados de Mirian viveram anos para conseguir. E, mais do que isso, saber abdicar dos excessos para nos concentrarmos no estritamente primordial. Limitar nossas escolhas resulta em muitas renúncias. Ter uma vida simples não é tarefa fácil – do contrário, não estaríamos há 180 edições abordando e refletindo sobre as muitas formas de fazer isso nas nossas páginas, né?! Nos tempos atuais, requer mais que vontade: é necessário ter disciplina. Algo que o consultor e palestrante Greg McKeown chama de seguir o “caminho do essencialista”. Ele cunhou o termo “essencialismo” para explicar o comportamento – cada vez mais comum – de pessoas em busca de identificar o que lhes é vital, importante – essencial, por fim. Esse tipo de gente é aquele que sabe identificar e focar em fazer somente o que é importante. Para ajudar as pessoas a se tornarem essencialistas, porém, McKeown criou uma metodologia que publicou no livro Essencialismo – A Disciplinada Busca por Menos (Sextante). Ele afirma que a proposta de valor básica do essencialismo só surge quando nos permitimos parar de tentar fazer tudo e deixar de dizer sim a todos. “Só dessa forma é que conseguimos oferecer nossa contribuição máxima àquilo que realmente importa”, diz McKeown. No livro, ele conta a história do cultuado designer Dieter Rams. Projetista-chefe da Braun, a fabricante alemã que criou muitos dos objetos inovadores da sociedade moderna (de vitrolas a relógios, de despertadores a estantes), Rams revolucionou o design por ter uma visão, digamos, minimalista da sua aplicação prática. Ele acredita que tudo é ruído e que pouquíssimas coisas são essenciais. Todos os seus objetos buscam a simplicidade absoluta: linhas elementares, funcionalidade irrestrita, forma inovadora. Um dos mais importantes designers do século 20 (ele influenciou até marcas mais recentes, como a Apple), tinha uma linha de trabalho que se baseava na expressão alemã – repetida por ele à exaustão – “Weniger aber besser”, que significa “menos, mas melhor”. Ele defende que se concentrando nos aspectos essenciais, os produtos não são sobrecarregados com os não essenciais. Sobra, como resultado, somente aquilo que realmente importa, nada mais. O preceito do “menos, mas melhor” é algo que McKeown tratou de aplicar na vida cotidiana: o essencialista é aquele que busca essa filosofia de forma incansável. “Ele não concorda com esse princípio só de vez em quando, mas o adota de maneira disciplinada o tempo todo”, afirma ele. Seja no seu trabalho, seja nas suas relações pessoais. Isso não significa somente incluir entre as resoluções de ano novo dizer “não” mais vezes, limpar a caixa de entrada de e-mails uma vez por semana ou tentar dominar alguma estratégia de administração de tempo. “É necessário parar constantemente para se perguntar: ‘Estou investindo nas atividades certas?’”, defende ele, que criou o curso Projetando a Vida Essencialmente, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. 

Questão de ponderação
O chef de cozinha Raphael Despirite teve esse questionamento há alguns anos, quando resolveu parar para ajustar o trajeto que queria seguir na sua vida. “Tenho a tendência a me empolgar com todo novo trabalho que pinta, gosto de criar milhões de projetos ao mesmo tempo, mas aos poucos comecei a perceber que não consigo abraçar tudo, não dá pra estar em três lugares simultaneamente”, conta ele, que se divide entre a cozinha do Marcel, restaurante francês em São Paulo que está há três décadas em sua família, e os projetos que cria com sua empresa Casa Rauric, como o Fechado para Jantar, jantares pop-up que acontecem em lugares inusitados das cidades. “Às vezes o que começava como uma ideia incrível depois de um tempo se transformava num fardo enorme para concluir. Resolvi falar não pra um monte de compromissos, ponderar mais sobre o que vale a pena ou não”, diz Despirite. Isso passou a valer para sua vida pessoal, também: “Se não me controlar, combino dez programas com dez pessoas diferentes e acabo não fazendo nenhum”, confessa. Despirite conta que tenta separar e se dedicar a uma coisa de cada vez. “É quase impossível, mas a dedicação já deu algum resultado”, comemora ele. Quando está no restaurante, por exemplo, se proíbe de resolver coisas da empresa, o que vale para o oposto. “Outra invenção que desenvolvi foi um cartão como aqueles de churrascaria que eu coloco sobre a mesa. Quando o lado verde do cartão está aparecendo significa que o pessoal pode falar comigo, vermelho simboliza que todos devem escrever as dúvidas num arquivo compartilhado que tenho com os colaboradores e eu respondo depois. É um jeito de não ser interrompido o tempo todo. Do contrário, passo o dia sem produzir, só reagindo aos chamados”, diz. No cotidiano, ele também passou a priorizar algumas tarefas, de forma a fazer a vida andar com mais eficiência – e com mais significado. Parou de dirigir, e aproveita o tempo na carona (de táxis e Uber) para trabalhar ou até meditar, colocando os pensamentos em dia. Outro cuidado que tem é assinar pacotes de itens básicos como pasta de dente, produtos de limpeza, comida do cachorro. “Aí não tenho que sair pra comprar, o que facilita muito a vida. Eu adoro ir ao supermercado, mas para comprar e escolher coisas para cozinhar, não para comprar sabão em pó”, conta. Foi uma forma que encontrou para priorizar algo que tem sentido comprar – em detrimento de outras coisas que compraria no automático, de qualquer maneira. “Percebi que não quero me preocupar com as coisas que não mudam meu dia, minha vida. Quero usar meu tempo e minha energia para aquilo que realmente me interessa”, diz. O chef conta que, tal como um uniforme de trabalho, passou a adotar as mesmas peças de roupa como vestimenta no dia a dia. “Sabe aquela camiseta de estimação que você acaba caçando no armário todo dia ou colocando para lavar mil vezes para poder usar? Escolhi as roupas de que eu mais gostava e comprei várias iguais: seis calças jeans, umas dez camisetas, várias cuecas e agora não tenho mais que ficar pensando em o que usar na manhã seguinte. Isso deixou de ser uma preocupação”, revela. 

Faça as pazes com sua essência
Essa decisão, que parece tão simples, também mudou a vida da jornalista de moda Carolina Machado. Trabalhando em uma grande revista nacional, ela galgou sua carreira em busca do que sempre havia sonhado: pesquisar tendências, acompanhar desfiles, entrevistar jornalistas especializados. Depois de alguns anos no cargo que sempre desejou, o de editora de moda, Carolina engravidou. O marido era do interior, ela passava a maior parte do tempo em São Paulo – ou na estrada – e, depois da licença, teve que acompanhar algumas conquistas da filha pelos vídeos que a mãe mandava. “Quando ela filmou a primeira vez que minha filha comeu uma fruta e me mandou, eu percebi que o sentido da minha vida estava bem errado. Eu não queria perder mais esses momentos”, conta. Carolina pediu demissão, mudou-se para o interior e, para reestabelecer uma conexão com o significado do trabalho na sua vida, criou a Gala, uma grife de camisetas básicas vendidas online e em lojas multimarcas. “Conviver muito tempo com esse mundo ‘glamouroso’ da moda acabou por neutralizar cada vez mais meu estilo. Contra o excesso do que eu vivia, percebi que valia a pena investir em peças básicas, feitas com qualidade, contra essa avalanche toda do chamado fast fashion que prega que você tem que comprar roupa nova toda semana. Não tem!”, diz. Carolina conta que percebeu que os valores em que acreditava e que a fizeram gostar de moda tinham muito mais reflexo na empresa que criou do que em seus tempos de editora. “Foi importante ter feito parte de tudo aquilo, claro, mas fiz as pazes com a moda ao criar algo em que realmente acreditava: poder ajudar as pessoas a se vestirem com peças que lhes permitam mostrar seu estilo, sua identidade. A roupa básica faz isso”, defende ela. Identificar o que é essencial para você é a chave para saber se está direcionando a sua caminhada para algo que realmente lhe faça sentido, que dialogue com você mesmo. “É importante esse questionamento todo o tempo porque nossos desejos, objetivos e sentidos mudam, não são estáticos. Hoje, trabalho com algo em que acredito mais, pego minha filha na escola, me sinto mais conectada com o que tem a ver mais comigo, que é quem eu sou hoje. Não poderia mais viajar e acompanhar tudo se ainda quisesse ficar com ela”, pondera. Quem não se dá um tempo para recalcular a rota e estabelece bem para onde ir, sem fazer muitos rodeios, tende a seguir por um caminho sem a sensação de realização. “O resultado é sempre a experiência pouco satisfatória de avançar um milímetro num milhão de direções”, afirma o consultor McKeown. “O caminho do essencialista segue um propósito, não segue o fluxo. Em vez de escolher reativamente, ele distingue de maneira deliberada as poucas coisas vitais das muito triviais, elimina o que não é essencial e depois remove obstáculos para que o essencial tenha passagem livre”, afirma. 

Escolhas e decisões
 Isso implica, claro, tomar decisões difíceis. Por isso, esse nem sempre é o caminho mais escolhido. “Existem forças demais conspirando para nos impedir de aplicar a busca disciplinada por menos”, explica ele. A principal delas diz respeito às muitas opções que passaram a nos atropelar nos últimos anos: no meio de tantas alternativas, e muito provavelmente por causa delas, perdemos de vista as coisas mais importantes. 
“A preponderância das escolhas sobrepujou nosso poder de administrá-las”, acredita McKeown. Perdemos, assim, a capacidade de filtrar o que é importante e o que não é. Os psicólogos chamam isso de “fadiga decisória”: quanto mais escolhas somos forçados a fazer, mais a qualidade das decisões se deteriora. Se as escolhas aumentaram, as pressões em torno delas também cresceram: como estamos hiperconectados, a capacidade de conexão aumentou a força da pressão social. “A tecnologia nos aproximou muito mais das opiniões alheias sobre o que deveríamos focalizar”, ele diz. Some a isso a exacerbação da ideia de que podemos ter e fazer tudo. “Esse mito tem sido pregado há tanto tempo que acredito que todo mundo foi contaminado por essa crença: é vendido na publicidade, defendido nas empresas e está embutido nas matrículas das universidades”, afirma o consultor. Hoje, com mais alternativas – e consequentemente mais expectativas –, a ideia de que podemos fazer tudo é um fator estressante para aqueles que tentam encaixar mais atividades numa vida já sobrecarregada. Para além disso, o questionamento a que se propuseram Gullar, Raphael, Carolina e até mesmo McKeown é o que lhes permitiu se livrarem das coisas boas, por mais difícil que isso seja, para ficar apenas com as poucas coisas extraordinárias. “É aprender a fazer o menos porém melhor para obter o máximo retorno possível de cada precioso tempo da vida”, diz o consultor McKeown. Isso para quando se é idoso, como no caso dos entrevistados por Mirian, mas para quando se é jovem também, e precisamos escolher entre dizer sim ou recusar educadamente as opções e dúvidas que a vida nos impõe. É nos levar ao controle sobre as próprias escolhas essenciais e a um novo nível de sucesso e significado. Nele, aproveitamos a viagem, e não apenas o destino, com a certeza de seguir o caminho certo em direção a nós mesmos. O que McKeown chamaria do tal caminho do essencialista.

RAFAEL TONON resolveu se focar na gastronomia. Mas diz sim para outros temas porque sabe que, às vezes, eles podem ajudá-lo em seu papel no mundo.  

17/02/2017 - 11:19

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