Viva com mais calma

Exercitar a compreensão em relação a nós mesmos e ao mundo e desenvolver a paciência traz mais leveza para a rotina e paz interna

Débora Zanelato

Respire, profundamente, várias vezes ao dia. Parece uma medida boba, mas não é. Ao inspirar e expirar, você consegue baixar sua frequência interna e o que acontece no lado de fora passa a incomodar bem menos | <i>Crédito: Naassom Azevedo/Unsplash
Respire, profundamente, várias vezes ao dia. Parece uma medida boba, mas não é. Ao inspirar e expirar, você consegue baixar sua frequência interna e o que acontece no lado de fora passa a incomodar bem menos | Crédito: Naassom Azevedo/Unsplash

Viver com mais calma talvez seja um desejo universal. Parece tão reconfortante tomar um café da manhã saboreando sem pressa o pedaço de bolo preferido, ter um dia de trabalho sem colegas que amolam a nossa paciência, voltar para casa com ruas livres — ou mesmo sem ninguém atravancando o lado esquerdo da escada rolante do metrô. Somos recebidos em casa com um sorriso doce de quem amamos, os filhos estão de banho tomado e, no final do jantar, nem deixam comida no prato. Você aproveita a noite para assistir à sua série favorita ou dedicar um tempo a uma boa leitura. Parece que a vida seria muito mais fácil de manejar — e de aproveitar — se ela se desenrolasse assim, sem sobressaltos que nos tirassem do sério. Seríamos pessoas mais centradas e calmas (imagine ligar para a operadora de telefonia e ter seu problema resolvido pelo primeiro atendente, sem nem dar tempo de decorar a musiquinha da espera...). 
O doloroso é que, bem, não é assim que as coisas acontecem. E é pouco provável que o mundo se torne assim, sem um desafio, mesmo se você decidir se mudar para uma casa no meio da montanha. Porque não é somente o lugar de fora, e sim esse espaço mental interno que torna a vida mais conflituosa ou saborosa. Mas a parte boa é que, se quem manda na percepção de como as coisas são é a mente, então podemos desenvolver habilidades para ganhar uma compreensão melhor sobre nós e sobre o outro, nos tornando menos ansiosos e mais tolerantes. O que a gente quer contar a seguir é que viver com mais leveza e menos irritação diante dos contratempos é possível, mas antes precisamos compreender por que uma fechada no trânsito nos estressa tanto, ou por que podemos ser grosseiros e insuportáveis justamente com quem mais amamos. E é essencial saber: nos tornarmos pessoas calmas não significa que nunca mais uma situação de estresse vai nos atingir, mas sim que, aos poucos, desenvolveremos um estado de espírito mais apropriado para lidar com os desafios que resolverem empacar no lado livre da escada rolante da vida. 

A expectativa, mãe da frustração
Um motivo essencial pelo qual muita coisa nos tira a nossa paz é a ilusão de que podemos controlar o mundo e a expectativa de viver sem contratempos, em que nada dá errado e ninguém nos incomoda. “Se olharmos mais de perto, vamos ver que não é a situação que está nos incomodando, e sim a nossa forma de enxergá-la. Nós nos sentimos infelizes não só porque algo ruim aconteceu mas também por causa do turbilhão de pensamentos sobre o que aconteceu”, escreve o monge zen-budista Haemin Sunin no livro As Coisas Que Você Só Vê Quando Desacelera (Sextante). Conversei com ele para entender melhor essa ideia de que é a nossa mente que cria estados mais calmos ou mais caóticos, e como isso pode influenciar o nosso jeito de perceber o mundo também. Ele me respondeu: “Observe que, quando sua mente está ocupada, o mundo parece estar ocupado. Em contraste, quando sua mente está quieta, o mundo lhe parece muito pacífico. Não há como controlar todos os elementos do mundo. Isso é impossível. No entanto, é possível para nós cultivar o coração e a mente pacíficos, diminuindo a velocidade e apreciando verdadeiramente o que está diante de nós. Mesmo se você estiver na parte mais bela e pacífica do mundo, o mundo parecerá ocupado quando sua mente estiver muito ocupada”, ele diz. Desacelerar nossos pensamentos, sugere, nos ajudaria a nos tornarmos menos reativos e raivosos com o que se passa conosco. “Só quando desaceleramos é que é possível ver com clareza nossos relacionamentos, nossos pensamentos e nossa dor. À medida que notamos mais e mais aspectos do momento presente, chegamos à percepção mais profunda de que há um observador silencioso dentro de nós”, diz. Manter a calma não quer dizer que vamos ver a situação adversa como algo agradável, mas entender que bufar, sair de si ou espumar de raiva nos afasta da possibilidade de desenvolver uma compreensão mais leve do problema. 

O preço da nossa intolerância
Acho meio vergonhoso aceitar, mas provavelmente as pessoas que mais amamos são aquelas que mais nos veem descontrolados e irritados. Se temos um dia ruim no trabalho, a nossa fúria tem grandes chances de respingar nos filhos, no companheiro, nos pais. São eles que melhor conhecem a nossa face mais dura. “Em nenhuma outra circunstância tendemos a nos comportar tão mal quanto em nossos relacionamentos. Neles, nos tornamos pessoas que nossos amigos mal reconheceriam. Descobrimos uma capacidade assustadora de sentir angústia e raiva, nos tornamos frios ou furiosos, saímos batendo portas. Gritamos e dizemos coisas que machucam”, diz o texto no livro Calma, produzido pela The School of Life e publicado pela Sextante. A obra explora como a expectativa que criamos sobre algo que vai acontecer tem uma estreita relação com a nossa capacidade de perder a calma. Se a previsão de chuva era evidente e mesmo assim decidimos ir à praia, talvez não fiquemos tão descontrolados se as gotas caírem assim que os pés pisarem na areia. Mas abrir a gaveta onde você sempre deixa as chaves do carro e não encontrá-las lá pode gerar uma reação bem mais explosiva. “Você fica morto de raiva porque em algum lugar da sua mente há uma fé perigosa num mundo em que as chaves do carro simplesmente nunca somem. Cada uma das nossas esperanças — formadas inocente e misteriosamente — se abre para uma vasta possibilidade de sofrimento.” 
E aí o problema dos relacionamentos é que não há ninguém de quem esperamos mais. Eles estão no topo da nossa expectativa. Pensamos que eles serão magicamente compreensivos quando quisermos ficar sós depois de um dia de trabalho cansativo, ou que sempre entenderão o nosso olhar mesmo que não tenhamos sido explícitos em comunicar as nossas necessidades com clareza. O caminho, sugere a obra, é aceitar que sermos mal compreendidos é bastante normal — e que um bom relacionamento não significa estar em acordo o tempo todo. Quando a nossa perda de paciência gira em torno de detalhes aparentemente pequenos — como as migalhas de pão que ficaram sobre a mesa —, podemos refletir por que é que aquilo nos tira tanto do sério. “Ao desenvolvermos nossa prática olhando para a causa por trás das nossas emoções, podemos chegar a uma compreensão mais profunda”, observa Haemin. Olhar para os defeitos do nosso parceiro com mais tolerância, sem achar que eles estão ali para propositalmente nos desagradar, também pode tornar a convivência mais leve e harmônica. “Quase todos nós somos bondosos com crianças. Em contrapartida, somos intolerantes com os aspectos imaturos da nossa vida adulta. Quando entendemos melhor o que realmente estava acontecendo, qual era a intenção do outro, o que ele pensava que nós pensávamos, ao compreendermos um pouco melhor o emaranhado de mal-entendidos, não nos sentimos mais tão zangados e desesperados”, aponta o livro Calma. 

Não foi de propósito
Não só nos relacionamentos pessoais mas também entre aqueles que nem conhecemos, é bem comum pensarmos que fomos desagradados “de propósito”. De maneira geral, temos dificuldade em distinguir o “mal intencional” do “mal acidental”, como aquela fechada que você leva no trânsito, ou alguém que sem querer pisa no seu pé (ou no seu calo). Outra armadilha a que nossa mente pouco lúcida costuma se entregar é achar que o mundo está conspirando contra nós quando algo dá errado. Sabe aquele estilo de frase “Justo hoje que eu decidi ir para a academia a pé, tomei uma baita chuva?”. Então...“Nossa inclinação a enxergar tramas sombrias contra nós pode ser atribuída a um problema pelo qual merecemos compaixão: não gostamos muito de nós mesmos. Esse pano de fundo de autodesprezo nos leva imediatamente a desconfiar que os outros querem nos derrubar. Afinal de contas, por que seriam mais bondosos conosco do que nós mesmos?”, aponta o livro Calma. As situações externas também podem ser tão irritantes simplesmente porque ainda carregamos a lembrança de quando éramos crianças e nossas necessidades eram prontamente atendidas ao nosso menor sinal de irritação — o que agora já não acontece mais. Não temos o controle de tudo. E, se por um lado isso traz uma impiedosa sensação de impotência, veja só, por outro também pode trazer imensa liberdade. No auge de um momento que pede calma, respirar também pode ser uma saída. A dica parece banal (“Respirar fundo? Ahn, tá...”), mas tem recebido cada vez mais atenção por ser mesmo poderosa. Danny Penman, instrutor de meditação e autor de A Arte de Respirar (Sextante), me explicou por que dedicar alguns minutos para inspirar e expirar pode ajudar tanto. “Tornar algumas respirações conscientes dá início ao sistema nervoso parassimpático do corpo, que é a parte que rege o relaxamento. Concentrar-se conscientemente na respiração diminui rapidamente o ritmo cardíaco e a pressão sanguínea. Isso aumenta o sentimento de relaxamento e diminui drasticamente a ansiedade e o estresse, evitando explosões de raiva”, me contou, por e-mail. Danny explica como a respiração é uma prática essencial de atenção plena, que nos ajuda a viver com mais calma e tranquilidade. Ele me relatou que todas as nossas emoções estão refletidas no jeito como respiramos. E sugere que tiremos alguns momentos durante o dia para ficar à sós com a gente através da respiração, capaz de ampliar ou dissolver nossas emoções mais destrutivas. “Essa técnica tremendamente poderosa pode ser usada em qualquer lugar, não apenas durante a meditação. Da próxima vez que você se sentir estressado, ou quando surgirem pensamentos ou emoções difíceis, simplesmente gaste algumas respirações prestando atenção à sua mente e depois siga com seu dia”, ensina. “É melhor notar o estresse no início e vê-lo se dissolver, em vez de tentar lidar com as consequências explosivas mais tarde.”

Uma rotina muito agitada 
Talvez seu trabalho demande demais, ou a rotina da casa seja bastante exaustiva, e você já se vê no domingo ansioso pelas inúmeras tarefas que o esperam ao longo da semana. Os nossos modelos de vida atuais parecem exigir cada vez mais que sejamos produtivos. E, aí, querer uma vida mais calma pode soar como um desejo de alguém meio fraco ou preguiçoso, que não suporta as demandas da vida moderna. Mas avaliar com sinceridade a forma como temos vivido pode apontar pistas para trazer para perto a calma de que a gente precisa. “Cada pessoa pode ter uma definição diferente para uma ‘vida tranquila’. Para mim, a vida tranquila tem o elemento de ser capaz de apreciar o que eu tenho agora, em vez de tentar chegar a algum outro lugar ou conseguir algo além do que estou fazendo neste momento”, diz o monge zen-budista Haemin. “Além disso, eu faço minhas tarefas devagar, seja comer, caminhar ou limpar as folhas que caem no quintal. Eu vejo mais graça em fazer a tarefa do que propriamente em terminá-la”, me diz. É como ir a um restaurante que você desejava muito e, ao chegar lá, comer tão depressa que sai sem nem ter conseguido sentir o sabor da comida. Qual seria a graça da refeição e, também, da vida? Para Haemin, se prestarmos atenção verdadeira na nossa atividade do agora, qualquer coisa pode se tornar interessante, bela e até misteriosa. 
Também podemos desenvolver a calma ao apreciar a beleza de algo grandioso, como uma cachoeira, uma montanha ou mesmo o céu, com suas incontáveis nuvens e estrelas. É o nosso contato com o sublime, com algo que pode nos deixar impressionados por ser muito maior e mais poderoso do que nós. “O que o sublime faz é colocar em primeiro plano nosso envolvimento com os horizontes mais amplos da existência. Por algum tempo, os fatores irritantes locais e imediatos perdem o poder de nos incomodar”, sugere o livro Calma. 
Recorrer a um demorado abraço de alguém querido também é capaz de apaziguar a nossa inquietação e ansiedade. Ser envolvido fisicamente pode recriar parcialmente o ambiente mais livre de estresse que já experimentamos: o útero. Até a infância, é muito comum que os pequenos recorram aos abraços e ao colo dos mais velhos quando se sentem ameaçados ou em perigo. Mas, curiosamente, entendemos que na vida adulta essa necessidade pode ser infantil, de alguém ainda muito frágil. Mas receber um abraço pode nos transmitir a sensação de proteção, de que tudo bem não sermos capazes de resolver tudo sozinhos. Oferecer um abraço é como um gesto de confiança, de compreensão com o outro e com suas dificuldades. “O abraço é um símbolo do que falta em nossa cultura individualista e hipercompetitiva: é a aceitação positiva de nossa dependência e fragilidade.” É curioso lembrar como, na infância, as músicas de ninar também tinham algum efeito calmante sobre nós. Mais do que o significado da letra (Se reparar, vai ver que nem eram mesmo muito amigáveis e gentis), era a melodia que compreendíamos e que nos embalava na hora de dormir. Apesar de hoje a música ter ganhado destaque pelo seu aspecto do entretenimento e da diversão, por muito tempo ela foi estudada a fim de compreender seus efeitos relaxantes sobre nosso estado de espírito. Sons que remetem à natureza, composições instrumentais ou mesmo mantras, cuja entonação também gera alterações positivas em nós, podem ser incluídos na próxima playlist que você fizer quando quiser relaxar. Por aqui, me lembrei de uma composição do Lenine que traduz um pouco do que a gente quis compartilhar. “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não para”. Que a gente possa ver os dias passarem com a calma que é possível desenvolver dentro da gente, conosco e com o outro. Porque, como continua a canção, “a vida é tão rara”. 

25/06/2018 - 12:00

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Revista Vida Simples