Viver junto

Descubra como conviver em paz com o colega de trabalho, um amigo, o cônjuge ou o vizinho cri-cri. Brigas acontecem, mas, acredite, todo mundo pode se entender, ou no mínimo se respeitar

Liane Alves

Viver junto | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Viver junto | Crédito: Vida Simples Digital
Imagine o oceano Pacífico. Centenas de ilhotas que se distribuem por aquele mar azul-turquesa e transparente... Com suas folhas de palmeiras que murmuram ao vento e flores perfumadas de jasmim-manga. Esse cenário paradisíaco nos inspira a mais absoluta paz e felicidade. Isso porque as ilhas estão paradinhas, é claro. Muuuito paradinhas. Porque, caso se movessem um pouquinho mais para a direita ou para a esquerda, você ia ver só que salseiro que daria. Primeiro, porque as ilhas, em sua maioria, são pontas de vulcões enormes submersos. Elas se erguem do oceano como icebergs de terra. Se elas se movessem, facilmente trombariam umas nas outras, e, o que é pior, por baixo, nos seus pontos mais sensíveis, aqueles que elas nem imaginam que existem. Com a mobilidade reinante, em pouco tempo as ilhas estariam se xingando, se estapeando, ou algo do gênero. E o mar tranquilo do Pacífico iria para o beleléu. Nem preciso terminar a metáfora, não é? As ilhas, é claro, somos nós. Essa imagem nos auxilia a compreender o que não percebemos, de tão evidente que é. Nós nos machucamos na convivência porque temos uma parte oculta que nos faz esbarrar uns nos outros, e que psicólogos e psicanalistas chamam de inconsciente, a maior área de nossa psique. Portanto, somos seres de vários níveis internos, alguns abissais, que não sabemos que estão ali. E essas pontas de vulcão, que somos nós, podem até sorrir, brincar e conviver numa boa com as outras pontas – desde que elas não cheguem muito perto. Mas, se a relação ganha mais intimidade e profundidade, um dia fatalmente vamos nos trombar e nos estranhar. “Não existe relação profunda sem conflito, sem diferença de opinião ou de olhar sobre a vida. E a intimidade, seja na convivência a dois ou na família, vai escancarar o que realmente somos ou pensamos sobre determinada coisa, pessoa ou circunstância”, diz a terapeuta paulista Soraya Nunes, especialista em dinâmica de conflitos. Pensar e ser diferente deveria ser um evento normal e natural da vida. Só que, na prática, não é. Temos a ilusão de que a unidade de pensamento seja possível, de que todos um dia vão reconhecer que temos razão (e sempre temos, é claro) e que a paz reinará absoluta na família sem nenhuma marola para incomodar. Isto é partimos de uma premissa básica que é absolutamente falsa: acreditamos que paz é ausência de conflitos. O que não é verdade. Onde existem diferenças de opiniões sempre há a possibilidade de atritos. Estar em paz e harmonia é simplesmente saber como lidar com eles, e considerá-los uma parte natural da existência, e não evitá-los. Em resumo: não adianta, os conflitos não vão sumir da sua vida, as pessoas não vão deixar de ser diferentes de você e muito menos aceitar tudo o que você diz sem contestar. Para evitar mais sofrimento, seria melhor desistir desse mundo ideal logo de cara. “Em vez de buscar uma unidade utópica, precisamos valorizar relações sociais que não anulem as diferenças”, diz com sabedoria o sociólogo americano Richard Sennett, que em agosto veio para o Brasil para falar do seu livro Juntos (Record) e participar do evento Fronteiras do Pensamento. Ou seja, cada vez mais teremos de treinar nossos limites e capacidade de flexibilização para acolher o que é diverso, não só em casa, mas em todas as áreas da vida. “Conviver com pessoas diferentes em termos de nível social, econômico, étnico e racial é o desafio mais urgente enfrentado pela sociedade civil hoje”, afirma Sennett. Mas, se admitimos a possibilidade de oposição mesmo em tempos de paz, também é verdade que existem maneiras e maneiras de vivê-la. Porém, não é negando ou engolindo diferenças que a coisa vai funcionar. Relações doentias que duram anos se estabelecem assim, com a submissão de uma das partes à outra para que não emerja uma discussão, mas você já sabe que isso não é bom e que a saúde vai cobrar. O que resolve mesmo é ter outra visão do que seja um conflito, um acolhimento maior em relação à diferença, uma nova maneira de escutar o outro e se trabalhar internamente para ver, de fato, onde a história pega, e, assim, com mais luz e consciência, procurar resolvê-la. Esses são os alicerces de uma cultura de paz mais participativa, menos hierárquica e rígida, porém, ao mesmo tempo, estável em seus princípios. Em outras palavras, nada como trazer à tona o que machuca lá embaixo, sem ter medo do embate. Não com ódio, ou com raiva, mas com coragem de olhar a dificuldade de frente. Encará-la para trabalhar com ela, de forma pacífica. Só assim é possível procurar uma solução para a situação ou, pelo menos, buscar uma melhoria da relação para que, no mínimo, volte a paz necessária para se estabelecer um novo diálogo entre as pessoas. Isso significa que nem sempre a solução das diferenças surge imediatamente, mas com uma atitude mais serena e uma escuta atenta podemos dar espaço para que se forme uma outra dinâmica de relação capaz de contribuir, no futuro, para uma solução final.  Outra boa indicação que a metáfora das ilhas nos dá é que as trocas são dinâmicas. Relacionamentos não são como a decoração da sala, que a gente faz uma vez e só troca um vaso ou as almofadas quando enjoa. Não somos ilhas acomodadas que não se movem. Muito pelo contrário. Vivemos um universo emocional ativo, que está constantemente em mutação. Na verdade, essa é a sua característica básica. A chave, então, é como saber viver nesse mar que um dia está de um jeito e pouco tempo depois está de outro. Agora vamos ver como é possível fazer isso. 

Nossas mochilas de marca

Quando convivemos por muito tempo com alguém, temos duas alternativas: ou a relação se aprofunda, e um conhece mais o jeito do outro, sabe onde o bicho pega e vai com calma, ou ela se desgasta exatamente porque um conhece o calcanhar de aquiles do outro e vai em cima. Todo mundo já ouviu histórias de casais que brigam porque um aperta a pasta de dentes no meio e o outro a espreme do finalzinho até a ponta. O escritor gaúcho Luis Fernando Verissimo dá outro exemplo maravilhoso desse tipo. Segundo ele, o mundo é irremediavelmente dividido entre os cutucadores e os alisadores de manteiga. Os cutucadores (ou cortadores) são ansiosos, tensos e impacientes. Os alisadores, calmos, sensuais e cuidadosos (ele deve ser um alisador). Verissimo sustenta, com bom humor, que essa diferença mínima é capaz de levar a filha de volta para a casa dos pais e que entre esses dois tipos básicos de seres humanos não há conciliação possível. Mas não importa se ele tem razão ou não. O mais interessante dessas historinhas é que elas falam das pequenas diferenças que são capazes de gerar conflitos e que fazem parte de uma realidade bem presente na convivência da família: a briga pela miudeza. Vamos olhar mais de perto esse exemplo da pasta e da manteiga, porque vale a pena. Na vida comum, não percebemos que essas diferenças não são pequenas. Na verdade, elas são indicadores visíveis de realidades psíquicas bem mais profundas. Vou utilizar outra imagem aqui. Ao decidir morar junto, o casal entra no novo lar feliz, mas ambos se esquecem de um detalhe fundamental: tirar a mochila. Sim, aquele acessório invisível onde cada um traz suas experiências anteriores. A gente não percebe, mas cada um leva para o casamento (ou para o emprego, ou para a convivência com os filhos ou com o vizinho) a sua mochila carregada de conceitos e preconceitos, opiniões e palpites, conclusões e achismos baseados em suas memórias. Boa parte disso é feita de conteúdos inconscientes: você aperta a pasta de dentes pelo meio, ou pelo fim, mas não sabe direito o porquê. Isso acontece exatamente porque o que causa essa ação é inconsciente. Mas, mesmo que não esteja aparente, a causa está ali bem guardadinha na mochila, e influencia suas atitudes sem que você se dê conta disso.  Vamos voltar ao nosso casalzinho. Ao chegar à nova casa, eles trazem suas amadas mochilinhas (ou mochilonas) com marca, origem e modelos diferentes. Quando temos consciência de que carregamos valores, sonhos, projetos, ideais ou opiniões que podem ser bem diferentes do conteúdo da mochila do amado já damos um bom passo adiante. Pelo menos reconhecemos que a nossa visão depende da nossa bagagem, e que existem outras bolsas com outros conteúdos com os quais temos de conviver. Já há um reconhecimento implícito do outro, e um entendimento maior de que é necessário flexibilidade e tolerância para acolher essas diferenças. É bem melhor do que você achar que a sua mochila é a melhor e a única no mundo, e que o outro é quem tem de se adaptar. E é fatal: com o tempo juntos, uma mochila certamente vai esbarrar na outra. O casal pode até achar que está brigando apenas pela maneira como um aperta a pasta de dentes ou corta a manteiga, ou divide as despesas, mas não é. Os dois brigam por causa das bagagens individuais que trouxeram. E não percebem que isso, às vezes, incomoda o outro.

Sob a luz da consciência

Quando há um conflito por causa de opiniões diversas sobre alguma coisa, o melhor a fazer é descarregar a mochila em cima da mesa e examinar a tralha que tem ali. Em palavras mais elaboradas, vamos tentar localizar no nosso inconsciente a razão que nos motiva a fazer determinada ação ou ter um pensamento. No caso do nosso casal imaginário e sua pasta de dentes, pode ser que o moço tenha vindo de uma família com poucos recursos, por exemplo. Cada item comprado na casa dos pais era considerado, mantido e vigiado. Portanto, a bagagem dele diz que o futuro é incerto, que nunca podemos contar com o dia de amanhã, que é melhor prevenir um gasto que pode ser evitado do que simplesmente comprar por impulso. Ela, ao contrário, pode ter vindo de uma família mais abastada, em que as pastas de dentes eram trocadas logo ao ficarem meio murchinhas. Ou, então, a moça foi criada numa casa onde seus pais e irmãos não ligavam a mínima para esse negócio de apertar dentifrícios, porque eram de índole mais artística e intelectual. No fundo, ela acha essa história algo sem importância. Na sua concepção, a vida é mais provedora, e as oportunidades, inumeráveis. No fim, ela acha que está certíssima. E ele também. Se os dois não forem sábios o suficiente, ficarão esbarrando, sem perceber, suas mochilas um no outro com seus conteúdos inconscientes até chegar o fatídico dia da separação. Se houver amor e se eles tiverem o mínimo de sabedoria, reconhecerão as diferenças de origem de suas famílias e tentarão achar soluções para minimizar o problema. Nem que seja comprar duas pastas de dentes separadas.

O Poder da Parceria

Nesse momento em que eles vão se olhar de frente e examinar o conteúdo de suas mochilas, facilitará, e muito, se tiverem uma culturade parceria. “O modelo de parceria apoia relações de respeito e cuidado mútuo. Como não há necessidade de manter hierarquias de controle rígidas (como existe no modelo de dominação), também não há embutida a necessidade de abuso ou violência”, diz a autora Riane Eisler em O Poder da Parceria (Palas Athena). E continua: “As relações de parceria liberam nossa capacidade inata de sentir alegria e brincar. Elas nos permitem crescer mental, emocional e espiritualmente. O conflito é visto como uma oportunidade para aprender e ser criativo”. Portanto, esse exame da tralha que cada um traz pode ser feito com leveza pelos dois. Porque o respeito, o amor e o cuidado dão base à relação. E assim há chances de as diferenças serem superadas. Dentro de uma cultura de paz, o diálogo e a cooperação estão mais presentes do que os julgamentos e as divergências. São modelos mais generosos e abertos de convivência, em que não precisamos nos aferrar tanto às nossas ideias, e em que admitimos que não é vergonhoso querer mudá-las quando há uma boa razão para isso. Porque, afinal, ideias são apenas ideias. O diálogo é como uma dança em que trocamos ideias com leveza, sem querer matar ou morrer por elas. O físico David Bohm trabalhou durante anos com o mestre indiano Jiddu Krishnamurti em uma técnica chamada “Diálogo”. “Para que algo aconteça, é necessário que abandonemos a defesa de nossas posições”, diz Bohm. “A verdade não emerge de opiniões, ela deve emergir de algo maior”, complementa. Opiniões são naturalmente limitadas, partes de um todo. A meditação pode nos ajudar a entrar em contato com esse todo. Ou técnicas que, como o “Diálogo”, procuram chegar até ele. E nesse todo pode estar o que eu penso, e o que o outro pensa. É o nosso apego fanático que impede que outras soluções surjam. Mas, ao baixarmos a guarda, nasce aquilo que Bohm chama de “abrandamento”. É nesse clima mais pacífico e generoso que o entendimento pode brotar.  

Terceira força

 O conflito num relacionamento pode chegar a um ponto em que pensamos que só a separação é capaz de resolvê-lo. Porém, muitos aspectos devem ser considerados antes disso. Acontece que nem sabemos que eles existem. Não fomos treinados para isso. Para suprir essa necessidade, surgiu a mediação de conflito, desde julho passado uma profissão reconhecida no Brasil (mas ainda não regularizada). Hoje em dia, os mediadores atuam como auxiliares em promotorias de Justiça, em varas de família e em outras áreas institucionais. Esse profissional se senta com uma equipe de psicólogos, educadores ou outros mediadores, ao lado dos interessados briguentos e... escuta. “Muitas vezes chega-se a um grande conflito sem ao menos se ter ideia do que o outro pensa”, diz a professora de mediação de conflitos Valéria Perez, de São Paulo. Nesse encontro, um vai ouvir o que o outro acha sem que seja interrompido (mas quem discorda pode anotar as dúvidas e falar depois). “Mesmo em casa, quando se quer discutir sobre algo com um filho, ou com o marido, é sempre bom reservar uma hora especial para isso, para que não haja interrupção, e nenhuma tensão com horários.” Pode ser que o assunto se resolva na hora, pode ser que necessite de outros encontros parecidos. Com técnicas e recursos aprendidos em cursos de um a dois anos de duração, o mediador que trabalha numa promotoria de Justiça, por exemplo, faz determinadas perguntas para cada um. Ao escutar as respostas, os próprios interessados começam a compreender o ponto de vista do outro. É bom dizer que o mediador nunca toma partido ou julga, ele apenas cria um espaço emocional mais pacífico para que haja um começo de entendimento. Pronto. Com todas essas novas informações, talvez você não tenha mais tanto medo quando se apresentar a próxima discussão. Vai saber que há formas de resolvê-la de forma pacífica, irá examinar com mais profundidade o que está atrás de suas ações e opiniões e com certeza terá mais espaço interno para acolher diferenças. Acredito que seja um ótimo começo.

 Liane Alves examina sempre o conteúdo de sua mochila e já jogou muita coisa fora. Hoje ela alimenta a página  redlotus-spiritualtravels.com

20/10/2015 - 12:02

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