Comer em família é um ritual que nos aproxima e nos ensina sobre convivência

Nesta partilha olho no olho, não deixamos a afetividade esfriar

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Mais importante que o cardápio do almoço, estar à mesa com os familiares possibilita a conversa, o cultivo às relações de carinho e afeto | <i>Crédito: Nicole Franzen
Mais importante que o cardápio do almoço, estar à mesa com os familiares possibilita a conversa, o cultivo às relações de carinho e afeto | Crédito: Nicole Franzen

Na comédia “A Cegonha Não Pode Esperar”, de John G. Avildsen, a adolescente Darcy, vivida pela ruivinha Molly Ringwald, descobre que está grávida aos 16. Ela acredita que, se comunicar a situação aos pais da maneira mais corriqueira possível, pode evitar uma reação dramática, sem grandes alardes. Assim, durante o jantar em família na noite de Ação de Graças, Darcy enche-se de coragem e diz: “Estou grávida. Me passa os nabos?”.

Refeições em família têm mesmo um pouco disto: combinam conversas triviais com assuntos importantes, intimidade com estranhamento, risadas e discussões, macarronada com “você não sai daqui se não comer os legumes”. Hoje, quando podemos bloquear, nas redes sociais, publicações de pessoas com as quais não concordamos, os parentes acabam sendo a única esfera na qual precisamos conviver com a diferença.

Pois é, quem diria – a família nuclear é o que nos tira da bolha. Dizem que amigos são a família que a gente escolhe. Partindo do mesmo raciocínio, pai, mãe, irmãos, tios seriam, então, amigos impostos que precisamos aturar. E isso pode ser desconcertante e maravilhoso ao mesmo tempo.

Em algumas culturas, o ritual de comer com avós, pais e primos reunidos é, veja só, ancestral. “Anterior à própria mesa”, afirma a historiadora Mariana Corção. “No Ocidente, o hábito de fazer as refeições com os seus à mesa se popularizou na cultura burguesa do século 19, que cultuava as relações familiares e a vida privada”. Era o prenúncio dos comerciais manjados de margarina que vemos na televisão, com uma família de classe média que acorda alegre, magra e bem-vestida, para tomar o café da manhã em conjunto, diante de uma mesa excepcionalmente farta. Por sua vez, a ideia da mesa como o lugar adequado para a refeição teria se firmado ainda na Antiguidade. “Em Roma, era o local em que ficava exposta a comida. Vem daí a expressão está na mesa”, conta Mariana. Com o tempo, o móvel se cobriu de sacralidade. Expressões como “mesa do rei”, “mesa dos despachos” e “mesa do tribunal” associam essa plataforma com o lugar do conselho, da sentença e do exame decisório, como lembrou Luis da Câmara Cascudo em A História da Alimentação no Brasil (Global).

Os simpósios dos gregos e romanos foram, então, substituídos pelo ritual cristão da comunhão do pão em torno de uma mesa, como revelam grande parte das representações da última ceia – antes, os homens comiam debruçados, deitados em divãs. E passaram a se alimentar sentados. “A oração abria e fechava o ritual”, acrescenta a historiadora.

De todo modo, o ritual familiar da alimentação compartilhada se tornou um momento propício para a afetividade, um descanso da vida exterior, em que se pode desfrutar daquele tempero caseiro e daquela convivência já tão conhecidos.

Mais olho no olho
Hoje, saímos da esfera privada e optamos por refeições práticas nos restaurantes. “De certo modo, acabamos mantendo o foco na comida, que merece até foto antes de ser consumida”, pondera Mariana. Essa obsessão pelos pratos e pelas redes sociais destitui a refeição compartilhada do olho no olho, da atenção ao outro, do prazer de sentar à mesa com gente querida. Faz do menu um troféu social, um símbolo de status. Em casos extremos, esse novo jeito de saborear pode favorecer distúrbios alimentares e uma seletividade exacerbada de frutas, legumes ou carnes em um contexto privilegiado de abundância.

Na Grã-Bretanha, a agência de estudos de mercado Mintel publicou uma pesquisa curiosa sobre o tema. Nos últimos cinco anos, a venda de mesas de jantar caiu 8% entre os britânicos, ao passo que a de móveis de escritório subiu 40%. Cerca de 25% da população não tem um móvel próprio que possa fazer uso para jantar em casa. Entre os que têm, menos de um terço ainda o utiliza em ocasiões especiais, como o Natal e o Ano Novo. Para os pesquisadores, os divórcios e a falta de tempo da vida urbana seriam as principais justificativas para o abandono desta peça tão simbólica do nosso mobiliário doméstico.

Uma revista pediátrica americana publicou um estudo com 4.746 jovens de 11 a 18 anos. Os que comiam em família com frequência se mostravam menos propensos a fumar, beber e usar drogas. A pesquisa indicou também uma menor incidência de depressão e de pensamentos suicidas entre as crianças e adolescentes que comiam com os pais, além de melhores resultados na escola.

Para o crítico e ativista culinário americano Michael Pollan, autor de Cooked: A Natural History of Transformation (Cozido: A História Natural da Transformação, em tradução livre), a refeição familiar é o berço da democracia. É o momento em que a criança aprende a compartilhar, a esperar a sua vez e a argumentar sem brigar.

Marido na cozinha
A funcionária pública aposentada Maria de Fátima conta que sempre enxergou as refeições diárias como um bom momento de confraternização. E a reunião à mesa nem precisava ocorrer apenas durante o almoço ou o jantar. “Minha família era pequena, mas o público era grande”, lembra. Os vizinhos e as amigas que faziam tricô com a mãe portuguesa sempre apareciam para o café da tarde, ou mais especificamente para o bolinho de chuva. Se chegavam para o almoço, bacalhau, arroz de Braga, bom apetite, amém.

Quando formou a própria família nuclear, com marido e duas filhas, ela manteve a tradição. Hoje, com o companheiro também aposentado e uma das meninas ainda na cidade (a outra se mudou para Curitiba), almoçam juntos. “A diferença, agora, é que o marido também vai para a cozinha”, diz. Peixe, por exemplo, é sempre com ele.

Numa grande cidade como São Paulo, reunir toda a família para o almoço ou para o jantar durante a semana é um luxo. A distância, o trânsito e o horário muitas vezes tornam o encontro inviável. O diretor de arte Edgar Petriccione volta para casa, todos os dias, para almoçar com a filha pequena e a mulher. A menina tem 3 anos e meio e está aprendendo a comer sozinha. Nem sempre se alimenta bem, o que deixa os pais um pouco estressados no meio dia. Mas é assim mesmo.

Como é Edgar quem leva a garota para a escolinha à tarde, ele se compromete a chegar mais cedo e desfrutar o almoço em casa. É uma obrigação que ele criou para si mesmo, um jeito de a vida não passar na frente, da rotina não esfriar os laços. “Meu pai sempre fez questão de uma refeição tradicional em família. Quando era criança, eu não ligava, mas hoje vejo a importância disso – deixa todo  mundo mais unido”, diz.

A engenheira Priscila Martins faz questão de comer em família aos finais de semana. Janta aos sábados na casa da sogra e almoça com os pais aos domingos. Esse acordo com o marido nem precisou ser combinado – aconteceu pela vontade do encontro. “Se temos compromisso, retomamos o hábito no fim de semana seguinte”, conta. Na casa da sogra, com seis filhos casados, os jantares viram festinhas. Cada um leva um prato. Na mãe,  é um almoço tradicional, com massa, assado,  salada de maionese.

Quando descobriu que estava grávida, há três meses, Priscila não conseguiu esperar o fim de semana para avisar todo mundo. Foi por telefone mesmo. E agora as refeições de sábado e domingo são também encontros marcados com presentinhos ansiosos (e de gênero neutro, por enquanto) para o bebê. O sexo só será revelado nas próximas semanas.

Em algumas famílias, fazer as refeições com todos juntos não é uma tradição, mas uma escolha. A secretária Luciene Amorim não tinha essa rotina na infância. “Meu pai sofria de alcoolismo e era difícil conversar com ele – então, cada um comia em um canto.”

Quando formou o próprio núcleo (hoje, ela, o marido, um filho pequeno e um adolescente), o jantar virou um momento bastante sagrado. Para que todos possam se reunir à mesa às 20h, Luciene começa o expediente bem cedo, às 7h da manhã – o que significa acordar às 5h30 –, para sair às 16h. Vira uma diversão. O mais velho costuma desafiar o mais novo sobre quem consegue comer mais legumes e os dois acabam se alimentando bem. Corintianos, os meninos se juntam ao pai para tentar convencer a mãe a gostar de futebol, sempre em vão. “O importante é que a gente se habitua a conversar olhando nos olhos”, diz ela.

Conversar, rir, ficar de cara amarrada, desabafar, rir outra vez. Vez ou outra, surge alguma polêmica ou o pai pergunta sobre o dever. Mas família é isso, né? Basta pedir para alguém passar os nabos, ou algo que o valha, que vai ficar tudo bem.

11/02/2015 - 12:45

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