Comer ou não comer carne?

A maneira como o animal vive e morre está sendo mais e mais questionada pelas pessoas que comem ou não carne. E isso é bom. Não é possível mais permitir que os bichos sejam criados sem espaço e sofrendo maus-tratos a todo momento

Rafael Tonon

Tão importante quanto não comer carne é entender o ciclo de vida dos animais | <i>Crédito: Shutterstock
Tão importante quanto não comer carne é entender o ciclo de vida dos animais | Crédito: Shutterstock

No pasto, os bois se refestelam sob a sombra de grandes árvores, em busca dos lugares mais frescos. A alimentação é regrada: além de capim, eles recebem suplementação nutricional com grãos cultivados na própria fazenda, localizada em Nhandeara, no interior de São Paulo (508 km da capital). Ali, na propriedade da 
Beef Passion, especializada nas raças Angus e Wagyu, os animais vivem de sombra e água fresca. O que, nesse caso, não é força de expressão: a água vem de uma fonte de poço artesiano construído na fazenda. E chega com uma alta pressão para oxigenar o líquido e para limpar os cochos, e assim impedir a proliferação de microrganismos. No confinamento (para onde vão apenas após uma fase de adaptação, “para evitar o estresse”, como diz o produtor), há até ventiladores para deixar a temperatura ambiente mais amena. De lá, os bois seguem, enfim, para o abate: são criados para isso. 
Mais do que pensar na morte da bezerra, o imperativo é levar em conta a vida que o animal teve, algo que tem se modificado, nos últimos anos, na pecuária de todo o mundo – inclusive aqui. “Essa visão de que o mercado se importa pouco com o bem-estar dos animais de produção tem sido cada vez mais equivocada”, afirma o zootecnista Murilo Quintiliano, consultor na área de bem-estar animal. E as pesquisas, mundo afora, apontam exatamente para esse lado: as pessoas estão mais preocupadas com a qualidade do alimento e com o tratamento que os bichanos têm até que chegue ao prato. 
Um levantamento feito pelo programa Welfare Quality, em parceria com a Unesp de Jaboticabal (SP), mostrou que 80% dos consumidores brasileiros acreditam que o bem-estar dos animais é importante ou muito importante. O mesmo grupo fez uma análise semelhante na Europa e descobriu que 62% dos consumidores de lá estariam dispostos a mudar seus hábitos de consumo para privilegiar produtos oriundos de quem se preocupa em manter boas condições durante a vida de aves, porcos e bois. “As pesquisas deixam claro que os consumidores optam pelo melhor que seu dinheiro pode pagar, e o bem-estar e a sustentabilidade fazem parte dessa tomada de decisão”, explica Quintiliano.

Mais consciência
Esse maior cuidado com a forma de se criar animais gerou uma nova corrente do carnivorismo, na qual muitos que optam por comer carne têm restringido seu consumo apenas a animais que são comprovadamente tratados com dignidade: são bem alimentados (não apenas com ração), têm seu ciclo de vida respeitado, não são colocados em ambientes que lhe causem dor, e que na hora da morte não haja sofrimento ao bicho. Esse novo jeito de pensar, aliás, levou alguns vegetarianos, que não comiam carne justamente em protesto aos maus-tratos, a repensar a inclusão desse alimento nas refeições.
Esse movimento surgiu a partir de descobertas científicas que comprovaram que os animais são conscientes do que acontece com eles. “Partimos do princípio que os bichos têm sentimentos, e percebem tanto frio ou calor, como medo, alegria, angústia e frustração”, afirma o engenheiro agrícola Iran José Oliveira, coordenador de pesquisas do Núcleo de Pesquisa em Ambiência da Esalq, escola superior de agricultura da USP. Ou seja, vacas, porcos ou galinhas são capazes de perceber e sentir seu entorno. “Todos esses fatores influenciam na qualidade de vida deles, no seu bem-estar e promovem respostas que nem sempre são favoráveis a qualidade da produção”, salienta. Ou seja, a maneira com a qual os bichos são tratados em vida tem ligação com a qualidade final do que chega a mesa (seja ela leite, carne, ovos). “Não podemos produzir a qualquer custo”, conclui Oliveira.
De fato, não é incomum chegar aos nossos ouvidos casos grotescos em que leitões têm seus dentes cortados ou lixados (sob a alegação de prevenir ferimentos nas mamas das porcas) sem qualquer tipo de medicamento que alivie a dor. Ou de frangos que vivem dentro de gaiolas, sem espaço até mesmo para abrir as asas. Ou até de bois abatidos de forma incorreta e que agonizam até a morte. Para acabar com essas práticas, campanhas de conscientização são importantes assim como a adoção de algumas políticas públicas. Em alguns países europeus e nos EUA é considerado crime ter bichos de criação em gaiola, como galinhas e patos, e promover maus-tratos. Existe, inclusive, uma entidade americana, a AWA (Animal Welfare Approved), que fornece um certificado aos criadores que respeitam isso. Para eles, este selo de “animais felizes” pode ser um diferencial na hora da compra. Muito dessa nova adaptação do mercado vem por pressão dos consumidores em querer saber a procedência do que comem: uma postura menos passiva que deve pautar a indústria alimentar daqui para frente. 

Animais mais felizes
A chef Paola Carosella acha que precisa, como cozinheira, fazer a sua parte. Proprietária do restaurante Arturito, em São Paulo, e de duas casas especializadas em empanadas argentinas (que denunciam sua naturalidade), ela tenta incluir no cardápio dos seus estabelecimentos carnes de animais que são tratados e abatidos de forma cuidadosa. Quando criança, Paola aprendeu a ter uma relação de respeito com o que vai para o prato. “Ver matar uma galinha era parte da minha rotina. Ali, aprendi a valorizar e respeitar o ingrediente”, diz. Fã de frango, teve dificuldade em mantê-lo no menu por falta de oferta de uma carne de qualidade: o de granja era sem sabor e o cuidado com a ave ia contra seus princípios. Foi buscando fornecedores até descobrir que o pediatra da filha criava aves caipiras. Começou a comprar dele, mas as dificuldades de legalizar a pequena granja fizeram com que ele parasse. Hoje, conseguiu um produtor da região de Lins, interior de São Paulo, que vende as chamadas “galinhas felizes”, que fazem parte do cardápio do restaurante. “Muitas vezes, é difícil encontrar a carne com a qual queremos trabalhar, o que faz muita gente desistir. O sistema industrial ainda impera, derrubando os pequenos criadores”, diz a chef argentina. “Mas é também papel do cozinheiro ajudar o fornecedor a oferecer os produtos que queremos, a ter com ele uma ligação mais próxima e, assim, levar ao cliente uma carne de qualidade. A obrigação é de toda a cadeia”, acredita.
Vale saber que a certificação, por aqui, no que se refere a carnes orgânicas, ainda é muito difícil: as exigências são grandes e o criador, muitas vezes um microempresário, não tem os investimentos necessários para a certificação. Nesse processo, a carne deve ser rastreada do nascimento do animal ao abate, com registro de peso, alimentação, vacinas, entre outras informações. No caso de vacas e bois, eles devem viver apenas do que a pastagem lhes oferece e a suplementação alimentar, caso seja necessária, precisa ser de grãos de rações certificadas e isentas de substâncias transgênicas. Por causa desses entraves, muita gente opta apenas por criar os animais livres, soltos no pasto, no mato (no caso de alguns porquinhos) ou em um grande terreno – um galinheiro a céu aberto –, sem maus-tratos. E isso não significa que seja uma produção orgânica. “Esses animais também precisam de acompanhamento para garantir os princípios do bem viver, da boa saúde e instalações e alimentação adequadas. É esse conjunto que torna os animais mais felizes, e não só o fato de serem criados soltos”, explica o engenheiro agrícola Iran José Oliveira.
A medida é termos mais vacas pastando tranquilas e galinhas ciscando do que engaioladas, pelo bem da nossa saúde e pela nossa nutrição – e até pela qualidade dos alimentos, ponderam alguns especialistas. Isso porque animais criados e abatidos de forma mais humanitária geram também carnes e produtos melhores em gosto. Quando percebem a morte, os bichos produzem toxinas que podem prejudicar a carne em sabor e maciez. “É poderoso argumentar que ao defender o bem-estar do animal, você contribui para a sua boa saúde e a dos seus filhos e fornece uma comida melhor”, afirma Marian Stamp Dawkins, pesquisadora do departamento de Zoologia da Universidade de Oxford.

Menos carne
Para o escritor americano Jonathan Safran Foer, as pessoas precisam pensar mais nisso, questionar a qualidade e a quantidade de carne que produzimos e consumimos atualmente. Jonathan fala isso com conhecimento. Ele é autor de Comer Animais (Rocco), um relato-reportagem sobre estudos que fez durante três anos para entender o sistema de produção de carnes nos Estados Unidos. “Só assim não estaremos mais rodeados de 50 milhões de animais confinados em situações lamentáveis”, afirma. 
A redução do consumo de carne também é outra opção. O jornalista americano Michael Pollan, um dos maiores defensores de uma melhor alimentação, já havia pregado isso em 
O Dilema do Onívoro (Intrinseca), seu livro-manifesto por uma mudança na forma de nos relacionarmos com a comida. “Coma preferencialmente plantas. Trate a carne como algo para dar mais sabor ou para ocasiões especiais”, advertiu ele. “Mas mais do que tudo, coma animais que tiveram boa alimentação”. Como fazer isso? Pesquisando sobre as marcas das carnes expostas em mercados e açougues. Em vários países existem selos que garantem a qualidade da criação e os diferentes sistemas de produção. “No Brasil, infelizmente, há poucas ações em relação a isso. Existem algumas certificações, mas bastante incipientes”, afirma Iran Oliveira. Ou seja, pesquise, se informe, exija mais transparência por parte das marcas. Afinal, comer é fazer parte da cadeia alimentar. E não adianta estarmos no topo dela se não nos preocuparmos em como o alimento chega até nós, não é? 

07/03/2018 - 11:26

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Revista Vida Simples