Comida é encontro

Conhecida pela sua gastronomia inventiva e natural, Neka Menna Barreto vê no sentar à mesa um momento de comunhão com o sabor e também com a companhia

Débora Zanelato

Comida é encontro | <i>Crédito: Rogerio Pallatta
Comida é encontro | Crédito: Rogerio Pallatta

“olhe para o céu”, “Seja carinhoso consigo mesmo”, “Deseje coisas que não têm preço”. As frases estão escritas em um quadro-negro que recebe aqueles que chegam à recepção da cozinha industrial da banqueteira e nutricionista Neka Menna Barreto, na zona sul de São Paulo. Essas e outras recomendações de bem viver, escritas com giz e pelas mãos da própria Neka, contam um pouco sobre o que acredita a gaúcha de 21.316 dias (como ela prefere contar seus 58 anos), que vê no ato de cozinhar um momento de plena presença, quase uma meditação. Sua gastronomia é inventiva, cheia de ingredientes naturais e combinações que despertam o paladar, mas que sobretudo celebram o encontro. “A comida é como uma comunhão. É o momento de dar o que eu tenho de melhor para alguém”, ela me diz, sem antes deixar de se desculpar por não me oferecer “nada 
para comer” naquele final de expediente (o que é mentira, já que fui recebida com uma granola caseira em uma delicada sacolinha). Neka tem prazer em comer, em receber.  Adora imaginar as preparações que vai servir aos amigos. Acha que a pressa não permite olhar o mundo de verdade e que a vida acontece no lento. Enquanto se observa a chaleira que esquenta a água, ou quando damos presentes feitos por nós mesmos. Bem por isso, ao lado das recomendações que ela revisa e inclui de tempos em tempos na lousa de entrada, também vai uma “Receita para dar de presente”: uma masala com erva-doce, cominho, cardamomo, coentro e cúrcuma, que “fica ótima no arroz, nas verduras refogadas, no feijão e no molho da salada”. Neka cria seus pratos primeiro desenhando no papel, em caderninhos ou folhas espalhadas pela mesa. Depois é que coloca em prática na 
cozinha. Nesse ambiente, o tempo passa de um jeito que ela nem percebe. Por isso, nem sempre a vida permite fazer tudo. O que importa mesmo é priorizar o que faz sentido para a gente de verdade. 

Logo na entrada da cozinha tem a frase “A vida acontece no lento”. Mesmo aqui, no seu trabalho?
É claro que aqui a gente tem um ritmo de produção, são muitos eventos que fazemos todos os meses, mas na hora que tu faz um bom planejamento é que as coisas realmente acontecem. Então aqui, sentada nessa mesa com a minha equipe planejando, elaborando, sinto que não pode haver pressa. A rapidez é só máquina, não é o processo em si. 

Cozinhar é uma forma de se conectar com o agora?
Com certeza. Na cozinha, se tu não se comunica com o agora, tu não faz nada. Existe uma presença no cozinhar muito importante, que é estar no aqui e agora. Um minuto de cozimento não pode ser um minuto e meio. É muito bonito isso, a presença que se dá ao ato de cozinhar. É quase como meditar.   

Qual é o maior prazer em cozinhar?
O que é mais legal é o oferecer. A mesa com tudo o que preparei. É o programa que eu mais gosto de fazer. Quando tu oferece aquilo que tu faz, tem outro valor. 

Uma comida, um preparo que você faz, tem capacidade de despertar algo mais profundo em alguém?
Eu acho. Porque aquela comida gera um encontro muito especial. Gosto de cozinhar simples, mas é tudo tão profundo e tão gostoso porque faço com o que tenho de melhor, e isso gera algo diferente. A minha maior forma de dar amor é fazendo isso. Porque a graça é o encontro. Tanto com o outro quanto com o sabor, o gustativo. Quando cozinho também vou pensando nas células do corpo, na nossa nutrição celular. “O que vai acontecer quando meu intestino receber isso?” Tudo vai ajudando a trazer uma consciência maior. Acho que é uma reza. Quando a gente come com pessoas que amamos é uma comunhão.

E isso tem a ver com a sua história?
Eu acho que junta desde a tataravó, a avó, o jeito que era em torno da mesa. Minha mãe morreu quando eu tinha só 7 anos. E as cenas de que eu mais gosto são aquelas na mesa, de todo mundo sentado. Pra mim, esse encontro que a cozinha dá é que é o alimento. Mesmo quando tu vai a um museu supersério: quando chega na cafeteria, parece que está todo mundo mais animado. É como se fosse um “Oh, já vi as obras, que legal, mas, nossa, como é bom comer com quem a gente está junto!”.

Como você vê o prazer em comer?
Eu acho que existe uma supremacia da boca e do sabor. Meu primo Jorge diz que a digestão começa na terra, e concordo muito com isso. Então acho que o prazer começa aí. Pensar no caminho que faz o alimento para chegar na mesa, ter mais consciência desse processo. É muito raro eu comer uma coisa que eu não conheça e não saiba de onde vem. Porque eu gosto desse assunto. Então se tu me perguntar o que tem na geladeira da minha casa, eu vou acertar muito, porque eu compro, eu vou à feira, eu sei o que vão colher na sexta para me entregar no sábado. Eu tenho o controle disso e acho muito legal. Eu não sei exatamente quantas calcinhas eu tenho na minha gaveta, mas os alimentos que estão na minha geladeira eu sei. Eu gosto de pensar que estou orquestrando os preparativos de um banquete para oferecer a alguém. A kombucha que vai pra geladeira, a cenoura que usarei  na marinada, o pão a ser fermentado, a macadâmia que eu coloquei no carro pra fazer um creme porque eu sei que minha convidada gosta. O cobertor que eu botei na mesa para fi car fofo, a toalha que eu coloquei por cima... E daí de repente tá tudo ali, pronto. Eu adoro essa cena. O que eu faço melhor na minha vida eu ofereço. 

Seu estado de humor muda o que você prepara?
Ah, penso que sim... Quando estou triste faço comida mais afetiva, mais líquida... Um mingauzinho, pra não dar muito trabalho digestivo e eu poder pensar. De noite também tento comer leve, para sonhar melhor. Assim você descansa mais e tem espaço para ter uma noite boa. 

Há muito mais prazer para você em cozinhar em casa...
Muito! Todos os anos eu faço minijantarzinhos no meu aniversário para os meus amigos próximos. Preciso encontrá-los na mesa. Às vezes falam para irmos em restaurantes e, ok, até vou, mas só quando não posso mesmo cozinhar. Eu tenho amigos chefs maravilhosos, a Vivi, a Ana Luiza Trajano... Então, se vamos a algum restaurante, eu ligo pra eles antes e pergunto “Você faz um jantar pra mim?”, e, nossa, aí eu amo!

Para você, comida não é só prazer, é nutrição do nosso corpo, e isso está muito nos seus preparos. Por quê?
Eu acho que a comida muitas vezes é um consumo. E fi ca-se lá, só nesse “consumo”. Mas pra mim é muito importante entender nosso corpo como um sistema e observar como ele reage ao que a gente come. Se eu acordo e não vou ao banheiro, eu me 
pergunto “O que será que eu comi ontem de diferente?”. Ou, “Nossa, hoje eu estou me sentindo tão viva, o que foi?”. Quando estava prestando o vestibular, eu fi cava tentando entender um alimento na sua verdade. Então tinha dias que eu só comia um determinado alimento para entender o que ele me faria no dia seguinte. E fui vendo que o jeito que tu acorda tem muito a ver com essa comida do dia anterior.  Também acho que, quando a gente está de estômago cheio, estufado, a gente pensa menos. Sobra menos espaço pra pensar. Mas acho que tem uma coisa de às vezes não querer pensar... 

Como assim?
É que muitas vezes tu não quer pensar, e daí tu é pensado pelos outros. E pensar é se tornar o agente da tua vida, entende? E não apenas ser caído pela boca. Às vezes, nessa falta de pensar, a gente cai pela boca. Então é ver a comida desde essa relação com a terra, o solo, o sabor, mas também como ela cai dentro de nós. Nossa pele, por exemplo, parece bem extensa. Tem uma vida inteira que vai sendo percebida por ela. Os componentes do ar, um beijinho, um carinho... A boca também tem seu espaço de percepção. Mas e o nosso intestino? Ele tem 600 metros que entram em contato diariamente com tudo o que você come. Tem uma microbiota que é imensa. Então eu digo sobre estimular o paladar para comer alimentos que sejam nutritivos em todos os sentidos. O Rudolf Steiner, fundador da antroposofi a, dizia que um dos maiores perigos do século 21 seria a alimentação. Porque a alimentação, que não é aquela industrial, ela te torna uma pessoa livre. Tu sabe o que está comendo. De tudo o que eu faço, acho que não consumo 10% de comida industrial. A maioria do que 
como não vem com bula, não preciso ler para encontrar ingredientes esquisitos que não me fazem bem. 

É como se, em um nível mais sutil, a energia daquele alimento industrializado fosse mais baixa?
Sim, porque não é comida de verdade. E tu não tem liberdade para escolher os ingredientes. E, se tu come uma comida que é pobre, também fi ca pobre. Aí tu encontra uma pessoa que não é muito legal, mas que tá ali... E sai com ela porque nem vê muita escolha. Entende? Tu também termina se tratando como uma moeda, mais um produto industrializado. Então acho que é bom isso, de tu conseguir criar um certo hábito de dizer não, isso daqui não é legal, não é para mim. Em tudo.

Nossas próprias escolhas já são um jeito de mudar a realidade?
Claro. Tu escolhe a paisagem que quer ver no mundo. Tu, enquanto um ser que consome, escolhe o mundo que quer ter. E a gente vai fazendo isso através das escolhas. Por exemplo, pão. Eu adoro fazer pão. Gosto de trigo-sarraceno, mas trigo-sarraceno não é daqui. Aí penso “De repente eu poderia fazer mais pães com o que tenho aqui”, e uso uma batata-doce, por exemplo. Já não faço mais pão de farinha de trigo, porque o trigo mesmo não era algo de se comer todo dia. Não era “o pão nosso de cada dia”. Se comia em festas, era sagrado. E aí hoje virou muito qualquer coisa. E isso se refl ete no alimento. A planta, para se defender de tanta reprodução, exploração, começa a gerar substâncias que não são tão boas, como forma de defesa, “por favor, me plantem menos”. 

Você pensa em comida o dia todo. Gosta de sentir fome?
Eu adoro sentir fome! Quando meu estômago está roncando, nossa! É o auge da minha felicidade. Eu faço de tudo para ficar com fome. Nesse estado eu penso melhor. Tudo fica mais sensível. É claro, porque sei que vou comer. Então eu uso a fome como um estimulante. 

Estar na cozinha, criando e inventando, pede certa tolerância à possibilidade de errar, de não dar certo? Às vezes temos receio de “perder tempo” se não fica bom...
Acho que quem vai muito pra cozinha acaba perdendo o medo de errar. Se quem tem um filho pede para outra pessoa trocar a fralda, a experiência se perde. E essa experiência é que vai ser educativa pra ti, em todos os sentidos. A gente deveria repensar o que é perda de tempo. É a mesma coisa que terceirizar um beijo. Estou com pouco tempo, então vou pedir para alguém beijar para mim. Eu acho que é isso que 
uma sociedade de enorme consumo como a nossa está fazendo. Antes mandávamos tudo pelo correio. Agora é WhatsApp. Facilitou muito, claro, mas sentimos cada vez mais com menos tempo. Então acho que tudo isso é uma armadilha, sabe? Armadilha para ficar mais cansado, para ser máquina de fazer. Às vezes pensamos que terceirizando a gente vai se dar melhor, mas não é bem assim. Viver a experiência de tu comer, de tu dormir, de tu fazer é diferente de terceirizar isso. É no trabalho que tu aprende. É nesse fazer que tu devolve para o mundo um corpo, uma cabeça, uma alma e um eu superior mais bem resolvido. 

É como aceitar também que não dá pra fazer tudo, aprender a escolher o que mais importa?
Acho que a gente fica num bambolê tentando conciliar tudo. Mas às vezes tem que desligar e não fazer tudo o que nos é imposto. Porque então tu é uma pessoa que já está vendida. Realmente não é tudo que eu vou conseguir fazer. Quanto mais tu amadurece profundamente, mais entende o que é primordial. Eu mesma luto muito por isso. Sou gulosa, quero trabalhar, ir na palestra, depois no workshop, e fazer um jantar quando chegar. Mas a gente tem que aprender a falar não. Quando chego em casa, por exemplo, boto meu celular no modo avião. Aí sou dona de mim, adoro. Televisão eu nem tenho em casa. Sempre estou atrasada nos e-mails para responder, mas tudo bem, caso contrário, não dou conta das outras coisas. Acho que prefiro a conexão com a experiência, com meus caderninhos de anotações. Com as pessoas. Evito resolver pelo computador, prefiro reuniões ao vivo. E, quando vejo, a hora passou, são 17h e tem uma moça me esperando pra uma entrevista [risos]. 

22/12/2017 - 12:13

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