Como garantir uma alimentação saudável para todos

Da ocupação de espaços ociosos ao resgate da agricultura familiar, saiba quem democratiza a fartura à mesa e aproxima as pessoas do alimento

Brunella Nunes

Caminhos possíveis para que todos tenham acesso a alimentação | <i>Crédito: Divulgação Festival Path
Caminhos possíveis para que todos tenham acesso a alimentação | Crédito: Divulgação Festival Path

Em um discurso na Conferência Internacional em Nutrição, em Roma, o Papa Francisco disse que “o direito a uma alimentação saudável é questão de dignidade e não de caridade”, citando ainda que a crise econômica, a corrupção, a segurança nacional e manipulação são desafios para o acesso à comida. Para analisar como a alimentação saudável consegue se desenvolver sem o respaldo governamental e em meio a vários desafios, fomos buscar respostas com alguns profissionais que a praticam. Às margens, segundo os padrões sociais, as comunidades mais afastadas têm mais esse direito excluído de seu alcance quando se trata de ações do poder público. Mas será que é possível, afinal, comer pelas bordas?

Atuando como permacultor, educador e articulador cultural Jaison Pongiluppi tem suas raízes literalmente fincadas na A.P.A Bororé-Colônia, extremo sul de São Paulo. Com a família na região há mais de 70 anos, ele observava o avô plantar e colher seu próprio alimento, algo comum na roça. Com o tempo passando e os costumes mudando, notou que a produção local, da Cooperapas — Cooperativa Agroecológica dos Produtores Rurais e de Água Limpa, ia parar não nas casas de quem vive por lá, mas em gôndolas superfaturadas dos bairros mais nobres da cidade, como Pinheiros. Para reverter esse cenário, implantou no centro eco-cultural Casa Ecoativa o contato entre agricultores do sítio Paiquerê e moradores, que podem comprar de forma acessível uma cesta semanal de orgânicos. Assim formou-se um grupo de consumo responsável nos arredores do Grajaú.

“É um espaço de interesse, porém pouco conhecido. Não é todo mundo que conhece essa relação com a represa, a Mata Atlântica, os patrimônios culturais, as comunidades indígenas e afrobrasileiras que existem aqui. É um ponto importante discutir para onde vai a alimentação orgânica. Batemos no ponto dessas práticas serem elitizadas. Há muito tempo essas tecnologias são das bordas e quando algum grupo começa a cooptar esse tema e elitizar ou ‘gourmetizar’, isso é uma estratégia que afasta outras pessoas que poderiam estar junto nesse discussão. E mais uma vez esbarramos na desigualdade”, apontou. Ele participa da mesa “Deserto Alimentar: o desafio do acesso à comida”, que acontece no Festival Path. Deserto Alimentar é o termo aplicado às áreas com escassez de comida devido a dificuldade de acesso, diminuindo mais ainda as chances de consumo.

Mas o ativista acredita que a questão vai além da demografia e até mesmo do poder aquisitivo. “A gente sabe que é muito mais difícil o acesso ao alimento em alguns bairros periféricos, mas não necessariamente a pessoa que mora numa região central vai comer melhor. A cidade está comendo mal de maneira geral pelo modelo de vida desgastante do sistema. A vida está em baixa qualidade. Para mim, deserto alimentar é a cidade de São Paulo inteira, porque uma cidade que não apoia e não investe em agricultura, em agroecologia, é propensa a tal condição, seja na periferia ou no centro”.

A Segurança Alimentar e o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) deveriam ser garantidos segundo o artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), de 1948. No Brasil, a Constituição reforça a ideia a partir da Emenda Constitucional nº 64, aprovada em 2010, comprometendo o poder público a arcar com as demandas, seja por meio de programas, ações e políticas que dão acesso à qualidade e quantidade suficiente de alimentos saudáveis.

“Na ótica da natureza, o Brasil é extremamente rico na produção de alimentos. Ao mesmo tempo que produz, desperdiça isso tudo. A estratégia não tem muito fundamento. A gente vai entendendo que a fome é um boicote do sistema. Até porque se você passa fome, significa que foi boicotado, violado, da própria informação. Além de interromper o alimento, não nos permitir acessá-lo, acho que em primeiro lugar vem a informação. Porque quando você chega ao ponto de passar fome, é porque você sofreu outros boicotes antes. Não é um processo simples”, explicou.

Tal constatação é reafirmada quando se observa que os dados não batem. A produção de alimentos no mundo todo é suficiente para 12 bilhões de pessoas. Temos 7,6 bilhões de habitantes compartilhando o planeta Terra e um desperdício de 35% do que é produzido. Ou seja, a logística não tem colaborado com a erradicação da fome. Quando a comida vira especulação e poder, fica difícil distribuí-la corretamente e de maneira justa.

A bióloga Luisa Haddad é a idealizadora do Pé de Feijão, negócio social que faz uso de hortas urbanas para aproximar pessoas do alimento, entre outras funções. Para ela, o acesso à alimentação saudável é um propósito de vida, do qual o brasileiro precisa se apropriar. “Chegam alimentos ultraprocessados, como refrigerante e salsicha onde não chegam frutas, legumes e verduras, onde não chega nem a água potável”, contestou, complementando que “por muitas vezes as pessoas não comem bem por falta de informação, tem família que sabe onde conseguir o arroz, o feijão, a mandioca, mas acredita que o macarrão instantâneo irá alimentar a família bem”. No Festival Path, Luisa participa da mesa "Alimentando as mudanças no mundo".

Expandir conceitos como economia solidária, consumo consciente, agroecologia, permacultura, educação alimentar e ocupação de espaços ociosos com a criação de hortas urbanas se faz necessário para que o ciclo de alimentação adequada se concretize, de fato, reduzindo assim os vergonhosos desertos alimentares.

“A agricultura urbana é praticada por 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Em São Paulo tem muitas iniciativas boas nessa área, como grupos que trabalham com assistência técnica rural aos pequenos produtores (Instituto Kairós), grupos que estão fortalecendo a cadeia de distribuição desse alimento, recebendo o alimento direto do produtor e vendendo a um preço justo em diferentes bairros em SP. (Instituto Chão, Instituto Feira Livre, entre outros), grupos que estão lutando fortemente contra o desperdício (Comida invisível)”, recordou Luisa.

Da quebrada para o mundo e do mundo para a quebrada

Aos 21 anos, Edson Leite foi morar em Portugal e trabalhou com áreas diversas, inclusive a de lavar pratos no restaurante do hotel Tivoli. Foi lá que começou a abrir suas oportunidades dentro da gastronomia, migrando para outras funções e lugares. De volta à terra brasilis, não quis apenas voltar para a cozinha, mas para a periferia. “Falar de gastronomia era uma coisa distante para a periferia há uns 4 anos. Fazer gastronomia periférica hoje é resgatar origens. É fazer com que o nosso povo entenda que o que temos de melhor é o que está em nossas mãos, em nossa produção agrícola familiar, que foi se perdendo ao longo dos anos”, contou o chef, que também participa da mesa "Alimentando as mudanças no mundo" no Festival Path.

Com o intuito de provocar transformações sociais através do contato com a cozinha, o chef criou junto com Adélia Rodrigues o termo e projeto Gastronomia Periférica. A dupla promove uma formação holística no aprendizado de técnicas de cozinha, por meio de oficinas de conscientização sobre desperdício e aproveitamento total dos alimentos, expandindo ainda as possibilidades profissionais dos jovens participantes.

“Quando os alunos e alunas entendem o poder que a gastronomia tem perante a sociedade e que podem sim ser empreendedores nesta área, descobrindo que podem encontrar PANCs (plantas alimentícias não convencionais) em qualquer terreno baldio ou na rua, é a transformação social através da gastronomia, é autonomia. Não se precisa mais esperar vir das políticas públicas, faça você mesmo a sua gastronomia”, diz Edson.

Ele destaca ainda que a alimentação na primeira infância é a prioridade e que a principal transformação dos jovens envolvidos no contato com a comida é social. “Quero que a molecada daqui conheça os melhores lugares, os melhores restaurantes, as melhores ideias, mas sem esquecer que o melhor lugar de todos ainda é de onde viemos. A transformação começa em você como indivíduo, na sua casa, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, seu estado, seu país e aí partimos para o mundo. A maior transformação é o que eles trazem de volta para o local de onde vieram, e perpetuam as ações com as crianças que aqui estão”, finalizou.

Quer participar desse debate e saber mais sobre alimentação? Os participantes da matéria estão na programação do Festival Path, evento de inovação e criatividade que acontece nos dias 19 e 20 de maio de 2018, em São Paulo. Saiba mais em www.festivalpath.com.br

Esse e outros debates fazem parte do Festival Path, grande evento de inovação e criatividade que terá sua sexta edição nos dias 19 e 20 de maio, no bairro de Pinheiros. Confira a programação completa em www.festivalpath.com.br

Brunella Nunes é jornalista, adepta do slowliving e une seus esforços para desprogramar o lugar-comum do pensamento. Escreve por amor a causa para sites com propósito.

 

26/04/2018 - 15:21

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