Sem menu infantil

Nada de nuggets com arroz e fritas ou macarrão na manteiga. Entenda qual a real importância de acabar com a chamada “comida de criança” nos restaurantes

Rafael Tonon

O que aprendi no Caminho | <i>Crédito: Divulgação
O que aprendi no Caminho | Crédito: Divulgação

Bifinho com batata frita, nuggets, hambúrguer em miniatura com mais batata frita — só que desta vez em formato de carinha sorrindo — e macarrão com molho vermelho  ou, em alguns casos, molho branco. Pode reparar: o repertório do chamado menu kids nos cardápios dos restaurantes dificilmente vai além disso. Mas será que todas as crianças gostam de comer apenas esses itens nos lugares que frequentam? Chefs e especialistas em alimentação acreditam que, ao perpetuarem a repetição, os restaurantes estão ajudando a criar uma cultura de deseducação do paladar infantil — apoiada pelos pais, que são os maiores responsáveis pelo que a meninada come. “A maior parte é da conta dos pais, que, por comodismo, querem aquilo que as crianças aprenderam a achar mais gostoso, para não darem trabalho no restaurante”, afirma a paulista Patrícia Feldman, ou Pat Feldman, como é conhecida, culinarista e criadora do projeto Crianças na Cozinha. “Pelo lado do restaurante, o custo dos ‘cardápios infantis’ também é bem menor. Já o preço para o cliente nem sempre acompanha esse menor custo, o que explica a insistência de algumas casas em tê-los”, diz. O projeto Crianças na Cozinha tem por objetivo aproximar meninos e meninas da comida, para que na hora de sentar à mesa eles tenham uma experiência prazerosa, repleta de descobertas. “Muitas pessoas ainda preferem manter as crianças longe da cozinha alegando que ali não é um ambiente seguro para os pequenos, ou que elas podem fazer muita bagunça por lá, além de se machucarem. Mas, oras bolas, aprender a cozinhar não é apenas aprender a fazer comida”, afirma ela, na apresentação do projeto. “O seu filho pode começar a frequentar a cozinha desde muito cedo, desde sempre! No início ele aprende a reconhecer as cores e os cheiros. Com o tempo, vai se familiarizando com texturas e gosto”, diz ela, que é mãe de dois meninos. Isso ajuda a desenvolver a personalidade e gostos do pequeno, desde muito cedo, inclusive para quando se sentar à mesa da casa de um parente ou em um restaurante. Habituando-se com os cheiros que saem da cozinha, aproximando-se dos alimentos com familiaridade — vale ir à feira, ao supermercado, ajudar a arrumar a despensa —, eles vão, aos poucos, sentindo que aquilo é parte da vida. Uma criança que colhe alecrim, sente o cheiro da folha, ajuda a lavá-la e a misturá-la com os temperos da carne de porco, por exemplo, irá, ao menos, ter curiosidade em experimentar aquele prato depois de pronto — porque ela também ajudou a fazer e por isso sente que é parte integrante daquilo. E, desse jeitinho, ela vai conseguir determinar se o sabor do tempero lhe agradou ou não. É assim, dessa maneira, que as crianças começam a desenvolver seus próprios gostos e a formar seu repertório alimentar, que vai muito além do mini-hambúrguer com batata frita. A especialista Pat Feldman defende, ainda, que o restaurante seria um ótimo lugar para o pequeno desenvolver alguns desafi os gustativos, e não um lugar para cair nas mesmices do cardápio monotemático. “Não precisa chegar com megapreparações ou ingredientes superexóticos para as crianças. Não é um crime comer macarrão, mas, em vez do molho vermelho de sempre, não seria interessante desafi á-lo com um molho de aspargos ou cogumelos? E se trocar o bifi nho grelhado por uma carne assada com algum tempero mais caprichado?”, propõe ela. “Não dá para mudar essa cultura de bife com batata frita de uma hora pra outra, mas é possível fazer pequenas mudanças, pequenos incrementos. O que não podemos é limitar o paladar das crianças. Elas querem aquilo que alguém as ensinou a querer”, argumenta.

Tudo é comida de criança
No Bar da Dona Onça, no Centro de São Paulo, a chef Janaína Rueda não acredita em distinções entre o paladar de crianças e adultos. “Eu acho um absurdo esse preconceito com o que crianças comem ou deixam de comer. Tudo é comida de criança e de adulto”, ela defende. Como não tem um menu kids em seu restaurante, decidiu adotar a meia porção de vários pratos como forma de atender ao público infantil, que come menos. “Para as crianças de menos de 5 anos, levamos na mesa como cortesia um mexidinho caprichado, de arroz, feijão, carne moída, couve e farinha de mandioca. Os garçons deixam claro que é um presente especial, elas adoram e comem tudo”, conta. Para agradar o paladar dos pequenos ela também criou os nuggets de dobradinha , que é processada e empanada como os nuggets tradicionais. “As crianças adoram. É um jeito de servir algo que elas gostam sem cair nos industrializados e ainda fazer com que experimentem pratos a que não estão acostumadas”, afi rma. Entre as especialidades que mais saem para os pequenos estão o estrogonofe e o fusili com ragu de linguiça. “A criança precisa olhar para o cardápio e escolher o que gosta, sempre há algo”, diz ela, que é mãe de dois. No restaurante Obá, também em São Paulo, os menus são entregues primeiro para os pais para eles decidirem se vão mostrar aos fi lhos as opções do menu infantil, que vai além das alternativas convencionais, como bolinhos de carne feito com barreado  —  um típico cozido de carne paranaense, preparado por horas em panela de barro. “Fico triste quando vejo numa mesa uma criança comendo bife com fritas ao lado dos pais saboreando arroz de pato ou moqueca de camarão”, afi rma Hugo Delgado, um dos sócios. “Nós temos menu infantil principalmente porque ainda existem pais que educam seus filhos para comer comidas de criança. Como restaurante, preciso atendê-los”, diz. “Mas sinto orgulho dos pequenos que nos visitam para provar nosso menu tradicional. Percebo que é cada vez maior a quantidade de meninos e meninas que comem arroz de pato tailandês, tacos de carnitas e outras opções”, conta.

A lição começa em casa
Acostumar a criança com sabores diversos — dos frutos do mar aos temperos picantes ou agridoces — é um movimento que precisa começar em casa. Não se pode esperar que ela seja. capaz de apreciar um prato de origem tailandesa ou um feijão-de-corda com carne-seca se, na refeição do dia a dia, repete exaustivamente os mesmos cardápios e sabores. Ela, provavelmente, não vai se interessar por provar algo novo, diferente do tradicional, quando entrar em um restaurante. Não existe mágica para isso. É preciso que o paladar seja educado também. E essa lição precisa ser dada dentro de casa. Em seu livro, recém-lançado por aqui, Como Aprendemos a Comer (Zahar), a escritora e jornalista inglesa especializada em comida Bee Wilson conta como não é uma tarefa tão fácil ensinar seus três filhos a fazer boas escolhas. “Como mãe que tenta alimentar três filhos de forma saudável, mas sem exageros, às vezes me sinto tão perdida quanto me sentia com minha própria alimentação. Depois da fase do leite, nenhuma das habilidades de dar de comer me veio naturalmente”, escreve ela na abertura da obra. “Na correria da rotina, depois da escola e antes da hora de dormir, preparo uma refeição rápida que espero que agrade a todos. Talvez uma das crianças reclame da berinjela grelhada, outra diga que ela é a melhor parte do jantar, e a terceira chore baixinho porque, embora goste de berinjela, a sua está encostando num pedaço de frango e, portanto, passou a ser incomível”, diz ela sobre a realidade que muitas mães enfrentam, cotidianamente, para oferecer alimentos variados e abrir novas possibilidades de sabores aos filhos. “Talvez o argumento mais forte para descobrir novas formas de se alimentar seja o prazer. Comer é — ou deveria ser — uma fonte diária de satisfação, e não uma batalha a travar”, argumenta ela. Em seu livro, Bee dedica um capítulo inteiro a “comida de criança”. Nele, ela mostra por meio de pesquisas, da história, e de sua própria vivência, o quanto o chamado sabor infantil tem relação direta com aquilo que os pais apreciam. São os pais, direta ou indiretamente, que ensinam seus filhos a comer, o que comer e como comer. Se estamos abertos a experimentar novas possibilidades de sabor, com prazer e curiosidade, as crianças vão perceber isso e irão se aventurar nesses territórios com mais coragem. Isso também não significa que vão amar pato no tucupi na primeira garfada. A ciência mostra que a repetição é essencial para a lapidação do nosso gosto por isso ou aquilo. Às vezes é preciso oferecer uma, duas, três, várias vezes enfim até que a criança perceba todas as nuances e sabores de um alimento. E passe não apenas a gostar daquilo como a incorporá-lo no seu cardápio. Para a culinarista Pat Feldman, “a refeição é algo para ser feito em família, uma atividade que seja legal pra todo mundo”. Para ela, algo a ponderar é que um restaurante pode ser um programa bem chato para as crianças. Mas é possível deixar essa experiência mais gostosa se permitirmos que experimentem, de verdade. Se deixarmos que eles provem e possam concluir, eles mesmos, se gostam ou não de comidas mais apimentadas, adocicadas, e de sabores exóticos. E que, se não gostarem, tudo bem. O importante é, no mínimo, que tenham se proposto a provar. E, por favor, evite considerar as experiências gustativas como tabus definitivos: se você comeu ostra e não gostou, talvez isso não signifique exatamente que você não gosta de ostras. Sem generalizações, sem imposições e mais liberdade de escolha, as crianças vão se sentindo mais à vontade com a comida e com o que é diferente. De um jeito leve, gostoso, como numa brincadeira. “Deixar a criança de fora do programa estando nele é pedir para ela não gostar. Aí a ‘comida de criança’, nada saudável e estimulante, acaba virando apenas um ‘prêmio de consolação’ para ela aguentar a chatice do programa”, conclui Pat Feldman. 

RAFAEL TONON é jornalista de gastronomia e nos restaurantes sempre comia o que seus pais pediam — ou ao menos fingia fazer isso.
 

29/11/2017 - 15:45

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Revista Vida Simples