Boa e breve leitura

Uma seleção de livros rápidos que nos dão muito em poucas páginas

Viviane Zandonadi

Livros de poucas páginas mas com muito conteúdo | <i>Crédito: freestocks.org
Livros de poucas páginas mas com muito conteúdo | Crédito: freestocks.org

Livrar é da natureza dos livros bons, aqueles que abrem passagem no labirinto particular e deixam no peito uma sensação de completude, de ir até o fim. Para domesticar conflitos internos há ainda os que varrem a falta de tempo e nos ajudam a tomar fôlego para vencer a pilha empoeirada sobre o criado-mudo. São os pequenos grandes livros. Sua vastidão está na capacidade de nos dar muito em poucas páginas – pode ser na insônia abismal, no trânsito, na sala de espera ou na poltrona macia ao lado da janela. Bolo perfumado no forno, pernas sob a manta azul, dia nublado, luminária na neblina.

Foi assim que atravessei as 115 folhas de Morte em Veneza, de Thomas Mann, e as 93 páginas de Noturno Indiano, de Antonio Tabucchi. A caminho de Porto Alegre, me debrucei na obra 119 Palpitações de Felicidade Conjugal, de Lev Tolstói. Estava abstraída na “Sonata ao Luar”, de Beethoven, executada ao piano pela narradora da obra, Mária, quando ela disse que o romance acabou. Chovia na capital gaúcha, pouso autorizado. A lágrima insolente molhou o papel e concordei com a citação do dramaturgo russo Anton Tchekhov: o melhor de um texto é o que não está escrito.

Para a seleção que você confere a seguir, separei títulos de até 150 páginas, que me encheram de ânimo, inspiração e também voracidade. Mas como escolher é arbitrar, ao recomendá-los recorro a escritora Virginia Woolf no ensaio Como Ler um Livro?: “O único conselho sobre leitura que uma pessoa pode dar a outra é não aceitar conselho algum, seguir os próprios instintos, usar o próprio bom senso e tirar suas próprias conclusões. É o nosso gosto, o nervo sensorial que através de nós transmite choques, que mais nos ilumina; é pelo sentir que aprendemos”.


Bartleby, o escrivão
Herman Melville (tradução de Irene Hirsch).
Cosac Naify, 48 páginas

Funcionário de um escritório de advocacia em Wall Street, o escrivão Bartleby é um enigma. Cumpre suas funções com diligência, só come pão de mel, nunca falta. De um dia para o outro, porém, a cada tarefa proposta, diz a mesma coisa: “I would prefer not to” (“preferiria não” ou, dependendo da tradução, “acho melhor não”). Sem jamais ir embora, Bartleby pratica ausências e perturba a ordem. O patrão fica perplexo. Os colegas, enervados. Essa novela tragicômica a respeito de um copista ensimesmado é entregue em folhas por refilar. Para alcançar o texto do americano Herman Melville, será preciso rasgar. Travessia lúdica que, às vezes, irrita. Assim é o intrigante Bartleby.


Vermelho amargo
Bartolomeu Campos de Queirós
Cosac Naify, 72 páginas

“Se a chuva chovia mansa o dia inteiro, o amor da mãe se revelava com mais delicadeza. O tempo definia as receitas. Na beira do fogão ela refogava o arroz. O cheiro do alho frito acordava o ar e impacientava o apetite”. Depois que ela morreu, o menino-narrador conta que ficou só com o pai que cheirava a alambique, a madrasta que cortava o tomate em fatias finas, uma irmã que miava, outra que de tanto bordar em cruz achou um marido para carregar e o irmão. Esse mastigava vidro. Tanta gente à mesa e a atmosfera é melancólica. Tudo é memória. De cunho autobiográfico, Vermelho Amargo foi o último livro publicado em vida pelo escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, morto em 2012.


 

O caderno vermelho
Paul Auster (Tradução de Rubens Figueiredo).
Companhia de Bolso, 96 páginas

Aos 14 anos, o ficcionista americano Paul Auster fazia uma caminhada na mata com colegas de acampamento. Foram surpreendidos por uma tempestade. Atingido por um raio, um dos rapazes morreu. “Foi minha primeira experiência com a morte aleatória e a desconcertante instabilidade das coisas. Você acha que está sobre um terreno sólido e, um instante depois, desaparece”, disse o autor, em entrevista à Paris Review. O caso do relâmpago e outros episódios singelos, cômicos ou absurdos compõem esta coleção de histórias reais pautadas pelo acaso e uma verdade que beira o fantástico. Faz pensar sobre os muitos significados dos caminhos tortos.


 

Diário de viagem
Albert Camus (Tradução de Valerie Rumjanek).
Record, 121 páginas

“O atlântico tem cor de asa de pombo”; “O sol esmaga o mar, que mal respira, e o navio está carregado de gente silenciosa”. “Os motoristas brasileiros querem chegar primeiro. São alegres loucos ou frios sádicos.” Essas são algumas das muitas impressões do argelino Albert Camus, reunidas nos diários de duas viagens à América do Norte (1946) e do Sul (1949). Ora rabugento, áspero ou depressivo, ora comovido e inspirado, o autor do magnífico A Peste e do pouco extenso e bastante intenso O Estrangeiro, se espanta, se entedia e se comove em movimentos que o arrancam de si e levam-no a observar o tempo e as pessoas ao redor. Suas anotações são estudos de narrador que pinta com as palavras.


 

Do que eu falo quando eu falo de corrida
Haruki Murakami (Tradução de Cássio de Arantes Leite).
​Alfaguara, 150 páginas
Ao desistir de um bar de jazz para escrever, nos anos 80 do século passado, o japonês Haruki Murakami começou a correr. Consagrou-se na literatura e virou também maratonista. Sem platitudes, fórmulas ou frases de para-choque, neste livro ele trata de liberdade e foco, e no modo como a corrida interfere em sua vida e melhora seu trabalho. Foi uma surpresa para mim – eu não sacaria esse livro da estante se uma voz não me dissesse que ele ia além da prática do esporte. E vai. Ainda não abandonei o agasalho de sedentária, mas entendi que escrever é, em parte, correr com as palavras. Pela primeira vez, porém, estou pensando em usar os pés.

 

A morte de ivan ilicht
Lev Tolstói (Tradução de Boris Schnaiderman).
Editora 34, 96 páginas

Na última linha do posfácio, o tradutor Boris Schnaiderman escreve que “esta novela nos torna mais inteligentes e mais humanos”. Talvez a morte seja, como acreditava o autor, onipresente em nossos pensamentos e por isso o leitor mal consiga se proteger do relato da vida vazia de um sujeito pedante, que se enche de dores físicas e morais. Somos todos tomados pela análise da existência humana e do fim. Ninguém pretende estar no lugar de Ivan Ilitch, fiel aos mais medíocres contratos sociais e que adoece rodeado de afeto fingido. Mas todo mundo sabe que para morrer basta estar vivo e se vê na agonia e na dúvida. Por que gastamos tanta munição em insignificâncias, quando ainda não é tarde?

 

Bonsai
Alejandro Zambra (Tradução de Josely Vianna Baptista).
Cosac Naify, 96 páginas

História de amor. No final ela morre e ele fica sozinho. Mas eu não disse nada demais. O chileno Alejandro Zambra começa com essa frase a narrativa sobre dois jovens que lêem juntos. Eles “acordam com livros perdidos entre as cobertas” e, em meio à leitura, até que são felizes. A prosa de Zambra, feito um bonsai, é cuidada e podada. E os encontros e desencontros de Julio e Emilia nos dizem que o afeto precisa de cultivo igual, ainda que nós, jardineiros, nos atrapalhemos um pouco.


O fio das missangas
Mia Couto.
Companhia das Letras,147 páginas

Vinte e nove histórias sobre a beleza doída de sonhos apartados, desejos interrompidos e desamores. O fio que as une, e atravessa o leitor, é a prosa poética de Mia Couto, africano de língua portuguesa nascido em Moçambique. Ela torna menos inabitáveis os lugares difíceis. Ao fim de cada texto, somos gratos ao outro olhar. A narradora de “A Despedideira”, por exemplo, diz que há mulheres que querem que seu homem seja sol. “O meu, quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz de seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios.” Ela, que sempre achou que amor era os dois se duplicarem em um, deseja ser o múltiplo de nada. “Ninguém no plural. Ninguéns.”

 

Meus desacontecimentos
Eliane Brum.
Leya, 144 páginas

Um dia, travei. Não encontrava sinônimos para os textos que estava editando e achei que ia explodir. Me imaginei várias vezes levantando da mesa e dando uma de louca, a igno­rar o fechamento daquela edição. Então recebi este livro da repórter e escritora Eliane Brum. Abri como se fosse o Charlie, ao desembrulhar uma barra de chocolate Wonka, e entrei na fantástica fábrica de palavras mastigáveis. O mundo não acabou porque parei para respirar dentro das páginas, acompanhando a transformação da menina de Ijuí em contadora de vidas inventadas. Aprendi ali que toda memória é mágica e que olhar a vida sem encantamento é secar por dentro. No fim, queria voar. Respirei fundo, revigorada, e não perdi meu prazo.

09/02/2018 - 10:18

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