Seja sua melhor companhia

Aprender a desfrutar de um tempo só para si e estar disposto a realizar tarefas sem a companhia de alguém – como um café e até uma viagem – nos proporciona um mergulho em nós mesmos.

Eleonora Nacif

Saber aproveitar a própria companhia nos traz liberdade para viver o que queremos | <i>Crédito: Danka & Peter (Unsplash)
Saber aproveitar a própria companhia nos traz liberdade para viver o que queremos | Crédito: Danka & Peter (Unsplash)

Há alguns anos senti uma inexplicável necessidade de ficar só, em silêncio profundo, apenas na companhia dos meus pensamentos, sentimentos e reflexões. Essa vontade de explorar o meu mundo interior não se deu em virtude do fim de um relacionamento, da perda de um ente querido ou de algum tipo de desconexão com as pessoas. Tampouco foi um ato de coragem, mas sim o passo seguinte na minha jornada de autoconhecimento e crescimento pessoal, um mergulho curioso nas minhas profundezas, algo praticamente impossível de ser feito em meio à correria da vida cotidiana.

Decidi viajar sozinha por algumas semanas no período de festas de final de ano. Era muito forte a convicção de que isso era algo que eu precisava me proporcionar naquele momento. Foi curiosa a reação das pessoas quando contei sobre o meu “retiro voluntário”: “Coitadinha, não tem com quem viajar”, “Você está deprimida?”, ou ainda “Quer que eu vá junto com você?”.

A opção voluntária e consciente de passar um tempo sozinha não foi considerada e nem sequer cogitada pela maioria das pessoas, com exceção dos meus amigos ligados à arte (bailarinos, músicos, escritores), os quais encararam a minha busca de forma totalmente diversa, não apenas me estimularam mas comemoraram a minha opção.

Isso me fez pensar que os artistas têm uma percepção diferente sobre a solidão, talvez porque a criatividade inerente às suas atividades se dê quase necessariamente a partir desse espaço proporcionado pelo silêncio. Enfim, quem é criativo conhece o valor de estar só.


Solitude é diferente de solidão
Importante destacar que o termo “solidão” designa um “vazio”, uma “incompletude”, algo extremamente doloroso, ao passo que “solitude” traz o sentido oposto, qual seja, “estar conectado e em paz consigo mesmo”. Solitude é um “isolamento voluntário”, ideia que vai de encontro ao que me refiro neste texto.

O senso comum de que o solitário é “triste, louco ou mau” se confirmou pela reação das pessoas em relação à minha opção de passar o Natal e algumas semanas sozinha em meio às araucárias, me reconectar comigo mesma e com a natureza. Mas por que ir para as montanhas, e não explorar esses aspectos em casa, dentro do meu próprio quarto? Alguns lugares nos convidam a contemplar o silêncio, talvez pela sua beleza e exuberância. No meu caso, algo especial acontece quando estou na natureza, como se isso ajudasse a explicar tudo ao meu redor e colocasse cada coisa em seu lugar.

A nossa cultura não valoriza a solitude. Desconheço alguma escola que se preocupe em ensinar as crianças a apreciar a própria companhia. Quando uma criança está “quietinha”, logo questionamos se não estaria doente ou com algum problema. Não somos estimulados a ficar sozinhos e olhar para dentro, pelo contrário, a sociedade de consumo na qual vivemos nos convida o tempo todo a olhar para fora, como se a vida fosse uma eterna festa da qual deveríamos fazer parte, como diria Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Esse sentimento de exclusão, característico do mundo contemporâneo hiperconectado, foi denominado pelos americanos de fomo (fear of missing out). É o “medo de ficar de fora” ou de “estar perdendo algo”.

Em Como Ficar Sozinho (Objetiva), um dos livros da série assinada pela The School of Life, Sara Maitland explora vários aspectos dessa profunda confusão cultural acerca da solidão. Segundo ela, “(...) precisamos explorar como chegamos a essa estranha situação em que temos tanto medo de ficar sozinhos que atacamos, ou aparentemente odiamos aqueles que desejam a solidão. (...) Nós os estigmatizamos, negamos sua capacidade de identificar suas próprias emoções”.

Tudo indica que é o medo – ou mesmo pavor – que muitas pessoas sentem em relação a estar sozinhas. O que acontecerá quando as conversas cessarem? Será que vou enlouquecer? E se eu ficar doente, quem me socorrerá? No entanto, o medo é provavelmente mais prejudicial à saúde do que estar sozinho. É fato que observamos mundo afora um número crescente de pessoas morando sozinhas. No Brasil, a porcentagem de domicílios habitados por apenas um morador está próxima dos 15%, segundo o IBGE. Na Inglaterra, a taxa é de 29%.

Uma busca intensa
Contudo, não podemos desprezar o medo, fingir que ele não existe. Essa busca por autoconhecimento nem sempre é suave, e pode muitas vezes revelar material bastante angustiante e perturbador. Isso ocorre especialmente quando a solidão é involuntária, fruto do isolamento punitivo em penitenciárias, por exemplo. O efeito negativo do ambiente penitenciário propicia a aparição de desequilíbrios que podem chegar a um quadro psicótico, além da deterioração da dignidade humana. Esses são os efeitos da prisionização e da despersonalização gerados pelo encarceramento. Um exemplo inspirador de resiliência no cárcere é o documentário Do Lodo ao Lótus. O filme conta a história do preso Luiz Gusson, que através da prática da ioga conseguiu transformar o período de prisão em uma experiência transcendental.

Outro exemplo inspirador é o de Terry Waite, ex-refém no Líbano por cinco anos. Ele ensina que “ao entrar em solitude, de alguma maneira você está fazendo uma viagem interior, não exterior, porque ela irá estimulá-lo a ser introspectivo. E você descobre que, como todos os seres humanos, é uma mistura de luz e trevas”. Nesse sentido, é importante termos clareza de que “estar em paz consigo mesmo” não é sinônimo de sentir prazer e bem-estar o tempo todo. Estar aberto para sentimentos dualistas, a “mistura de luz e trevas”, conforto e desconforto, alegria e tristeza, e saber navegar nisso tudo com sabedoria, é um enorme passo para dissolver o medo e se aproximar da solidão saudável, a solitude.

Há evidências de que a solitude é um precursor para experiências religiosas intensas. Buda, Jesus e Maomé tiveram períodos sozinhos antes de iniciar suas missões religiosas.

O retorno ao palco social depois de um período de introspecção pode produzir relacionamentos melhores, pois somos mais livres e independentes. Sabemos quem somos e nos relacionamos de maneira mais autêntica. Nas palavras de Fernando Pessoa: “Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes é necessário ser um”. ƒ

Eleonora Nacif é advogada criminalista e professora da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP. É membro do Instituto de Defesa do Direito de Defesa e professora da The School of Life, com aulas sobre os temas “Como discordar”, “Como tomar decisões melhores” e “Como aproveitar seu tempo sozinho”.

09/02/2018 - 10:21

Conecte-se

Revista Vida Simples