Como superar o fim

A vida é cheia de despedidas. De um amor que acaba, da casa antiga, do emprego que perde a graça. Lidar com cada adeus nos traz coragem para criar caminhos e seguir só com o que importa

Vida Simples Digital

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O imenso baú da mitologia guarda a história de Orfeu, exímio cantor e tocador de lira, dilacerado pela morte de sua amada, Eurídice. Inconformado, ele desce ao mundo dos mortos a fim de resgatá-la da posse de Hades, deus dos estratos inferiores. Seu canto era tão belo e comovente que obteve permissão para trazer Eurídice de volta, desde que respeitasse uma cláusula: ele não poderia olhar para a esposa, que caminharia às suas costas, até alcançarem à superfície. À beira da luz, entretanto, Orfeu torce o pescoço e, em segundos, perde sua companheira. Permaneceu inconsolável até o fim de seus dias. Dramática, como é de se esperar das narrativas gregas – espelhos das sagas humanas –, essa lenda retrata a nossa dificuldade de dizer adeus. E não só no que se refere àqueles que amamos e que vão embora para sempre. É que não somos bons para lidar com a problemática da finitude. Assim, temos dificuldades, guardadas as devidas proporções, em lidar com o término de um relacionamento ou de uma boa fase de vida, à mudança profissional ou de endereço.  São sucessivos finais vividos, muitos alheios à nossa vontade, e todos inerentes à nossa existência. Não dá para escapar da transitoriedade, embora, ao contrário de Orfeu, não seja preciso arrastar vida afora os espinhos do pesar. O consultor educacional José Ricardo Crocco não chegou a visitar o inferno de Hades, mas teve um fim de ciclo bem espinhoso. Depois de atuar por dez anos na área de design gráfico, Crocco passou por uma crise que atingiu não só a carreira mas a saúde, a família e o casamento. Por dois anos, se viu completamente perdido e confuso em relação a qual caminho seguir. “Estava sem rumo, mas a intuição me dizia para prosseguir assim mesmo”, conta. Não foi fácil se desapegar de suas certezas, cenários e afazeres conhecidos e enxergar que aquele período havia terminado. No entanto, via dentro de si uma fagulha tenaz o bastante para animar sua crença em dias melhores. “Percebi que só o dinheiro não justificava tanto desgaste físico e emocional. Senti necessidade de buscar mais sentido na forma como empregava meu tempo e  vida simples    45 interagia com o mundo”, diz. Depois de muito tatear, se questionar, meditar e ainda suportar a pressão de amigos e familiares, Crocco, enfim, encontrou o que procurava. “Percebi que trabalhar com educação me fazia pleno. Então, com base na minha vivência prévia com meditação e outras correntes terapêuticas, criei um projeto de autoconhecimento voltado para alunos do ensino médio”, conta, radiante. A iniciativa, segundo ele, mais ampla e profunda do que a tradicional orientação vocacional, se chama Guia Projeto de Vida (GPV), que ele aplica em colégios da capital paulista. Quase sempre, como no caso de Crocco, o que vem depois de um conflito é, de fato, a resolução dele. Mas encerrar um ciclo sem olhar para trás nunca é um gesto banal ou indolor. Faz parte mesmo. Segundo Viviane Mosé, filósofa e psicanalista capixaba, é tão penoso assistir ao escoar de coisas, pessoas e situações porque, em nosso íntimo, nunca lamentamos uma perda isolada. “Todos nós nos guiamos por uma marca que é a certeza da morte. Logo, sofremos não só pela falta vivida naquele momento específico mas pela perda em si que caracteriza a vida”, afirma. Segundo ela, o fim imposto pelo presente remete ao caráter provisório de tudo e de todos, inclusive de nós mesmos, seres de passagem. Na visão da psicanalista Lidia Aratangy, de São Paulo, a dureza desse processo está em aceitar que uma parte nossa morre junto com o que se vai, gerando nostalgia. Mesmo mudanças para melhor nos provocam esse sentimento, ela sublinha. “Quem sai do imóvel alugado e ruma para a casa própria não está livre de sentir nostalgia. Afinal, o que foi vivido numa residência parece que impregna as paredes e os espaços. São pedaços nossos que vão ficando pelo  caminho”, diz. Seria caso de preocupação se o apreço excessivo pelo passado se convertesse em paralisia. “Esse quadro sinaliza muito mais um medo do novo e do desconhecido do que um apego ao que foi vivido”, pondera Lidia. Ora, se a existência se alimenta de finais e recomeços e a natureza está aí para ilustrar com perfeição essa dinâmica, há como se preparar para os desfechos que nos aguardam? “A cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para um novo começo”, disse o escritor e poeta alemão Hermann Hesse (1877-1962). Sua colega de ofício, a americana Elizabeth Bishop (1911-1979) também endossava a afirmativa. Como expressou nos versos de A Arte de Perder, não há mistério algum nessa contabilidade. Ainda mais se nos acostumássemos a perder “um pouquinho a cada dia”: chaves, a hora, a conexão do voo, uma casa, um amor. A aceitação de cada minúscula perda cotidiana, pregava a artista, nos prepararia para a despedida maior. “Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça muito sério”, escreveu em referência à morte de sua companheira Lota de Macedo Soares (1910-1967), arquiteta autodidata que planejou o Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro.

 Uma lenta digestão do fim 
Ocorre que, fora do papel, nunca estamos totalmente prontos para encerrar uma etapa e inaugurar outra, diz Lidia. “O processo não é necessariamente racional, nem inteiramente consciente. Isto é, não se ‘chega a uma conclusão’, como no final de um raciocínio lógico”, esclarece. No entanto, a retomada é perfeitamente possível, apesar de abarcar tantos pesares. “Quando esse processo é vivido com todas as emoções que a ruptura provoca (sentimentos de perda, ansiedade quanto ao novo, nostalgia de boas lembranças etc.), o ciclo se encerra automaticamente e a gente pode tocar a vida”, assegura. E, quanto mais funda for a entrega à travessia, ou seja, quanto maior a abertura para chorar, purgar e depurar sentimentos e lembranças, maiores são as chances de chegar à outra margem verdadeiramente disponível para o que vier. “Só conseguimos seguir adiante se esses episódios e situações forem vividos até que essas emoções se gastem. Então podemos rememorá-los sem sofrer tudo de novo”, explica. Viviane não só endossa essa percepção como ilumina a faceta fértil do sofrimento. “Se você impede, por meio de medicação psiquiátrica, ou disfarça, pela superproteção, as dores que uma pessoa sofre na vida, está produzindo um ser incapaz, impotente, porque é da vontade de superar a perda que vem a potência de cada um”, afirma. Mas, caso uma pessoa se sinta vencida por essa avalanche, o melhor a fazer é buscar o apoio de um analista ou terapeuta. “Na terapia, devolvemos as emoções do passado ao seu lugar verdadeiro, em vez de ficar tropeçando nos restos de antigas emoções rejeitadas”,  pontua Lidia. Por outro lado, pode ser que a resiliência, comum a todos os indivíduos, se encarregue de refazer e ressignificar histórias. “Há na maioria de nós a resiliência natural que se alimenta da resolução ‘vou me tornar uma pessoa melhor a partir dessa perda’”, garante Viviane. Lanna Collares, artista visual e escritora, fez da expressão criativa seu caminho de superação. Abalada pelo término de um relacionamento, ouviu da mãe que aquela ferida levaria pelo menos seis meses para cicatrizar. Pensou: como aproveitar da melhor forma esse tempo e, sobretudo, essa experiência? Ora, fazendo arte. Assim nasceu o tumblr “180cartazesprasairdafossa”, canal onde publicou cartazes acompanhados de vídeo ou de música escolhidos por serem gatilhos de sentimentos bons. “Precisava engrandecer essa dor, fazer com que ela deixasse de ser introspectiva e passasse a ser do mundo”, lembra. Apesar de ter cumprido seu  “cronograma”, Lanna diz não acreditar em regeneração completa. “Ninguém se refaz por inteiro, sempre fica uma dor, uma música que é melhor não ouvir, um bar onde é melhor não entrar. Refazer-se envolve muito mais que esquecer alguém, envolve muito mais que 180 dias”, diz. “Encontrei um novo amor, mas ele não é uma superação de outro. Amores serão sempre amáveis, completamente diferentes”, acredita. Os cartazes viraram camisetas, trouxeram amizades e novos projetos. Nada mal para algo que começou com tantas lágrimas. Igualmente disposto a transformar o padecimento numa experiência plena de significado e transcendência, o escritor, editor e jornalista americano Will Schwalbe bolou um “método” formidável para acompanhar a travessia de sua mãe, vítima de câncer. Na obra O Clube do Livro do Fim da Vida (Objetiva), ele conta como ambos aproveitaram as sessões semanais de quimioterapia, ao longo dos dois derradeiros anos, para não só conviver como trocar impressões sobre livros e, especialmente, sobre a vida que escorria às margens da ficção. A proposta soou bem, já que Mary Anne fora voluntária em países em guerra e, contra todas as probabilidades, se engajou na campanha de montar bibliotecas itinerantes nesses locais. Era amante da literatura. E, graças tanto ao interesse quanto à fibra espiritual mútuos, ambos souberam tecer momentos preciosos na cafeteria do hospital, na sala de quimioterapia e nos corredores, sempre frios e deprimentes. Contudo, em vez de a tristeza solitariamente tomar conta desses espaços, outra possibilidade foi preenchendo o que poderia ser somente vazio e angústia. “Os romances nos proporcionaram um meio de discutir algumas das coisas que ela ou eu estávamos enfrentando”, escreve Schwalbe. Fé, família, esperança, confiança, intimidade, coragem, gratidão. Muitos foram os temas e os sentimentos aflorados por esse clube da leitura composto de apenas dois ilustres membros. Para a mãe e para o filho, o único jeito possível de colocar em perspectiva a relação e de se reconfortarem diante da despedida-mor, ainda por cima, inspirando outras pessoas a celebrar a vida, muito mais do que digerir a morte. 

27/07/2016 - 16:28

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