Desconectar para reconectar

Movimento defende que as pessoas desliguem seus aparelhos eletrônicos mesmo que seja por algumas horas e assim, voltem a se relacionar de maneira mais intensa com o outro

Katia Abreu

Campanhas de conscientização digital estão se tornando parte da vida dos estadunidenses | <i>Crédito: iStock
Campanhas de conscientização digital estão se tornando parte da vida dos estadunidenses | Crédito: iStock

Entre uma tarefa e outra, ele checa o Facebook, o Twitter e os sites de notícias. Ao final do dia, acomoda seu tablet na mochila. O inseparável smartphone é colocado no bolso da frente da calça para estar sempre à mão. E ele segue para casa checando o que os amigos estão comentando no Facebook. Já em casa, volta a pegar o tablet, olha (novamente) a caixa de e-mail, navega mais um pouco pela internet. A namorada o convida para jantar. Na mesa, o smartphone de ambos tem lugar reservado ao lado dos talheres. Entre uma frase e outra ele ou ela checa mensagens, tuítes. A noite segue e, antes de dormir, ele... confere pela última vez os e-mails. Ah, a tecnologia!

A cena acima é fictícia e pode parecer um tanto exagerada. Mas não é. Basta reparar em qualquer mesa de bar e perceber quantas vezes, entre uma risada e uma bebida, as pessoas se desligam da conversa para trocar um SMS, um tuíte e tantos outros canais que nos mantêm conectados. Faça uma pausa. Desligue-se dos aparatos ao seu redor e reflita: será que o uso excessivo dessas tecnologias estaria dispersando nossa atenção e nos afastando de um convívio mais profundo com o outro, conosco e com o ambiente a nossa volta? Essa é pergunta bem em voga.

Detox Digital

Nos Estados Unidos (onde, segundo dados do Internet World Stats, 78% da população estava conectada à rede em 2011), essa reflexão já aponta uma tendência a desconexões voluntárias e temporárias. Agências de turismo, resorts e hotéis enxergaram a oportunidade e oferecem pacotes de "desintoxicação digital": ao fazer check-in, o hóspede desliga seus aparelhos eletrônicos (pode até deixá-los guardados na recepção para não cair em tentação) e se entrega a prazeres offline, como ler um livro, passear pelo campo com os filhos ou andar de caiaque.

Campanhas de conscientização digital estão se tornando parte da vida dos estadunidenses. A revista Good, que mantém uma seção fixa de desafios mensais (30-Day Challenge), propôs que os leitores não acessassem a internet após as oito horas da noite nos fins de semana de agosto de 2011. "Vamos lembrar como era a vida antes de nos sentarmos diante do brilho cintilante de uma tela o dia inteiro todos os dias", dizia o chamado. O projeto Sabbath Manifesto desde 2010 convoca o National Day of Unplugging (Dia Nacional de Desconectar-se) e, este ano, pretende ampliar a discussão levando a iniciativa ao festival de artes e tecnologia South by Southwest, em Austin, nos dias 23 e 24 de março.

A primeira iniciativa global nesse sentido aconteceu em 2 outubro de 2011: o Day to Disconnect (Dia de Desconectar). Convocada pelo rabino Zechariah Wallerstein, do centro de estudos judaicos Ohr Naava, de Nova York, a campanha se espalhou pela internet graças a um vídeo intitulado Desconecte-se e Aproveite, que mostrava situações comuns do nosso dia a dia, como duas pessoas almoçando juntas e, enquanto uma delas insiste em conversar, a outra não para de teclar em seu Blackberry. Milhares aderiram à campanha, que pedia que as pessoas ficassem ao menos uma hora desplugadas no primeiro domingo do ano novo judeu. Nos relatos postados no blog do projeto, é grande a quantidade de participantes que diz ter passado mais horas do que as previstas fora da rede, envolvidas em passeios e leituras, e são muitos agradecendo a "sensação de liberdade" proporcionada pela experiência.

Admirável mundo novo

"Tem um discurso, que é difuso, não tem um centro emissor, mas está no ar: se eu tenho internet dedicada, por que não ficar conectado?", reflete Gustavo "Mini" Bittencourt, autor do blog Conector e comentarista de cultura digital da Oi FM. Para ele, esse tipo de campanha é importante por levantar a discussão sobre como estamos lidando com as novas tecnologias. "Um dia de desconexão não vai resolver uma questão bem complexa e contemporânea. Uma parte disso vem dos fabricantes de equipamentos, das telecoms que vendem o serviço. Então, fica parecendo que o normal é ficar conectado o tempo inteiro. E, se as pessoas não pensam sobre isso, elas compram essa ideia", comenta.

O professor doutor e coordenador geral do Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Comunicação e Cibercultura da PUC-SP, Eugênio Trivinho, concorda: "Esses movimentos são interessantes, mas de nada adianta se não tiver uma reflexão diária. A dinâmica do sistema em que vivemos é violenta e, muitas vezes, você acaba se desconectando por um dia ou um mês por absoluto cansaço". O professor explica que vivemos uma época que nos impõe velocidade, interatividade e desempenho social que gere visibilidade. "Se não estamos no Twitter e não temos um perfil no Facebook é quase como se não existíssemos. As coisas ficam complicadas porque para sentirmos o que é vida temos que aceitar o que passa por aí. E, não, a vida não tem que passar por aí - esse foi um arranjo que acabou se constituindo. E o curioso é que foi com a nossa adesão. Tudo foi se fazendo de modo aleatório, sem um centro diretor, sobretudo nos últimos anos, com a emergência da cibercultura."

Autora do premiado documentário Connected: An Autoblogography about Love, Death & Technology (Conectados: Uma Autoblografia Sobre Amor, Morte e Tecnologia, sem data para exibição no Brasil), Tiffany Shlain falou no TEDx Women sobre sua experiência conectada à rede, que inclui a inspiração e a realização de seu filme, e ressaltou o caráter humano de nossas conexões: "Quando alguém pergunta o seu numero de celular, não está pedindo o seu número de telefone. Está perguntando qual é a sua célula neste enorme organismo do qual todos fazemos parte, o sistema nervoso que estamos criando, esse enorme cérebro global".

Sob controle

Se a rede somos nós, a discussão que precisamos fazer para construir um futuro saudável diz respeito ao comportamento de cada um. Psicóloga e diretora da Iniciativa Tecnologia e o Eu, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Sherry Turkle pesquisa há décadas a relação que estabelecemos com as novas tecnologias. Em seu último livro, Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other (Juntos Sozinhos: Por que Esperamos mais da Tecnologia e Menos uns dos Outros, sem edição brasileira), ela entrevistou mais de 450 pessoas, de três gerações, e concluiu que a sociedade em rede está reconfigurando os conceitos de solidão e intimidade.

Um dos principais pontos levantados em seu estudo é o uso maciço de mensagens de texto, em detrimento da comunicação via voz, em celulares ou computadores. Segundo ela, as pessoas preferem escrever a falar umas com as outras porque dessa forma há maior controle da interação. Trivinho analisa que tal comportamento é uma resposta ao imperativo de interatividade imposto pela época: "O texto é uma espécie de blindagem, de ruptura com o constrangimento que sempre é a relação com a alteridade. O outro sempre nos coloca uma espécie de limite: ou você o contorna ou você o abraça. O fato de você não ter que aparecer, não ter que falar com o outro, não ter que errar, não se colocar diante do outro como um objeto de julgamento é visto como um prazer, um alivio".

Por outro lado, em nossas atuações online, é cada vez mais notável a lógica do "compartilho logo existo". Enviamos informação sobre nós a centenas de amigos virtuais, mas preferimos mantê-los a uma distância segura. Turkle observa que "a simplificação dos relacionamentos não é mais uma fonte de reclamações. Ela se tornou o que desejamos". Novamente, uma escolha nossa: um acordo tácito para a nova sociabilidade que estamos forjando na rede.

"A nossa espécie sempre foi devotada ao gregarismo e as tecnologias de rede potencializam isso. É paradoxal que a hiperconectividade leve você a falar com um monte de gente e isso não resolva nossa solidão. E, muitas vezes, a solidão é fundamental: intervalos de tempo e de espaço são essenciais para a saúde das relações", lembra Trivinho, que aponta entre os problemas agravados pelos imperativos contemporâneos o TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade), o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e o agravamento de quadros de síndrome do pânico e depressão, além das lesões por esforço repetitivo.

Educação para o futuro

Com códigos de conduta sendo construídos enquanto a vida acontece acelerada é natural que fiquemos confusos sobre como nos portar e, mais do que isso, sobre como preparar os mais jovens para lidar com os desafios contemporâneos. "A escola não nos educa para isso. Sobra para indivíduos e grupos decidirem sobre a melhor forma de agir em relação a essa realidade", pontua o professor. "Existe um conhecimento acumulado sobre a idade para conversar sobre sexo. Agora, sobre mídias digitais, não tem porque é tudo novo", comenta Mini, que tem uma enteada de 10 anos, cuja educação digital tem sido negociada com a participação dela. Ele conta que a regra entre eles é não exagerar e que os limites vão sendo delineados conforme as demandas surgem. Por exemplo, a enteada pediu - e ganhou - um telefone mais atual. No entanto, o presente veio com algumas cláusulas: não pode usar na cama, de noite e no carro acompanhada da família. "O melhor horizonte de relação com a época é responder a ela sem ser um tecnófilo, celebrando as tendências, ou um tecnófobo, rompendo com a realidade e sendo um ressentido ao que se transformou o mundo", pondera Trivinho.

Mini usou uma boa metáfora para falar dessa história em um de seus comentários sobre a vida digital para a Oi FM. Pense na informação como água. Estamos cercados por ela: nas paredes, no chão, nas ruas - há água encanada correndo. Mas, graças à invenção da torneira, não vivemos numa imensa inundação. "O e-mail, o Facebook, o Twitter, o Orkut, a rede de SMS são como canos por onde passa água. Cabe a cada um abrir e fechar a torneira adequadamente se não quiser se afogar."

09/01/2017 - 18:04

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Revista Vida Simples