A jornada da empatia

O filme ‘A Imagem da Tolerância’, que investiga a devoção a Nossa Senhora Aparecida, busca o amor ao próximo nestes tempos de cólera

Ademir Correa

As diretoras do filme A Imagem da Tolerância, Paula Trabulsi e Joana Mariani | <i>Crédito: Divulgação
As diretoras do filme A Imagem da Tolerância, Paula Trabulsi e Joana Mariani | Crédito: Divulgação

A Imagem da Tolerância, documentário dirigido por Joana Mariani e Paula Trabulsi, retrata a adoração a Nossa Senhora Aparecida – a “Madroeira do Brasil”, segundo as palavras da Irmã Lina Boff. Neste caminho de devoção, exemplos de fé mostrados em tela renovam a esperança em momentos de caos (como agora). "O mundo precisa cada vez mais de compreensão e acolhimento, valores que Nossa Senhora Aparecida inspira", adianta Paula. "Aparecida é a mãe que cada um de nós necessita", reconhece Joana.

Pensando o filme como um veículo para a aceitação do outro, as diretoras apostam na tolerância que cria empatia, gera simpatia e se transforma em amor ao próximo. E também nos encontros com personalidades e atores sociais que construíram este painel de opiniões que propagam o bem. Muitos convidados foram escolhidos "através de uma pesquisa feita pela talentosa Gabriela Boeri, nossa assistente de direção, e também através de coincidências. E essa é a magia do cinema, principalmente do documentário, a de estar aberto aos acontecimentos", diz Joana. Entre os porta-vozes desta jornada fílmica: a cantora Maria Bethânia explica suas crenças – experiências que a orientam em sua liberdade; o Padre Fábio de Melo coloca a igreja como uma figura maternal que abraça a todos; o rabino Nilton Bonder compara o mito de Maria para o judaísmo através de Miriam; o jornalista Bruno Astuto e o estilista Sandro Barros destacam a proteção que sentem com a referida santa; enquanto a apresentadora Nany People traça um paralelo entre o apoio de sua mãe do céu e o de sua mãe biológica – “quando você tem um alicerce em casa, o mundo é seu quintal”, admite. Além de fieis peregrinos que ilustram seus sonhos em histórias mínimas diárias nas quais acreditar no poder de Aparecida é ter força para viver.  "A fé que nos falta não é a fé no divino, mas a fé no próprio ser humano, na sociedade e no futuro", acrescenta Joana.

Paula Trabulsi e Joana Mariani posam com Maria Bethânia. A cantora falou sobre o sincretismo religioso do brasileiro

 

Em entrevista exclusiva para a VIDA SIMPLES, a dupla de diretoras do coletivo internacional de inteligência criativa ASAS comenta sobre a obra:

 

VIDA SIMPLES: Vocês falam sobre amor, empatia, simpatia... Como acreditam que a fé, que é subjetiva e pessoal, possa empreender esta mudança coletiva real na vida das pessoas?

PAULA TRABULSI: Sāo dois temas: a fé como um poder interno e de suporte incomensurável; e a tolerância, que abre a porta para você chegar ao amor, como um valor para aplicar nos encontros externos da nossa vida.

JOANA MARIANI: Cada um pode fazer a sua mudança através da fé, que é, como citada na pergunta, subjetiva e pessoal. A fé pode ser em Deus, Deuses, em uma religião ou em si próprio. Pessoalmente, acho que a fé que nos falta não é a fé no divino, mas a fé no próprio ser humano, na sociedade e no futuro. 

 

VS: No que o filme tocou vocês nestas mesmas questões (empatia, simpatia e amor)?

PT: Me tocou no sentido de entender que a tolerância te leva para a empatia e gera simpatia. Assim, é possível que o amor aconteça com aquele que é diferente de você.

JM: Tanto eu quanto Paula já vínhamos trabalhando com projetos que nos levaram a pensar e repensar a questão dos valores femininos - entre eles o amor, a empatia e a simpatia - e, por consequência, o mundo moderno, as relações e a sociedade. Acho que A Imagem da Tolerância foi um acordo de nos aprofundarmos nestes temas para tentarmos levar estes conceitos aos espectadores. Cada história que nós, como documentaristas, escutamos, nos mexe. 

Joana Mariani e Paula Trabulsi e Padre Fábio de Melo, um dos entrevistados do longa

 

VS: Nossa Senhora Aparecida é uma santa que comove os fieis. Ao investigar o tema, vocês se depararam com o crescimento desta comoção (pensando na situação atual do Brasil)?

PT: Ouvimos depoimentos contando que a Fé Mariana parece crescer cada vez. E um dos grandes motivos é exatamente pelo que o documentário revelou: o mundo precisa cada vez mais de compreensão e acolhimento, valores que Nossa Senhora Aparecida inspira.

JM: A idéia de falar sobre tolerância usando como gancho Nossa Senhora Aparecida veio exatamente da experiência anterior, durante as filmagens do documentário Marias, na cidade e no Santuário. Lá, vemos pessoas de todos os credos, raças, classes sociais e cores conviverem, se respeitarem e, principalmente, se sentirem iguais. Esta tolerância, a empatia, a simpatia e também o amor que se sente ali foi o que nos inspirou a realizar este documentário. Mesmo em um ano tão complexo quanto 2017, social e politicamente no país, os 300 anos de Aparecida nos inspiraram. 

 

Assista ao trailer de A Imagem da Tolerância:

 

VS: Joana, em recente entrevista, disse: "Precisamos olhar para o outro como gostaríamos que o outro olhasse para nós". E Paula acrescentou: “Espero que esse documentário inspire respostas mais acolhedoras em tempos tāo ríspidos”. Na opinião de vocês, Aparecida abraça os fieis de uma forma mais ampla até do que a própria religião?

PT: Com o documentário, entendemos que todos cabem embaixo do manto de Nossa Senhora Aparecida. Ela é como uma mãe que abraça seus filhos sem distinção.

JM: Apesar de Nossa Senhora Aparecida ser uma figura cristã (principalmente católica, uma vez que as outras vertentes do cristianismo a colocam como mãe de Jesus), Maria ocupa no imaginário brasileiro a imagem da mãe, do feminino que acolhe, entende, abraça. Isso vai além de religiões, por isso Aparecida é a Padroeira do Brasil. Com a chegada do Papa Francisco à liderança da Igreja Católica, temos um olhar muito feminino se manifestando - ele procura entender, aceitar, empatizar, simpatizar e amar a todos. Amar ao próximo é a primeira mensagem da igreja. Não dizer ao próximo como ele deve se comportar para ser amado. É isso que o Papa Francisco faz. 

 

VS: Qual a relação pessoal de vocês com Nossa Senhora Aparecida?

PT: Fui criada dentro do catolicismo. Mas depois de mergulhar neste documentário, foi inevitável não criar uma relação afetiva especial (e íntima) com esse ícone do Brasil.

JM: Como comentei, a minha relação com Aparecida se estreitou com as filmagens de Marias, meu primeiro documentário. Conhecer a história desta imagem que representa o povo brasileiro, negra, encontrada nas águas de um Rio, uma santa de devoção popular que foi coroada rainha e que consegue unir a todos ao seu redor, me fascinou e me fascina desde então. Aparecida é a mãe que cada um de nós necessita. 

 

As diretoras Paula Trabulsi e Joana Mariani na première do filme no Caixa Belas Artes, em São Paulo.

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Veja o cartaz do documentário que estreia nos cinemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Brasília nesta quinta, 08 de março, no Dia Internacional da Mulher:

07/03/2018 - 11:04

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Revista Vida Simples