O poder do diálogo

Que tal conversar sobre conversar? No Festival Path, caminhos e técnicas que buscam uma sociedade mais saudável através do diálogo serão apresentados.

Carla Furtado

Dominic Barter, que estuda há mais de 20 anos como podemos desenvolver diálogos mais possíveis | <i>Crédito: Tati Wexler
Dominic Barter, que estuda há mais de 20 anos como podemos desenvolver diálogos mais possíveis | Crédito: Tati Wexler

O senso comum adora dar respaldo para nos manter em zonas de conforto. Quantas vezes você já escutou que "política, religião e futebol não se discute"? Evitar questões polêmicas pode te livrar de um desconforto, mas a questão é: o quanto deixar de conversar com quem pensa diferente de nós vai nos livrar de evoluirmos? "A ausência de diálogo é fatal para a convivência social, e para o pacto básico de uma comunidade maior", afirma Dominic Barter, que há mais de 20 anos dedica-se em desenvolver inovações sociais com base no diálogo e é referência mundial em Comunicação Não-Violenta.

Assim como Dominic, outros inovadores e inovadoras participam da quinta edição do  Festival Path, festival de inovação e criatividade em diversas áreas, que acontece nos dias 6 e 7 de maio e reúne palestras, shows, filmes e mais atividades no Instituto Tomie Ohtake e arredores.

Em tempos de interações online e muitas horas gastas em redes sociais, tem ficado nítido que além das pessoas naturalmente preferirem aproximar-se de seus semelhantes, o extremo de optar por parar de ver atualizações de quem tem posicionamentos opostos é bastante comum. Como nem sempre fechar os olhos e ouvidos para o que se discorda é possível, numa sociedade violenta em muitos níveis, acaba que frequentemente ofensas escapem verbalmente, intencionalmente ou não, o que dificulta ainda mais as conversas. "Sem saber dialogar, nossa cultura tem medo de conflito. E democracia necessita do conflito saudável entre possibilidades diferentes, sem a desumanização do outro", explica Dominic.

 

Para conversar direito: humor, arte e técnica

            "O Facebook reflete de forma mais aguda a polarização da sociedade. Isso empobrece o diálogo na medida em que não existe meio termo. Somos diariamente acusados de ser 'coxinha' ou 'petralha' dependendo de com quem estamos fazendo a piada", aponta Leonardo Lanna, que escreve no site Sensacionalista e é roteirista na Rede Globo escrevendo nos programas "Tá no Ar - A TV na TV" e "A Escolinha do Professor Raimundo". O humor pode ser uma das pontes para diminuir essa polarização: "Ele aproxima na medida que traz para a discussão pessoas que não se interessariam por um assunto mais duro, mas que pela via do humor ficam desarmadas e acabam participando", observa Lanna, que participa da mesa "O jornalismo e o humor na era das 'fake news'", no Festival Path.

            A capacidade de dialogar apropriadamente não é algo nato e, inclusive para os momentos de humor, é preciso reflexão e prática. Muitas vezes a mensagem passada não é exatamente a que o comunicador deseja transmitir, e isso pode partir tanto de uma falta de autoconhecimento quanto da dificuldade em enxergar o outro. Para facilitar este processo, Dominic trabalha através dos princípios da Não-Violência e da Justiça Restaurativa.

"A Não-Violência foca nossas energias a serviço da vida. Os sistemas econômico e de justiça são dois pilares da nossa sociedade, atualmente orientados para separar e excluir. Então a Não-Violência pesquisa ativamente a transformação desses sistemas irmãos. Como andam de mãos dadas na atual lógica de dominação e medo, podem andar juntos também numa cultura de parceria. A Justiça Restaurativa coloca essa cultura em prática ao criar espaços seguros para a verdade e o diálogo, em que aqueles impactados por um crime ou desavença podem se compreender, reparar laços e danos materiais e costurar novas relações de convivência", explica Dominic, que vai aprofundar tais conceitos na mesa "Ativismo compassivo: como acolher a si mesmo e quem pensa radicalmente diferente de nós?", no Festival Path. Também participa desta conversa o artista multimídia Jairo Pereira, que vai abordar outra poderosa forma de diálogo: a arte, que historicamente sempre deu voz à causas importantes de uma maneira única.

Após anos lidando com o racismo de maneira combativa, através de um canal de vídeos, Jairo resolveu mudar a forma da mensagem. Deixou de especificar o alvo e ampliou o foco para os sintomas das segregações, chegando até a arriscar os antídotos. Assim nasceu o projeto Alpiste de Gente, que também conta com um canal de vídeos, agora focados em poemas autorais, que também são musicados em shows ao vivo. "Como as pessoas não param muito para ler poemas, os coloquei em vídeos. Foi como buscar o antídoto no mesmo ambiente do veneno, porque sabemos que a internet afasta as pessoas, que passam muito tempo olhando para o celular, tentando se conectar com outras realidades como se isso fosse trazer mais sentido para a sua própria. O que tento fazer é acrescentar algo que possa servir de porta para o que está fora da internet. Quando as pessoas acessam poesia, elas também acessam um lado sensível em si que traz compreensão", acredita.

Com a tecnologia potencializando o poder da arte ao revolucionar a maneira de compartilhar as obras, não só artistas como também curadores se reinventam: até playlists deixaram de ser apenas trilha sonora de festas e hoje são também ferramentas de diálogo. "Música é comunicação. E é muito poderosa, pois mexe com a emoção das pessoas, ajuda a traduzir sensações e sentimentos, tornando o diálogo mais real, com alma. Os artistas são os mágicos que conseguem comunicar e traduzir sentimentos através das suas composições", afirma a pesquisadora musical, radialista e empresária no Bananas Music, Juli Baldi, que vai mediar a mesa "As playlists como o mood das marcas", no Festival Path.

Seja qual for o método usado para se comunicar, com a consciência vem a responsabilidade. "No Bananas Music, temos a regra de excluir músicas que tenham mensagens preconceituosas, sexistas, machistas ou de ódio. Acreditamos que como curadores, temos o poder de gerar uma demanda e não disseminar valores negativos", conta Juli, numa reflexão quem vem naturalmente quando decide-se refletir sobre diálogo: ao se relacionar considerando o todo, que vai desde si mesmo até o outro, passando pelas trocas, esta ação automaticamente beneficia todos os lados envolvidos.

Saiba mais sobre estas e todas as demais atrações do Festival Path dos dias 6 e 7 de maio em www.festivalpath.com.br

 

Carla Furtado é jornalista e acredita que olhar para dentro é o início de toda revolução. Faz parte d’O Panda Criativo, que realiza o Festival Path.

02/05/2017 - 13:47

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