Para seguir em frente

O tempo necessário, após a morte de uma pessoa querida, para cicatrizar as emoções e os cuidados que você deve ter consigo mesmo

Leandro Quintanilha

Ler, conversar e ver filmes são recursos importantes para entrar em contato com os próprios sentimentos em um momento tão delicado | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Ler, conversar e ver filmes são recursos importantes para entrar em contato com os próprios sentimentos em um momento tão delicado | Crédito: Vida Simples Digital

Era madrugada quando o telefone tocou no meu apartamento em São Paulo. É o único horário em que torço para ser engano. Era meu irmão. Dizia que meu pai havia tido outro enfarte e que era melhor eu embarcar para Goiânia. Meu pai já havia sido internado uma dezena de vezes nos anos anteriores, mas dessa vez havia uma solenidade na voz do meu irmão. E eu me perguntava se já tinha acontecido. Comprei a passagem pela internet e esperei o amanhecer. Queria chegar a tempo de encontrar meu pai vivo pela última vez, para algum tipo de despedida. Na sala de embarque, tocou o celular. Era uma colega dos tempos da faculdade. Essa amiga me confortou com seus sentimentos e nunca soube que foi ela quem deu a notícia definitiva. É, não haveria despedida.
  Me lembro bem da sensação: sozinho naquele espaço amplo e frio, com a mala de mão, tentando poupar a voz doce ao telefone de qualquer constrangimento. A verdade é que eu não sabia o que sentir. Quando finalmente vi o corpo do meu pai, fiquei surpreso com o fato de me sentir em paz. Ele parecia sereno.
  Não sou de chorar. No velório e no enterro, fui exposto ao choro dos outros, que despertava em mim um senso de inadequação. O que havia de errado comigo? O fato é que passei todo o ano de 2007 muito melancólico, com lágrimas que corriam facilmente. Não senti propriamente a perda - senti a ausência, o que toma mais tempo.
  Para esta reportagem, conversei com estudiosos do luto. E com gente que perdeu uma filha, os pais, o marido. Acadêmicos ou empíricos, esses especialistas me auxiliaram a perceber que o luto é uma experiência sobretudo subjetiva. Aceitar isso é o melhor jeito de começar a se ajudar nesse processo. "Não é estranho que tenham sido desenvolvidos sistemas educacionais para quase tudo - de assar um bolo a tocar um negócio - e, mesmo assim, não nos ensinam a lidar com o que pode ser uma experiência devastadora?", questiona a psicóloga inglesa Ursula Markham no livro Luto - Esclarecendo Suas Dúvidas (Ágora). "Apenas quando aprendemos a lidar com a morte é que temos condições de viver plenamente."
  A psicóloga Maria Aparecida Mautoni , coautora da obra Conversando sobre o Luto (Ágora), afirma que a dor da perda é universal, mas que o tabu em relação ao assunto é um fenômeno que varia de acordo com a época e a cultura. "Até o século 12, as pessoas conviviam em casa com a morte dos parentes. Com o surgimento dos hospitais, ela ficou escondida." Apesar de continuar sendo um desfecho natural, parte da vida. A morte é um fato - um destino que todos necessariamente compartilhamos. Aceitar o desaparecimento de outra pessoa nos ajuda a diminuir os temores associados à ideia de nossa própria mortalidade. Esse acolhimento nos permite seguir em frente e viver da maneira mais autêntica e positiva.
  A psiquiatra suíça Elisabeth Klüber-Ross publicou o livro Sobre a Morte e o Morrer (Martins Fontes), em que apresenta as cinco fases do luto: negação ("Isso não pode estar acontecendo"), raiva ("Por que comigo?"), barganha ("Uma mãe tem de viver até os filhos crescerem"), depressão ("Nada faz sentido") e aceitação ("Tudo vai acabar bem"). A princípio, esses estágios podem ser aplicados a qualquer tipo de perda, como uma separação, uma demissão, a morte de uma pessoa querida e até uma doença terminal. Mas essas fases nem sempre ocorrem nessa ordem e podem ser concomitantes, mas todo mundo deve passar por ao menos duas delas.

Sem nome

Há três anos, a secretária Marcia Noleto perdeu a filha Mariana, de 20 anos, em um acidente de helicóptero na Bahia. "Aprendi que, quando tudo se desintegra, você entra em contato com muitos sentimentos ", recorda-se. Saudade e amor disputam espaço com emoções menos nobres, como a fúria e o desejo de vingança. "Você tem de escolher quem vai ser e que atitudes tomar depois da destruição."
  Quando a dor se assentou, Marcia passou a encarar o sofrimento como uma oportunidade de mudança. "Valorizei mais a vida e passei a saborear cada minuto e amar meus familiares com mais ardor." A secretária criou também um grupo de apoio no Facebook para reunir outras mães que, como ela, tiveram de reformular suas vidas depois do luto de um filho. A comunidade Mães Sem Nome reúne, atualmente, mais de 15 mil integrantes, como membros das famílias que perderam jovens no incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, ou na Chacina de Realengo, no Rio.
  São mães sem nome, porque, como explica a criadora, não há como nomear quem enterra um filho - não existe um vocábulo como "órfão" ou "viúvo" que exprima essa condição. Marcia organiza encontros e palestras para troca de experiências entre os participantes. A rede social funciona também como um centro de emergências emocionais, que funciona 24 horas. "É comum que mães nessa situação sofram de insônia - sempre haverá uma palavra amiga online."
  A reportagem que você lê agora é, de algum modo, outro fruto do Mães Sem Nome. O tema foi sugerido pela própria Marcia, leitora de vida simples. Ela enviou uma mensagem para a redação, em que contava como ler a revista foi importante em seu processo de luto. Ao mesmo tempo, dizia sentir falta de informações sobre o que uma pessoa pode fazer por si mesma para se confortar nesse período.
  Ler, conversar e ver filmes são recursos importantes para entrar em contato com os próprios sentimentos em um momento tão delicado. De fato, tudo isso ajuda a refletir sobre o que se foi e o que ficou, atribuir significado aos acontecimentos. "E é essa compreensão (de si mesmo) que faz o processo ser mais ou menos doloroso", afirma a médica Adriana Thomaz, especialista em dor e psicoterapeuta de luto. "Sempre me perguntam: qual é a mágica? Respondo que é ajudar o paciente a se entender, como pode passar por isso, quais recursos tem, qual o sentido de sua vida e o que ainda o mantém aqui", diz Adriana. O tempo médio de acompanhamento varia entre seis meses e um ano. Mas a psicoterapeuta frisa que luto não tem prazo de expiração.

Sem chão

Quando perdeu o marido em 2002, a secretária Lísian Mascari ficou desolada. Tinha 28 anos e o marido, 32, quando ele descobriu um tumor no cérebro. "Fiquei sem chão, o teto e as paredes", lembra, extrapolando a metáfora habitual na tentativa de descrever o que sentiu. Lísian se deu conta de que todos os seus planos eram em casal. Ficou, assim, sem qualquer sonho ou perspectiva que fosse capaz de a consolar naquele momento.
  Lísian retomou o trabalho pouco depois da morte do marido, seguindo a recomendação de alguns colegas. Mas, dois anos depois, ainda se sentia presa à perda. Então, pediu demissão para tirar um período sabático. "Estava tão infeliz que precisava fazer, por um tempo, só o que me desse prazer." Isso durou cinco anos. Viajou sozinha para o Canadá, fez cursos de dança, tornou-se uma leitora assídua dos guias semanais de cultura de São Paulo, onde mora. Talvez ainda não fosse felicidade, mas era um jeito de manter a vida viável. Para ela, como parece acontecer com muita gente nessa situação, o luto foi uma experiência de autoconhecimento. Hoje, aos 40, ela trabalha como organizadora pessoal freelancer.
  Contudo, alguns tipos de luto requerem uma compreensão maior não de si mesmo, mas de quem partiu. No documentário nacional Elena, a irmã da personagem-título reconta a história da jovem atriz brasileira que se mudou para Nova York, na década de 1990, em busca de uma carreira no cinema, mas que, após algumas investidas inócuas, caiu em depressão e se matou. "Acho que essa é das dores mais profundas que alguém pode viver, uma dor que me marcou de formas das quais não consigo falar, a não ser pela poesia", explica a cineasta Petra Costa, que tinha 7 anos quando tudo aconteceu. "Foi só por meio do cinema que pude falar dessa perda, expressar essa tristeza inexprimível."
  Petra se identifica com o modo como Carlos Drummond de Andrade retrata o sentimento de perda nos versos do poema Ausência. "Na ausência não há falta/ A ausência é um estar em mim", escreveu. "Durante a realização do filme, fui conhecendo muito mais a Elena, e isso fez com que eu ganhasse uma irmã para imediatamente perdê-la de novo, de uma forma muito mais consciente", avalia. Isso lembra os versos finais do tal poeminha de Drummond: "Essa ausência assimilada, ninguém rouba mais de mim."

Sem explicação

Quando tinha 28 anos, a psicóloga Maria Regina Monteiro, hoje com 42, perdeu o pai e a mãe em um intervalo de três meses. A mãe entrou em coma diabético, repentinamente. O pai não aceitou a perda e se matou. Enquanto vivenciava o próprio luto, a psicóloga precisava também administrar a dor do irmão mais novo, que sofre de autismo e passou dois anos deprimido. A despeito de todo o trabalho, cuidar dele talvez tenha sido um jeito de a irmã se distrair da própria tristeza.
  Depois dessa experiência, Maria Regina decidiu dedicar a carreira ao estudo do luto. Uma das bases da metodologia da psicóloga é o estímulo ao pensamento simbólico, a partir das narrativas de livros e filmes. É um jeito de atribuir significado ao que não vem com explicação.
  No ano em que meu pai morreu, tive vários pesadelos com ele. Em um deles, eu fazia uma longa viagem de carro, por estradas desertas, até encontrá-lo para um abraço. Em outro, eu ainda morava com a família. Vivíamos normalmente, exceto pelo fato de que ele e eu compartilhávamos um segredo angustiante: só nós sabíamos que ele estava morto.
  Hoje ainda sonho com ele com alguma regularidade. E, em geral, são também momentos em família. Eu ainda sou adolescente e o meu pai ainda está vivo. Meu inconsciente parece ter se desapegado da informação de que ele se foi. Ficou o essencial: é o meu pai e age como pai, sem nenhum tipo de idealização.
  Eu acordo desses sonhos com saudade. Mas sem sofrimento. Hoje, o enxergo como uma obra completa, uma pessoa completa, com começo, meio e fim. Eu o admiro pelo ciclo que viveu, pela pessoa em que se transformou a cada etapa no correr dos 54 anos que lhe couberam. Não precisamos de despedida. A saudade é só um jeito novo de conviver.

06/04/2017 - 16:02

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Revista Vida Simples