Pintando memórias

Única filha mulher de uma família de camponeses, Doña Brígida leva ao mundo a história de luta do seu povo por meio da arte e da palavra

Fellipe Abreu

Rindo, ela não entende por que recebe visitas de pessoas interessadas em seus quadros | <i>Crédito: Ilustração Indio San
Rindo, ela não entende por que recebe visitas de pessoas interessadas em seus quadros | Crédito: Ilustração Indio San

"Proibida a entrada sem autorização!", diz a placa na entrada da Comunidad de Paz de San José de Apartadó, na Colômbia. Dentro da comunidade, as mulheres acendem os fogões à lenha, os homens saem para trabalhar no cultivo de cacau e as crianças se arrumam para o colégio. Mas a tranquilidade atual esconde uma história de mais de três décadas de violência.
  A comunidade fica em Urabá, uma das regiões mais afetadas pela luta entre guerrilheiros e paramilitares. Cansados de estarem no meio da guerra, em março de 1997, os moradores decidiram se declarar neutros no conflito e fundaram a Comunidad de Paz, rejeitando a presença de todos os grupos armados dentro do seu território.
  Em uma das pequenas casas de chão de terra batida vive Doña Brígida González, uma das líderes responsáveis pela criação da comunidade de paz. Semblante doce, cabelos divididos em duas tranças prateadas, ela começou a trabalhar na indústria bananeira. "Pense em 46 mulheres trabalhando todo dia das 4h às 23h. Era desumano. Formamos um sindicato e combinamos de chegar mais tarde. Os patrões descobriram que eu era uma das líderes e me demitiram", diz. Doña Brígida, que cresceu com três irmãos, se casou e teve sete filhos. Todos os irmãos e dois dos sete filhos dela foram assassinados por grupos paramilitares ou guerrilheiros. Sem se deixar abater, ela é hoje mundialmente reconhecida por sua liderança na região.
  Mas é por meio da arte que Doña Brígida consegue amenizar o passado e manter viva a memória dos parentes e amigos perdidos: nos seus quadros de traços quase infantis, ela retrata o dia a dia da comunidade, o trabalho no campo e os massacres que o grupo sofreu ao longo dos anos. Rindo, ela não entende por que recebe visitas de pessoas interessadas em seus quadros. "Eu sento na varanda e passo horas pintando as coisas da minha vida. Fico feliz que as pessoas se interessem pela minha história, pela história do povo de San José."

08/03/2017 - 07:21

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Revista Vida Simples