Sobre o envelhecer

Livro traz uma reflexão profunda sobre a finitude da vida e a troca de papéis entre mãe e filha

Ana Holanda

Uma reflexão sobre a finitude da vida e a troca de papéis entre mãe e filha | <i>Crédito: Divulgação/Arquivo pessoal
Uma reflexão sobre a finitude da vida e a troca de papéis entre mãe e filha | Crédito: Divulgação/Arquivo pessoal

A filha que, um dia, precisa ser mãe da própria mãe. Esse é o mote do recém-lançado A Mãe Eterna, da psicanalista Betty Milan. O livro é uma ficção, mas muitos fatos foram inspirados na convivência com a mãe, dona Rosa, de 98 anos. A mãe de Betty sempre foi uma mulher forte e independente. Mas o tempo, esse implacável, foi reduzindo seus passos. Escrever sobre essa fase foi a maneira que a psicanalista encontrou para lidar com a finitude e a troca de papéis. O resultado é um livro intenso e às vezes melancólico e doído. Emociona e nos faz refletir sobre o valor da vida, das escolhas e das relações pautadas pelo amor. Conversamos com Betty Milan sobre isso.

O livro é uma forma de lidar com a proximidade da perda?

Minha mãe foi uma fada na minha vida. Me deu inteira liberdade de viver como eu precisava, embora eu tivesse ideias bastante contrárias às dela. Ter sido a filha dela foi uma incrível felicidade e, quando me dei conta de que ela ia indo embora porque já não tinha o mesmo interesse no que eu estava vivendo, tive que escrever o livro para não me desesperar e para assumir o papel de mãe da mãe. Foi muito difícil porque ela não queria abrir mão da independência. Suportar o envelhecimento é o maior desafio pois, queira ou não, nós nos espelhamos nos nossos ancestrais e a decadência nos ameaça de morte.

Em geral, nossa sociedade não fala sobre o envelhecer. Por que não olhamos para essa fase da vida?

As pessoas negam a realidade do envelhecimento porque ela é dura demais. Nós nos sentimos escudados pelo ancestral e a partida dele– seja porque ele envelhece ou seja porque ele vai embora–,  nos deixa desprotegidos. Nós imaginamos que a censura nos protege, mas a nossa única verdadeira proteção é a aceitação da realidade. Quem não se prepara para a morte sofre mais e eu acho que falar dela é uma forma de evitar o sofrimento. Foi por isso que eu escrevi o livro 

Qual o impacto desse livro para você?

Refleti muito sobre a questão da longevidade e, no livro, eu comparo a velhice extrema à doença terminal. Isso me obrigou a questionar a conduta dos médicos que tendem a prolongar indefinidamente a vida, ela só vale a pena em determinadas condições. Ousei dizer com clareza que as pessoas devem ser ajudadas a morrer quando desejam isso. Sou contra a obsessão terapêutica e sou pelo suicídio assistido, que é uma forma de humanizar o nosso fim. O que interessa é não sofrer e o médico não pode tentar vencer a morte. A função dele é cuidar da vida e ponto. Agora, minha mãe tem 98 anos e não quer morrer embora ela me pergunte sempre quando vai embora. Descobri com o livro que desejar morrer é uma coisa e querer é outra. Acho que ninguém deseja, mas pode querer por diferentes razões.

Como você lida com o próprio envelhecimento?

Sou resistente e, segundo dizem, pareço bem mais jovem do que sou. Isso também tem a ver com um esforço contínuo para ficar bem porque a dor física me espreita.  Sou obrigada a fazer bastante esporte. Por outro lado, como relativamente pouco, quase não bebo e durmo bem.  Ainda não sei o que envelhecer significa verdadeiramente. Só sei que não quero viver quando perder a independência e não puder mais escrever. Viver por viver não me interessa. Temos que aprender a aceitar a morte e ensinar isso aos nossos queridos.

A Mãe Eterna – Morrer é um Direito
Betty Milan
R$ 32,90
Record

07/01/2017 - 11:00

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Revista Vida Simples