Um livro para chamar de seu

Qualquer um pode escrever uma obra, seja um romance, uma biografia ou mesmo uma fábula infantil. Se animou? Saiba como concretizar essa ideia

Leandro Quintanilha

Para desenvolver estilo próprio, um bom começo é mostrar seu trabalho a pessoas de confiança | <i>Crédito: Vida Simples Digital
Para desenvolver estilo próprio, um bom começo é mostrar seu trabalho a pessoas de confiança | Crédito: Vida Simples Digital

Todo livro começa com uma página em branco. Cabe ao autor preencher o vazio com conhecimento e imaginação. Há de se ter perseverança - a escrita requer atributos técnicos e maturidade emocional para compreender o ser humano, incluindo o que escreve. Para o cronista Antonio Prata, não é a página em branco o que mais aflige, mas o preto das letrinhas inseguras que começam a preenchê-la. A despeito das dificuldades, escrever um romance é um sonho compartilhado por muita gente. Porque é uma tentativa de posteridade, uma trapaça contra a solidão e a morte, um jeito de sobreviver à privacidade da própria imaginação e à vida em si.
         E esse anseio parece ser cada vez maior. "Somos hoje expostos a uma quantidade extraordinária de narrativas - em livros, filmes, séries, novelas, games...", enumera o jornalista e escritor Roberto Taddei, que coordena uma pós-graduação para formação de autores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. O uso crescente de computadores e smartphones também acentua a comunicação interpessoal por escrito. De certo modo, somos todos escritores. Ao mesmo tempo, como é difícil escrever! "Muitos jovens têm uma imagem romântica da profissão e esperam ser tomados pela fúria da criação", afirma Antonio. "Para escrever, é preciso perder essa reverência à literatura", continua. Ou seja, é preciso encará-la como trabalho.
         Não há fórmula pronta para desenvolver um livro, mesmo porque cada autor tem de encontrar em si o melhor jeito de se tornar produtivo em um ofício que demanda concentração e tempo. No caso de Antonio, ajudou ser filho do escritor Mário Prata: o pai era apenas um cara com quem convivia de chinelos. O primeiro livro do filho foi feito às pressas, sob encomenda. Mas produzir a primeira obra sozinho foi um baque. Era uma crise autoral por dia, o que ele administrou com humor. Colocou um mantra na tela de proteção do computador: "Calma, Antonio, é assim mesmo". Deu certo: Douglas e Outras Histórias (Azougue Editorial) foi publicado em 2001 e, de lá para cá, já são oito obras.
         Mestre em escrita criativa pela Universidade de Columbia (eua), Roberto Taddei precisou de cinco anos para concluir as 160 páginas de seu primeiro romance, Terminália (Prumos). Com a prática, foi percebendo que escreve melhor pela manhã, quando o bairro está silencioso. Cada autor tem a sua metodologia. André de Leones levou só um ano e meio para fazer seu romance de estreia, Hoje Está um Dia Morto (Record), de 2006. Desde então, foram outros três livros, que sempre abordam temas ásperos, como depressão e suicídio. "Procuro dar o que o tema pede, e cada história tem o seu tempo - algumas fluem, outras exigem meses ou anos de escrita e, sobretudo, reescrita." Para ele, terminar um conto ou um romance equivale a esgotá-lo.
         A escritora e revisora Cristina Lasaitis publicou na internet o Guia de Primeiros Socorros para o Escritor Iniciante. Ela explica que alguns autores precisam colocar no papel toda a estrutura da narrativa antes de escrever; outros criam a história durante o processo; e há ainda os que combinam as duas metodologias. Alguns toques, no entanto, soam universais. "Para se tornar um bom escritor, é necessário ler muito e sobre os mais variados assuntos, dominar a língua, conhecer bem os temas sobre os quais se pretende dissertar e garantir a si próprio uma educação continuada", diz ela. Cristina também enfatiza a importância do exercício regular. "O mais recomendável é criar o hábito de escrever todos os dias - mesmo quando não se sentir inspirado ou com vontade."

Tensão dramática

Um problema real que aflige muitos aspirantes: coordenar as responsabilidades do presente com uma profissão ainda hipotética. O médico Raul Emerich atende em consultório, leciona na Universidade Federal de São Paulo, é casado e tem duas filhas. Ainda assim, conseguiu escrever um romance e ser publicado por uma grande editora. "Comecei a acordar às 4 da manhã", diz. O déficit de sono era compensado ao longo do dia com sonecas de dez minutos entre uma consulta e outra. Cardano (Record) narra a história de um médico italiano do século 16 que, apesar de perseguido, publicou mais de cem obras sobre saúde, matemática e filosofia. O livro entrou para a lista das 10 Melhores Obras de Ficção da revista Superinteressante em 2013. "Aos 50, começo uma nova carreira", anima-se.
         Além de acordar de madrugada para dar corpo à obra, Raul também aprendeu a educar o olhar para o que há de literário na vida. Isso porque a formação de um escritor tem muito a ver com apurar sua sensibilidade sobre a condição humana e a decodificar detalhes que revelam o todo, algo difícil de mensurar. Em grande medida, aprender sobre literatura é aprender sobre a vida e vice-versa.

Conclusão e desfecho

Por vezes, enxergar é também criar, conceber. Para o sul-africano Nobel de Literatura J. M. Coetzee, "em tudo há o inexplorado, porque estamos acostumados a usar os olhos apenas como a lembrança daquilo que outros pensaram antes sobre o que estamos contemplando". O escritor precisa desvendar esse desconhecido intrigante e trazê-lo à tona de uma maneira também interessante. À capacidade de desenvolver metáforas pertinentes, que revelam um contexto maior, é preciso somar estilo e graça. Em David Copperfield, o escritor Charles Dickens descreve um homem tão alto que as pernas compridas davam a impressão de ser a sombra de outra pessoa. Como se vê, seria menos impactante dizer apenas que era um tipo grandalhão.
         Para desenvolver estilo próprio, um bom começo é mostrar seu trabalho a pessoas de confiança. "Não seja defensivo, ouça abertamente, compare opiniões e pondere sempre", orienta Cristina. Contratar um serviço de leitura crítica também pode ajudar a melhorar o seu manuscrito antes de encaminhá-lo, finalmente, a uma editora. Vale lembrar: é preciso ser persistente também nessa fase. Muitos livros de sucesso foram campeões de recusa antes de emplacar.
         O mais importante é que você terá concluído algo muito seu. Haverá então, quem sabe, esse tal contato privilegiado com o outro, com a humanidade, para além da sua expectativa de vida. Disso não há garantia, no entanto. De todo modo, terá sido um contato profundo com algo bom e novo que carrega dentro de si. E, pelo tempo que ainda lhe couber, você poderá se ler cada vez melhor.

 

09/03/2017 - 15:50

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