Viver mais para trabalhar mais?

Mudanças rápidas e constantes no mercado de trabalho nos levam a indagar como será o futuro profissional e quais são os desafios e benefícios desta nova era

Carla Furtado

Estante Virtual: equipe trabalha em ambiente descontraído. Tem bateria e às sextas há oficinas de ioga e respiração | <i>Crédito: Divulgação
Estante Virtual: equipe trabalha em ambiente descontraído. Tem bateria e às sextas há oficinas de ioga e respiração | Crédito: Divulgação

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver? Eis a questão. Segundo dados do IBGE, a expectativa de vida do brasileiro aumentou para 75,5 anos, enquanto o futuro nunca pareceu tão incerto: novas profissões e formatos de carreira surgem a cada ano, obrigando os trabalhadores a se adaptarem e se preparem para imprevistos. Pensar numa vida mais longa te traz insegurança ou felicidade?

Estas e outras questões voltadas a carreira, transições, empreendedorismo, e até considerações filosóficas sobre o trabalho, estarão presentes na quinta edição do Festival Path, grande festival de inovação e criatividade que conecta, através de palestras, shows, filmes e mais atividades, iniciativas e pessoas que estão criando novos caminhos. O evento acontece nos dias 6 e 7 de maio em Pinheiros, São Paulo.

"Neste momento de reformas e de crise econômica, eu percebo que as pessoas ainda estão encarando as mudanças muito mais como ameaças do que como oportunidades", acredita Denise Mazzaferro, que vai participar da mesa "Você está preparado para viver 100 anos?" no Festival Path, e é mestre em Gerontologia Social e autora do livro "Longevidade – Os Desafios e as Oportunidades de se Reinventar".

Para Denise, é preciso estar preparado para se adaptar constantemente: "Estudos mostram que vamos trabalhar até os 70, 80 anos. Como pensar que viveremos todo esse tempo com a carreira que escolhemos aos 18? Nossas vidas terão mais estágios do que os hoje definidos dentro das classificações etárias de infância, adulto e velhice." Este pode ser um desafio ainda maior para quem deposita grandes fichas na carreira, afinal encontrar sua paixão e ganhar dinheiro com isso é o novo objetivo dos trabalhadores que têm poder de escolha, seja quem está ingressando no mercado de trabalho, ou quem está num momento de transição de carreira. Mas será possível ter diversas fortes paixões durante toda a vida profissional?  

 

A jornada pode ser maior

A busca por propósito através do trabalho é um tanto cheia de armadilhas e frases de efeito como "acredite em seu sonho que as coisas virão naturalmente", que enchem as prateleiras de livros de autoajuda e nem sempre agregam muitas realidades. Alexandre Teixeira, jornalista que tem se dedicado à pesquisas sobre trabalho e escrito livros sobre o tema, como o "Felicidade S.A.", vai participar da mesa "Felicidade, amor e sanidade em empresas de alta performance: uma utopia possível?", no Festival Path.

"Na medida em que diminuiu relativamente o espaço das religiões e das ideologias políticas na busca por significado existencial, muita gente está depositando um peso grande disso no trabalho", explica Alexandre. "O trabalho sempre foi pensado sobretudo como uma forma de ter conforto material. Quando buscamos propósito para o trabalho, com frequência acabamos descobrindo que o propósito que estamos buscando é mais amplo que o da esfera profissional. Quem leva essa busca mais a sério, acaba acessando outras questões existenciais." Além da busca por si só, outro lado positivo é que o autoquestionamento pode levar a uma capacidade maior de flexibilidade a adaptação, que serão cada vez mais necessárias.

Enquanto na Grécia Antiga quem trabalhava eram os escravos, e atividades como filosofia, arte, política e estudos em geral eram vistas como ociosas e dignas somente dos cidadãos de primeira classe (o que ficou como uma espécie de herança para empresários antiquados), gestões atuais buscam uma realidade mais equilibrada. O e-commerce Estante Virtual, loja virtual de livros novos e usados, investe num clima descontraído, em que a equipe tem liberdade para relaxar quando quiser num ambiente propício para cultivar o chamado "ócio criativo": tem até bateria e guitarra. Às sextas-feiras acontece a "Hora do Intervalo", com oficinas de yoga e respiração e sessões de reiki e shiatsu.  

O fundador da empresa, André Garcia, participa do Festival Path na mesa "Trabalho, tempo livre e ócio na era da superatividade", que divide com a chef Bel Coelho, do restaurante Clandestino. André acredita que quanto melhor for o ambiente de trabalho, maior será a produtividade e a satisfação, tanto dos funcionários quanto da empresa, o que traz também mais significado para o dia a dia.

"Não é todo mundo que nasce com um grande sonho ou descobre isso facilmente. Muitas vezes a gente vai fazendo as coisas que surgem no nosso caminho, e talvez o melhor que a gente consiga seja fazer escolhas mais conscientes e que nos deixem mais perto dos nossos valores. Eu não acho que todo mundo vai ter esse sonho grande que virou moda dizer que é necessário perseguir. Mas se conseguirmos olhar para nossa vida profissional com mais consciência, isso já será positivo e, no mínimo, renderá uma jornada de descoberta e autoconhecimento", aposta Alexandre.

 

Carla Furtado é jornalista e acredita que olhar para dentro é o início de toda revolução. Faz parte d’O Panda Criativo, que realiza o Festival Path.

 

05/04/2017 - 13:54

Conecte-se

Revista Vida Simples