A moda é ser consciente

Movimentos e marcas criam alternativas para continuar se vestindo bem sem deixar de lado a responsabilidade ambiental e social

Carla Furtado

Para fazer 1 calça jeans, são necessários 10 mil litros de água | <i>Crédito: Loo Nascimento
Para fazer 1 calça jeans, são necessários 10 mil litros de água | Crédito: Loo Nascimento

Para muitas pessoas, se vestir de acordo com a moda é muito mais que uma tendência passageira. O mercado de moda e beleza é um dos mais intensos no Brasil e no mundo, e se antes as únicas referências eram a TV e as revistas, hoje a inspiração vem também de blogs, canais de Youtube, perfis de influenciadores nas redes sociais e por aí vai. O fato é que todo mundo quer estar bem e bonito na foto. Mas será que para isso é preciso um consumo desenfreado e inconsciente? E estar bonito e estiloso significa seguir um padrão imposto pela indústria da moda? Estas são algumas das discussões que o Festival Path, festival de inovação e criatividade, vai abordar em sua quinta edição, que acontece nos dias 6 e 7 de maio, em São Paulo.


            Novos movimentos têm surgido para fazer com que os viciados em moda coloquem os pés no chão. Os dados são de deixar qualquer blogueira bege: para fazer 1 calça jeans, são necessários 10 mil litros de água; para lucrar com um saldão de roupas por R$10, o mais provável é que haja trabalho escravo nesse processo; enquanto o solo em que planta-se algodão convencional fica inutilizado após esse uso, toneladas e toneladas de sobras de tecido são jogadas fora todos os dias. A realidade é dura, mas calma, antes que você ache que é preciso sacrificar seu estilo, conheça algumas das iniciativas de quem está unindo o útil ao agradável.    

Como as roupas são feitas?
Para fazer compras com confiança, vale conferir as organizações que mapeiam as  marcas que fabricam suas roupas com responsabilidade social e ambiental. O Fashion Revolution é um movimento internacional, pioneiro no assunto, que incentiva o consumidor a procurar saber a origem de suas roupas, criando assim o envolvimento em todo o processo. A organização também promove encontros entre a comunidade engajada na causa, como o Fashion Revolution Week. Sua representante em Goiás, Luciana Nunes, é fundadora do Lucid Bag, um guarda-roupa coletivo compartilhado, uma das soluções encontradas para conter o consumismo exacerbado, sem abrir mão de ter aquela novidade no look de vez em quando. Luciana participa da mesa "A moda é ser consciente" no Festival Path, conversando com mais representantes do tema.
            Nesta lógica, melhor do que começar do zero é reutilizar. Essa é a política da Insecta Shoes, que produz sapatos veganos com solas feitas de borracha triturada do excedente da indústria calçadista e reciclada, e com a "couraça vegana" dos sapatos feita de plástico reciclado. Segundo o site da marca, em dois anos eles reutilizaram 1000 garrafas PET. "Nosso público é composto por pessoas com uma consciência e preocupação ambiental já um pouco mais evoluída. Esta não é uma moda passageira, é um movimento em constante crescimento", conta Barbara Mattivy, uma das fundadoras do Insecta, que participa da mesa "Empreendedorismo regenerativo. Sua startup está preparada?", no Festival Path.
            Além da preocupação com os materiais, todos os modelos são unissex, afinal a diferenciação por gênero também é uma das regras ditadas pela moda que estão com os dias contados.

Por quem as roupas são feitas?

Este questionamento levou a Panosocial a ir além de oferecer o básico para os seus funcionários: suas contratações procuram colaborar na luta à desigualdade social brasileira. Para fazer suas camisetas de algodão orgânico e tingimento natural, eles contratam apenas ex-presidiários. "Quando cheguei ao Brasil, fiquei inconformado com as condições sociais. Ao conhecer de perto o sistema carcerário e saber que 70% dos crimes são cometidos por reincidência criminal, veio a ideia de combinar a contratação de ex-detentos com a produção sustentável. Isso também com o intuito de mostrar para a sociedade que um ex-detento não é necessariamente uma pessoa perigosa, e que esse preconceito é contraprodutivo para a construção de uma sociedade pacífica e igualitária", explica o austríaco Gerfried Gaulhofer, co-fundador da Panosocial, que participa do painel "Educação nos presídios: todo lugar é lugar de aprender", no Festival Path.
            O respeito pela mão de obra também está presente na filosofia da marca Dresscoração, da modelo e estilista Loo Nascimento. "Minha mão de obra vem de mulheres maravilhosas que são as deusas da coisa toda. Tenho uma produção pequena, então elas estabelecem pra mim quanto vale o trabalho delas e eu acho isso muito justo, afinal quem trabalha é quem sabe quanto vale o seu esforço", conta Loo.

Para quem as roupas são feitas?
Neste processo de conscientização, a mensagem passada pelas marcas e quem elas pretendem atingir também são fatores a serem questionados. "Roupas são nossa maior expressão pessoal, elas se tornam uma mensagem que passamos sem precisar abrir a boca", acredita Loo. A marca Dresscoração veio a partir de seu blog, em que sempre abordou a representatividade de mulheres negras e fora do padrão tradicional de beleza. A marca não troca de coleção conforme as estações, prática usada pelo movimento slow fashion ("moda lenta", uma abordagem do consumo consciente).

            As criações sempre mantém a essência baiana, ao passo que busca referências na estética africana, processo que Loo chama de BRÁFICA EM NÓS. "Eu abordo uma beleza que me representa. Quando comecei o blog, em 2011, a gente não tinha esse boom de representatividade que temos hoje.  A  internet foi o lugar que possibilitou essa mídia fora dos padrões pré estabelecidos social e midiaticamente em nosso país, e o vestuário para mim sempre teve um papel essencial nesse processo", afirma a influenciadora digital, que considera fazer parte de uma militância estética. No Festival Path, Loo participa da mesa "Como o empoderamento da mulher negra impacta toda a sociedade brasileira?".

            Quer se aprofundar mais nas conversas? Garanta seu ingresso para o Festival Path em www.festivalpath.com.br . O formato do Festival é múltiplo: a programação conta com Palestras, Shows, Filmes e Mais atividades, como Feira de Startups, Feira de Robótica, aulas de yoga, exposição de arte e mais! O Festival Path acontece nos dias 6 e 7 de maio, no Instituto Tomie Ohtake e arredores.

Carla Furtado é jornalista e entusiasta do movimento feminista e da cultura artística como agente transformadora. Faz parte d’O Panda Criativo, que realiza o Festival

15/03/2017 - 18:49

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