Chorar é bom

A lágrima é a expressão da alma que escapa para fora na tentativa de nos jogar cada vez mais para dentro. Entenda melhor onde você anda escondendo seus sentimentos mais profundos, da tristeza à alegria

Rosane Queiroz

O riso, culturalmente, é mais aceito | <i>Crédito: iStock
O riso, culturalmente, é mais aceito | Crédito: iStock

O cenário não poderia ser mais alegre: em meio ao colorido Playland, aquele parque de diversões de shopping, com piscinas de bolinhas, brinquedos de todos os tipos e centenas de luzes piscando, uma mulher, com a filha de 3 anos ao lado, senta em um banquinho e desaba em um choro incontrolável. A menininha, então, olha para a mãe por alguns segundos, assustada, e dispara: "Nunca vi mãe que chora!" Bem, a pessoa da cena sou eu e a criança, minha filha, na primeira vez em que me viu desabar em lágrimas. Meu dia tinha sido terrível - daqueles em que absolutamente tudo sai errado, desde a hora em que colocamos o pé fora da cama. O contraste entre aquele mundo multicolorido e feliz e meu carrossel de emoções foi a gota que fez o olho transbordar. Diante do espanto da minha pequena, acabei caindo na risada. Percebi que, até então, abrir o berreiro, para ela, era coisa exclusiva de criança. Como assim, um adulto - e ainda por cima a minha mãe! - chorar?
  O riso, culturalmente, é mais aceito. "Rir é o melhor remédio", reza o dito popular. De fato, boas gargalhadas são capazes de mudar o estado de espírito do momento. A alegria "é assim como a luz no coração", naquela suave canção do compositor Vinicius de Moraes. "Mas pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza", emenda o poeta. Ou seja, não só no samba como na vida, chorar também é boa medicação, descanso para os olhos, detox para a alma. "Chorando eu mando a tristeza embora", canta também o músico Caetano Veloso, no samba melodia em que "a tristeza é senhora".
  "Quando engolimos o choro, o sapo, a culpa, essas emoções mal digeridas se acumulam no sistema nervoso e na musculatura do corpo, o que, a longo prazo, pode ser a causa de diversas doenças", acredita a terapeuta e coach Janaína Rizzi, de São Paulo. Para soltar os sentimentos presos energeticamente no físico, Janaína trabalha com uma terapia chamada Renascimento. Por meio do método, a pessoa é direcionada a fazer, com a ajuda do profissional, a "respiração circular", um modo de inspirar e expirar que leva o paciente a acessar questões subjetivas. A ideia é identificar ou reconhecer as emoções e, assim, se entender com elas.

Desculpe, mas eu vou chorar

Para escrever esta reportagem, mergulhei, literalmente, no universo das lágrimas. Conversei com gente que chora à toa e durões confessos, terapeutas, pensadores, pesquisadores e médicos - e também ouvi muita música capaz de encharcar qualquer lenço. Nesse mar de emoções, fiz a tal sessão de Renascimento com a terapeuta Janaína. E foi das experiências mais incríveis que vivenciei.
  Deitada em um colchão macio, sob um leve cobertor, de olhos fechados, me deixei guiar por ela, inspirando e expirando pela boca, profundamente, de um jeito que não saberia repetir sozinha. A expiração, particularmente, soava como um suspiro. Um desabafo. Essa respiração intermitente, por cerca de 20 minutos, fez meu corpo inteiro formigar, tão velozmente que cheguei a imaginar que poderia explodir pelas extremidades das mãos e dos pés. Como em uma bad trip. No auge do desconforto físico, reclamei. Janaína me tranquilizou, dizendo que é comum esse mal-estar acontecer, e que tudo ficaria bem logo, logo. Acreditei. Foi quando voltei a respirar espaçadamente, ainda pela boca, e por fim pelo nariz. Então, chorei. Muito. Sem ter dito uma palavra, senti uma clareza arrebatadora sobre o que me incomoda emocionalmente. Experimentei uma conexão profunda comigo mesma, como se eu me acolhesse e me perdoasse de tantas coisas... Ou ao menos soubesse os pontos em que preciso tocar para me curar. E só então compreendi o termo "renascimento".
  Não por acaso, o choro é nossa primeira expressão - o bebê nasce e, muitas vezes, abre o berreiro. Saí do consultório de Janaína mexida, sem conseguir fazer sequer uma pergunta a ela. Semanas depois, finalmente recuperei nossa conversa inicial. "O modo de respirar revela sua troca com o mundo: ao inspirar, você recebe, ao expirar, dá", comentou a terapeuta. Há quem tenha a respiração curta, outros parecem suspirar. Saber reconhecer as emoções e lidar com elas é uma maneira de equilibrar essa troca. "A partir desse contato de qualidade consigo mesmo, você pode até optar por engolir o choro, mas de maneira consciente", diz ela.
  Quem nunca se pegou chorando "sem saber por quê"? No fundo, conhecemos o motivo, mas nem sempre conseguimos identificá-lo. Ainda mais hoje, no chamado mundo contemporâneo, em que compreender os sentimentos parece tão mais complexo. "A capacidade de reconhecer as emoções, um passo fundamental para o desenvolvimento individual, parece ter se tornado pouco comum nas gerações mais jovens", observa o filósofo italiano Mauro Maldonato, autor de Da Mesma Matéria que os Sonhos (Ed. Senac). Os meios de comunicação, redes sociais, blogs e afins estão gerando, segundo o pensador, um tipo de "analfabetismo emocional", que pode levar ao que os psiquiatras denominam de alexitimia, a dificuldade em verbalizar emoções e descrever sentimentos e sensações corporais. "Nesse processo de virtualização, nada mais parece ser capaz de expressar a realidade como ela é. A identidade, assim, é dilacerada, dissolvida em uma oscilação contínua de emoções e reações", diz ele.

Por dentro da lágrima

Ironicamente, uma frase que tem feito sucesso nas redes sociais, atribuída à escritora Isak Dinesen, chama para o lado positivo do choro. "A cura para tudo está na água salgada: o suor, o mar, as lágrimas." Mas, afinal, qual é o teor dessa gota incolor e inodora que brota dos olhos em momentos de imensa alegria, de profunda tristeza e em situações corriqueiras como cortar uma cebola? Junte bastante água, coloque uma pitada de sal e um pouquinho de muco e gordura. Por fim, acrescente emoção a gosto. Eis a fórmula para lavar a alma. A lágrima é um mistério que só agora os pesquisadores começam a desvendar. De acordo com William H. Frey II, professor do Departamento de Neurologia da Universidade de Minnesota (EUA) e autor do livro Chorando, o Segredo das Lágrimas (em tradução livre), as gotas que escorrem do choro emocional contêm 25% mais tipos de proteínas e quatro vezes mais potássio do que as funcionais, produzidas somente para limpar ou proteger os olhos, ou ainda quando cortamos uma cebola. "Estudos minuciosos e recentes demonstram que as lágrimas emocionais carregam outras substâncias que circulam em nossa corrente sanguínea, tais como os hormônios do estresse", afirma o oftalmologista Adriano Biondi, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.
Como outros fluidos humanos, inclusive o suor, que podem transmitir uma complexa gama de sinais emocionais, as lágrimas - mesmo inodoras - também são mensageiras do nosso inconsciente. Em 2011, um estudo do Laboratório de Olfato do Instituto Weizmann, em Israel, surpreendeu ao conseguir provas de que as lágrimas enviam sinais químicos. A conclusão mais impressionante foi a de que o choro de mulheres pode ser interpretado pelos homens como o seguinte recado: "não estou interessada em sexo". Uma surpresa para quem imagina que as gotas que escorrem dos olhos femininos sugerem fragilidade - e que despertariam o instinto de proteção. Tais resultados mostram que esse tipo de ação (chorar) contém um sinal químico que reduz a excitação sexual deles. "A lágrima, então, carrega um vestígio emocional e uma função", concluiu a pesquisadora Shani Gelstein, que dirigiu o estudo e analisa outros tipos de choro, como o infantil e o masculino. Por livre associação, essa conversa me fez lembrar que, no conto da Rapunzel, o príncipe, cego por ter caído sobre um arbusto de espinhos, volta a enxergar quando as lágrimas da mocinha caem em seus olhos. E nesse trecho da história eu sempre me emocionava.

No woman, no cry

Fisiologias à parte, sabe-se que as mulheres são, de fato, mais propensas ao choro do que os homens. Uma das hipóteses da ciência para essa profusão de lágrimas é que, a partir dos 16 anos, elas produzem mais prolactina (hormônio que estimula também a produção do leite materno). "A verdade é que chorar é uma expressão eminentemente humana e não tem contraindicação", pontua Biondi. Só faz mal se as lágrimas não cessam por dias seguidos - em caso de depressão, palavra que significa "abatido" ou "aterrado". Já conter essas gotículas, quando elas teimam em escorrer, pode ocasionar graves problemas para a saúde, segundo a psicobiologia - termo usado para definir a relação entre psicologia e biologia, ou psiconeurologia, a medicina corpo-mente. Nessa visão holística, cada mudança de humor é acompanhada de uma cachoeira de moléculas de emoção, que fluem pelo corpo, afetando a saúde das células. As lágrimas represadas, assim, se tornam venenosas, por concentrar os hormônios do estresse, o que desorganiza o metabolismo emocional como um todo.
A duração média de um acesso de choro, dizem os estudiosos, é de dois minutos. Mas pode durar até 15, quando o pranto é compulsivo, aquele em que a pessoa soluça e chega quase a perder a respiração. Entre os dois extremos tem quem se emocione até com o tradicional comercial de margarina ou com um singelo abraço entre mãe e filho, enquanto os "durões" sentem dificuldade em abrir o berreiro até mesmo quando vivenciam a perda de alguém muito querido. Não existe um código comum. Cada um tem sua história, seus aprendizados, sua sensibildade. "Existem as pessoas fechadas e as de caráter mais histriônico, mas viver afirmando `sou chorão¿ também pode representar uma defesa. A busca deve ser pelo equilíbrio", sublinha a terapeuta Janaína Rizzi. E o que desata o nó na garganta, muitas vezes, é algo simples e quase sempre inusitado. Pode ser um filme, uma música, um perfume ou uma bola de sorvete.

Chora que eu te escuto

A perfumista francesa Fanny Moreau, da butique de aromas Mon Absolu, em São Paulo, diz que é comum clientes se sensibilizarem ao se aproximarem de algumas fragrâncias. Em uma oficina para criar seu perfume pessoal, uma delas encheu os olhos d´água, de uma forma muito espontânea, diante de determinada essência, alegando: "aqui tem figo". Era a fruta favorita da mãe da moça, que havia falecido havia pouco tempo. "Sugeri que ela incluísse notas de figo no perfume, para levar a boa lembrança da mãe com ela", conta Fanny. Foi uma maneira de fazê-la compreender e aceitar aquela emoção que estava tão à flor da pele.
  Já a estudante de direito Carol Marques, 20 anos, é do tipo durona. Desde pequena, no máximo, fica "bicuda". "Mas, quando choro, choro muito!", confessa. Nos últimos tempos, Carol andava infeliz, cheia de dúvidas, triste e confusa. Isso porque havia adiado seus sonhos por conta de alguns tropeços financeiros.
  Trabalhando em uma empresa de que não gostava, para ela, a vida havia perdido o encanto. Até que, vagando pelas redes sociais, descobriu a ong Amor em Cartas, que propõe resgatar o valor das correspondências escritas à mão. No site do projeto, Carol se encheu de coragem e desabafou. E pediu para si mesma uma carta que a tirasse daquela tristeza sem fim. Dias depois, ao chegar em casa, foi surpreendida por um lindo envelope ilustrado, misturado entre as contas de luz e de condomínio. A correspondência começava assim: "Olá, Carol, como vai sua coragem? Imagino que internamente seja a palavra que mais tem precisado colocar em prática na sua vida. Às vezes, a dúvida e o medo podem desviar o trajeto. Mas o seu coração sabe que, embora haja obstáculos, sempre haverá uma forma de desviá-los com amor...". Bem, muitas lágrimas depois, Carol resgatou a tal da coragem e retomou seu rumo: saiu do emprego que detestava e tudo começou a dar certo. Ela foi chamada por uma multinacional da qual aguardava resposta havia meses e voltou a alimentar seus sonhos - entre eles, fazer um intercâmbio no exterior. "No fim, chorei de alegria!"
  Derramar uma boa dose de lágrimas de felicidade, de tristeza, de gosto ou de desgosto faz, afinal, tão bem quanto gargalhar. Simplesmente porque cada expressão tem seu lugar, e reconhecê-las é o ponto de partida para se conhecer cada vez mais e melhor. Então, chore. Chore mesmo! "O sofrimento faz parte desse duro treinamento, que leva a uma relação mais consciente com as emoções, no sentido de não compactuar mais com seus próprios enganos", pontua sabiamente o filósofo Mauro Maldonato.
  Se os olhos são as janelas da alma, então nada como enxaguá-las de vez em quando, como eu fiz naquele parque kitsch de shopping, mostrando para minha filha que, às vezes, para desembaçar o vidro da vida, mãe também chora. Ô, se chora!

25/01/2017 - 18:56

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