Dez dias em silêncio

Os aprendizados de quem ficou dez dias em um retiro no Nepal, sem pronunciar uma única palavra

Amanda Dahis

Um retiro para silenciar e meditar pode trazer respostas profundas sobre você mesmo | <i>Crédito: Shutterstock
Um retiro para silenciar e meditar pode trazer respostas profundas sobre você mesmo | Crédito: Shutterstock

Dez dias em silêncio absoluto. Silêncio que acalma e assusta, encontro com a minha luz e sombra, medos e (in)certezas, questionamentos e respostas, dores e curas. Dor que cura. 11 horas de meditação por dia sentada no chão sem encosto. Dor no corpo, dor na alma. Dor que acalma.

O silêncio requer coragem. O silêncio fala sobre a nossa própria companhia. A ausência de sons externos me fez revisitar lugares que achei que já não mais existissem dentro de mim.  Lugares escuros, pensamentos desequilibrados. Ainda bem que depois da lua vem o sol e depois da escuridão vem a luz.

No primeiro dia entregamos tudo: computador, livros, cadernos, canetas, celular e até passaporte. Proibido qualquer tipo de comunicação e entretenimento. Entregamos também nossos sorrisos e olhares, bens muito  preciosos. Só era permitido olhar pra dentro, olhar pra baixo. Nossa única distração era a nossa própria mente. Distração ou pânico? Pra onde ela pode nos levar? É preciso enxergar as coisas como elas realmente são. Este é o significado de Vipassana, nome do retiro. Somos o que pensamos.  Aprendi que a mente mente e que o sorriso fala.

Quando cheguei,  a decisão foi tomada: não vou sair. Das 32 pessoas, 5 foram embora. Me senti em um reality show. Pensei em desistir, em me eliminar, mas isso seria desistir de mim e daquele momento único e necessário. O objetivo da meditação não é controlar os pensamentos, e sim não deixar que eles nos controlem. Desafio. Me senti em um jogo onde meus pensamentos eram adversários e o objetivo era conseguir a amizade da minha mente.

Foi difícil. Teve pânico. Teve estresse. Os olhos tremiam, a solidão falava, os dedos estalavam.  Eu fazia as refeições sozinha virada para parede, tomava 4 banhos por dia de tanto calor. O vaso sanitário era no chão e o espelho emprestado no outro pavilhão. Espelho para me olhar e me (re)conhecer fisicamente. Pra olhar nos meus olhos e lembrar que quando não sabemos pra onde queremos ir, qualquer lugar serve. Eu não queria qualquer lugar. Eu queria estar ali. Eu sabia o que queria.

Confesso que algumas vezes me perguntei onde eu estava com a cabeça para tomar tal decisão. Onde eu estava não sei, mas onde esse retiro me levou eu sei muito bem. Me levou pra dentro, pra minha verdade, pra autenticidade. Ele me guiou e me ensinou que precisamos nos aceitar como somos. A aceitação não tem nada a ver com comodismo. Tem a ver com amor próprio. Tem a ver com coragem pra mudar o que pode ser mudado, serenidade pra aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria pra saber a diferença dos dois.

Sou única. Você é único(a).  Quando eu abria os olhos meus vizinhos estavam concentrados. Quando eles abriam, eu estava (ou pelo menos tentava estar). A plenitude que eles passavam me fazia sentir fracassada ao olhar para a minha dificuldade de concentração. No último dia descobrimos que estávamos todos nos sentindo fracassados. Aprendi sobre comparação.

As sensações vêm e vão. Não devemos e não podemos nos apegar à elas. Coisas boas e coisas ruins. Calafrios, arrepios, suspiros, sorrisos, choros. Dores, amores, encontros, desencontros. Tudo passa. Somos instantes. Esse é um dos lemas. Aprendi sobre a impermanência.

Eu consegui. A luz chegou, abriu o sol.  A mente virou minha amiga. Aprendi que está em minhas mãos.

 

15/03/2018 - 10:33

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Revista Vida Simples