O que aprendi ao lavar roupas

Os ensinamentos que se escondem numa tradição esquecida, que se perdeu no passado, tragada pelo tempo, que, hoje, precisa correr rápido, muito rápido

Silvana Cardoso

- | <i>Crédito: Vida Simples Digital
- | Crédito: Vida Simples Digital
Sonhei com vovó. Sonhei que estávamos conversando e lavando roupa, como antigamente. Aqueles pequenos prazeres em companhia da matriarca da minha família. Acho que meu inconsciente me chamou para retomar aquela história de lavar roupa que comecei a contar há exatos 12 meses, no dia 27 de dezembro de 2015 – naquela manhã de calorão de verão como hoje, de sol forte como hoje, de luz intensa como hoje. Lembro que fui interrompida pela pergunta do tio, se eu sabia com quantos anos o pai dele, meu avô, havia morrido. Busquei os documentos e falei: “Com 42 anos. Jovem, né?”. Ele me respondeu: “Eu tinha 4 anos”. Mais tarde, fui novamente interrompida, e desta vez foi pela febre alta dele. No dia seguinte, perdi o rumo da prosa ao me deparar com a sua morte. Foi triste e não conseguia mais voltar ao texto. Hoje, exatos 12 meses daquele dia, abro o arquivo no computador, apago tudo e, como na vida, recomeço. Olho pela janela e vejo meus lençóis na corda, balançando como naquele dia. Lembro mais uma vez que sou neta de lavadeira, que os ensinamentos de dona Maria da Penha me fortalecem e me ajudam a passar pela vida como neta de lavadeira. Daquela que, após a morte do jovem marido aos 42 anos, criou os cinco filhos menores de idade “lavando roupa pra fora”. Contava suas histórias e apertos enquanto me ensinava como segurar o pedaço da camisa com as duas mãos, os punhos fechados para, num movimento de vai e vem, esfregar o pano em cima do polegar. Tempos difíceis na década de 40, quando tudo que ela sabia fazer se transformou em trabalho para criar os filhos, o menor com 4 anos – o tio querido que cito aqui. Tenho uma prima que também gosta muito de lavar roupa, como minha mãe também gostava. “É hereditário!”, costumamos dizer nos nossos encontros. Enquanto alguns se divertem com a confissão, sinto um prazer imenso todas as vezes que separo as roupas para lavar – colocar na máquina, esfregar algumas na mão, pendurar nas cordas, esperar secar para “não dormirem no sereno”. Costumo fazer isso nos dias que estou bem calma, com tempo de sobra, sem pressa. Assim, consigo aproveitar essas horas de lavagem de roupa para conversar comigo mesma. Não muito raramente, aproveito para espalhar meus pensamentos por aí em voz alta. E, quando faço isso, observo os lençóis que balançam ao vento e percebo como aqueles movimentos me enchem de alegria, de sentimentos que fazem parte da minha infância.

Tarefa nada simples
Lavar roupa parece fácil, mas ser lavadeira na década de 40 não era tarefa simples, já que era preciso pegar a roupa na porta do cliente, levar para casa, lavar, engomar, passar e entregar tudo limpo, esticadinho e cheiroso de volta para o freguês. Tudo isso sem máquina de lavar ou ferro elétrico. Mas a profissão foi, aos poucos, desaparecendo dos grandes centros com o advento e o aperfeiçoamento da máquina automática. Mas lavar roupa, contar histórias e cantar à beira do rio ainda pode ser uma cena comum em algumas localidades do Brasil, como no interior de Pernambuco e em Minas Gerais. Dessa tradição, em 1991, nasceu um grupo de cantoras em Minas Gerais, as Lavadeiras de Almenara. Senhoras lavadeiras que às margens do Rio Jequitinhonha fazem seu ofício e entoam as cantigas que aprenderam  com suas mães e avós. Cantam para não esquecê-las, com o intuito de não deixar a tradição morrer com a profissão, já que através das canções também contam suas histórias pessoais e de toda uma região do país. Recentemente, pelas mãos do músico e pesquisador cultural Carlos Farias, o grupo de lavadeiras se tornou conhecido em todo o território. Mas isso não aconteceu só aqui: Lavadeiras de Almenara também se apresentam em diversos países, como Portugal e Espanha, já gravaram CD e receberam a medalha Ordem do Mérito Cultural em 2010, pelo Ministério da Cultura. Voltando para os ensinamentos de vovó, minha Maricota, ela dizia que ajuda de criança é pouco, mas quem rejeita é louco. E, assim, aprendi a cozinhar e a lavar roupa de verdade. Enquanto me mostrava como fazer as tarefas da casa, também  me ensinava sobre sentimentos, sobre as pessoas, sobre fazer caridade levando água para o padeiro no portão, pequenos gestos do bem sobre ter um olhar acolhedor para o outro. Ainda hoje, quando vejo minhas roupas branquinhas e limpinhas voando na corda, me lembro da sua sabedoria de gente sábia.

 Tradição
Mas, atualmente, creio que lavar roupa à mão não seja algo atrativo para a criançada. Conversar entre família lavando roupa então, extinção completa. Entretanto, vejo que algumas tradições familiares estão sendo resgatadas após gerações de mães culpadas de filhos órfãos. Cozinhar é uma delas. A grande quantidade de programas sobre culinária e o incentivo através deles para que as crianças retornem com seus pais para a cozinha. Mesmo que seja só  um apelo para os pequenos saírem da frente da web, para aprenderem coisas diferentes, quem sabe esse seja o pulo do gato para que as nossas jovens famílias retomem a educação por meio do coração amoroso e maduro da matriarca, do mais velho e também do mais sábio. Hoje, quando estendo minhas roupas no varal do quintal, penso naqueles ensinamentos à beira do tanque de pedra da nossa casa de vasta calçada, onde colocávamos as roupas para quarar. Ainda me pego estendendo uma toalha de plástico no sol de lascar para esticar uma toalha de banho e deixá-la bem branquinha, “mas não pode deixar a roupa esturricar, falha gravíssima para uma lavadeira”, dizia vovó. É preciso ficar de olho, ir molhando aos poucos, com uma água rala de sabão, dentro de um balde, que balança num braço, enquanto o outro parece  distribuir alguma coisa ao vento. Os movimentos devem ser largos para os lados porque isso espalha a mistura em cima da roupa já quente, como um ovo frito. E, depois dessa movimentação que se estendia por toda a manhã, enquanto o almoço ficava pronto, era preciso recolher tudo e começar, desta vez, o enxágue. Naquela época, não se falava em ócio criativo e, como todo ensinamento precisa de uma certa prática para ter sucesso, um dia perguntei para vovó como eu ia descobrir que a roupa já não tinha mais sabão, se estava ou não bem enxaguada. Ouvi: “Minha filha, não precisa gastar toda a água da casa, apenas encosta a roupa na boca e suga a água que ainda está nela”. Se tiver sabão, você vai sentir o gosto e enxaguar tudo outra vez. Simples assim, né, Maricota? Isso me faz refletir que a vida pode ser simples da mesma maneira:  pelas conversas à mesa no jantar ou no comando das colheres de pau. Mas o mais importante é estar entre os nossos para aprender, ensinar ou relembrar os “causos” do passado, os acontecimentos do dia anterior. Aquelas situações que pareciam indissolúveis e tiveram solução. Ou mesmo aquelas histórias bizarras de família que você jamais vai esquecer e vai recontar conforme a sua imaginação permitir para os filhos. Não importa quanto tempo se passe daquela avó ensinando a neta a lavar roupa, eu sigo acreditando que as memórias e experiências de toda uma vida ainda podem mudar o mundo, ou o pequeno mundo que construímos à nossa volta.

  SILVANA CARDOSO  é escritora e produtora cultural. Mora no Rio e escreveu esse texto em 27 de dezembro de 2016.

08/03/2017 - 12:00

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