O que aprendi com a síndrome do pânico

Os momentos de crise parecem nos colocar no fundo do poço. Mas, com tratamento, essa jornada pode trazer mais autoconhecimento e uma vida plena

Laila Azevedo

O tratamento para a Síndrome do Pânico pode nos levar para uma profunda viagem de autoconhecimento | <i>Crédito: Shutterstock
O tratamento para a Síndrome do Pânico pode nos levar para uma profunda viagem de autoconhecimento | Crédito: Shutterstock

Eram 4 horas da manhã quando liguei para minha mãe. Eu havia acordado me sentindo sufocada, agoniada, numa crise da qual não me esqueço. Mil pensamentos passando pela cabeça e a urgência em sair de casa em busca de um lugar seguro. Ela recebeu minha ligação assustada, e pensou que eu estava tendo um ataque cardíaco. Mas eu sabia que aquele era o auge da minha crise de ansiedade, o episódio inicial de uma fase aguda de síndrome do pânico que duraria dois meses e da qual hoje, após um processo de autoconhecimento, já me sinto melhor. 
Na noite daquela terça-feira, eu havia recebido uma mensagem pelo celular com uma notícia que me deixou muito mal: um colega havia tirado a própria vida. Ele tinha depressão, e fiquei me perguntando o que se passava na cabeça dele. Eu já estava lidando, havia alguns anos, com momentos de profundo estresse na empresa, e constantemente enfrentando episódios de ansiedade. Me sentia angustiada e com uma sensação ruim... Mas sempre fui vista como uma pessoa equilibrada e organizada. E, naquela crise, experimentei uma sensação diferente do que era ser eu. Perdi o controle de mim mesma. Tive taquicardia, sensação de asfixia, e a mente martelava ideias bagunçadas, desconexas. Me assustei, eu não era assim.
Minha mãe estava na casa da minha irmã, que havia tido bebê recentemente. E foi para lá que segui, no meio da madrugada. Peguei o carro e fui para aquele que seria o único refúgio seguro no qual eu poderia estar. O quarto da minha pequena sobrinha se tornou meu abrigo por um mês, no auge da crise de pânico. Com apenas 8 meses, ela já dormia segura no seu bercinho. E eu, aos 38, voltava a ser criança, e só conseguia pegar no sono segurando a mão da minha mãe. Quando a bebê acordava no meio da noite para mamar, eu já estava desperta. É que as crises não me permitiam uma noite inteira de sono, e a cada duas horas abria os olhos, muitas vezes com os mesmos sintomas que pareciam não querer me deixar tão cedo. 
No quadro de síndrome do pânico, os pensamentos ficam emaranhados; os sentimentos, embaçados. Enquanto a agonia só cresce dentro de você. Essa morada provisória traz muitos desconfortos. É como se um inquilino passasse a habitar sua própria casa sem o seu consentimento. Você fica sem saber como agir, pois qualquer reação é desconhecida e imprevisível. Naquele período, tudo me fazia lembrar do meu colega e daquele episódio que eu lutava dia e noite para esquecer. No meio dessa confusão, fui tomada pelo desespero. Pela minha cabeça passaram pensamentos tão absurdos que eu cheguei a temer a perda da lucidez. Rezava diariamente, para que Deus guiasse meus caminhos.

Uma viagem para dentro
Durante essa jornada, peregrinei dentro de mim mesma. Buscava a cura para a desordem e o barulho interno. É como se eu precisasse convencer minha mente de que aquele inferno passaria. Achei numa canção da banda Coldplay os versos para expressar um transtorno de pânico. “Ninguém disse que era fácil. Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim. Oh, me leve de volta ao começo”, diz a letra de The Scientist. Esse começo é o ponto de chegada de quem, assim como eu, já sofreu ou convive com a síndrome. Voltar ao zero e retomar a posse da própria vida. Ressignificar o tempo, as experiências e as memórias. Busquei tratamento logo. Eu queria me reconhecer novamente.
Nesse sentido, as sessões de hipnose me ajudaram mais do que eu poderia imaginar. O Dr. Diego Wildberger me fez voltar ao passado e remexer nas memórias mais profundas. Nelas, eu mergulhava em tudo o que me trazia desconforto. Em situações das quais eu nem lembrava mais, ou outras das quais jamais esqueci, como o falecimento do meu pai, há 14 anos. Ou mesmo os tempos de escola em que sofri bullying:  eu não tinha noção das consequências daquele período. Era muito tímida e guardava tudo — como ainda fazia depois de adulta em diversos momentos da minha vida. 
Diego também me ensinou a reprogramar a forma ansiosa como eu pensava as situações futuras e também a respirar de um jeito que me regulasse os hormônios de bem-estar, ajudando no controle das crises. O que acontece durante esses episódios é que o organismo ativa o sistema de luta-fuga, e reações são desencadeadas pela mente com reflexos no corpo. Surgem os sintomas físicos e, em algumas pessoas, até a paralisia. Aos poucos, as crises foram perdendo força após as técnicas de hipnose, os exercícios de relaxamento e as conversas francas sobre minhas memórias e medos. 
Ao mesmo tempo eu também busquei acompanhamento psiquiátrico. O Dr. Lauro Tonhá me confirmou que a síndrome do pânico não surgia de repente. Em quadros de estresse ou depressão, episódios de pânico podem se manifestar como consequência de outras síndromes. Segundo ele, “o pânico é uma ansiedade maior, em que você chega a ter a sensação de desrealização, perda de controle total e morte iminente”. Além da medicação, também recebi uma prescrição fundamental para me ajudar: a prática de atividade física. E fiz um curso de meditação e também busquei apoio nas missas de libertação. Nelas, eu escrevia em uma folha tudo o que queria que fosse embora. Pode parecer pequeno, mas colocar isso no papel era um jeito de tirar um pouco de mim.  

Um novo começo
Após um mês, consegui voltar ao meu apartamento. Era um lugar que eu adorava, mas que cogitei vender porque não me sentia segura só. Minha mãe então ficou comigo por dois meses e aos poucos as coisas foram melhorando. Achei que a doença tomaria conta de mim e que poderia durar uma infinidade de tempo. Sem um senso de razão ativado, tudo era incerto. Ainda bem que não foi assim pra sempre. Com alguns meses de tratamento, já me sentia melhor. Mas vez ou outra surgiam situações que funcionavam como um gatilho para me colocar no meio de uma crise. Com doses de remédio, atividade física, hipnoterapia e meditação, aprendi a controlar minhas reações em situações difíceis. 
Também tomei uma decisão que transformou minha rotina. Propus uma redução na minha jornada de trabalho, mesmo significando ganhar menos. Em vez de oito horas, hoje trabalho seis. Percebi que nem sempre as situações externas vão mudar, nem há como acabar com momentos estressantes. Mas podemos agir de forma diferente diante delas. Deixei de engolir tudo e passei a expor o que sinto. Tudo mudou.
Percebi que existe muito preconceito em torno das doenças psicológicas. Quando alguém próximo tem, não damos atenção, porque não é algo tão perceptível como uma doença física. Afinal, enquanto a pessoa com depressão ou ansiedade ainda é capaz de seguir sua rotina, ninguém desconfia do que ela passa — ou tudo não parece mais do que frescura. Já quem enfrenta isso se vê perdendo a própria personalidade, com medo dos rótulos que levam ao silêncio e à vergonha.
Por isso acho que precisamos falar mais sobre o assunto. A síndrome do pânico foi o pior momento da minha vida, mais até que a morte do meu pai, que eu amava tanto, que era meu herói. Mas ela também foi um divisor de águas, que me colocou dentro de mim, das minhas emoções, e me fez rever o que não me fazia bem e não carregar mais nada que não é meu, não receber lixo de ninguém. Até meus relacionamentos melhoraram. Hoje comemoro cada momento como se fosse único. Viver de forma plena, verdadeira e sincera é o que mais importa.

Laila Azevedo é jornalista, publicitária e poetisa. Desbravadora dos caminhos de fé e das boas energias.

05/04/2018 - 13:44

Conecte-se

Revista Vida Simples