O que aprendi com o parto normal

O nascimento de um bebê pode nos ensinar sobre acreditar na gente mesmo e na voz que vem do coração

Camila Tardin

O parto me ensinou a confiar na natureza do meu corpo | <i>Crédito: Emanuelle Rigoni
O parto me ensinou a confiar na natureza do meu corpo | Crédito: Emanuelle Rigoni

A maternidade não era prioridade em minha vida. Pensava a respeito, mas os planos de viajar, estudar e trabalhar estavam sempre em primeiro lugar. Porém, como boa parte das mulheres – isso não é regra, eu sei – um dia chega o momento de pensar sobre filhos. Engravidei em outubro de 2015, depois de quase um ano de tentativas. A gestação foi tranquila, tirando as preocupações com a zika, que estava bem no auge das manchetes dos jornais. Até engravidar, nunca havia pensado sobre parto, muito menos o normal. Em meu círculo de amizades e familiar, a experiência das mulheres era a cesárea, exceto, é claro, minhas avós, que não tinham opção de escolha na época. Então, obviamente, para mim a cesárea sempre foi “o normal”.

A gravidez implica uma série de sensações, pensamentos, sentimentos e muitos hormônios circulando no corpo, brigando por espaço e atenção. A questão do parto começou a buzinar na minha cabeça na metade da gestação, quando resolvi pesquisar a respeito. Escolhi um médico cuja especialidade é o parto humanizado – uma contradição para uma mulher que tinha certeza de que faria uma cesariana. Hoje entendo que lá no fundo, no meu subconsciente, a vontade de tentar o normal estava escondida em algum lugar. Precisava só de um empurrãozinho. Entre os meus maiores medos estava o que acredito que a maioria das mulheres sente: a dor. Como suportar a dor? Que dor é essa? Que tamanho ela tem? A que horas acaba? Como saber se vou dar conta e se o bebê e eu não teremos problemas?

Perto das 28 semanas de gestação, num feriado, resolvi assistir ao documentário “O Renascimento do Parto”, indicado por uma amiga que sempre defendeu o normal e buscava, gentilmente, me convencer a pelo menos tentar. O documentário mexeu comigo. Vi o quanto era ignorante sobre o assunto, desinformada e muito, muito preconceituosa. A partir daí iniciei um trabalho de investigação. Pesquisei tudo o que pude na internet e resolvi conversar com todas as amigas que passaram pela experiência. Uma delas me contou pessoalmente detalhes muito íntimos que não estão disponíveis em sites ou livros. Sou eternamente grata a ela.

Felizmente, o assunto do parto também me proporcionou fazer novas amizades. Nas aulas de hidroginástica conheci uma gestante que me alertou sobre os benefícios do pós-parto. Entre as pesquisas, consultas médicas e conversas, descobri o Epi-No – um dispositivo utilizado para trabalhar o alongamento da musculatura do assoalho pélvico prevenindo a episiotomia, conhecida também como “pique”, e lacerações dessa musculatura. A técnica, executada por fisioterapeutas especializados em saúde da mulher, é um tanto desconfortável, mas importante para treinar a força da expulsão do bebê e proporcionar maior consciência corporal para as gestantes.

Sempre que encontrava mães ou gestantes nos consultórios, o bate-papo caía no parto, era inevitável. Conversei com muitas mulheres. Perguntava como foram suas experiências, o que fizeram e como era essa tal dor. Gostava de ouvir as histórias de cada uma delas. Sou jornalista por formação, então perguntar é a minha praia.

Pouco antes do nascimento do meu filho, minha irmã Gabriela tinha acabado de vivenciar o parto normal pela primeira vez. Vê-la na maternidade feliz e disposta depois do nascimento do meu sobrinho me deu mais certeza de que queria o mesmo para mim. Buscava acalmar minha mente agitada à medida que as semanas avançavam e as perguntas ao meu redor cresciam:  já marcou a data? Quando vai nascer? A resposta era sempre a mesma: no dia que ele quiser.

Meu filho escolheu dar os primeiros sinais na 41ª semana. Era uma terça-feira e comecei a sentir as contrações logo depois do almoço. Lembro-me de, em toda consulta, perguntar ao médico: como é essa contração? Como vou saber o que é isso? Ele sempre respondia:  quando ela chegar, você vai saber. Chegou! E veio com tudo! Ela vinha e voltava como as ondas do mar quando batem com força nas rochas. Cada intervalo entre uma contração e outra era um alívio; uma pausa para adquirir forças para aguentar a próxima onda.

À medida que as dores aumentavam, eu achava que já estava próximo do nascimento, mas não. No meio da tarde fui ao consultório para o médico me examinar e, para minha surpresa, estava só com três centímetros de dilatação, ou seja, o dia seria longo ainda. Chateada, voltei para casa e chamei a fisioterapeuta que contratei para me auxiliar nos exercícios físicos que ajudariam a aliviar as dores. Usei algumas técnicas muito importantes, indicadas na minha investigação com as outras mães. Respirar bem profundamente a cada contração e sempre mentalizar que ela era bem-vinda. Mesmo com todos os meus medos, por incrível que pareça, foi o dia em que mais pensei positivo na minha vida.

À noite, quando as dores já estavam no ápice e as contrações cada vez mais próximas umas das outras, tomei um banho e fui para o hospital com meu esposo, que apoiou minha decisão desde o início. Resolvemos não avisar ninguém da família, pois a ansiedade deles poderia influenciar mais ainda a minha. No hospital, fiquei em trabalho de parto mais umas quatro horas. Na reta final, quando dizem que entramos num estágio apelidado de “partolândia”, em que nos desligamos de tudo o que está ao nosso redor e nos conectamos com a emoção do nascimento, mentalizei as mulheres mais especiais e fortes da minha vida: minha mãe Vera, minhas avós Maria e Noêmia, minha bisavó Ana e a batian Yaeko – uma querida vizinha japonesa. Tive a sensação de que elas estavam todas ali, espiritualmente, me ajudando.

Então, às 00h30 do dia 6 de julho de 2016 meu filho Pietro nasceu. Pegá-lo no colo e sentir o seu perfume foi a sensação mais incrível da minha vida. O cheiro dele ficou colado no meu nariz durante uma semana. Quando fechava os olhos, conseguia senti-lo. Essa sensação era fantástica! De madrugada, quando ele acordava para mamar, mesmo cansada e confusa com tanta novidade, tinha dificuldades para voltar a dormir, pois não queria esquecer aquele cheiro e toda a força que senti quando ele nasceu.

Não, não dá para esquecer. O que o parto normal me ensinou foi a confiar na natureza do meu corpo. Confiar mais em mim, em Deus, nas pessoas e em minhas escolhas. Aprendi que a dor é uma sensação muito subjetiva e individual; que, independentemente do tanto que você se informe, a experiência é algo bem particular e diferente para cada um. Aprendi que se despir dos preconceitos e buscar informações, especialmente com as pessoas certas, são atitudes fundamentais para tomarmos decisões importantes. Aprendi que o medo faz parte do processo, é um alerta, mas pode sim ser superado. Aprendi a sentir mais com o coração e menos com a cabeça; a diminuir minhas expectativas em relação a mim, às pessoas, comportamentos e situações; a ter mais paciência e aguardar o tempo certo das coisas. Aprendi que respiração é vida! E, acima de tudo, aprendi a escutar minha intuição. Ela é valiosa, uma bússola que nos indica os melhores caminhos.

Camila Tardin é jornalista em Cuiabá, Mato Grosso. Acredita que a mulher pode ser protagonista do parto, mas desde que tenha um médico de confiança, experiente no assunto para auxiliá-la e que tudo esteja favorável. camilatardin7@gmail.com

08/05/2018 - 12:25

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