O que aprendi com os refugiados e os imigrantes

O jornalista voluntário André Naddeo viveu por alguns meses junto a refugiados no porto de Pireus, na Grécia. Na convivência, ele descobriu mais sobre si, como amparar o outro e fazer a diferença

História de André Naddeo | EdiçãoAna Holanda

André não apenas registrava o que via e as histórias que encontrava. Ele também ensinava as pessoas a fazer seus próprios registros | <i>Crédito: DIVULGAÇÃO/ I AM IMMIGRANT
André não apenas registrava o que via e as histórias que encontrava. Ele também ensinava as pessoas a fazer seus próprios registros | Crédito: DIVULGAÇÃO/ I AM IMMIGRANT
Comecei o ano de 2016 trabalhando por conta própria, como jornalista. Estava desempregado. E me chamava muito a atenção o que estava acontecendo na Europa. Eu via, pela televisão, pela internet, lia nos jornais notícias sobre as pessoas que chegavam em barcos abarrotados de mulheres, homens, crianças. Eram centenas, todos os dias, das mais diversas origens: sírios, afegãos, curdos... E eu queria me aproximar, entender e sentir, o quanto fosse possível, aquela situação. Queria me aprofundar mais naquilo, que já era considerada a mais grave crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Queria sair da realidade do Facebook e ver tudo de perto. Dar voz àquelas pessoas.

Foi essa minha vontade que me levou a desembarcar, em abril de 2016, na Grécia, e ir para o porto de Pireus, porta de entrada de muitos homens, mulheres e crianças, que estavam fugindo dos conflitos que devastavam seus territórios, destruíam suas casas, suas histórias – cerca de 2 mil pessoas já estavam abrigadas ali. Quem eram elas? Que vida tinham em seus países? Eu tinha muita necessidade de me relacionar com elas, de mostrar ao mundo quem são de verdade.

Ao chegar a Pireus tive um pouco de sorte – isso porque a maior parte das pessoas ali não gostava de jornalistas, que só iam até lá para registrar suas tragédias, sem ao menos conversar, pedir autorização para fotografá-las, e sumiam. Ao entrar no porto, vi as barracas onde toda aquela gente ficava abrigada e alguém gritou para mim em espanhol: “Olá”. Era a última palavra que eu esperava ouvir naquele momento. Virei e encontrei um rapaz acenando pra mim. Era um marroquino que havia morado na Espanha por muitos anos. Conversamos e ele me mostrou o porto todo, me apresentou para várias pessoas. Ele foi também meu tradutor de árabe nas atividades que, posteriormente, desenvolvi com as crianças dali. 

Optei por ficar como jornalista voluntário. Havia muita burocracia para atuar com uma organização não governamental (ONG) ou qualquer outro serviço e auxílio. Era necessário preencher uma papelada sem fim, muitos formulários. Além disso, os voluntários precisavam vestir coletes com cores diferentes. E eu não queria usar aquilo. Queria, novamente, que eles me reconhecessem como alguém igual a eles. E fui me aproximando sem nenhuma instituição ou serviço de apoio por trás. Sei que isso foi arriscado. Mas era o que fazia sentido para mim, naquele momento. Eu queria fazer aquele trabalho da maneira mais independente possível. Foi quando conheci um grupo de voluntários também independentes, que tinham, como eu, essa premissa básica de não trabalhar vinculados a uma organização, mais próximos das pessoas. E, dessa maneira, terem a liberdade para denunciar o que estava acontecendo. Me identifiquei com eles e, um belo dia, fui convidado para morar ali no porto, em um armazém onde ficavam os donativos – até então eu estava vivendo em um apartamento alugado. A partir daquele dia, passei a viver com os refugiados e imigrantes, compartilhando a mesma pia onde escovávamos os dentes, o mesmo contêiner onde cinco duchas (frias) serviam todos os homens do local, as dificuldades, a rotina. Eu ajudava na limpeza, recolhia as mantas sujas, cozinhava para centenas. E as pessoas acampadas ali passaram a confiar mais em mim, porque perceberam que eu não estava naquele lugar apenas para explorar a imagem ou a história deles. Eu me importava com o que eles passavam, viviam, sentiam, de verdade. 

Olhar mais próximo 
A partir do momento em que fui morar no armazém, em Pireus, entendi a necessidade daquelas pessoas. Não era mais o olhar distanciado do estrangeiro, do jornalista que passa algumas horas para apenas registrar uma história, mas de alguém que estava ali, vivendo com eles, compartilhando, conversando. E isso nos aproximou para que as histórias começassem a vir à tona. Jornadas duras de quem está longe da família, perdeu o marido ou não vê o filho mais velho há anos porque ele seguiu para se refugiar em outro país, de gente que não tem para onde voltar ou de crianças que não conhecem outra realidade a não ser a da guerra. Eu não estava ali para fazer um monte de fotos deles, sem ao menos pedir permissão, como muitos fotógrafos faziam. Fiz amizades. Foi uma relação de carinho que estabelecemos, de confiança, mas também de jornalismo, de conhecer as necessidades do outro. Todas as crianças que fotografei, conheço a família. Elas autorizaram a divulgação da imagem (inclusive as que usamos nesta reportagem). Não faço nada sem que todas as pessoas saibam o propósito disso, que é criar uma ferramenta de expressão para todos.

Nos primeiros dois meses que fiquei na Grécia, desenvolvi um trabalho muito especial com as crianças, que se chama Drawfugees (facebook. com/drawfugees). Eu dava para os meninos e meninas objetos simples como papéis, lápis e canetas coloridas e pedia que desenhassem, que colocassem ali seus sonhos. O objetivo era que elas não esquecessem quem eram, qual era a sua essência. Todos esses desenhos – e a imagem das crianças – estão disponíveis no perfil do Drawfugees no Instagram (e algumas dessas fotos foram usadas nestas páginas). Algumas crianças caprichavam nas cores. E desenhavam a família novamente completa e unida. Outros pintavam a bandeira de seu país, a casa para a qual não voltariam, o bolo do aniversário que não foi comemorado. No meu último dia em Pireus, imprimi as fotos de cada criança com seu desenho e dei de presente para cada uma. Foi meu jeito de mostrar que eu me importava com elas. E também minha maneira de registrar a infância, que toda aquela situação havia roubado de sua vida. 

Outro projeto que desenvolvi nesse tempo foi o I Am Immigrant (facebook.com/IAmImmigrantworld). Nele, eu não apenas registrava, por vídeo, as histórias de homens e mulheres de nacionalidades diversas, todos refugiados, como também os ensinava a fazer isso por conta própria: fotografar, filmar. Assim, depois da minha partida, eles poderiam seguir falando, registrando e colocando suas histórias no mundo. Nesses vídeos a proposta era contar quem são eles, o que faziam antes de a guerra destruir suas casas, quais eram seus sonhos.

Um breve adeus 
No final de junho de 2016, retornei ao Brasil. Passei três meses por aqui trabalhando nos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, dentro do Comitê Rio 2016, ironicamente, produzindo, entre outros conteúdos, tudo relacionado ao Time Olímpico de Refugiados, uma iniciativa inédita do Comitê Olímpico Internacional (COI). E, em outubro, retornei para a Grécia, porque eu sentia que ainda havia mais histórias para contar. 

Me instalei dessa vez em Atenas. Na minha ausência, mantive contato com algumas famílias que conheci, por WhatsApp. E eu os reencontrei depois desse breve afastamento. Já não estavam mais no porto. Nesse período que fiquei no Brasil, os refugiados foram retirados de lá e encaminhados para outras áreas. As tendas foram trocadas por contêineres.

Ou por quartos apertados dentro de várias ocupações de prédios e escolas no centro da capital grega. Fiquei pouco mais de três meses sem vê-los, mas alguns – em especial os adultos – pareciam ter envelhecido alguns anos. A fisionomia também estava nitidamente mais triste, cansada, desanimada. A espera para entrar em um país, para um refugiado, é muito longa e cheia de burocracia. Até mesmo as crianças estavam mais adultas, mais amadurecidas – nessa situação, elas deixam a infância mais cedo que o normal. 

Dessa vez fui para trabalhar com jovens em situação de rua, além dos que viviam nos chamados squats (ocupações). O que acontece é que muitas famílias, nos países em guerra, precisam optar por qual membro da família vai fazer a travessia, vai escapar do conflito. Apesar de a viagem ser feita em um bote em situações desumanas, sem nenhuma segurança, é cara. E algumas famílias optam por mandar o menino. Só que muitos desses garotos chegam por lá sozinhos, sem referência dos parentes. Com o tempo, muitos deles acabam sendo aliciados pelo tráfico de drogas ou mesmo para trabalhar no mercado do turismo sexual. Essa é a maneira que encontram para sobreviver por lá. Simplesmente porque passam fome. Me juntei a um projeto de alternativa habitacional de uma associação espanhola chamada Holes in the Borders (facebook. com/refugiadosenatenas). As ativistas e voluntárias alugaram um apartamento para acolher cerca de 12 jovens desacompanhados. O trabalho com esses garotos passou a ser o de dar uma rotina de casa para eles, com horários, tarefas, dar estrutura para que eles conseguissem seguir sem o suporte emocional da família. Contra o ócio, sobretudo. Com eles, mostrei também como poderiam se filmar e contar suas histórias. Dar, novamente, voz para que contassem suas trajetórias e se mostrassem como pessoas para o mundo. É um canal independente de expressão. E, novamente, eles precisavam confiar muito em mim, para que preservasse a identidade deles. Eram garotos, afinal. 

Mais humano 
Há pouco mais de um mês estou de volta ao Brasil. Tenho me dedicado a dar palestras, promover conversas em escolas para contar o que vi e vivi. Isso tudo mudou meu olhar. Eu não me considero 100% ativista, mas 100% humano para enxergar o outro sem fechar os olhos para esses problemas. Para mim, é importante fazer algo em relação à situação dos refugiados, usando para isso minha profissão. Hoje, me considero um jornalista voluntário. É algo gratificante. Quando você conta a história do outro ou o ensina a contá- la, ele mesmo, para o mundo, você cria uma ferramenta importante de expressão para aquela pessoa. 

Toda essa experiência me ensinou a ver além da minha timeline no Facebook. Estamos vivendo numa sociedade em que a gente tem se fechado e só consome informação, notícia que está dentro dessa “bolha”. Não se vai além. Você vê a foto ou lê a notícia dessas pessoas em busca de um território seguro para seguirem com a vida delas, mas nunca acredita que isso tem a ver com a sua vida. E segue em frente. Consome aquela informação, mas não reflete sobre ela, não se sensibiliza. Fazer isso é como passear pela rua e não querer ver aquela pessoa que está dormindo na calçada. A gente prefere não ver e acreditar que aquilo não existe. Porque isso traz um conforto. 

Viver junto aos refugiados me ensinou a tirar o meu “fone de ouvido” e olhar para o lado. E isso não diz respeito apenas ao refugiado que está lá na Grécia, mas às pessoas menos favorecidas ou que precisam, de alguma forma, de acolhimento (emocional ou físico), às pessoas que estão próximas e precisam de auxílio. É se aproximar do outro e descobrir quem ele é; se ele precisa da sua ajuda e como você pode fazer isso. E encorajar os outros a fazer algum tipo de trabalho voluntário. Isso tem que nascer, primeiro, dentro da gente. Mas dá outro sentido para a vida. Muito maior.

18/08/2017 - 10:25

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