O que aprendi em uma fazenda de oliveiras

A publicitária Thaís Warzeka mudou de rota e foi trabalhar em uma plantação de azeitonas, onde participa do cultivo, colheita e fabricação do azeite. Lá, ela percebeu que é essencial respeitar o tempo da natureza

Thaís Warzeka

O que aprendi em uma fazenda de oliveiras | <i>Crédito: Shutterstock
O que aprendi em uma fazenda de oliveiras | Crédito: Shutterstock

Existe uma antiga lenda chinesa que meu sogro gosta muito de citar: “um fio invisível conecta os que estão destinados a se encontrar. O fio pode esticar ou emaranhar-se, mas nunca irá se partir”. No meu caso e no da família que estou formando, esse fio é quase literal: o fio do azeite ou do suco de azeitona, como dizemos por aqui. Meu destino me conduziu para o Uruguai. E troquei a rotina agitada de São Paulo por Punta del Este. Moro em uma casa de campo simples, com horta. E trabalho em uma fazenda de oliveiras – são cinco mil árvores, em 19 hectares, a 18 quilômetros do oceano.
Essa história começou há pouco mais de cinco anos, quando conheci meu marido, Luca. Desde então, dividíamos uma mesma vontade: morar fora de São Paulo. Nunca imaginamos quando e nem para onde iríamos, mas parece que o universo ajudou conspirando a favor. Em outubro de 2013, o proprietário da casa onde estávamos nos avisou que haviam pessoas interessadas em comprá-la. Ou seja, teríamos que deixar o imóvel. Na mesma ocasião, perdi meu emprego. Paralelo a tudo isso, meu sogro ligou dizendo que precisava de alguém da família em Punta del Este para tocar os negócios. Administrar à distância não estava dando certo. Só para entender: meu sogro mora no Rio e alimenta desde criança uma história de amor com as oliveiras. Quando pequeno, ele morava nas chamadas villas, na Toscana. Foi lá que aprendeu a amar a terra, plantar, cultivar e a colher. Mas, durante a Segunda Guerra, a família de origem judaica teve de deixar tudo para trás e sair da Europa. Vieram para a América do Sul. Na juventude, ele conheceu Punta del Este. E, desde então, nutria o sonho de formar ali uma villa, encontrar o terroir perfeito, onde pudesse plantar azeitonas, da mesma maneira como era feito na Toscana. Ele comprou o terreno, batizado de Punta Lobos, há três décadas. E foram muitas tentativas até as primeiras oliveiras vingarem, há exatos dez anos.

Mão na massa
No início do ano passado, nos mudamos para o Uruguai. Além da loucura que é fazer uma mudança, chegamos justo no período que antecede a colheita – a etapa mais importante do negócio. Acordávamos às 5h30 para levar os trabalhadores ao campo e colocávamos, realmente, a mão na massa. O Luca ficava a maior parte do tempo acompanhando o trabalho no pomar e eu me deslocava mais para a fábrica, onde as azeitonas verdes e recém-colhidas seguem para o moinho para virarem azeite (elas são processadas mecanicamente a frio no moinho, num período máximo de cinco horas após serem retiradas do pé). 
Não tínhamos ideia do quão trabalhoso é produzir azeite. Antes, vínhamos como turistas. Participar de todas as etapas é diferente e também gratificante. Nossos dias começavam bem cedo e terminavam por volta das onze da noite. Isso porque, ao final da colheita no campo e término do expediente na fábrica, tínhamos que nos inteirar de outros assuntos, como a parte administrativa e jurídica. Íamos dormir mortos e felizes. A rotina era puxada e, no princípio, a gente se perguntava: o que estamos fazendo aqui? Quando a época da colheita terminou, em maio, iniciamos os tramites para a exportação (hoje, 95% da nossa produção vai para o Brasil) e, em paralelo, precisamos cuidar da terra para garantir boas azeitonas no ano seguinte: podar, tratar, fertilizar. Temos, também, um pequeno armazém onde recebemos clientes e amigos curiosos em saber como se faz um bom azeite. Junto ao lugar fica a nossa almazara (fábrica), onde explicamos como acontece todo o processo, desde a chegada da fruta, após a colheita, até a saída do primeiro fio de azeite da máquina.
Temos hoje um estilo de vida bem mais simples. Gastamos menos, mas não porque as coisas sejam mais baratas (o que não é verdade), mas porque não sentimos mais tanta necessidade de consumo. Moramos em uma casa bem menor e tivemos que nos desfazer de muitas de nossas coisas, principalmente roupas. E, sinceramente, nem lembro quais eram. Eu era muito consumista e, sempre que estava estressada, me presenteava com algo. Aqui, tenho minhas aflições, mas contemplar a natureza tem sido a minha terapia. Também nos preocupamos mais com a alimentação. O Luca sempre diz: “quero chegar aos 80 carregando caixotes de azeitonas”. 

Delícias e desafios
Durante esse último ano, fomos aprendendo um pouco de tudo. Desde um novo idioma, a cultura, a maneira de lidar com os trabalhadores, o tempo, o clima e como tudo isso influencia no desenvolvimento das árvores. Percebi as delícias e os desafios de trabalhar com a natureza e como essas descobertas foram nos modificando. Deixamos de precisar de coisas que antes eram tão importantes e aqui não fazem a menor falta. Ficamos mais de um ano sem televisão e agora só temos uma porque ganhamos. Tenho um celular antigo e tudo bem. Antes eu precisava do modelo do momento para me sentir parte de algo e não por uma necessidade real. Hoje quero trocá-lo porque está funcionando mal.
Aprendemos também a respeitar o tempo e o meio ambiente. Se não chove o suficiente, não tem azeitona. E não tem nada o que eu possa fazer para cair água do céu. É esperar e respeitar o que a natureza (ou a vida?) nos trouxer. No começo de junho, vamos colher o nosso mais importante fruto: nosso primeiro filho, que deve nascer nessa época. Ter um filho era mais uma coisa que eu e o Luca também sempre quisemos. E poder criá-lo por aqui será um grande privilégio. Acho que o universo continua conspirando a favor.

15/02/2018 - 10:39

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Revista Vida Simples