O que aprendi na travessia Rio-Niterói

Cruzar a Baía de Guanabara em uma barca pode deixar de ser uma viagem cotidiana para se transformar em um momento de pequenas surpresas que dão sabor à viagem

Texto: Pedro Karp Vasquez Ilustração: Tiago Gouvêa

O que aprendi na travessia Rio-Niterói | <i>Crédito: Divulgação
O que aprendi na travessia Rio-Niterói | Crédito: Divulgação

Nasci No Humaitá, bairro de passagem cujo maior mérito é o de estabelecer a ligação entre Botafogo e o Jardim Botânico. Não há nada de muito interessante por lá, salvo o colégio Pedro II, a Cobal, o quartel do Corpo de Bombeiros e a Casa de Saúde São José. Nasci nesta última, porém fui transferido para Niterói ainda na primeira infância em virtude de uma querela doméstica opondo minha avó e minha mãe. Segundo consta, ela teria dito à vovó: “Já que não posso colocar o Oceano Atlântico entre nós, vou colocar ao menos a Baía de Guanabara”. A tirada me parece boa demais para ter sido proferida no calor do momento, mas foi a que a memória familiar registrou. As duas tinhosas não tardaram a se reconciliar, de modo que meus irmãos e eu atravessávamos a baía todos os domingos para almoçar na casa de meus avós. Depois, por força das circunstâncias, passei a fazer a travessia também durante os dias úteis como milhares de outros moradores de Niterói que trabalham no Rio. Acumulamos assim mais horas de navegação do que muitos marinheiros profissionais... A Ponte Presidente Costa e Silva, que o povo prefere chamar de Ponte Rio-Niterói, foi inaugurada em 31 de março de 1974, mas nunca me conquistou como via de transporte. Mantive-me, portanto, fiel à travessia hidroviária, que nunca considerei um incômodo, e sim um prazer. Ficar preso em um engarrafamento, sofrer um acidente ou uma pane na ponte é uma experiência das mais estressantes, pois não há via de escape. Ao passo que acidentes com as barcas são raríssimos. Neste particular, não posso reclamar, pois até tive sorte com um deles. Certa vez fiquei à deriva em uma barca que perdera o leme, o que acabou sendo uma experiência muito boa para mim... Explica-se: para sairmos da Boa Viagem (não há ironia, o nome da lancha era esse mesmo), nós, passageiros, tivemos que ser resgatados por outra barca no meio da baía, com pessoas pulando de uma lancha para a outra. Único fotógrafo a bordo, eu documentei toda a aventura e consegui emplacar uma foto na primeira página e duas internas no jornal O Globo, pois a travessia da baía é coisa séria. É, com efeito, o maior serviço de transporte hidroviário em número de passageiros transportados por dia em todo o mundo. Todavia, para aqueles que, como eu, são fãs das barcas, pouco importam as estatísticas, o que vale — como se convencionou dizer ultimamente — é a “experiência”. Assim, preocupamo-nos apenas em curtir a travessia, que perdeu um pouco do charme com as novas barcas fechadas e refrigeradas, porém ainda continua deliciosa. Antes era possível aos namorados brincar de Leonardo Di Caprio e Kate Winslet em Titanic na proa ou na varanda do deck superior, com os cabelos açoitados pelo vento, o rosto salpicado de maresia e acariciado pelo sol na vastidão da baía. Agora, em compensação, pode-se continuar a usar a barca como escritório flutuante — como estou fazendo neste momento, ao evocar essas reminiscências. Nas barcas antigas, as cadeiras centrais do passadiço superior eram protegidas por um conjunto de painéis metálicos encimados por um corrimão de madeira envernizada. Assim, o espaço situado entre o topo das escadas e esse para-vento funcionava como um palco para as mais diversas intervenções: discursos políticos, campanhas de conscientização pública, pedidos de esmola e pocket shows improvisados. O espetáculo de maior apelo popular era proporcionado por uma senhora de meia-idade que passava a viagem inteira em uma arenga ferina contra tudo e contra todos. Comentava, com irresistível senso de humor, os escândalos políticos do momento, a inflação, o desenrolar das novelas e de outros programas televisivos e o que mais lhe desse na telha. Os marinheiros tinham autoridade para calar a oradora náutica, mas não o faziam, possivelmente porque concordavam com muito do que ela dizia e porque se divertiam à grande com sua metralhadora giratória que não poupava nada nem ninguém. Curiosamente, ela tinha especial predileção por atacar o Rei Pelé, que em sua boca perdia toda a majestade. As travessias com ela a bordo eram sempre hilariantes, um verdadeiro espetáculo de stand-up comedy. Pena que naquele tempo ainda não existiam os smartphones e o YouTube, caso contrário seus “shows” iriam transbordar das barcas para viralizar na rede.
Mantendo o foco Agora que os celulares existem é de lamentar que sirvam para falar, e não apenas para fotografar, gravar e trocar mensagens pelo WhatsApp. E, como somos “sem noção”, não temos pudor em usar o telefone em locais públicos, em altos brados e falando inconveniências. Na barca os celulares assassinam a poesia e tiram a concentração de quem deseja ler, estudar ou só devanear. No que me diz respeito, uso-o quase tão somente para fotografar e sinto-me incomodado quando alguém me liga no meio de uma foto, quebrando a concentração ou dissolvendo a cena visada. Como a lancha é uma espécie de biblioteca navegante, fotografei gente lendo durante mais de um ano, para uma série intitulada Leitura de Bordo. Depois deixei os leitores de lado, mas não deixei de fotografar, respondendo aos estímulos oferecidos pelo acaso. 

     Recordo-me com nostalgia das barcaças da Valda, empresa transportadora de veículos entre a Praça XV, no Rio, e a Ponta da Areia, em Niterói. Antes do embarque todos os veículos passavam por uma balança, por medida de segurança. Razão pela qual os passageiros eram obrigados a permanecer em seus carros e só podiam perambular pelo deck depois que o ferry boat zarpasse. Durante a travessia, a melhor pedida era a dupla imbatível: batatinha frita Popular e a verdadeira Coca-Cola, a da garrafi nha de vidro. Para quem gosta da lancha, a travessia às vezes é curta demais e sentimos falta das antigas lanchas mais lentas, que saíram de circulação depois que uma não conseguiu atracar e bateu direto na mureta de pedra da Praça XV, deixando várias pessoas feridas. Por coincidência, foi a mesma Boa Viagem que perdera o leme anos atrás — e eu também estava a 
bordo, mas não me machuquei porque estava sentado, entretido com um livro. Quem também curtia muito a travessia era o artista plástico Tunga, que costumava atravessar a baía com o fi lho nos fi ns de semana para visitar o Museu de Arte Contemporânea. Às vezes não chegava sequer a desembarcar; o  que ele mais apreciava era mesmo a viagem. Contudo, não é preciso ser transcendental ou de temperamento fi losófi co para desfrutar o trajeto. Os enamorados que o digam, já que não há chamego melhor que aquele embalado pelas ondas suaves da Baía de Guanabara, longe dos solavancos, das freadas bruscas e dos assaltos nos ônibus e até mesmo no metrô. A barca é um espaço mágico que nos transporta de imediato para “longe deste insensato mundo”. Tanto é verdade que muitos relaxam e adormecem assim que ela zarpa, despertando apenas com as manobras de atracação. Ou nem isso, fazendo a viagem de volta sem sequer perceber. Nas antigas lanchas isso ocorria com frequência; hoje é mais difícil, mas conheço um que mergulhou na leitura e, distraído, foi de Niterói ao Rio, fez o percurso de volta e ao desembarcar achou que estava vivendo um fi lme de fi cção científi ca, pois percebeu que estava na mesma estação de embarque, em Niterói. Para concluir, basta dizer que a travessia da Baía de Guanabara é um território privilegiado para exercitar “a arte do encontro”, que Vinicius de Moraes considerava a essência da vida, pois nunca se sabe quem você vai encontrar na estação ou a bordo. É sempre uma surpresa  um tempero a mais na viagem...

Pedro Karp Vasquez é fotógrafo e jornalista e gosta de reparar nas travessias, tão valiosas quanto as chegadas.

22/02/2018 - 11:29

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Revista Vida Simples