O que aprendi no Caminho

Andar por muitos quilômetros, como um peregrino, pode ser uma maneira de fazer as pazes com sentimentos doídos e profundos. No trajeto, o corpo cansa, a cabeça amansa e o coração acalma

Silvia Prevideli

O que aprendi no Caminho | <i>Crédito: Tiago Gouvêa
O que aprendi no Caminho | Crédito: Tiago Gouvêa

Perdi minha mãe no dia 26 de janeiro deste ano. Depois que o vazio e a dor se acalmaram um pouco, senti muita necessidade de conversar com alguém lá de cima e expulsar os sentimentos ruins que estavam dentro de mim. Precisava de isolamento, ficar longe da rotina para me ocupar de mim. Muito movida por isso decidi, em julho, seis meses depois que ela se foi, encarar uma peregrinação, como muita gente chama esse tipo de jornada. Em geral, as pessoas optam pelo Caminho de Santiago de Compostela, mas é possível realizar isso por aqui, na rota conhecida como Caminho do Sol. Eu poderia buscar formas mais brandas ou mais fáceis, afinal foram 11 dias de caminhada (a pé) no meio do nada — alguns poucos trechos eram urbanos — percorrendo 219 quilômetros, exposta ao sol e ao frio do inverno. Escolhi uma atividade que ocupasse a mente com o desafio 
de chegar, cansasse o corpo e fosse uma opção no Brasil, mais precisamente no interior de São Paulo. Naquele momento, eu não estava preocupada em fazer turismo ou me preocupar com outro idioma. Queria apenas seguir a seta amarela. Eu precisava justamente me livrar das amarras, pois qualquer dificuldade me faria desistir ou adiar.

O último suspiro
A partida da minha mãe machucou demais. Estávamos na minha casa, onde foi passar alguns dias, e naquela manhã ela acordou sem qualquer tipo de queixa, como uma dor ou dificuldade para respirar. Horas depois, às 11h30, ela partiu. Assim de repente, num suspiro que não se completou. Foram muitos sentimentos doídos dentro de mim: o choque, a culpa, a perda e ainda reviver a morte do meu pai, que se foi em 2010, e a da minha avó, em 2013. Repassei todos os lutos no coração. Eu estava procurando um divisor de águas, do tempo do ontem para o amanhã, uma pausa para retomar o fôlego e resgatar a vontade de sonhar. Então acreditei que o silêncio e a solidão iriam me ajudar a extrair uma mensagem dessa experiência dura. Sempre adorei andar, fiz diferentes caminhadas — conheci cidades inteiras a pé. Todas sempre fizeram bem para o meu corpo e para a minha alma, e fui atrás disso. Eu já tinha ouvido falar dos caminhos de peregrinação no Brasil, mas nada com profundidade. Nos meses que se seguiram à despedida da minha mãe coloquei muita coisa para fora: chorei, pedi ajuda divina, conversei muito com os amigos, fiz tratamento espiritual, mas dentro de mim havia algo que me impulsionava para andar, sair por aí para pensar, refletir sobre tudo o que havia acontecido.

 O Caminho
O ato de peregrinar convida à refl exão, seja pela solidão nas estradas, pelas dores no corpo, pela infl uência dos companheiros de trajeto que seguem na mesma toada, seja pela distância de casa. E tudo isso eleva o pensamento e a alma. O Caminho do Sol não é uma romaria, nem uma peregrinação para pagar promessa, pelo menos não como um objetivo declarado. Eu me inscrevi e fi quei esperando ter mais interessados, pois, mesmo buscando a solidão, queria ter gente por perto ou pelo menos saber que a alguns quilômetros haveria alguém para pedir socorro. Fui abençoada em tudo: o Caminho me deu 12 novos amigos e pude escolher andar sozinha alguns trechos e, em outros, tive conversas deliciosas com os diferentes companheiros. Sempre havia alguém próximo. Enxergávamos e éramos enxergados. No grupo, havia gente de todas as idades. Muitas gerações, histórias e memórias, poucas manias, preconceitos e discórdias. Todos de São Paulo, a maioria da capital, mas também de cidades do interior do estado, como Conchal, Americana, Jundiaí e Tatuí. Gente do bem e que só colaborou para uma jornada de paz e espírito coletivo. Cada peregrino tinha o seu motivo para estar lá, foi bom ouvir a todos e ser ouvida. Fiz confi ssões, ouvi confi ssões. A troca de energia foi reconfortante, além do apoio moral para a conclusão de cada trecho e do cuidado de cada um com os que se machucavam ou estavam fragilizados emocionalmente. No fi nal do terceiro dia, por exemplo, eu estava acabada. Infelizmente a minha bota se mostrou inadequada. Ela sempre foi minha companheira de viagens, cujo objetivo não era somente caminhar mas fazer turismo também, assim andava um dia, descansava no outro. Fazia trechos de no máximo 7 quilômetros. Ela era do meu número de calçado. E, depois de 52 quilômetros, a bota começou a apertar meu pé, que estava massacrado lá dentro. Ele, com certeza, estava ocupando mais espaço do que o de costume, em função da meia mais grossa — indicada para essas caminhadas — e uma camada sobressalente da fi ta micropore, usada para proteger os dedos. Além disso, ele deve ter inchado um pouco. Comecei a pisar torto e o resultado foram dores na tíbia e no joelho, partes do meu corpo que nunca tinham me trazido problema antes. Nesse dia, o trecho inteiro de 24 quilômetros foi sofrido. Cada pedra no caminho doía a pisada, o sol forte incomodava, a sede aumentava, a mochila parecia pesar ainda mais. Mesmo tendo um grande apoio de uma amiga, que esteve ao meu lado em todo o trajeto, e uma outra que veio nos resgatar e levou minha mochila, eu quis concluir aquele trecho. Cheguei às 16h, o que saía totalmente da programação. Fui recebida por todos, aplaudida, acolhida e até minha refeição me levaram no quarto. No quinto dia, o programado era cumprir 28 quilômetros. Mas eu sabia que não conseguiria, já que o dia anterior já havia sido muito duro e meus pés seguiam doendo. Decidi, então, fazer o trecho de carro com outras companheiras, que também não puderam seguir a pé. A pausa foi meu jeito de não abandonar a caminhada. Eu recomeçaria no sexto dia. Mesmo assim, fiquei triste, porque eu queria completar os 241 quilômetros do Caminho, mas aproveitei o dia para conversar e refletir sobre o aprendizado da humildade: faltou força e planejamento. A preocupação não era bater uma meta de tempo ou chegar mais rápido. Era chegar. Procurava apenas me manter próxima de alguém, caso precisasse de ajuda. O grupo tinha excelentes caminhantes, muitos faziam 4 quilômetros por hora, mas que estavam dispostos a “piorar” essa marca se precisassem ajudar alguém. No sexto dia, retomei a caminhada. Me senti mais confiante, pois o trecho era curto, 14 quilômetros, e uma alma salvadora me emprestou uma papete confortável e um número maior do que o meu. Não a larguei mais até o final. Dessa maneira, consegui percorrer todos os quilômetros restantes sem dor física e pude me dedicar totalmente às dores da minha alma. Entre aclives e declives, venci os trechos de terra batida, de pedregulhos, de areião, de asfalto, com temperaturas oscilando de 12 a 30 graus (com sensação térmica de 5 a 35, pelo menos eu sentia isso), passando por paisagens urbanas e rurais. Muitas aves cantando, alguns cachorros nos acompanhando, vacas nos assistindo, entre a aridez da falta de tudo até a sombra das poucas árvores e das plantações de milho, eucaliptos, pínus e cana. Muita cana-de-açúcar.

Balanço final
Era preciso seguir uma rotina de disciplina para poder chegar ao fim. Ela se resumia em acordar às 5h30 e sair às 7h30 — os preparativos da turma toda em proteger devidamente o pé, passar vaselina, protetor solar, colocar todo o aparato, o uso de banheiro compartilhado e tomar café não era algo rápido. Depois andar, andar, andar, seguir as setas amarelas e chegar, finalmente, em torno das 13h, para alguns um pouco antes, para outros mais tarde. Nas pousadas cumpríamos um ritual: tirar as fitas que protegiam os dedos, lavar e estender roupa antes que o sol se pusesse — somente assim a roupa poderia secar até o dia seguinte —, tomar banho, almoçar, algumas vezes desmaiar à tarde, ler, conversar por telefone com a família, recolher roupa, pesquisar sobre o caminho do dia seguinte, jantar. Íamos dormir às 21h para descansar o corpo por oito ou nove horas. Foram 11 dias, 12 cidades, mais de 25 carimbos no “passaporte do peregrino”, dois cachorros seguidores, duas bolhas sem complicações, nenhuma gota de chuva, muitas de lágrimas, 12 amigos para compartilhar a jornada. Saímos de Santana de Parnaíba no dia 5 de julho e chegamos a Águas de São Pedro em 15 de julho, cansados mas felizes. Fiz 213 quilômetros dos 241. De minha parte, serenidade e gratidão por ter encontrado um pouco de tudo o que eu procurava: silêncio, solidão, reflexão, compaixão. Muitas pessoas gentis pelo trajeto: as que caminharam comigo, dividindo tudo, de lanches e frutas a remédios, de protetor de joelho à papete, compartilhando fraternidade; pessoas que encontramos pela estrada e ofereceram ajuda, informação e sorrisos. Sem contar os anfitriões que entregaram comida boa e conversa farta. No caminho, muitas vezes fomos elogiados, aplaudidos e homenageados. Na chegada fomos recepcionados por muitos familiares e pelo idealizador do Caminho do Sol, que nos deu um certificado, o Ara Solis, e nos lembrou a razão de estarmos ali. Gratidão especial ao meu companheiro de vida, Lincoln Barbosa, que me apoiou na iniciativa, me emprestou vários itens de caminhada, preparou a mala comigo e torceu por mim, o tempo todo. Não sei do futuro, se farei outra peregrinação ou realizações de outra ordem, mas sei que hoje estou em paz. Não tive nenhuma visão ou recebi qualquer mensagem clara e objetiva, mas conversei muito com a minha mãe, com meu pai, pedi força e me reconectei. Tenho vontade de fazer outros caminhos, mas antes disso precisei contar esta história para incentivar outras pessoas a buscar seus caminhos, se afastando um pouco da realidade que não lhes completa para que possam retomar seu rumo. Quem sabe, quando eu sentir que estou me distanciando da minha crença na vida ou precisar expulsar meus demônios, cairei novamente na estrada.

SILVIA PREVIDELI sempre gostou de escrever, mas recentemente resolveu resgatar seus relatos em primeira pessoa.

17/11/2017 - 11:13

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