O que meu lixo me ensinou

Ao começar a separar restos de comida e embalagens você percebe que é possível fazer diferença no mundo por meio de atitudes simples

Nadia Macedo

Nadia aprendeu a importância do seu lixo | <i>Crédito: Divulgação
Nadia aprendeu a importância do seu lixo | Crédito: Divulgação

Nasci em Marília, cidade do interior de São Paulo, conhecida como capital do alimento ou terra da bolacha. Na infância, enquanto meus pais trabalhavam, passava boa parte do tempo na casa dos meus avós paternos, que fica em uma chácara. Lá eu subia nas árvores, nomeava os pés de jabuticaba, andava descalça, respirava ar puro. Lembro da intimidade que meu avô tinha com a terra; tudo o que ele cuidava floria, ficava vistoso. A horta era extensa e verde, os pés de jabuticaba ficavam floridos e depois carregados de frutinhas encorpadas e doces. Já a minha avó sempre teve apreço por flores, até hoje se encanta com a diversidade de espécies e um jardim colorido.
Por conta da chácara e da maneira de pensar dos meus pais, fui criada com a cultura de separar alimentos orgânicos de resíduos recicláveis. O que sobrava de comida meu pai levava, e ainda leva, até a chácara para alimentar os cachorros e as galinhas. Já o material reciclável, minha mãe encaminhava até alguma instituição que fazia a coleta para reciclagem, ou entregava para coletores autônomos. 
Não havia desperdício. Cresci nesse ambiente no qual o destino para o nosso lixo era pensado e separado. Meus pais não optavam pelo mais fácil, mas pelo que achavam certo. Quando minha mãe me pegava jogando um potinho de iogurte na lixeira de reciclável sem lavar, logo me chamava a atenção: “Precisa lavar, deixar limpo para quem vai reciclar”. Às vezes eu achava chato fazer isso. Dava um pouco mais de trabalho do que apenas colocar na lixeira, mas a atividade diária virou hábito. 

Para onde vai o lixo?
Fui crescendo e chegou o momento de morar fora da minha cidade natal. Fui fazer faculdade longe de casa. Na época, universitária, eu não pensava muito para onde iam os resíduos recicláveis que eu e meus amigos separávamos na nossa república, na verdade nem lembro se a separação fazia parte da rotina. Eu queria algo prático, tanto na hora de comprar alimentos quanto ao fazê-los. E acabava optando por itens como macarrão instantâneo, lasanha congelada, pão de forma, frios, e por aí vai. As opções eram quase todas industrializadas e cheias de material reciclável. Tudo bem, fez parte de uma fase, não me julgo por isso.
Quando terminei a faculdade e fui morar com minha irmã na capital paulista, nosso costume, aprendido em casa, de separar os lixos permanecia, mas eu seguia sem a preocupação de saber se havia coleta seletiva no prédio ou para onde iam os meus resíduos. Apenas levava no piloto automático. Os anos foram passando e eu seguia nesse mesmo automatismo, fazendo coisas como de costume: separar, sem notar. Quando lia reportagens e livros sobre educação financeira, vida saudável, cuidados com o meio ambiente, eu logo pensava que eram assuntos totalmente distintos, sem conexão, e que para colocar todos em prática seria muito difícil, afinal é muita coisa para pensar, para equilibrar.
De uns meses para cá, tenho me posto a refletir sobre vários aspectos da minha vida, entre eles o impacto que causo na natureza, o meu propósito, a mensagem que gostaria de deixar para o mundo. E, enfim, caiu a ficha e fiz a minha reciclagem pessoal. Vieram à tona os aprendizados que tive na infância e percebi as ações que estavam no automático.
O primeiro passo foi questionar para onde iam os resíduos recicláveis que eu separava e colocava ao lado da lixeira de orgânicos do prédio. Nunca havia visto ali algo que mencionasse a coleta seletiva, mas, como era hábito dos moradores separar os materiais em cada andar, eu acreditava que havia reciclagem. Até que, um dia, resolvi perguntar para o porteiro qual o dia em que o caminhão de coleta seletiva passava. O funcionário, meio envergonhado, disse que não havia coleta. Disse também que a administração do prédio, por conta de poucos funcionários e a passagem esporádica do caminhão, não achava viável fazer a separação. Eu engoli a seco a informação. Em um primeiro momento fiquei com raiva da atitude da administração que deixa a entender que faz a coleta seletiva, quando, na verdade, todo o lixo se junta em um só. Em um segundo momento, percebi que não podia terceirizar a responsabilidade sobre a destinação do meu lixo. Se o desejo era mudar a cultura do prédio e do bairro eu precisava, primeiro, começar em casa.
Comecei a separar. Deixei uma caixa no bagageiro do carro para colocar os materiais recicláveis e levá-los até o posto de coleta (ecoponto) mais próximo. Lembrei que minha mãe havia adquirido uma composteira. Resolvi também comprar uma. Conversei com meu marido sobre minhas ideias e disse que contava com a parceria dele. Ele não só concordou em ajudar como também se mostrou interessado no assunto. Perfeito, estávamos juntos nessa.
Um sábado de manhã, pesquisei o site que fabricava a composteira e vi que era de uma ong localizada em São Paulo, chamada Morada da Floresta. Como estava aberta, fui até lá conhecer. Era um lugar cheio de flores, composteiras e muita paz.
No início causa estranheza pensar em ter dentro de casa uma caixa com terra e minhocas que vão se nutrir de restos de alimentos. Mas, se mudar a ótica para visualizar que, além de diminuir a quantidade de lixo para os aterros sanitários, você ainda terá adubo para suas plantas, faz sentido. Como o meu apartamento é pequeno, sem espaço na cozinha, coloquei a composteira em minha vaga na garagem do prédio. Esse novo hábito foi entrando na rotina aos poucos e, sem me dar conta, já estava incorporado. 
Como ainda estou me acostumando com os alimentos que podem ir para a composteira, deixei pendurado na geladeira o manual de instruções. Pode colocar à vontade: frutas, legumes, grãos, sementes, sachê de chá sem etiqueta, borra e filtro de café e cascas de ovos. Por outro lado, não se deve colocar: carnes, limão, temperos fortes, óleos e gorduras, fezes de animais domésticos e papéis. Para não juntar mosquitos e impedir o mau cheiro, é preciso cobrir os resíduos orgânicos com serragem, folhas, palha ou grama. Atualmente, tenho separado os resíduos em três partes: orgânicos, que vão para a composteira; recicláveis secos, que vão para o ecoponto; e os rejeitos, que não podem ser aproveitados, como papel higiênico.
A compostagem em si me trouxe uma reflexão mais completa sobre como educação financeira, vida saudável e cuidados com o meio ambiente são assuntos que se conectam. Partindo desse pressuposto, é possível unir os três em um único ciclo, e, assim, fica mais fácil equilibrá-los. Deixa eu explicar melhor. A união dos assuntos vira um efeito cíclico positivo em que o ponto de partida é a preocupação com o ambiente e com o próximo. Começando por separar nossos lixos e ao optarmos por manter uma composteira para diminuir a quantidade de resíduos, notamos que para alimentar as minhocas que vão produzir adubo precisamos preferir alimentos orgânicos a industrializados. Descascaremos mais e desembalaremos menos, o que nos trará mais saúde e economia, tendo em vista que frutas e verduras são mais baratas do que os alimentos prontos. Assim, o ciclo se fecha e retorna para o ponto de partida que era o cuidado com o meio ambiente. E eu, desse jeito, percebi que o pouco que faço pode fazer uma grande diferença ao redor. Percebo que inspiro as pessoas também. Tem gente que, ao saber das minhas atitudes, começa também a pensar sobre seus hábitos diários. Outras partem para a prática. Mas o mais bacana é que percebi que é possível fazer uma grande diferença neste mundo com atitudes simples, mas potentes.

25/06/2018 - 13:09

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Revista Vida Simples